Quarta-feira, 3 de Julho de 2013
por Luís Naves

I

O sismo foi inesperado e seguiu-se um tsunami, com duas consequências imediatas: eleições legislativas, provavelmente no início de Setembro, seguidas de um segundo resgate quase inevitável.
Nas eleições, a abstenção será enorme, introduzindo grandes erros nas sondagens. O cenário mais provável, julgo, é o de vitória do PS com maioria relativa e derrota estrondosa do PSD, mas com os dois partidos condenados a entenderem-se. O parceiro menor da futura coligação (certamente o PSD) entra logo em guerra civil.
Enfim, isto parece apesar de tudo mais estável do que uma coligação entre socialistas e Paulo Portas, que ontem cometeu provavelmente o maior erro da sua carreira.

Portas tem o sonho de liderar o centro-direita e a demissão foi um golpe letal no maior adversário, o PSD, que está carregado de feridas internas não cicatrizadas. Passos Coelho é a partir de agora um líder de transição e o seu possível substituto, por exemplo Poiares Maduro, não teve ainda tempo para consolidar a posição e terá de reunir apoio dos outros barões, mas a facada do CDS torna isso mais fácil.
Um governo PS-PSD de dois anos implica impopularidade adicional para o bloco central (a radicalização adicional da política portuguesa) e o CDS conta ocupar parte desse espaço, tornando-se, a prazo, maior do que o PSD.
Entretanto, este último tem uma dificuldade imediata: o que fazer nas autárquicas? Continuar as alianças autárquicas com o CDS não faz sentido, romper essas coligações terá custos eleitorais importantes.

 

II

Presumimos muitas vezes que a política é racional e fria. Os últimos dias são bem a demonstração do erro desta ideia. Os problemas do centro-direita são coisa menor, em comparação ao mal que o fim prematuro deste governo representa para o País. Grécia e Portugal enfrentam na mesma semana situações políticas delicadas e por razões idênticas, a incapacidade de fazer a ‘reforma do Estado’, leia-se 'redução abrupta da despesa do Estado'.
O verdadeiro motivo da demissão de Paulo Portas é a sua discordância em relação a estes cortes, que implicam despedimentos na função pública e redução adicional na despesa, nomeadamente na área das pensões. Se o governo não caísse agora, cairia no próximo orçamento. Mas não haja ilusões: estas imposições da troika não são negociáveis, como demonstra o ultimato dado ontem à Grécia. A escolha é entre ‘reforma do Estado’ ou incumprimento e respectiva saída do euro. A Grécia caminha velozmente para a segunda hipótese, com o governo de Antonis Samaras à beira da ruptura e a pedir em desespero um novo ‘corte de cabelo’ na dívida.


A subida acima dos 8% nos juros da dívida a dez anos e a reacção turbulenta dos mercados mostraram que Portugal também está numa situação muito frágil. Em dois dias, foi destruído um precioso capital de credibilidade que custou muitos sacrifícios aos portugueses. O País será visto, pelo menos durante as próximas semanas, como um doente terminal próximo da Grécia. Na melhor das hipóteses, quando a poeira assentar, os socialistas terão aquilo que queriam, ou seja, o poder, com mais tempo e mais dinheiro, que se traduz por segundo resgate.
Nesse cenário, os cortes na despesa serão para cumprir e a troika continuará a exigir contas públicas saneadas, nomeadamente défice primário estrutural próximo do zero. A balança de transacções terá de permanecer positiva, o que exclui completamente as políticas de crescimento pelo consumo. Não imagino como é que os socialistas vão vender mais despedimentos e mais austeridade.
A prazo, esquerda e direita radicalizam posições, o bloco central tenta fazer o impossível e a Alemanha vai perdendo a paciência. Se tudo correr muito mal, como pode acontecer, estaremos fora da zona euro ainda antes das eleições seguintes.   


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2 comentários:
De Floriano Mongo a 3 de Julho de 2013 às 14:12
Tragicamente qualquer dos cenários é de horror.


De Luís Naves a 3 de Julho de 2013 às 19:27
Foi aprovado um comentário com um link e decidi retirar esse comentário. A minha crítica é estritamente política e não me revejo em textos, mesmo que sejam ficção ou sátira, onde se mistura a vida pessoal com as opções políticas dos protagonistas. Já cometi esse erro uma vez e não o quero repetir.


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