Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011
por João Gomes de Almeida

julgamentos de Nuremberga, 1 de Outubro de 1946

 

No Público de ontem, conta-se um episódio interessante sobre uns jornalistas finlandeses que vieram a Portugal, nos últimos dias, para perceberem como é que nós, europeus do sul, torrámos o dinheiro que eles nos emprestaram. No desenrolar da conversa com os colegas do Público, um jornalista mais atrevido perguntou: «no vosso jornal, qual é o salário médio da redacção?» - Quando os jornalistas portugueses lhe responderam, um misto de pânico e admiração invadiu a cara dos finlandeses. Afinal, não nos endividámos apenas porque não gostamos de trabalhar e porque adoramos viver em festa – afinal, não somos despesistas descontrolados a torrar milhões, apenas porque nos apetece.

 

Nesta conversa, talvez tenham ficado outras coisas por dizer: que somos o país da Europa com mais telemóveis e que nos endividámos durante anos para comprar os seus Nokias (quando ainda eram bons), que andámos anos a fio a torrar o nosso dinheiro em carros alemães, que deixámos a nossa agricultura morrer para importar os produtos que os países mais fortes produziam, perdendo, obviamente, a competitividade dos nossos, que fomos durante muito tempo o porto de abrigo de várias indústrias europeias que aproveitaram a nossa mão-de-obra mais barata e que depois se deslocalizaram, que ao aderirmos à CEE abrimos o nosso mercado de consumo aos produtos europeus, sem nunca termos tido hipótese de posicionar o nossos produtos nos outros países e que vimos a inflação disparar no dia em que acabámos com o nosso escudo (que como o nome indica nos servia para proteger) e aderimos a uma coisa chamada moeda única.

 

Deixo apenas uma pergunta, de um cidadão que não é economista: quem é que está a ganhar com esta história dos empréstimos a juros usurários?

 

Esta é a história que aqueles “parceiros” europeus, que nos atacam diariamente, não querem ouvir. Mas talvez pudéssemos ir mais longe e questionar quantas vezes, só no último século, os alemães destruíram a nossa Europa, ora com guerras armadas, ora com lógicas financeiras – sempre numa mentalidade expansionista, quase a arranhar o imperialismo bacoco. Por este motivo, sempre que oiço alguém falar de “tribunal” para os países devedores, ou de bandeiras a meia haste para os europeus de segunda categoria, ou ainda da perda de soberania de Portugal, só me apetece rir, parar e dizer: Zur Hölle fahren!


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7 comentários:
De inês tavares a 24 de Outubro de 2011 às 10:45
Apoiado!


De Ricardo Vicente a 24 de Outubro de 2011 às 10:49
Portugal e a Grécia e todos os países da União Europeia são democracias. Portugal e a Grécia não têm a desculpa de serem "democracias recentes": há democracias muito mais recentes que estas duas e que se organizam muito melhor do que nós e os gregos.

O maior quinhão de responsabilidade é dos próprios portugueses e gregos: responsabilidade dos eleitorados e responsabilidade dos políticos.

A parte MENOR de responsabilidade é sim (estou de acordo) com um número de perversidades da integração europeia que forçam os países primeiro a produzir menos e, depois, a importar mais. Já agora, a loucura da rede de alta velocidade europeia é precisamente isso: querem que todos os países se endividem e gastem dinheiro num projecto absurdo (a empresas privadas Ryanair e outras tornam o projecto ainda mais absurdo) para que esse dinheiro vá parar à indústria alemã, francesa e italiana.


De João André a 24 de Outubro de 2011 às 12:06
Em relação aos gastos, uma nota. Fiz um cálculozinho sobre o que custaria comprar um Golf 1.2 a gasolina em Portugal, na Alemanha e na Holanda. Resultados:
Alemanha: 19.325 €
Holanda: 20.690 €
Portugal: 21.643 €
Ou seja, pagamos mais 10% e 5% que na Alemanha e Holanda, respectivamente, para um carro que nada tem de especial (nem sequer adicionei equipamento aos configuradores de cada país). Portanto, não admira que tenhamos de ir ao crédito para ter um carro, coisa indispensável num país onde se destruiu a rede de transportes públicos.

Segundo ponto para a fantasia da inflação: ler o meu post aqui (http://estacaocentral.blogspot.com/2011/10/as-historias-que-nos-contam.html peço desculpa pela publicidade, mas é mais rápido que o copiar) e consultar os links, especialmente este: http://pt.global-rates.com/estatisticas-economicas/inflacao/indice-de-precos-ao-consumidor/ihpc/portugal.aspx.

Já quanto ao resto, da questão dos juros usurários, concordo a 100%.


De Barata a 24 de Outubro de 2011 às 12:33
Tenho de discordar de uma coisa. Quando se diz "ao aderirmos à CEE abrimos o nosso mercado de consumo aos produtos europeus, sem nunca termos tido hipótese de posicionar o nossos produtos nos outros países" combinado com "que deixámos a nossa agricultura morrer para importar os produtos que os países mais fortes produziam" temos um termo de comparaçao que nos obriga a questionar outras coisas.

Esse termo de comparaçao chama-se Espanha e aderiu ao mesmo tempo, teve direito aos mesmos subsídios e fundos de desenvolvimento que nós e passou de um país economicamente atrasado para um potência económica, sem problemas de colocaçao de produtos, nomeadamente agrícolas. Falo com o conhecimento de quem já viveu em três países, que nao Portugal, e nunca teve problemas em se cruzar com verdura e outros produtos espanhóis.

Quanto aos juros é a pergunta a que muitos outros cidadaos economistas respondem e soa bastante a pergunta retórica.


De Ricardo Vicente a 24 de Outubro de 2011 às 14:01
Os espanhois tem sido muito melhores negociadores da sua relação com a União Europeia do que Portugal. Mérito deles, problema nosso. O povo espanhol não tem uma décima parte da subserviência portuguesa perante as inglaterras e as franças. Mais uma vez, mérito deles e fraqueza nossa.


De Vicente de Lisboa a 24 de Outubro de 2011 às 16:23
A nossa agricultura não morreu - bem pelo contrário, produz hoje mais e melhor, de forma mais competitiva. Deixou foi de ser tão importante em % para o PIB, o que é positivo. E a inflação desde a introdução do Euro é da mais baixa da nossa História. Google "Pordata inflação" se não acredita.


De eirinhas a 24 de Outubro de 2011 às 17:13
Se bem percebi,os senhores admiraram-se com os vencimentos dos jornalistas portugueses.
Se passassem pelas televisões,incluindo a pública,se calha,ainda iam mais admirados.


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