Domingo, 15 de Abril de 2012
por Alexandre Guerra

 Entrevista publicada no Semanário de 13 de Junho de 2003

 

Noutros tempos de aventuras jornalísticas, este apache entrevistou Carlos Gomes Júnior, no Altis, numa das suas visitas a Lisboa, mais como empresário do que propriamente como líder político. Ao recuperar essa entrevista do arquivo, o autor destas linhas não deixou de achar irónico o título da mesma: "Kumba Ialá está a preparar uma grande fraude eleitoral". Provavelmente estaria, com vista às eleições previstas para o mês seguinte (e que seriam adiadas). Mas o mais curioso é que aquele título parece não ter perdido actualidade.

Na altura, Carlos Gomes Júnior já era presidente do PAIGC, depois de ter vencido o congresso daquele partido em Fevereiro de 2002, no entanto, era o seu perfil empresarial que mais se evidenciava. Aliás, foi sobretudo através de canais informais que então este jornalista chegou ao contacto com Gomes Júnior, não havendo qualquer máquina política a enquadrar o encontro. Seja como for, a entrevista serviu claramente para Gomes Júnior passar a mensagem em Lisboa de que iria lutar pela liderança do Governo do seu país. 

Entre os vários negócios e cargos de gestão que na altura desempenhava, um dos mais relevantes era o de presidente da Comissão Executiva do Banco da África Ocidental. Na Guiné, tal como em Lisboa, Carlos Gomes Júnior ganhou respeito precisamente como homem de negócios.

O seu estilo discreto e algo envergonhado não fazia prever que alguma vez chegasse à chefia do Governo de um país como a Guiné Bissau. Carlos Gomes Júnior não parecia reunir qualquer requisito para ser governante daquele Estado. Ao contrário de figuras como o falecido Nino Vieira ou Kumba Ialá, Carlos Gomes Júnior era uma pessoa civilizada, educada e com um grau considerável de instrução e de responsabilidade.

Além disso, a sua cordialidade aliada à ausência de protagonismo deitavam por terra qualquer previsão quanto a uma carreira política duradoura em Bissau. 

Mas a verdade, e apesar destas linhas reflectirem aquilo que este autor pensou no momento da entrevista, Carlos Gomes Júnior foi conseguindo manter-se à frente do PAIGC e do Governo guineense a partir de 2004. 

O mais extraordinário foi o facto de Nino Vieira ter exonerado o seu Executivo ao fim de 17 meses, num gesto que este autor considerou ser o fim da experiência governativa de Gomes Júnior. Mais uma vez, tal assumpção estava errada: voltou a ser eleito para o cargo em Novembro de 2008, mantendo-se até Fevereiro último, altura em que se lançou nas presidenciais, depois da morte prematura do antigo chefe de Estado, Malam Bacai Sanhá.

Hoje, o autor destas linhas chega à conclusão de que a sobrevivência política de Carlos Gomes Júnior se deveu, talvez, precisamente ao seu estilo "low profile" que vinha adoptando nos últimos anos, vincando claramente a sua componente empresarial, conseguindo assim obter maior credibilidade junto de alguns sectores da sociedade guineense e da comunidade internacional.

E agora que estava lançado para uma vitória na segunda volta das presidenciais, marcada para 29 de Abril, os militares (ou pelo menos alguns) vieram para a rua e fizeram mais um golpe de Estado na Guiné Bissau. Dadas as circunstâncias, este apache acredita que desta vez é que é: A política para Gomes Júnior chegou ao fim. 


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