Quarta-feira, 10 de Julho de 2013
por José Meireles Graça

A difusa nuvem dos meus queridos amigos de Direita é gente que, no geral, quer o Estado longe da economia, acha que despesas públicas de 50% do PIB são uma carga excessiva que a nossa economia produtiva tem dependurada ao pescoço, que o Estado investidor é quase sempre um irresponsável a brincar aos empresários, que a burocracia pública, entregue a si própria, cresce indefinidamente, que a fiscalidade é predatória e opressiva, que a despesa pública não pode ser superior à receita, que sem superavits orçamentais a dívida pública não pode nominalmente baixar, que o dirigismo é um entrave a eliminar... e um longo etc. Neste longo etc. cabe a redução de quase tudo ao mercado, à eficiência, às diferenças de capacidade produtiva e aquisitiva dos indivíduos e um certo darwinismo social que, no limite, a mim me desperta a instintiva desconfiança de quem acredita quase nada no progresso das pessoas,  pouco no das instituições e bastante no científico e tecnológico.

 

Claro, o mix destas coisas e muitas outras varia consoante a doutrina exacta de que cada qual se reclama, quando se reclama de alguma, e mesmo assim há diferenças - no limite quase tantas quantas os indivíduos, felizmente.

 

Sou cliente deste aglomerado. E compro, a feitio, conservadorismos, liberalismos e libertarianismos sortidos, nos quais ocasionalmente, como quem deita um condimento exótico num prato conhecido, enxerto elementos de outras cozinhas, se achar que fica bem. Pragmático, é o que é, nem todos temos vocação de seguidores de textos sagrados e excessivo respeito pelos doutores das Igrejas.

 

É que são raras as grandes desgraças das nações e das sociedades que não sejam originadas num corpus doutrinário; e o que distingue os intelectuais dos cidadãos portadores de ignorância e senso é serem áulicos de teorias que explicam o mundo como julgam que ele é, afirmam como deveria ser, e enunciam os meios para lá chegar. Gente perigosa, portanto, ao mesmo tempo que indispensável.

 

Dou um exemplo: Este meu estimado blogger acha que, no país dele, se deveria aprender com a Austrália, que mitigou admiravelmente o problema de falta de rins e fígados para transplante, com o expediente de compensar monetariamente os dadores, que assim passaram à condição de vendedores. E na Austrália ainda é, parece, o Estado; Mark J. Perry não é de modas e recomenda a compra e venda directa, do produtor ao consumidor.

 

Prof. Mark, meu querido, pá: estás a abrir a porta a coisas do carago, que ofendem o que a tua Constituição protege, como o direito à dignidade humana, com a qual nascemos, que não nos pode ser retirada e da qual não podemos dispôr. E desculparás, mas um indivíduo que, por necessidade ou ambição, vende um rim, ou um bocado de fígado, ou outra víscera, é um escravo, ou da necessidade ou de uma avaliação deficiente do respeito que à sua condição deve.

 

Há mais coisas debaixo da roda do Sol do que o compra e vende; e quem isso não perceber instintivamente não está em condições de entender a explicação.


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5 comentários:
De AMCD a 11 de Julho de 2013 às 00:47
O problema é continuar a colocar o Estado de um lado e a economia do outro, como se o Estado não fizesse parte da economia. O dualismo entre Estado e a economia constitui um enviesamento na visão e discurso de muitos devotos dos mercados. Partem duma falácia.


De José Meireles Graça a 11 de Julho de 2013 às 14:10
Faz parte, claro, AMCD. É a parte inimputável, porque não vai à falência, não responde por erros cometidos e dedica-se arbitrariamente a retirar a uns sócios, que produzem, para entregar a outros, que o não fazem. Isto é, em certa medida, justificável e necessário, mas só indirectamente tem que ver com economia.


De l. rodrigues a 11 de Julho de 2013 às 15:16
"não responde por erros cometidos"

Ou muito me engano ou estamos todos a pagar por os estados estarem a responder não pelos seus erros mas pelos erros dos que querem menos estado nas suas actividades.


De José Meireles Graça a 11 de Julho de 2013 às 15:37
Está a falar de bancos, I. rodrigues, e com alguma razão. Mas não foram os bancos que quase duplicaram adívida pública entre 2008 e 2011, foi o governo Sócrates. E sem isso a recessão começaria mais cedo, mas não seria nem tão duradoura nem tão profunda.


De AMCD a 11 de Julho de 2013 às 18:38
Neste momento o Estado está a ser parasitado por aqueles que o querem destruir, exactamente por aqueles que, por motivos ideológicos, preconceito e enviesamento, lhe querem reduzir as nobres funções, o Estado social, gente que está longe de ser social-democrata, na verdadeira acepção da palavra. Utilizam o Estado para transferir riqueza da base da sociedade para o topo, acentuando as desigualdades sociais e a pobreza. Estes parasitas têm de ser arredados da governação do Estado, pois muito se ocupam a destruí-lo e a desacreditá-lo. Acabam por desacreditar a própria democracia. Enfim, não há melhor forma de destruir um sistema resiliente do que destruí-lo por dentro (é a lição do cavalo de Tróia ou do HIV). É o que estão a fazer ao Estado. Chamam-lhe “reforma”, quando reforma não é.

Sabemos muito bem que muita da dívida tornada pública não o era. Nacionalizou-se a dívida de bancos (estes sim, importantes demais para irem à falência, segundo nos impingiram, muitos deles geridos por inimputáveis) e privatizam-se os serviços mais lucrativos do Estado.

E o “pote” ainda tem muita coisa apetecível dentro…


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