Quinta-feira, 11 de Julho de 2013
por Luís Naves


Também no Forte as opinião se dividem. Maurício Barra, mais abaixo, defende a decisão do Presidente Cavaco Silva e o seu apelo a um entendimento entre os três partidos. Eu estou com o Pedro Correia, que vislumbra aqui a velha costela sidonista.
Julgo que estamos perante uma crise de regime, onde ficam à mostra as limitações do semi-presidencialismo. A decisão do Presidente Cavaco Silva é a menos democrática entre as possíveis e a mais confusa. Introduz incerteza e reduz a credibilidade do País. Os nossos parceiros e credores devem estar preocupados.
Para se chegar aqui foi preciso criar um clima anti-partidos. Estes puseram-se a jeito, não haja dúvida, mas nos últimos meses tenho lido incontáveis textos sobre a fraqueza da classe política: os dirigentes partidários são todos jotinhas sem habilitações e “sem mundo”; os partidos têm de mudar, recrutando gente melhor; estes não prestam, é preciso que venham outros, muito mais capazes.
O populismo começa com este tipo de abordagem, até chegarmos à menorização do próprio parlamento. No fim da linha, surgem os palhaços grilos-falantes, muito mais fáceis de manipular pelos diversos interesses que se movem na sociedade.

 

Mas voltemos à decisão. O discurso do Presidente foi ocupado, em grande parte, pela explicação sobre a sua rejeição de eleições antecipadas. Os argumentos pareceram sólidos, mas é inadmissível que Cavaco Silva não tenha dito uma palavra sobre a proposta que o Governo lhe apresentou, a qual, até prova em contrário, parecia apontar para uma solução de estabilidade.
Paulo Portas cometeu o erro da sua vida política, ao demitir-se de forma precipitada. Pode ter afundado o centro-direita e condenado Portugal a anos de governos socialistas incapazes de concluir as reformas. E os portugueses ficaram sem compreender por que razão a proposta do governo não era adequada.
Tudo isto parece insólito, apontando para um Monti português, em nome da salvação da Pátria. Será a menorização da geração de políticos no poder, incluindo o líder do PS, o primeiro a mostrar que não está muito entusiasmado em subir ao cadafalso. Os outros, provavelmente, também não acharam graça.
Um acordo de médio prazo a três? Então, se a dois já é difícil, como é que a três se vai concluir a reforma do Estado? E prosseguir as reformas e o próprio programa de ajustamento, tendo em conta as profundas divergências entre PSD e PS sobre o tema? A suspensão da democracia durante um ano? Percebo que não haja eleições em Outubro, mas qual era o problema de eleições gerais em Janeiro de 2014, quando não estão programadas decisões controversas? Legislativas com data marcada? Mas isso não é mais rígido, num contexto de alta instabilidade? E se a situação externa do País piorar até lá, como é que se faz? E se os partidos rejeitarem a mediação? Os partidos (cruciais para a democracia) não se entendem? E qual é o mal, desde que haja maioria estável?

 

Enfim, o Presidente ligou o complicómetro. As dúvidas levantadas pela decisão são quase tão complexas como a trapalhada criada por Paulo Portas. E, em tudo isto, não se percebe onde está a insuficiência do acordo entre os dois partidos da coligação. Era mais prudente avançar até Outubro com a nova formulação do Governo, realizar autárquicas e depois ver. Mas foi criado o clima de que a salvação da Pátria está no aparecimento miraculoso de uma fulgurante personalidade que vai unir a nossa casa dividida e criar a paz onde existe divergência. Do conclave dos partidos sairá esse Francisco que ninguém antecipa.

Um País sem conserto continua a tentar alegremente morrer na praia.
O soneto já não tinha graça nenhuma, mas a emenda, senhores, tirem-me deste filme…


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6 comentários:
De João Lisboa a 11 de Julho de 2013 às 11:02
Só dúvidas... http://lishbuna.blogspot.pt/2013/07/blog-post_11.html


De carlos rocha a 11 de Julho de 2013 às 13:27
Eu digo que é o fim do regime socializante, cujos um dos principais alicerces é a Constituição. Mas o problema não é de agora. É desde a adesão à Comunidade Europeia.


De Maurício Barra a 11 de Julho de 2013 às 13:47
Caro Luís Naves
Suponho que reparou que eu em nenhum ponto do meu texto tenha defendido uma visão anti partidária. E muito menos a defesa de um governo de salvação nacional.
A questão nem sequer está sobre a mesa, nem o Presidente a sugeriu.
Propõe uma coisa muito simples: independente dos programas políticos, os partidos acordem sobre um conjunto de objectivos para a política económica portuguesa ( por exemplo, limite máximo de défice orçamental anual, objectivo a longo prazo da dívida soberana portuguesa, manutenção de Portugal no euro, quadro negocial com as instituições credoras ), que o bom senso aconselha e salvaguarda o bem comum. E, uma vez eleitos democraticamente, apliquem esses princípios de acordo com os seus programas eleitorais.
Portanto, “velha costela sidonista”, comigo, é escusado. Mas não replico : faço questão que debate de ideias seja isso mesmo, debate de ideias, e não incapacidade de ouvir o "outro". Isso sim , é que seria "sidonista".


De Luís Naves a 11 de Julho de 2013 às 18:29
Não comentei o seu texto, apenas a decisão de cavaco. Também escrevi que o pais esta dividido e que muitos portugueses, como e o seu caso, concordam com o presidente sobre um acordo entre os partidos nesta conjuntura. Julgo que forçar partidos a um acordo não e uma boa pratica, por isso não concordo com o senhor presidente.


De Luís Naves a 11 de Julho de 2013 às 18:30
E sidonista nao era o Maurício, mas a atitude do presidente


De André Miguel a 12 de Julho de 2013 às 09:12
Concordo com o Luís.
Estando longe do burgo posso dar-me ao "luxo" de ver a coisa por outro prisma e a imagem que fica é de uma tremenda confusão.
Após o acordo entre Passos e Portas a desgraça foi minorada e surgiu uma ténue luz de esperança da coisa se aguentar até final do mandato, mas esta intervenção de Cavaco é desastrosa, pois não é clara, antes um "nim" à situação actual e o pior que poderíamos fazer em termos de credibilidade externa. Não há nada pior para um credor que ver o seu devedor sem rumo e aos zig-zags; portanto é rezar e aguentar, porque parece-me que este filme não terá final feliz.


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