Quarta-feira, 31 de Julho de 2013
por Luís Naves

Série de textos sobre a decadência da Europa, que também publico aqui.

 

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Um historiador do futuro talvez considere que 1989 foi o ano em que a civilização europeia se tornou verdadeiramente global, mas para os europeus que viveram a transição, o colapso dos regimes comunistas é geralmente interpretado como o culminar da reunificação do continente.
Esse ponto de vista é estreito e pode tornar-se rapidamente anacrónico. A nova ordem que se desenha é acima de tudo financeira e planetária. Ela inclui democracias, oligarquias e ditaduras. Ela caracteriza-se por uma vasta e crescente circulação de produtos e capitais, mas também pela globalização dos media.


 

O mundo mudou de forma radical nas últimas duas décadas, pois o dinheiro e os objectos deixaram de pertencer às nações. Fabricar um pequeno iPhone, por exemplo, é hoje uma tarefa que mobiliza metade do mundo. Concebido por uma empresa americana, a Apple, este telefone tem componentes coreanos, japoneses, alemães, americanos e é produzido por uma empresa de Taipé que possui uma enorme fábrica em Shenzen, na República Popular da China. Por incrível que pareça, os iPhones contribuem para o défice comercial dos EUA face à China. E onde estão os accionistas que beneficiam das enormes margens de lucro deste produto? No Japão e na Califórnia? No Reino Unido e no Dubai? Em Singapura e Berlim?
Um primeiro-ministro britânico do século XIX, o visconde de Palmerston, fez a seguinte afirmação em 1848: o Reino Unido “não tem aliados eternos ou inimigos perpétuos. Tem interesses eternos e perpétuos”. A frase é muitas vezes citada por políticos, com variantes, e foi proferida numa altura em que o império britânico não tinha rivais. A ideia reflecte a natureza do zénite do poder europeu e poderia aplicar-se às grandes nações do tempo, que então tentavam construir impérios ultramarinos com territórios e recursos inesgotáveis. A Europa tinha uma missão para cumprir e esta confundia-se com os interesses que decorriam da realização imperial, do seu triunfo e da sua “eternidade”.
Aquele já não é o nosso mundo e a frase de Lord Palmerston faz hoje menos sentido, mesmo para alguém que por um instante defenda a transformação da potência hegemónica, os EUA, num império semelhante ao britânico. Os “interesses eternos” da nação tornaram-se ambíguos e difíceis de descrever. Os EUA e, em menor extensão, a Europa, poderiam listar cinco interesses básicos, ligados à protecção das suas economias, à estabilidade das suas fronteiras e à contenção das ameaças externas, mas na elaboração prática dessa lista surgem imediatamente problemas:
Proteger o mercado interno pode adiar as falências na indústria, mas diminuirá os lucros das multinacionais e das instituições financeiras; impedir a entrada de imigrantes protege o trabalho, mas a prazo torna os produtos mais caros para o consumidor; conter o crescimento económico chinês pode travar a ascensão de um rival potencial, mas custará milhões de empregos domésticos; controlar as fontes mundiais de energia exige a manutenção de exércitos dispendiosos ou uma diplomacia impossível; e destruir o radicalismo islâmico implica guerras que ameaçam desestabilizar as regiões onde se encontram as reservas de gás e petróleo.
O que já é complicado para os americanos, torna-se num pesadelo para os europeus, e julgo que esta é a origem do fenómeno a que se convencionou chamar ‘declínio da Europa’, que parece ao mesmo tempo um declínio relativo do Ocidente. Sem contradição, julgo ser possível falar em triunfo total do mesmo Ocidente, cujos valores ganham terreno em todas as sociedades. Tentarei argumentar, em futuros posts, sobre a transformação a que assistimos, a sua força aparentemente irresistível, mas sem iludir os problemas e fragilidades. Tentarei sobretudo sublinhar que existe uma matriz europeia na base da construção da nova ordem mundial, pelo que falar de decadência exige compreender esse triunfo. Antes, precisamos de recuar um pouco, para compreendermos a importância dos acontecimentos de 1989.

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