Quinta-feira, 27 de Junho de 2013
por Luís Naves

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Em tempos de crise, as pessoas gostam de rituais, tais como greves gerais e procissões para fazer chover. Eles ajudam a tranquilizar as consciências, embora por si não tragam qualquer mudança na crueldade da penúria.
Sendo para mim impossível fazer greve, tenho dificuldade em compreender as afirmações piedosas daqueles para quem o protesto se destina a defender o emprego.
Também não compreendo as indignações com o escrutínio dos sindicatos. Esta é uma polémica lateral, mas reveladora: uma recente pergunta de deputados social-democratas sobre o eventual financiamento público dos sindicatos de professores gerou uma tempestade de críticas. Habituámo-nos a ter agentes políticos que ninguém questiona. Não apenas sindicatos, mas associações patronais, de facto todos os parceiros sociais. Quem são, quem representam, quem os paga? Perguntas proibidas. Qual a legitimidade destas organizações ou a sua transparência interna? E qual a razão de serem tão escutadas? Perguntas impossíveis, num País onde muitos comentadores afirmam, sem contraditório, que o próprio Governo eleito perdeu a legitimidade.

 

Rituais políticos como a greve geral são semelhantes aos gestos elaborados e às palavras repetidas das cerimónias religiosas. Só falta o incenso nos discursos de música celestial.
Não podendo um milhão de trabalhadores portugueses desempregados acompanhar esta greve, surgem umas vagas propostas para estimular o consumo e fazer reviver a economia. Estes crentes evitam admitir que o problema está na nossa falta de competitividade e julgam que o milagre do emprego brotará dos céus. E não nos dizem que o eventual aumento do consumo destruirá um dos raros indicadores macroeconómicos positivos que Portugal conseguiu, a balança de transacções equilibrada. Não será possível pagar a dívida sem que este indicador esteja positivo e, se não for possível pagar a dívida, Portugal enfrentará um segundo resgate que vai apenas prolongar a crise.
A oposição desdobra-se em promessas pré-eleitorais e culpa o ajustamento por todos os males. Tem uma crença inabalável no poder da fé pura, segundo a qual o mundo ficará direito no dia em que “acabarem estas políticas”. Para a esquerda, nunca existiu o pecado da bancarrota nem a expiação do resgate.

 

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No fundo, os políticos sabem que o caminho é demasiado estreito e que as aventuras têm um custo proibitivo: a saída do euro.
Mas a missa não pára e a cegueira não é nosso exclusivo. A Europa dos grandes países está hoje dominada por Governos de centro-direita, com duas excepções, a França e a Itália, onde a esquerda está no poder. Os italianos estão a aprovar medidas impopulares e os socialistas franceses, em plena recessão, não conseguem aplicar uma agenda reformista urgente que contradiz promessas eleitorais (essas, inaplicáveis).
As contradições socialistas tornaram-se evidentes nas recentes críticas de um ministro francês e do presidente da assembleia nacional ao presidente da Comissão Europeia. Acusado de ser liberal, Durão Barroso foi responsabilizado pelo avanço da Frente Nacional de extrema-direita numa eleição intercalar em França. Nas eleições europeias de Maio de 2014, a extrema-direita francesa e os populistas italianos terão provavelmente grandes avanços e a FN pode mesmo vencer a votação ou ficar lá perto.
Culpar Barroso pelo crescimento da extrema-direita francesa é obviamente um absurdo, mas estas ideias foram muito aplaudidas entre nós.
A Comissão Europeia é acusada pela Alemanha de fazer reformas demasiado tímidas e, ao mesmo tempo, acusada pela França de promover reformas demasiado liberais. Ou seja, o problema não está na comissão ou em Durão Barroso, mas no conflito cada vez mais evidente entre França e Alemanha. Ao mesmo tempo, ganha nitidez o confronto entre países pequenos e países grandes, entre sul e norte, entre resgatados e credores, entre reformistas e não reformistas. E, ao mesmo tempo que recusam fazer um mea culpa, os partidos da esquerda deslocam-se lentamente para a direita, com a inevitabilidade de grandes placas tectónicas.

 

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Os partidos em Portugal deviam debater estes problemas, mas perdem-se em rituais cujo significado se dilui no tempo. Começa a ser difícil fazer certas perguntas e, quando elas surgem, as respostas das elites tornam-se rudes e repletas de certezas. Apesar de tudo, o País não tem muitas opções: ou cumpre os termos do resgate ou afunda-se ainda mais no pântano que criou para si próprio, um lamaçal de corporações sem escrutínio, de organizações inimputáveis e de incompetência instalada.
A comunicação social perdeu o gosto das perguntas e usa agentes políticos como comentadores supostamente independentes, num preocupante fenómeno, sem paralelo na Europa, que transforma as nossas discussões em pequenas anedotas. O espaço público está em degradação evidente, cheio de omissões de factos relevantes, notícias contraditórias, de comentários que já estão na jogada seguinte e conclusões erradas sobre a realidade.
Quando a temperatura aumenta, estes agentes políticos estão sempre em condições de baixar o volume da contestação, como aconteceu esta semana, enquanto as taxas de juro implícitas da dívida portuguesa subiam bem acima dos 6%. Haverá sempre outro governo. Este tem o destino traçado, fazer a parte difícil, impopular e amarga, para depois ir embora em vergonha, substituído pelos salvadores da Pátria que por enquanto conspiram nos bastidores.
Os rituais servem para aliviar as consciências pesadas e manter viva a esperança. Têm a sua função, mas não têm poder sobre a natureza. A tempestade continua e depois passa. No fim, haverá pecadores culpados e um milhão de trabalhadores desempregados que ainda não poderão fazer greve.


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