Domingo, 25 de Setembro de 2011
por Pedro Correia

 

Roger Scruton numa excelente entrevista à Veja.

Alguns excertos (aportuguesando um ou outro brasileirismo, com a devida vénia à comunidade luso-afro-brasileira):

 

«Por debaixo do verniz civilizacional, todo o homem tem dentro de si um animal à espreita. Infelizmente, se esse verniz for arrancado, o animal vai mostrar a cara. A promessa de concessão de direitos sem a obrigatoriedade de deveres e de recompensas sem méritos foi o que arrancou o verniz na recente eclosão de episódios de vandalismo na Inglaterra.»

«É uma ilusão, senão uma loucura, acreditar que os alemães e os gregos podem pertencer à mesma organização e adequar-se às mesmas normas financeiras. Como impor a mesma moeda, o mesmo sistema e o mesmo modo de vida ao alemão trabalhador, cumpridor das leis, respeitador da hierarquia, e ao grego fanfarrão e avesso às normas?»

«A União Europeia é um objectivo inalcançável, pois foi escolhido pela sua pureza, que exige que todas as diferenças sejam atenuadas, os conflitos superados, e no qual a humanidade deve encontrar-se como sob uma unidade metafísica que jamais pode ser questionada ou posta à prova.»

«Optimismo e utopia em excesso geralmente acabam em nada ou, pior, dão em totalitarismo.»

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28 comentários:
De João Afonso Machado a 25 de Setembro de 2011 às 19:05
Muito bem escrito!
a fanfarronice dos gregos, lamentávelmente, não é comparável à do Ten. Blueberry.
Já não nem aventura nem heróis...


De Pedro Correia a 25 de Setembro de 2011 às 21:39
De facto, João, já não há heróis como antigamente.


De Nuno Oliveira a 25 de Setembro de 2011 às 19:16
Heil Hitler!!
Gleich, mein Führer!

Peter
dieser Kerl ist dümmer als andere, die die Flagge der Schweiz ändern wollen.

Que é como quem diz uma baboseira, mas como é alemão fico a parecer um gajo culto.

Não duvido que este senhor tenho andado a ler, decorar e babar o seu mein Kampf.
Supremacia da raça, espaço vital... Não há judeus mas há gregos e tal.

Que se chacinem.
die Idioten.


De Pedro Correia a 25 de Setembro de 2011 às 21:42
Aconselho-o a fumar outra coisa. Isso não anda a produzir resultados nada brilhantes.


De Nuno Oliveira a 25 de Setembro de 2011 às 22:23
Que quer dizer?
Deixei de fumar...
:)


De Pedro Correia a 25 de Setembro de 2011 às 22:41
Ah, óptimo.


De monge silésio a 25 de Setembro de 2011 às 21:17
Pedro,

...li o último livro dele, como li um livro dele sobre o Ocidente.

Mas em língua inglesa conheço um livro sobre o pensamento conservador que me entusiasmou "the meaning of conservatism" revisto em 1984, e cujo conhecimento me chegou em 1988 (há uma ed. de 2002).
tb útil ... (http://www.newcriterion.com/articles.cfm/Why-I-became-a-conservative-1803) e tb aqui ... (http://www.philosophynow.org/issue63/Gentle_Regrets_Thoughts_from_a_Life_by_Roger_Scruton)

Aconselho-o vivamente! ...um Burke do Sec. xxi, e talvez o pensador mais influente de Cameron...


De Pedro Correia a 25 de Setembro de 2011 às 21:40
Também li o último livro dele - e gostei.


De monge silésio a 25 de Setembro de 2011 às 21:23
Sobre o novo livro...e sobre as vantagens do pessimismo

http://www.youtube.com/watch?v=Ytp1O_GF4lo


De Pedro Correia a 25 de Setembro de 2011 às 21:41
Agradeço a dica, Monge.


De Renato a 25 de Setembro de 2011 às 23:45
Por acaso, foi o cumprimento da lei, o amor pelo trabalho e o respeito pela hierarquia tão tipicamente alemães que deram o que a gente sabe... Nunca houve povo tão disciplinado. É arrogante, o tipo, mas este estilo tem muitos adeptos por cá. O pessoal baba-se com o estilo e a pose. O que é curioso, porque tenho a certeza que ele também considera os portugueses geneticamente impreparados para a civilização, tal como os gregos.


De Pedro Correia a 26 de Setembro de 2011 às 01:12
Com tantas certezas, não tarda muito também ainda há-de conceder uma entrevista. Verá que não demora.


De Renato a 26 de Setembro de 2011 às 10:20
Eu? quem é que me queria para dar entrevista? O Roger Scruton é que é a estrela pop, não eu. Eu, como qualquer europeu do sul, sou atabalhoado, utopista, desordeiro e não li os clássicos todos em grego e latim até aos dez anos. Se o Pedro conseguir o estatuto de visitante no clube privado do Scruton , pode levar-me comigo, para ver como é? Prometo que limpo os pés à entrada ;)


De Pedro Correia a 26 de Setembro de 2011 às 14:13
Ehehe. Grande resposta, Renato. Se há coisa que eu aprecio é o sentido de humor inteligente, como é o caso.


De Renato a 26 de Setembro de 2011 às 21:34
hehe I say, old chap, you are a good sport:).



De Pedro Correia a 26 de Setembro de 2011 às 22:25
Indeed.


De Nuno Oliveira a 26 de Setembro de 2011 às 18:37
E depois desta notícia, ainda tem a mesma opinião sobre o que esse senhor escreveu?
http://www.presseurop.eu/pt/content/news-brief-cover/981671-divida-oculta-da-alemanha

Se calhar, não...


De Pedro Correia a 26 de Setembro de 2011 às 18:43
Classifiquei a entrevista de "excelente" por ser estimulante. Roger Scruton obriga-nos a reflectir sobre temas incómodos, concordemos ou não com os pontos de vista que exprime. Este é, aliás, um dos problemas portugueses: debate-se pouco e mal, transpondo-se para a política a lógica clubística do futebol. Por vezes é refrescante receber o contributo dos debates alheios. Também por isso gostei do livro de RS e recomendo-o, embora não subscreva parte do que ele diz.


De Renato a 26 de Setembro de 2011 às 23:10
Pedro, todas as opiniões são "excelentes" se isso significa que são estimulantes. A mim, aquela entrevista estimula-me a chamar parvo (dick, in english) ao Scruton. Não se aprende necessariamente grande coisa com o estimulo, embora também aconteça muito.
O Roger tem todos os tiques da classe alta inglesa, aquela que lê o Spectator, do saudoso Boris Johnson, outro balão de ar quente, e eu não os suporto. Eu tomo o meu earl grey com um cheirinho de bagaço, como vê :)
Aquele frase, "Por debaixo do verniz civilizacional, todo o homem tem dentro de si um animal à espreita", é primária, literariamente pobre, repete o que já foi dito, muito melhor, milhões de vezes por outros muito melhores do que ele. O resto é igualmente primário. Não acredito que se possam resumir fenómenos sociais de forma tão "geométrica" como ele faz com os tumultos de Londres ou com as características dos gregos.

Os gregos estão a sofrer um tipo de stress que poucos ingleses ou alemães suportariam. É "fácil" sofrer quando se vê a luz ao fundo do túnel ou, pelo menos, quando se tem esperança, ou quando se compreende a causa porque se sofre. Não é o caso. A maior parte dos analistas fica perplexo perante estas medidas que, ao mesmo tempo que cortam drasticamente o consumo e o investimento, pretendem que a economia cresça. Quando o Roger e outros os querem isolar, quanto mais não seja pondo-lhes a bandeira a meia haste para as distinguir das outras, não admira que a maior parte dos gregos vejam o que estão a sofrer como um castigo e não me admira, por isso que muitos se revoltem nas ruas. Estou a falar de gente "normal", não dos marinheiros das docas do Pireu do folclore do Zorba.
Não entendi também o salto que, a propósito disto tudo, deu o Roger para a utopia para chegar finalmente ao totalitarismo. O que leva ao totalitarismo é a desagregação da Europa, e são as posições isolacionistas (e de outros como ele, a sul e a norte), que a facilitam. Essas sim, fariam retornar a Europa a épocas de nacionalismos e totalitarismos.
É preciso dar tempo ao tempo, dá muito trabalho e demora décadas, mas vale a pena. Isto tudo acho eu.


De Pedro Correia a 26 de Setembro de 2011 às 23:34
Renato, você diz coisas bastante pertinentes mas parece-me que foram precisamente estimuladas pelas teses do Roger Scruton. Isto vem ao encontro do que penso: muitas vezes quem pensa de forma diferente de nós consegue estimular mais a nossa capacidade argumentativa do quem se limita a debitar um discurso facilmente consensual. As teses dele sobre a Europa são deliberadamente provocatórias, segundo me pareceu, destinando-se precisamente a fomentar o debate. Lembra-se daqueles tempos, não muito recuados, em que quase nada se debatia sobre a integração europeia, aceite como um dos dogmas do nosso tempo? Tudo isso está hoje posto em causa.
Já a ligação que ele estabelece entre a utopia e o totalitarismo tem toda a razão de ser: os regimes totalitários do século XX tiveram uma matriz utópica, de construção do "homem novo", da "nova sociedade", do "novo império", da "nova cultura", da "nova raça". Nada mais ilusório, nada mais perigoso. Sinceramente, não sei até que ponto estamos vacinados contra essa tentação pelas lições da História.
Discorda você da frase "Por debaixo do verniz civilizacional, todo o homem tem dentro de si um animal à espreita". Repare: há precisamente cem anos, quando vivíamos o maior período de paz de sempre na Europa, os nossos avós e bisavós pensaram que o salto civilizacional entretanto conseguido nos punha a salvo de toda a barbárie. Foi um colossal engano: poucos anos volvidos, o homem matava o seu semelhante nas mais sangrentas batalhas de que há memória, com a mesma ferocidade dos nossos antepassados do paleolítico, na I Guerra Mundial, logo seguida da II Guerra Mundial. Nisto Scruton tem toda a razão: é demasiado ténue a camada 'civilizacional' que nos cobre. Não tenhamos demasiadas ilusões nesta matéria...


De Renato a 27 de Setembro de 2011 às 00:14
Pedro, a utopia de que fala o Roger é a da Europa do Jean Monet (ou do Miterrand, do Kohl,,,) não a do Napoleão, ou do Hitler. Será excessiva, provavelmente é, mas não se confunde com a outra. Será, quando muito, um excesso de confiança na paz e harmonia entre os povos. No máximo, leva ao aborrecimento geral, não conduz ao totalitarismo. A via mais rápida para o totalitarismo não é a união europeia mas sim, pelo contrário, os nacionalismos, a desagregação das nações. Isso vê-se, por exemplo, nos Balcãs. Falando na Grécia, também por lá há grupos, sobretudo ligados ao fundamentalismo ortodoxo, que pretendem voltar à pureza do helenismo, cortando com o resto da Europa, com excepção dos sérvios, seu tradicionais aliados. Esse foi sempre o perigo que correu a Europa.
Quanto àquela frase, eu não disse que está errada. É tão verdadeira como qualquer outro lugar comum e serviu já para explicar muita coisas e fizeram-se obras primas à sua volta. Apenas não me parece que esclareça grande coisa sobre o que se passou em Londres. Fica-se mais ou menos na mesma. Se a intenção do Roger foi estimular a discussão aqui do Renato com o Pedro, então está bem, é excelente :)


De Pedro Correia a 27 de Setembro de 2011 às 00:46
Não, Renato. A utopia de que Scruton nos fala - em termos naturalmente críticos - é mesmo a totalitária. Cito a frase, alargando-a e contextualizando-a: «O optimismo prejudicial é o desmedido ou, como disse o filósofo Arthur Schopenhauer, o optimismo mal-intencionado, inescrupuloso. É o tipo de pensamento que está por trás de todas as tentativas radicais de transformar o mundo, de superar as dificuldades e perturbações típicas da humanidade por meio de um ajuste em larga escala, de uma solução ingénua e utópica, como o comunismo, o fascismo e o nazismo. Optimismo e utopia em excesso geralmente acabam em nada, ou, pior, dão em totalitarismo.»
Gostaria de ter aqui deixado uma ligação para a entrevista publicada na 'Veja', de modo a que os leitores tivessem acesso à entrevista na íntegra, mas não me foi possível.
Quanto à construção europeia, Scruton é mais comedido. Mas sem nunca deixar de ser polémico - e estimulante precisamente por isso - ao considerar que se trata de "um objectivo inalcançável". Como sabe, muita gente pensa o mesmo, à esquerda e à direita. E os factos mais recentes parecem dar razão a estas teses, por mais incómodas que sejam.
Concordo consigo: a via mais rápida para novos totalitatismos é a emergência de nacionalismos um pouco por toda a Europa. Este fenómeno é inversamente proporcional ao da construção europeia. O problema é que a Europa sem fronteiras não pode ser construída à margem da vontade dos povos nem com as assimetrias actuais, que condenam todo este projecto ao mais estrondoso fracasso.


De Renato a 27 de Setembro de 2011 às 01:30
Pedro, a transcrição da frase sobre o optimismo e utopia e totalitarismo, segue-se a dois parágrafos onde se fala na loucura, ilusão e metafísica e que seria a União Europeia. Não tendo lido a entrevista, supus legitimamente que o texto final fosse uma conclusão sobre esse projecto da União Europeia. Mal comparando, revivi o slogan do droga, loucura e morte dos tempos da entrada em cena da coca-cola aqui na terrinha.
Quanto à vontade dos povos, não me parece que seja esse a razão de um possível fracasso da união europeia. A grande maioria, acredito, dá-se bem com a ausência de fronteiras. Pelo menos os mais velhos estão ainda bem recordados do que tinham antes, que era pior, e os mais novos já não concebem outra coisa. Falo só aqui de "vontade". Quanto às assimetrias, eram maiores antes, julgo eu. Recordo-me bem das condições de vida no "campo", a falta de tudo, cuidados médicos decentes, quase tudo. Agora, os nossos têm cuidados médicos tão bons (ou quase tão bons) como terão os camponeses na Holanda. Pelo menos em termos absolutos (não relativos), todos ganhámos muito. Insistindo nos gregos, apesar de tudo são poucos os que querem voltar ao dracma, ou os que querem a reposição das fronteiras.
"estrondoso fracasso", não me parece, Pedro. Mas vamos ver. Acredito que a crise seja conjuntural, ainda que a conjuntura possa demorar anos.


De Pedro Correia a 30 de Setembro de 2011 às 22:32
Não duvido, como é óbvio, dos inúmeros benefícios que a UE nos trouxe e da necessidade de agirmos em sintonia no mercado global frente aos restantes blocos geo-estratégicos. Também acredito que a crise é conjuntural, Renato. E defendo novos passos no aprofundamento da unidade europeia. Mas esses passos devem ser dados sempre no respeito pela vontade dos povos da Europa, não à revelia deles.


De Nuno Oliveira a 26 de Setembro de 2011 às 18:55
Pedro,

"Este é, aliás, um dos problemas portugueses: debate-se pouco e mal, transpondo-se para a política a lógica clubística do futebol. Por vezes é refrescante receber o contributo dos debates alheios."

No meu primeiro comentário o objectivo era criticar o conteúdo das declarações que escolheu salientar.
Fui "acusado" de fumar coisas estragadas, enfim.

Posso concordar que opiniões diversas possam ser estimulantes e, evidentemente, que conhecer os argumentos de quem diverge em opinião de nós mesmos contribuirá para o nosso enriquecimento pessoal e até, quem sabe, fazer com que detectemos falácias no nosso próprio argumentário, dando-nos a possibilidade não só de aprender algo útil como mudar de opinião e evoluir.

Continuo a não concordar com o conteúdo.
Era só o queria afirmar.
Sem clubismos.

E continuo sem fumar.

Abraço.


De Pedro Correia a 26 de Setembro de 2011 às 22:27
Enfim, isso teve a ver com aquelas suas frases iniciais: «Heil Hitler!! Gleich, mein Führer!» Percebo agora que continham alguma ironia, mas eu reajo mal a toda a banalização do nazismo. Nada que suceda agora, por pior que estejamos, se compara a esses tempos ominosos.
Quanto ao resto, cá estaremos para debater. Tenho todo o gosto nisso e aprendo sempre alguma coisa com quem discorda de mim.
Abraço.


De Helena Sacadura Cabral a 26 de Setembro de 2011 às 20:15
Meu caro Pedro
Permiti-me a ousadia de roubar e publicar citando domínio e autoria.
Este texto dá que pensar. A quem ainda pensa, claro!


De Pedro Correia a 26 de Setembro de 2011 às 22:29
Honra-me com esse amigável pedido de empréstimo, prezada Helena. É como diz: hoje pensa-se pouco e mal. Qualquer oásis neste deserto é sempre bem-vindo.


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