Sexta-feira, 4 de Maio de 2012
por José Meireles Graça

Aprecio o equilíbrio orçamental (e até o superavit, quando seja necessário, como é, reduzir a dívida pública), não sou adepto da desvalorização artificial da moeda (como não sou, aliás, da valorização artificial) e reconheço os males da inflação.

Não ignoro que a indústria exportadora tem dado sucessivas lições ao país oficial e economês de como sobreviver, e até prosperar, com o Euro, um Estado gordo e incapaz de se reformar, uma fiscalidade predatória e penalizadora dos criadores de riqueza, uma opinião pública educada nos princípios da economia vudu, outrossim cainesianismo tuga, e uma opinião publicada geralmente sobranceira, quando não hostil, em relação aos empresários que temos, se não estiverem albardados de diplomas e tretas, e que fazem o seu caminho com algum sucesso sem precisar do Estado que trazem dependurado ao pescoço. Uf.

Fui contra a adesão ao SME, primeiro, e o Euro, depois. Acho mesmo que essa adesão foi o maior erro perpetrado contra a Economia depois do 25 de Abril, mais grávido ainda de consequências negativas do que as nacionalizações e os outros delírios do PREC. Porque o Euro retirou a válvula de segurança contra tolices de política económica que a moeda própria é, e fez-nos bater na parede com um nível de dívida pública e privada sem precedentes. Tivéssemos o cansado e desvalorizado Escudo, em vez de estarmos protegidos por uma moeda alemã (Euro foi o nome que o Marco tomou) e os emprestadores teriam fechado a torneira muito mais cedo.

Meridiano bom senso, a mim modestamente me parece o meu discurso - o óbvio é muitas vezes o mais difícil de ver.


Mas há mais: o Euro foi uma opção política deliberada para tornar a Europa federal inevitável - não é preciso ter uma visão conspiratória do mundo para o supôr. E ainda que a maior parte dos meus concidadãos estivesse, ou esteja, disposta a trocar a pertença a uma casa arruinada por um clube de ricos (cada vez menos ricos, aliás) é uma evidente ilusão imaginar que esses ricos estariam dispostos a sustentar os consócios caloteiros.

Não vamos, é claro, sair do Euro. Será antes o Euro a sair de nós ou, pior, a, por milagre, sobreviver. E, se for o caso, deixaremos em herança à geração seguinte um patrão exigente, irascível, autoritário e distante. Já sucedeu antes, há muito tempo, quando a Europa estava semeada de tribos celtas. Agora não, que as tribos diferenciaram-se, as línguas separaram-se, as fidelidades ganharam fronteiras definidas e o sentimento de pertença ganhou raízes dentro delas. Não atiraremos a canga ao ar talvez - outros o farão por nós.


E a que vem este arrazoado? Ora, foi despoletado por isto. Comme quoi, com tanta análise divergente, pressupostos diferentes, e propósitos tão distantes, se pode chegar à mesma conclusão - deve ser verdade que o Euro une.

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