Quarta-feira, 17 de Julho de 2013
por Alexandre Guerra

 Foto AFP

 

A absolvição de George Zimmerman pela morte do jovem negro de 17 anos, Trayvon Martin, veio reacender um debate nos Estados Unidos que, em bom rigor, nunca desapareceu da sociedade, mas que há muito estava adormecido e que agora ressurge com outros contornos. E são esses novos contornos que este arregimentado julga estarem a passar despercebidos na acesa discussão que, entretanto, se gerou. 

As manifestações e vigílias que se têm verificado nalgumas cidades americanas contra a decisão do tribunal de Sanford têm expressado a crença histórica inabalável de que os negros na América vivem numa sociedade racista. Um sentimento que voltou a estar à flor da pele perante uma decisão judicial que é toda ela toldado por preconceitos de raça (mas não só) há muito enraizados na sociedade americana.

Infelizmente, aqui, não há nada de novo. Se, por um lado, os Estados Unidos, desde a sua "Fundação", têm sido um farol dos direitos humanos, por outro, contêm na sua natureza uma noção muito estratificada de raça e de condição social.  

Não há volta a dar, a cor da pele foi determinante no desfecho do julgamento da morte de Trayvon Martin, sobretudo quando o sistema judicial americano coloca nas mãos dos jurados, simples cidadãos, a aplicação da Justiça.

Ora, neste caso em concreto, não houve qualquer Justiça e quanto à aplicação da Lei, muito haveria para dizer, como se pode ver por estas cinco questões que o USA Today suscita. Além de que esta decisão parece abrir um precedente grave, porque a partir deste momento qualquer negro de "hoodie" na cabeça pode ser abatido em "legítima defesa".

Seja com for, o júri considerou que Zimmerman agiu em legítima defesa, por acreditar que corria perigo de vida, apesar de Trayvon Martin ter feito o que de mais banal qualquer jovem urbano pode fazer: na noite de 26 de Fevereiro de 2012 dirigiu-se a uma loja de conveniência, tendo comprado "ice tea" e um pacote de Skittles.  

À saída da loja, Martin colocou na cabeça o capuz do seu "hoodie" e a partir desse momento Zimmerman, um segurança voluntário de um condomínio privado daquela zona, viu ali um indivíduo suspeito. Os acontecimentos precipitaram-se e Zimmerman acabou por alvejar mortalmente o jovem no peito.

É aqui que está o pecado original desta história e que reflecte aquilo que é uma conjugação de preconceitos históricos de raça com o que este autor chamaria de novos preconceitos urbanos.

Uma simples "sweat com capuz" que escondia o rosto do Martin foi o tónico que faltava para tornar um inocente num potencial criminoso. O Forte Apache recorda que na altura gerou-se um debate interessante nalguns círculos sobre os novos preconceitos urbanos que vão muito além das discriminações de raça, de género ou de condição social. 

Obama, aliás, veio prontamente afirmar que ele próprio usava "hoodies", uma indumentária que muitos jovens (e adultos) vestem sem qualquer conotação criminosa. Neste sentido foi também o protesto original do congressista democrata Bobby Rush, que em plena Câmara dos Representantes se insurgiu na altura contra uma nova forma de preconceito.

São correctas as leituras de Obama e de Rush, só possíveis através de uma consciencialização das novas tendências e realidades urbanas, que não obedecem a qualquer condição racial, social ou de género. E é precisamente esta realidade que o autor destas linhas considera que está ausente do actual debate, muito centrado na importantíssima questão racial, mas que não esgota o problema.


tiro de Alexandre Guerra
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10 comentários:
De Thay a 18 de Julho de 2013 às 09:42
Comovente a sua reocupação. Mas atente nisto:
Trayvon Martin: 17 anos assassinado a tiro, estando desarmado, por um homem branco, hispânico de 30 anos, em Stanford Fl, em 2/26/12. Este caso foi noticia mundial, condenada por Obama e outras personalidades negras, americanas

Marley Lion: 17 anos, assassinado a tiro, estando desarmado, por um homem negro de 30 anos, em Charlstone SC, em 6/16/12. Este caso não teve, nem de perto, a atenção dos media...se tiver tempo, pesquise, e comente com o mesmo nível de compaixão...

Diga-me.... QUAL É A DIFERENÇA ?


De Luís Marado a 18 de Julho de 2013 às 15:08
Casos semelhantes com papéis invertidos e até em contextos menos dúbios não faltam e não se vê este triste espectáculo...

Diria que dá jeito para tentar fazer esquecer o caso Snowden...

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=oFSbqcNuBkI

Tantas certezas que parecem existir quando a factos vindos a público que a mim só me suscitam dúvidas.

A justiça actual não é um sistema perfeito, mas ainda é melhor que julgamento em praça pública.


De Octávio dos Santos a 19 de Julho de 2013 às 20:13
«A cor da pele foi determinante no desfecho do julgamento da morte de Trayvon Martin». Não, não foi. «Neste caso em concreto, não houve qualquer Justiça». Claro que houve.

George Zimmerman não matou Trayvon Martin por causa da maneira como ele se vestia ou da cor da sua pele; George Zimmerman matou Trayvon Martin porque este, longe de ser uma pequena criança indefesa, atacou aquele, esmurrou-o, atirou-o ao chão, pôs-se em cima dele e bateu-lhe a cabeça contra o pavimento de cimento várias vezes.

Quem limita as suas leituras sobre o que acontece nos EUA ao New York Times e ao USA Today e, pior, toma Barack Obama e Bobby Rush como figuras credíveis, arrisca-se a escrever disparates.


De jfd a 19 de Julho de 2013 às 20:28
Grande disparate é este comentário.
Idiota mesmo.


De Octávio dos Santos a 19 de Julho de 2013 às 21:19
Ah, é? Então porquê?


De jfd a 19 de Julho de 2013 às 21:24
Leia o link que coloquei. Obrigado pela resposta.


De Octávio dos Santos a 19 de Julho de 2013 às 21:57
Já segui a ligação que indicou. Que remete para uma declaração de Barack Obama que eu já conhecia, e que demonstra, mais uma vez, a sua incompetência e a sua irresponsabilidade, ao colocar em causa, com insinuações de racismo, um julgamento que apurou e demonstrou os factos que eu referi, e que são do conhecimento público. Pelo que não sou eu que ando a fazer de idiota.


De jfd a 19 de Julho de 2013 às 22:05
Caro Octávio posso então deduzir do seu comentário que a América não sofre de um problema racinal?
E não só com pretos, mas tb com mexicanos (especialmente)?


ps - eu sou preto


De Octávio dos Santos a 19 de Julho de 2013 às 22:31
Se a América sofre de problemas raciais... esses problemas são criados, ontem como hoje, pelos democratas, porque estes, ontem como hoje, são, continuam a ser, racistas. Está-lhes «no sangue», é o maior e principal traço da sua identidade. Para eles tudo, ou quase, se reduz à cor da pele. Quem foram os esclavagistas, os secessionistas, os segregacionistas, os fundadores do Ku Klux Klan? Que têm em comum Jefferson Davis, George Wallace, Robert Byrd e Barack Obama?

George Zimmerman não é mexicano: é filho de pai norte-americano e mãe peruana.

E você informa-me que é «preto»... porquê? Qual é a relevância disso para mim e para esta discussão?


De jfd a 19 de Julho de 2013 às 20:32


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