Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012
por José Meireles Graça

Ninguém, nesta história da austeridade versus crescimento, é inteiramente honesto.


A austeridade diminui o consumo e a diminuição do consumo diminui o PIB e as receitas fiscais, mesmo que com agravamento da carga fiscal nominal.


Diminuindo as receitas fiscais, a dívida pública percentual aumenta, tornando-se insuficientes os cortes na despesa pública; novos cortes, por sua vez, diminuem o consumo, que diminui etc. etc.


Toda a gente entende isto. E face ao espectáculo deprimente da Grécia que se afunda a cada mês, com "apoios" e cortes que alimentam esta máquina infernal, boa parte dos apoiantes do Governo (este escriba incluído) tem este pesadelo por trás das declarações convictas da justeza do nosso caminho.


Esta a primeira desonestidade: fingimos que não temos dúvidas.


No reajustamento em curso, muitos dos apoiantes do Governo (este escriba incluído) dizem para si que, mesmo que a estratégia não resulte, a reforma do Estado ficará sempre como adquirida, sendo ela necessária, como é, qualquer que seja a solução. Mas isto não é claramente assumido - e esta é a segunda desonestidade.


A esquerda comunista (incluindo a menchevique que o BE julga não ser) esfrega as mãos: nos tempos negros da miséria e depressão pode nascer a flor da Revolução no entulho. Essa flor nunca nasceu, nem pode, num ambiente económico estável e sob um regime democrático.

A receita do "não pagamos" (Islândia nihil obstat, os nossos bancos endividaram-se para além do razoável com crédito ao Estado, à habitação e ao consumo, não principalmente com especulação) não é uma alternativa inteligente para a gestão do capitalismo, é a criação de condições permanentes de autarcia económica nas quais soluções autoritárias e radicais anti-capitalistas poderiam ver a luz do dia. Mas isto os Jerónimos e Louçãs não dizem: queremos melhorar a UE, a economia e o sistema capitalista a pontos de, quando estiverem perfeitos, terem desaparecido. E esta é a terceira desonestidade.


A esquerda social-democrata não ousa renegar o MoU, mas finge acreditar (ou, nos casos mais graves, acredita mesmo) que é possível cumprir o Programa que assinou e ao mesmo tempo garantir um módico de crescimento, via despesa pública. E esta é a quarta desonestidade. A mais patética, de tão transparente, mas nem sempre o ridículo tira votos.


Não tenho nem terei responsabilidades políticas, a opinião dos meus concidadãos não condiciona a minha, o que escrevo não atrasa nem adianta a vida de ninguém, se estiver enganado não é a primeira vez, mas honesto gosto de ser: e por isso não escondo que acho que, sem o fim do Euro, pelo menos para os países do Sul, nada se resolverá de permanente.


Chamem-me, se quiserem, o Bruxo de Fafe.

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2 comentários:
De Nelson Mendes a 29 de Fevereiro de 2012 às 13:03
Comungo e sofro com escriba das 2 primeiras desonestidades. Sigamos o Churchill e o seu muddle thru.



De l.rodrigues a 29 de Fevereiro de 2012 às 13:14
O problema da sua tese está desde logo na ideia de reforma do estado. No próprio modelo de reforma. Se essa reforma fosse feita por exemplo a partir de um Orçamento Base Zero, ou após uma auditoria à dívida pública, poderia ter alguma credibilidade.

O que está a ser feito é um corte mais ou menos cego e insensível, com base largamente em preconceitos ideiológicos. Não se estão a eliminar as verdadeiras ineficiências nem a ter em conta os custos sociais. Alienando inclusive o que dá lucro.

Privatiza-se e pronto. Como se isso garantisse melhor gestão de recursos e melhores serviços, por defeito.

É mau demais.


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