Quarta-feira, 19 de Junho de 2013
por José Meireles Graça

Suponhamos que odeio burocratas, burocracias, regulamentos e palermices sortidas; que vivo em Lisboa ou Porto (não vivo, felizmente), que me saiu o Euromilhões (não saiu, uma grande injustiça - tem saído a cada camelo que só visto), que a visão de um velho a dormir num vão de escada numa noite fria de inverno me incomoda, e que num momento de generosa loucura resolvia fazer um lar para idosos.

 

A consequência seria que me candidatava a autos e processos por "falta de certificado de vistoria higio-sanitária, de licença de utilização das instalações, de regulamento interno, de director técnico, de um plano de actividades e ausência do livro de registo de admissão."

 

Regulamento interno?! Director técnico?! Plano de actividades?! Alvará?!

 

O Estado já inovou criando um imposto de 20% sobre os prémios do Euromilhões, E as multas, então, as multas? Não seja por isso: de acordo com o diploma hoje aprovado haverá subidas na ordem dos 301%, no caso do valor máximo, que passará para 40 mil euros (face aos 9.975,97 euros actuais). No caso do valor mínimo, a subida é de 702%, passando para 20 mil euros (face aos 2.493,99 euros actuais).

 

Nada, nada, é muito melhor ter os velhinhos a dormir na rua. Mas os que, por sorte ou cunha, tiverem lugar nas instituições do Estado, podem estar descansados que têm director técnico, regulamento interno e um Plano, que a Lei não esclarece se quinquenal. E, se não tiverem, também não há problemas, que o Estado não passa multas a si mesmo.


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3 comentários:
De Tiro ao Alvo a 20 de Junho de 2013 às 17:44
Caro Meireles Graça, note que, se não erro, o Estado não tem lares para a terceira idade, salvo os da Misericórdia de Lisboa. O Estado apoia, isso sim, muitos lares de instituições de solidariedade, onde quer, desde há muito, impor essas e outras regras, próprias "de gente rica", mostrando-se os diversos serviços públicos muito exigentes para com os lares de idosos propriedade exclusiva de privados, com o argumento de que esses empreendedores “só” procuram o lucro, não reparando, esta gente, que, com essas regras, condenam muitos idosos a viverem em condições miseráveis, ora em casebres, ora em pardieiros, quando não rua, como disse.
E como sabe, este é um problema que, em Portugal e infelizmente, tende a agravar-se.


De José Meireles Graça a 21 de Junho de 2013 às 00:41
Não tenho conhecimento directo de lares de 3ª idade, Tiro, mas tenho, e bastante profundo, de instituições para crianças deficientes mentais. A intervenção regulamentar do Estado é um extenso catálogo de palermices, com técnicos de pacotilha e gestores de aviário. O resultado, por ex., é gente sentada diante de computadores a encher papelada obrigatória e inútil, enquanto, agora que o dinheiro é curto, os meninos não são tratados, por vezes, como deviam. Um plano de actividades obrigatório, sob ameaça de multa, não é coisa de gente rica ou pobre, é coisa de gente parva.


De jo a 21 de Junho de 2013 às 00:07
Realmente não se precebe que com as dificuldades que há se ande a perseguir os depósitos de velhos.

São atividades lucrativas e quem tem dinhero não vai para depósitos, os outros, quem os manda serem velhos, lutem por melhores condições, não fiquem à mama da fiscalização do Estado que o Estado não é pai nenhum.


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