Entrevista publicada no Semanário de 13 de Junho de 2003
Noutros tempos de aventuras jornalísticas, este apache entrevistou Carlos Gomes Júnior, no Altis, numa das suas visitas a Lisboa, mais como empresário do que propriamente como líder político. Ao recuperar essa entrevista do arquivo, o autor destas linhas não deixou de achar irónico o título da mesma: "Kumba Ialá está a preparar uma grande fraude eleitoral". Provavelmente estaria, com vista às eleições previstas para o mês seguinte (e que seriam adiadas). Mas o mais curioso é que aquele título parece não ter perdido actualidade.
Na altura, Carlos Gomes Júnior já era presidente do PAIGC, depois de ter vencido o congresso daquele partido em Fevereiro de 2002, no entanto, era o seu perfil empresarial que mais se evidenciava. Aliás, foi sobretudo através de canais informais que então este jornalista chegou ao contacto com Gomes Júnior, não havendo qualquer máquina política a enquadrar o encontro. Seja como for, a entrevista serviu claramente para Gomes Júnior passar a mensagem em Lisboa de que iria lutar pela liderança do Governo do seu país.
Entre os vários negócios e cargos de gestão que na altura desempenhava, um dos mais relevantes era o de presidente da Comissão Executiva do Banco da África Ocidental. Na Guiné, tal como em Lisboa, Carlos Gomes Júnior ganhou respeito precisamente como homem de negócios.
O seu estilo discreto e algo envergonhado não fazia prever que alguma vez chegasse à chefia do Governo de um país como a Guiné Bissau. Carlos Gomes Júnior não parecia reunir qualquer requisito para ser governante daquele Estado. Ao contrário de figuras como o falecido Nino Vieira ou Kumba Ialá, Carlos Gomes Júnior era uma pessoa civilizada, educada e com um grau considerável de instrução e de responsabilidade.
Além disso, a sua cordialidade aliada à ausência de protagonismo deitavam por terra qualquer previsão quanto a uma carreira política duradoura em Bissau.
Mas a verdade, e apesar destas linhas reflectirem aquilo que este autor pensou no momento da entrevista, Carlos Gomes Júnior foi conseguindo manter-se à frente do PAIGC e do Governo guineense a partir de 2004.
O mais extraordinário foi o facto de Nino Vieira ter exonerado o seu Executivo ao fim de 17 meses, num gesto que este autor considerou ser o fim da experiência governativa de Gomes Júnior. Mais uma vez, tal assumpção estava errada: voltou a ser eleito para o cargo em Novembro de 2008, mantendo-se até Fevereiro último, altura em que se lançou nas presidenciais, depois da morte prematura do antigo chefe de Estado, Malam Bacai Sanhá.
Hoje, o autor destas linhas chega à conclusão de que a sobrevivência política de Carlos Gomes Júnior se deveu, talvez, precisamente ao seu estilo "low profile" que vinha adoptando nos últimos anos, vincando claramente a sua componente empresarial, conseguindo assim obter maior credibilidade junto de alguns sectores da sociedade guineense e da comunidade internacional.
E agora que estava lançado para uma vitória na segunda volta das presidenciais, marcada para 29 de Abril, os militares (ou pelo menos alguns) vieram para a rua e fizeram mais um golpe de Estado na Guiné Bissau. Dadas as circunstâncias, este apache acredita que desta vez é que é: A política para Gomes Júnior chegou ao fim.