Terça-feira, 25 de Outubro de 2011
por Ricardo Vicente

No site da TSF: "Conversa azeda entre Sarkozy e Cameron atrasa encerramento de cimeira europeia", "Sarkozy disse estar farto das críticas de David Cameron, que insiste em estar presente na cimeira europeia de quarta-feira na qual se espera um acordo sobre o futuro da Zona Euro" e "Sarkozy defende que apenas deve estar aberto [a cimeira desta semana] aos 17 países que utilizam a moeda única".

 

Muitas vezes é o país "mal comportado" que tem razão. Por exemplo, o Reino Unido. Este país anda há décadas a criticar com toda a justiça a Política Agrícola Comum. Tem estado isolado nessas críticas, embora a reforma e, melhor ainda, a abolição da PAC beneficiasse vários países (dentro e fora da União) incluindo Portugal. Agora, exige estar presente numa cimeira dos dezassete Estados da zona euro apesar de não fazer parte dessa zona por vontade própria.

 

A verdade é que o Reino Unido e os outros países da União Europeia têm todo o interesse e legitimidade em participar dos assuntos do euro. Em primeiro lugar porque a moeda comum é inerente ao projecto maior e muito abrangente que é a própria União, sendo hoje impossível pensar no mercado comum sem considerar a importância do euro mesmo no caso dos países que mantêm moeda própria. Em segundo lugar porque os doze países dos dois últimos alargamentos da UE ficaram obrigados a integrar a zona euro precisamente aquando da sua entrada na União. Só a prepotência de países como a França e a Alemanha, tão bem ilustrada pelas "palavras azedas" de Sarkozy, pode justificar que uma economia de dimensão média como a Polónia fique de fora daquela cimeira, por sinal a única economia europeia a manter crescimento económico positivo ao longo de toda a crise.

 

A Polónia é outro exemplo de um bom "mal comportado" europeu. É um país que tem sido fustigado pela imprensa da "boa Europa" por ser conservador, católico e orgulhoso. Na velha "Europa Ocidental" só os grandes têm direito ao orgulho. A verdade é que a Polónia é dos países que mais tem feito, por exemplo, pela integração internacional de uma série de Estados europeus. Foi por exemplo a Polónia que se opôs à Alemanha e, em conjunto com os EUA, apoiou a entrada dos países bálticos na NATO. É também a Polónia que tem liderado a cooperação europeia com a Ucrânia, Bielorrússia, Moldávia e os três Estados do Cáucaso.

 

Se não fosse a actual fragilidade económica e política, Portugal poderia ser também um dos bons "mal comportados" da Europa. Deixo esta sugestão a Pedro Passos Coelho: que denuncie nos vários fóruns europeus a loucura do projecto da rede de alta velocidade europeia, um projecto tão mais absurdo quanto se pense nos serviços prestados por empresas privadas não subsidiadas e lucrativas como uma Ryanair. Sugiro que exponha que o único resultado garantido de tal projecto será um maior endividamento de boa parte das economias europeias, menos crescimento económico e uma subsidiação perdulária e injusta à indústria dos países europeus mais ricos.


tiro de Ricardo Vicente
tiro único | comentar | gosto pois!

6 comentários:
De Barata a 25 de Outubro de 2011 às 14:50
Caro Ricardo, no absurdo da rede europeia de alta velocidade e dos benefícios "ryanéricos" (que alguns conhecidos meus e frequentadores baptizaram carinhosamente "Ciganair") recomendo uma leitura do White Paper on Transport, da estratégia Europa 2020. Penso estar disponível no site da comissao e poupa a muita gente interpretaçoes locais sobre o que "lá longe" pensam e fazem...

Quanto à questao do Reino Unido e a PAC, o Reino Unido devia estar, e bem, caladinho. Na verdade, em 2010 o Reino Unido viu-lhe serem perdoados 3 000 milhoes devido ao Rebate, um anacronismo com que seria interessante Cameron e seus peers acabarem. Nao se pense que esse dinheiro ficou no entanto em falta, sobrando a fatia para "os outros".


De Ricardo Vicente a 25 de Outubro de 2011 às 21:14
O que é que pretende citar do tal white paper?

Quanto ao Reino Unido, acho muita graça essa atitude portuguesa de dizer aos outros para baixar a bolinha quando os outros, ao contrário de nós portugueses, não amocham e não tomam atitudes subservientes. Acho mesmo muita graça.


De Grande Chefe Barata Gorda a 26 de Outubro de 2011 às 14:26
Por partes sobre atitudes portuguesas.

Começando pelo fim: o Reino Unido viu serem-lhe perdoados 3000 milhoes de euros de doaçoes para o orçamento da uniao, calculados com dados de 2006 e baseados em pressupostos de 1984, altura em que a PAC representava mais de 60% dos subsídios recebidos pelos países.

Hoje a PAC representa cerca de 47% da despesa, ou seja, apesar de ser ainda a maior fatia indivual do bolo, nao representa o bolo todo. Há também todo um mercado onde o Reino Unido escolheu nao participar, que lhe permitiria escoar produtos. Finalmente, há outros países que dispoem de uma agricultura pujante, podemos arriscar mesmo falar de superior à britânica em 1984, que sao forçados a contribuir e com largas fatias para o bolo do Rebate. Aqui nao entra Portugal. Entram Espanha ou França, por exemplo. Ou pela dimensao da agricultura nas referidas economias, Holanda e Dinamarca. Ou seja qualquer destes paises, que mobilizaram fundos da PAC para modernizar as suas agriculturas, encontram-se hoje em dia em melhor posiçao de pedirem eles um Rebate do que o Reino Unido. E ao contrário do Reino Unido, estes países ainda decidiram aderir ao mercado comum...

Ou seja, o British Rebate nao passa de um chico-espertice dos tempos modernos, com que obviamente nenhum britânico quer acabar. Que na Europa a 27 todos achem isto normal é que é anormal.

Quanto ao White Paper, este documento orienta as metas para o desenvolvimento nas áreas do transporte ao abrigo da estratégia 2020. Como deixa implícito o Rui no seu comentário de hoje, a ver se lá chegamos, mas enquanto vivemos na decidida indecisao, vejamos o que diz, relativamente ao transporte de passageiros a alta velocidade.

O que diz é que este transporte apresenta largos benefícios e deveria ser a grande força do transporte de passageiros a média distância. Coisas como viagens de aviao de 1 hora, sao ilusórias. Uma viagem de aviao de meia hora dura efectivamente hora e meia e por aí em diante, com gastos pessoais, de tempo e mesmo energéticos e ambientais que fazem do transporte ferroviário um parceiro mais eficiente. Equivale a dizer que coisas como Lisboa-Madrid, Barcelona-Marselha, Amsterdao-Bruxelas, e outras que tais, devido à sua proximidade sao do ponto de vista ambiental e económico mais viáveis quando realizadas através da rede de alta-velocidade e devem consistir no investimento da rede europeia nos próximos tempos.

Para pormenores recomendo a leitura do documento. Sao 20 páginas com tabelas e gráficos e falam de transporte maritimo, aéreo e terrestre. O documento é público, basta procurar no site da comissao.


De Ricardo Vicente a 26 de Outubro de 2011 às 15:46
1. A PAC é, de alto a baixo, uma aberração que prejudica uma série de países dentro e fora da União Europeia para benefício, ou melhor, privilégio de uns poucos. O rebate de que beneficia o Reino Unido é uma maneira justa desse país se defender de tal aberração.

2. As 35 páginas do white paper (versão portuguesa) são pouco mais do que pura propaganda política misturada com pseudo-economia e com marketing.

3. A defesa que faz do tgv por comparação com o transporte aéreo está errada. "Equivale a dizer que coisas como Lisboa-Madrid, Barcelona-Marselha, Amsterdao-Bruxelas, e outras que tais, devido à sua proximidade sao do ponto de vista ambiental e económico mais viáveis quando realizadas através da rede de alta-velocidade e devem consistir no investimento da rede europeia nos próximos tempos." Isto é um absurdo absoluto, non-sense total contra o qual já ando a "lutar" há vários anos. Sabe quanto é que custa um bilhete de IDA E VOLTA Lisboa - Barcelona na Vueling? Sabe quanto é a proposta de bilhete só de ida Lisboa - Madrid de t g v? Meu caro, nem na terceira maior economia europeia os t g vs conseguem ser economicamente viáveis, quanto mais em Portugal ou, imagine!, na ligação Tallinn - Vilnius.


De Barata a 27 de Outubro de 2011 às 09:42
O Rebate é, como acima referi, uma chico-espertice própria de quem vive isolado numa ilha, e nos tempos que correm um anacronismo hediondo. A sua perpetuaçao contém em si duas coisas: a primeira é que fomenta assimetrias e o chamado viver à conta; a segunda que tudo vai bem com a PAC. Convém frisar que o facto de estar contra o Rebate nao me torna um adepto fervoroso do imobilismo, portanto nao misturemos as coisas.

Quanto ao EP, nao me vou alongar pois nao ha muito a dizer. Discordo a toda a linha do que diz. Como orientaçao trans-nacional e tratando a Europa como um espaço e nao 27 espaços diferentes é um documento orientador fundamental. Deixo-o tranquilo que mesmo nas Instituiçoes há quem partilhe o seu pensamento.


De Ricardo Vicente a 27 de Outubro de 2011 às 10:17
Meu caro, a França é que viveria à conta do Reino Unido se não fosse o rebate! O Barata está a trocar a vítima pelo agressor! E não se trata de chico-espertice mas de saber negociar, que é o que Portugal e outros países não têm sabido fazer junto das instituições comunitárias tanto durante os processos de adesão à União como no pós-adesão.

O Barata tem todo o direito de dicordar de mim em toda a linha. Só lhe peço uma coisa: não se queixe depois quando lhe forem ao bolso para pagar os prejuízos do ou dos tgvs (no plural) portugueses, prejuízos esses que serão equivalentes ou mesmo superiores aos gastos que o Estado tem com as actuais PPPs e rendas que paga à construção civil.

Supondo que o Barata é coerente, acredito que também não se queixe dos gastos do Estado português com auto-estradas deficitárias, Ascendi, o aeroporto de Beja e outros projectos que tais muito importantes para que Portugal não fique isolado do resto da Europa...


comentar tiro

Regimento
outras cavalarias
tiros recentes
tiros mais comentados
cofre
tags
Arregimentados
Subscrever feeds