Terça-feira, 1 de Novembro de 2011
por Luís Naves
Kanellos tornou-se famoso por acompanhar os protestos gregos. É um cão simpático, vê-se que não faz mal a uma mosca e talvez imagine (apesar da imaginação limitada dos cães) que tudo aquilo é uma brincadeira.

 

Na sua humilhação, a Grécia começa a mostrar sinais de uma terrível atracção pelo abismo. George Papandreou diz que chegou um momento de catarse e vai convocar um referendo sobre o plano de ajuda externa europeu. Os enviados da troika são descritos na imprensa como "guardas prisionais" e uma manifestação de protesto interrompeu uma parada militar (coisa grave na Grécia). O ministro das finanças foi hospitalizado com um colapso temporário (dores de barriga) e a oposição não diz coisa com coisa. Os políticos perderam o norte: não se vislumbra a possibilidade do resgate passar em referendo e, de qualquer forma, não há tempo para resolver a questão.

O plano europeu não acabava com o problema (outra palavra grega), mas ganhava tempo. Aliás, tudo indica que a questão da zona euro não fique resolvida antes das eleições alemãs de 2013, devido à complexidade das soluções e à escolha da chanceler Angela Merkel de proceder de forma faseada. Mas um referendo é pior do que um tiro no pé: a recusa do plano será bem mais dramática do que a sua aceitação, pois implica uma reestruturação desordenada da dívida. Onde está a democracia de se perguntar a um povo se prefere ser humilhado ou agredido? 

Ou seja, a irresponsabilidade dos políticos gregos está a enviar a Grécia para uma solução intragável: a própria saída do euro, o que significa a saída da União Europeia; a prazo, talvez um golpe militar que reponha a ordem e a autoridade do Estado; a suspensão da democracia.

Este começa a ser o maior fiasco europeu desde a guerra da Bósnia.

 

A arquitectura do euro tinha de ser repensada, mas com a possível saída de um país parece que o projecto terá de ser reescrito. As políticas de apoio a regiões em choques assimétricos também falharam: como se explica que todos os países da coesão estejam em dificuldades? Actualmente dividida em três partes, a UE fragmenta-se também no seu núcleo duro da zona euro.

Não contem com a razão nos assuntos humanos. São muitos os episódios de suicídios colectivos, de países inteiros a escolherem o terror, de pânicos e fugas para a frente, de sociedades em colapso rápido. E os colapsos são sempre rápidos.

 

Num dos grandes contos da língua portuguesa, Estrada 43, de José Cardoso Pires, há um cão como Kanellos. Aliás, sem esta figura, o conto seria banal. O autor cria uma personagem que não percebe os humanos. Ladra quando devia ficar calado, não faz nada quando devia morder. E o lado patético do pobre cão, que acaba sempre por levar um pontapé, quer do capataz, quer dos trabalhadores, torna-se no ponto verdadeiramente tocante do texto.

Quando vejo notícias da Grécia, lembro-me de Kanellos e lembro-me deste conto. As vítimas, as verdadeiras, nunca entendem.


tiro de Luís Naves
tiro único | comentar | gosto pois!

5 comentários:
De Pedro Freire a 1 de Novembro de 2011 às 15:34
Já tinha notado a presença quase constante do simpático cão e a sua insistência em participar nas manifestações. Tal como a ceifeira do poema de Pessoa, talvez o cão se sinta feliz por participar em festas tão animadas, mas nós, que infelizmente (segundo pessoa) somos seres pensantes, só nos podemos preocupar com o futuro do euro e da Europa. A propósito do novo problema que o referendo grego vem pôr, escrevi no meu blog (Será que os anjos têm sexo?):

«A decisão de Papandreu de pedir aos gregos que se pronunciem em referendo sobre o perdão de 50% da dívida soberana e o novo empréstimo já acordado é uma jogada muito perigosa, mas audaciosa. Sem este referendo, Papandreu e o seu governo continuariam a ter de enfrentar uma reacção popular muito violenta às medidas de austeridade. É possível que, mesmo na hipótese de Papandreu ganhar o referendo, as manifestações de protesto continuem e sejam talvez ainda mais violentas com o endurecimento das medidas, mas faltar-lhes-á legitimidade. Por outro lado, se o "não" ganhar, como indicam as sondagens, a situação na Grécia só pode piorar e a banca-rota será inevitável. Não vejo como Papandreu pode continuar a presidir ao governo grego e, com eleições antecipadas ou sem elas, as consequências para a Grécia e para a Europa serão terríveis. Se hoje, segunda-feira 31 de Outubro, só por se noticiar a perspectiva de referendo, as bolsas caíram e as taxas das dívidas portuguesa e italiana subiram, é difícil imaginar o que acontecerá se Papandreu perder. »


De Luís Naves a 1 de Novembro de 2011 às 18:17
Concordo com a sua análise


De Ricardo Vicente a 1 de Novembro de 2011 às 16:20
O que foi decidido na Quarta-feira passada 'e pouco mas e' melhor do que nada e 'e quase um presente para os gregos. 'E muito estranho referendar a aceita'c'ao de um presente. Claro que h'a condicoes: mais austeridade. Mas sem presente, a austeridade sera maior e a sua efectivacao imediata.

Nao da para racionalizar os gregos! O Papandreu quis lavar as suas maos?

Um absurdo...


De Luís Naves a 1 de Novembro de 2011 às 18:17
é isso mesmo, não dá para entender


De Pedro Correia a 1 de Novembro de 2011 às 23:06
De acordo, Luís: «Este começa a ser o maior fiasco europeu desde a guerra da Bósnia.»

(de acordo também: grande conto esse, o do Cardoso Pires)



comentar tiro

Regimento
outras cavalarias
tiros recentes
tiros mais comentados
cofre
tags
Arregimentados
Subscrever feeds