Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012
por João Gomes de Almeida

A pirataria existe há muitos anos e tem destruído várias indústrias como a da música e do cinema. O próximo passo da pirataria, com a banalização dos ebooks, será a destruição total no mercado editorial livreiro. Os autores de conteúdos merecem ser pagos e os prevaricadores devem ser punidos. Não existem mecanismos legais que permitam pôr fim à pirataria na internet, logo a SOPA parece-me bem.

Quanto ao #pl118 tenho apenas uma questão: será a SPA digna de receber o dinheiro que aí vem? Gostaria que o debate começasse aqui.


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7 comentários:
De jonasnuts a 19 de Janeiro de 2012 às 23:14
O que tem "destruído" (entre aspas porque me parece que goza de excelente saúde) as várias indústrias od entretenimento não é a prirataria, que representa uma ínfima parte de quem consome, legítima e legalmente, conteúdos.

O que tem contribuído para um drecréscimo dos brutalíssimos lucros (de brutalíssimo passaram apenas a brutais) da indústria do entretenimento, é a sua falta de capacidade de adaptarem e modernizarem o seu modelo de negócio às novas formas de consumo de conteúdos, querendo manter-nos presos a um modelo de negócio obsoleto, que beneficia apenas a indústria.

Concordo, os autores de conteúdos deve ser remunerados e os que pirateiam conteúdos devem ser punidos. Mas não podemos punir uma maioria, pelos erros cometidos pos uma minoria.

Posto isto, não compreendo como é que pode juntar o PL118 a um post sobre pirataria porque, como sabe, a pirataria nada tem a ver com o PL118.

O PL118 quer taxar-e a mim, produtora de conteúdos (tiro fotografias à minha família, faço vídeos das minhas férias), para que eu pague direitos de autor a terceiros, ao comprar equipamento para alojar o conteúdo que sou eu a produzir e cujo direito de autor é, portanto, meu.

Não me interessa saber que destino dão ao meu dinheiro. Se mo cobram injustamente, para benefício de quem não contribuiu em nada para o ganhar, não me interessa para onde vai interessa-me que não vá.


De João André a 20 de Janeiro de 2012 às 09:28
A Jonasnuts já aponta muito bem o principal problema. Para os liberais, estas leis deveriam ser o equivalente a criar tarifas para dificultar importações e impedir competitividade, mas enfim, anda tudo mais preocupado em receber o bónus pelo lobby (não é acusação ao autor do post, apenas a muitos que defendem a SOPA e o aborto da pl118).

Aquilo que tem estado a matar a indústria discográfica e livreira (a indústria cinematográfica está bem e recomenda-se enquanto que a televisão não vê dias tão bons desde os anos 50/60) é o digital, de facto, mas o digital legal.

Repare-se no modelo de negócio da música: uma empresa lança um álbum, publicita-o com dois ou três singles através da MTV e rádio, vende os LPs e os singles em formato CD, os primeiros por 15-20 dólares/euros e os segundos por 5 dólares/euros. Assim foi até ao início da década passada.

Depois veio a iTunes (e lojas semelhantes) que vende músicas individuais a 1 dólar/euro e álbuns a 10 dólares/euros. A maior parte dos compradores quer apenas aquela música que (ou)viu algures. Passa a gastar uns dois ou três dólares por álbum. Mesmo que compre o álbum inteiro (provavelmente menos de metade dos compradores), a empresa tem um prejuízo de pelo menos 50% em relação à venda de álbuns em CD. Isto tudo de forma legal, certinho. Fácil de compreender, certo?

Quanto ao mercado livreiro, a pirataria de eBooks não virá causar grandes problemas. Primeiro que nada porque os livros não são coisas para se ler em 5 minutos, como uma música, ou em 2 horas, como um filme. Exigem um investimento de tempo. Isso faz com que quem os queira sejam pessoas que se preparem para dedicar tempo à leitura. Essas não fazem downloads por impulso e provavelmente quererão ler os livros num iPad, Kindle ou outro suporte do género, os quais já foram adquiridos legalmente. O perfil do leitor não será um de quem faça download ilegal. Pelo menos não de livros pelos quais estará disposto a pagar.

Além disso, os autores poderão beneficiar, uma vez que poderão simplesmente registar o livro legalmente como sendo seu, passá-lo para um dos formatos de leitura (epub, mobi, etc) e vendê-lo directamente. Claro que a indústria sofre, mas os autores? Nem por isso.

Quem sofrerá serão os autores de livros técnicos. Estes são frequentemente bastante caros (para cima de 100 euros) e muito do público alvo (estudantes) não tem dinheiro para os comprar dessa forma ou prefere gastá-lo noutras coisas. Também é um público-alvo que tem mais tendência a fazer downloads. Aí sim, vejo um problema para autores e empresas.


De l.rodrigues a 20 de Janeiro de 2012 às 10:29
Sendo que os livros técnicos, sobretudo os que servem de manuais universitários são historicamente presa fácil da fotocópia. O digital aí não trouxe grandes prejuízos, suspeito. Pelo menos ajuizando pela época em que fui estudante, em que para ter um negócio bastava ter uma fotocopiadora a 500m de uma faculdade.


De João André a 20 de Janeiro de 2012 às 14:10
Bem verdade, eu até me esquecia desse aspecto. Estou a pensar naquilo que a pirataria poderia prejudicar este negócio e só me vem à cabeça uma hipótese: aqueles estudantes com mais dinheiro ou vontade compravam o livro e os colegas fotocpiavam. Agora talvez ninguém o compre?...

Por outro lado, a possibilidade dos estudantes terem acesso à versão electrónica grátis até pode beneficiar um livro: os estudantes gostam dele e decidem mais tarde adicioná-lo à biblioteca. É um pouco de wishful thinking, mas...


De Ricardo Perna a 20 de Janeiro de 2012 às 14:44
Caro João,

O debate nunca pode começar em saber qual a melhor instituição para receber o dinheiro, já que, como a jonasnuts disse, é o próprio princípio que está errado.

- Se eu compro um suporte digital para armazenar as fotos que eu tiro, porque é que tenho de pagar direitos de autor a outras pessoas?

- Se eu compro um CD de música, e depois decido gravá-lo para uma pen porque me dá mais jeito ouvi-lo no carro através da pen, já paguei ao autor pelo CD quando o comprei. Porque é que tenho de pagar outra vez porque quero mudar o suporte do conteúdo? Que eu saiba, não há música à venda em pen, logo... e aliás, se eu comprar uma música no iTunes, já a comprei e paguei o direito de autor, portanto tenho de voltar a pagá-lo.... porquê?

Sejamos claros: esta é uma lei que está errada de princípio, já que parte do princípio de que todos somos culpados de algo. Se cobrarmos a toda a gente, vamos apanhar com certeza os prevaricadores. Ridículo...

No entanto, apesar de estar errada desde o início, poucos tinham dado por ela, e portanto a SPA e os seus compadres (são muitos os autores que não se revêem na SPA) iam recebendo a sua quota-parte de dinheirinho indevido e ninguém se chateava com isto (no meu caso, eu desconhecia por completo). No entanto, a ganância (e as dívidas, já que a SPA tem um défice de 9 milhões de euros, segundo li em qualquer lado) levou a que surgisse a #pl118, que pretende levar esta parvoíce a um nível nunca antes visto: um disco externo multimédia de 2Tb, que já se encontra no mercado por 150€, vai sofrer um aumento de 120€, quase 100%!!!!!

É por estes lados que se deve iniciar o debate, caro João. A incompetência da SPA deve ficar para outra altura, porque este debate nem sequer chega a tocar aí...


De Cobarde a 20 de Janeiro de 2012 às 17:00
Eu tenho um e-book. De repente, tenho milhares e milhares de livros clássicos que já perderam os direitos de autor, os meus preferidos, grátis. Estarei talvez a prejudicar a indústria editorial, mas não vejo prejuízo para os autores, seus filhos ou até netos. Deverei contribuir para manter editoras (ou fábricas de chapéus de côco, ou de tapetes de arraiolos...)? Quanto aos livros recentes, ou seja, aqueles cujos autores, filhos ou netos ainda vivem, quem quiser, pode comprá-los para o e-book. Se estiverem disponíveis, e em Portugal há cada vez mais, que remedio!
O que acontece no ramo da "arte" e da "autoria" é um pouco o que acontece no ramo da gestão, da finança, da profissão liberal bem sucedida: todos acham que devem ganhar muito dinheiro, todos acham que devem ser ricos antes dos 40. Nunca houve tantos "artistas" ricos, riquíssimos, como hoje (ou gestores, ou advogados).
Os que não podem ser tão ricos (vivem em países pequenos como o nosso, e ainda por cima recalcitrantes no que a cultura se refere), querem, pelo menos, viver uma vida desafogada, sem sobressaltos económicos, e poder dar um bom futuro aos seus filhos, e netos, como diz o outro, se me permite outra vez a alusão. Nada mau!
É claro que muitos falham... como em todas as profissões liberais, negócios, sei lá. É a vida real.
Hoje, um rapazolas que diz que canta, outro que diz que escreve, mais uma que diz que representa, facilmente ficam forrados em dois tempos, graças aos media. A fama (e riqueza) instantânea que os novos media permitem tem que ter um trade off por algum lado. Não pode ser tudo vantagens.
Por fim, temos os intermediários que vivem dos artistas: as editoras, agentes, mais as corporações representativas de interesses, mais não sei quem, que também acham que têm que ganhar balúrdios ou distribuir dividendos astronómicos.
Começa a ser muita gente a viver do trabalho do cidadão e das empresas. Fábricas de energias renováveis, de transportes, de fabricar SCUTS, de fabricar pareceres, de fabricar licenças, e agora, en fim, já é assim, autores e os que tratam da gestão dos seus direitos.
Sempre se dirá que SCUTS e cultura são coisas diferentes. Para mim (será enviesamento?) Beyonce é uma indústria, como a Mota Engil.
Solução? Sinceramente, não sei. Se calhar, trabalho paciente e adaptação ao meio. Tudo menos obrigar o cidadão a pagar o que não usa. E, sobre tudo, tudo menos pretender garantir por lei que o autor (e quem gira à sua volta) tem que viver, e até enriquecer, com a sua autoria.
Por certo, quanto aos livros científicos, estou com muita pena de autores como Ben Bernanke, a empobrecer a olhos vistos cada vez que um aluno de economia não lhe compra os seus livritos de 100 euros.
Cumprimentos
Carmen


De Francisco Vidal a 21 de Janeiro de 2012 às 03:08
Caríssimo João,
Por norma , costumo partilhar e concordar com a assertividade e correcção das suas intervenções.
Contudo, deixo-lhe uma recomendação: informe-se. Informe-se acerca da natureza, conteúdo e implicações desta bill.
Aí, garanto que a sua opinião mudará.
Cumprimentos,
Francisco Vidal


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