Segunda-feira, 15 de Julho de 2013
por Luís Naves

Após uma crise financeira profunda, no início dos anos 90, o Japão viveu mais de uma década de impotência política e estagnação económica. A Europa parece estar a cair numa armadilha semelhante. Os indícios da fadiga europeia estão por todo o lado: o Estado social resiste a mudanças, a população envelhece e o continente continua a perder importância, no meio de uma crise cujas soluções parecem ser incompatíveis com a vontade da população. É neste contexto que se acentuam os problemas individuais dos diferentes países.

 

A Alemanha tem eleições dentro de dois meses e as sondagens indicam tendência para uma grande coligação liderada pela actual chanceler. A economia está equilibrada e é competitiva, mas Berlim hesita sobre a melhor forma de liderar a Europa. O eleitorado é muito hostil à ideia de abrir os cordões à bolsa para resolver os problemas dos outros parceiros.

Em França, fracassou a estratégia do presidente Hollande de sair da crise através de uma política orçamental expansionista acompanhada de aumento de impostos. O défice ficará muito acima dos prometidos 3% (mais de 4% do PIB). O crescimento de 0,8% que os socialistas prometiam em 2013 será efectivamente negativo, da ordem de 0,3%. Perante isto, Hollande recusa a redução do generoso Estado social francês e já prometeu aumentar de novo impostos em 2014, tendo o país perdido o seu rating privilegiado.


 

A Itália está em dificuldades há uma década, com crescimento baixo, fruto da sua reduzida competitividade. Esta vítima da globalização tem dívida pública de 130% do PIB (o mesmo problema de Portugal, com o lastro dos juros a comprometer o futuro). No poder, está um bloco central, a tentar avançar com as reformas que ninguém antes teve a coragem para fazer. Sem essas reformas, incompatíveis com as promessas do centro-esquerda, a Itália terá uma década complicada, sem as taxas de crescimento necessárias para sair da armadilha da dívida.

Em Espanha, onde o desemprego atinge um em cada quatro trabalhadores, começam a surgir sinais de abrandamento da recessão, mas o défice continua demasiado elevado. Se a população parecia ter começado a aceitar as medidas de austeridade, o governo conservador enfrenta agora um escândalo político que poderá levara a eleições antecipadas. As reformas e a recuperação estão sob ameaça.
Portugal é um caso semelhante. Uma inesperada crise política poderá levar o ‘bom aluno’ ao segundo resgate. A Europa terá então de enfrentar os problemas causados pelo fracasso de mais um programa de ajustamento. Também nós parecemos caminhar para um bloco central.
O Reino Unido é outro exemplo de recuperação imperfeita. Londres quer rever a sua relação com a UE e muitos ingleses defendem a saída pura e simples. No mínimo, um novo tratado que devolva poderes aos Estados.
Entretanto, a leste, os países envolvem-se em situações confusas, com governos demasiado frágeis ou demasiado fortes. Em relação à Europa, alguns destes países mostram ressentimento pelo que definem como tratamento de segunda classe.

 

Por um lado, a Europa precisa de aumentar os poderes das suas instituições comunitárias para salvar os países em dificuldades, por outro lado parece em formação uma zona exterior ao euro cuja relação com o centro é mais fluida.
A Europa começa a sentir os efeitos negativos das suas tensões internas e renascem fantasmas do passado.
Mas existe um outro problema, relativo à estabilidade dos sistemas políticos: no início desta crise, a direita estava no poder em quase todos os países e devia seguir-se um ciclo de esquerda. no entanto, a esquerda não parece ter respostas credíveis e, no máximo, regressa dentro de grandes coligações. A direita será penalizada um pouco por todo o lado: as reformas parecem fracassar, ou por serem demasiado difíceis ou por não ter havido coragem política para as levar até ao fim.

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