Terça-feira, 10 de Julho de 2012
por Pedro Correia

A economia, à escala europeia, conhece as monumentais dificuldades que todos sabemos. Apesar disso, ou talvez por causa disso, não tropeçamos numa pedra na rua sem vermos sair de lá meia dúzia de improvisados economistas carregados de soluções mágicas para solucionar todos os problemas. Que esses economistas de circunstância não tenham o menor conhecimento da ciência que dizem dominar é um pormenor de somenos: basta-lhes dois pós de retórica e três citações dos mestres da moda (Krugman, Roubini e Stiglitz) para debitarem as suas teses capazes de ressuscitar a prosperidade nesta Europa com a corda na garganta.

Faltam de repente dois mil milhões de euros para cumprirmos os compromissos acordados com os nossos credores internacionais? Não tem importância: proceda-se de imediato a cortes nos "cerimoniais do estado", proclama um destes improvisados génios da economia. Certamente convicto de que a poupança em amendoins e tremoços garante o passaporte automático ao pagamento de salários, pensões e prestações sociais à margem das estritas regras de disciplina orçamental impostas pelo acordo de assistência financeira negociado in extremis com as instituições internacionais que concedem crédito ao Estado português.

 

Andamos a brincar com coisas demasiado sérias, entretidos em oratória de salão, como se não víssemos as chamas a arder nas casas em redor.

Numa altura em que o sistema financeiro espanhol está em risco de derrocada.

Numa altura em que o Executivo de coligação entre socialistas e comunistas que governa a Andaluzia - a mais populosa região de Espanha - aprova a subida de impostos e a redução dos salários dos trabalhadores da administração pública.

Numa altura em que Chipre - único país da Europa com um Presidente comunista - solicita um auxílio internacional de emergência que deverá totalizar dez mil milhões de euros.

Numa altura em que o Governo italiano anuncia o despedimento de 10% dos funcionários públicos e a eliminação de mais de metade das províncias - numa reforma administrativa sem precedentes motivada pelo astronómico montante da dívida pública.

Numa altura em que até a França necessita urgentemente de cortar 43 mil milhões da sua despesa, admitindo-se já a redução de benefícios sociais e do número de funcionários, o que terá contribuído para a rápida queda de sete pontos percentuais da popularidade do novo inquilino do Eliseu, François Hollande.

Numa altura em que da Finlândia vem um aviso que deve ser levado em conta: Helsínquia recusa continuar a pagar as dívidas dos outros países que integram a zona euro. Outros países poderão em breve ameaçar fazer o mesmo.

 

Em Portugal, indiferentes à realidade circundante, os mais diversos protagonistas ocupam a todo o momento os púlpitos mediáticos em pose e tom de salvadores da pátria: propõem medidas populistas destinadas por um lado a colher aplausos fáceis enquanto por outro agravam os riscos da execução orçamental e condicionam ainda mais o que resta da nossa soberania.

Como se permanecêssemos mergulhados nos anos de ilusória prosperidade que conduziram à situação actual e a Europa, enquanto projecto de unidade económica e política, não estivesse hoje em sério risco.

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20 comentários:
De k. a 10 de Julho de 2012 às 12:18
Acho que no blog falhado do Passismo, se escreva isto:

"Em Portugal, indiferentes à realidade circundante, os mais diversos protagonistas ocupam a todo o momento os púlpitos mediáticos em pose e tom de salvadores da pátria: propõem medidas populistas destinadas por um lado a colher aplausos fáceis enquanto por outro agravam os riscos da execução orçamental e condicionam ainda mais o que resta da nossa soberania."

Quando tivemos (passado..) propostas como estas:

http://www.institutosacarneiro.pt/archive/doc/Medidas_para_reduzir_a_Despesa_Publica.pdf

Quando tivemos atitudes como estas:

http://economico.sapo.pt/noticias/chumbar-o-pec-e-empurrar-o-pais-para-a-ajuda-externa_113508.html







De Pedro Correia a 10 de Julho de 2012 às 13:38
Já que vem ao blogue que tanto gosta de visitar recomendar leituras, agradeço-lhe a gentileza e aproveito para lhe recomendar esta:

www.ionline.pt/portugal/historia-secreta-pedido-ajuda-troika-soares-levantou-veu-ele-nao-queria

E mais esta:

www.youtube.com/watch?v=hQT7CNQsqjA

Apareça sempre!


De k. a 10 de Julho de 2012 às 14:46
Fala-se de aclhos, e respondem-se bugalhos:

O PSD apresentou "medidas" populistas, e à primeira oportunidade criou uma crise politica que tornou a evitável vinda do FMI, numa certeza.

Respondem-me que o Soares convenceu o Socas a aceitar essa certeza.
Sim.
E..?


De Pedro Correia a 10 de Julho de 2012 às 15:02
Nunca presumi que reagisse tão mal às declarações do Dr. Mário Soares.


De Floriano Mongo a 10 de Julho de 2012 às 14:02
Tiro certeiro, meu caro. São os curandeiros do crescimento, inventores de fórmulas milagreiras e outros espantos que acreditam que enxurradas de tremoços curam défices e crises.


De Pedro Correia a 10 de Julho de 2012 às 15:04
Chipre, Itália, Espanha (nacional e regional), França. Os casos multiplicam-se: sem disciplina financeira não há soberania que resista. Com a Europa do norte a ameaçar - sem rodeios nem pudor - fechar a torneira.
E ainda vêm alguns falar de amendoins e tremoços...


De l.rodrigues a 10 de Julho de 2012 às 16:01
A crise do Euro já vai com 3 anos bem medidos. A crise financeira iniciada nos EUA vai com 5. Tem-se feito tudo o que a ortodoxia económica mandou. Mesmo países donos da sua moeda, como os EUA e o RU patinam presos que estão à obsessão da austeridade...

Vejamos, de um economista não se espera que diga "depois da tempestade vem a bonança". De um economista espera-se (esperar-se-ia) que diga qual o rumo a seguir para sair mais depressa da borrasca.
Mas curiosamente insiste-se em dar ouvidos aos mesmos que nos trouxeram ao abismo, uqe um dia antes do desastre diziam que estava tudo bem, e espera-se que seja deles que vem a solução. Que os mesmo qe afundaram pátrias agora se disponham a salvá-las.

E os que levantam o dedo e apontam para alternativas, para os erros de base, para os exemplos da história, são vilipendiados, são "uma moda". Isto roça a demência...


De Pedro Correia a 10 de Julho de 2012 às 23:22
Nem sempre acontece, mas nisto estamos de acordo. Sublinho esta sua frase: «Curiosamente insiste-se em dar ouvidos aos mesmos que nos trouxeram ao abismo, que um dia antes do desastre diziam que estava tudo bem, e espera-se que seja deles que vem a solução.»
Pois era precisamente aí que eu também queria chegar.


De l.rodrigues a 11 de Julho de 2012 às 10:40
Supeito que concordamos por não estarmos a falar dos mesmos. Eu falo de economistas, e só posso concordar com o Pedro Correia se estiver a falar de políticos.
É que nos últimos 20 anos no ocidente praticamente todos os políticos no poder deram voz e expressão a variações da mesma teoria económica errada. Na verdade até alguns dos economistas agora "da moda" a defenderam no passado. Só que não ficaram enquistados ...


De Pedro Correia a 11 de Julho de 2012 às 15:04
Continuamos de acordo. Com particulares responsabilidades, julgo eu, para os políticos que são também economistas - ou vice-versa. Mas não se pense que isto é um fenómeno apenas português, como aliás você sublinha (e bem).


De fado alexandrino a 10 de Julho de 2012 às 17:09
Cada coisa a seu tempo.
Primeiro resolver o caso Relvas, depois Hulk fica ou vai e em seguida o "bosão" apareceu ou não.
Prioridades.
Querer resolver tudo leva a não se resolver nada.


De Pedro Correia a 10 de Julho de 2012 às 23:25
Ninguém consegue fazer mais nem melhor gastando o que não tem. Por vezes é necessário sublinhar o óbvio. É o caso.


De eirinhas a 10 de Julho de 2012 às 19:05
Está-se mesmo a ver que o meu amigo não conhece aquela estória de grão a grão enche a galinha o papo.Será que 40.000 euros também é uma ninharia.Gostava de conhecer os resultados trazidos.


De Pedro Correia a 10 de Julho de 2012 às 23:24
Uma coisa sei: mais dívida e mais défice só agrava o problema. Governos liberais, conservadores, socialistas e até comunistas estão a agir em conformidade. Julgo aliás que hoje quase todos temos isso bem presente.


De l.rodrigues a 11 de Julho de 2012 às 11:08
O espartilho do Euro, tal como está configurado, obriga todos a suicidarem-se da mesma forma. Até ao momento em que sair já pareça menos mau do que ficar...


De Pedro Correia a 11 de Julho de 2012 às 15:05
Olhe que não, L. Rodrigues, olhe que não. Nem o Syryza, na Grécia, defende a saída do euro. A solução deve ser encontrada dentro da moeda única - e não fora. Sob pena de recuarmos aos problemas (e eram inúmeros) que tínhamos de enfrentar na década de 80.


De l.rodrigues a 13 de Julho de 2012 às 15:41
Não estou a defender a saída do Euro. Estou apenas a considerá-la inevitável se a Solução de que fala não for encontrada.
Essa solução só será credível com uma reconfiguração do Euro que não se me afigura nada fácil no clima corrente.


De Pedro Correia a 13 de Julho de 2012 às 18:06
Dizem que a política é a arte de encontrar solução para todos os problemas. Uma Europa que foi capaz de se levantar dos escombros da guerra mundial e de ultrapassar o pesadelo da Guerra Fria saberá também encontrar solução para os problemas actuais. Caminhando para a união bancária, a união financeira e a união fiscal.
Esta é a versão optimista, reconheço. Claro que não é a versão perfilhada pelo 'Financial Times', que chegou a vaticinar que nunca haveria moeda única na Europa e de 1999 para cá tem liderado o batalhão de detractores do euro. Percebe-se porquê: o mundo anglo-saxónico, fiel ao dólar e/à libra, a existência do euro é uma maçada - de um euro forte, pelo menos.


De eirinhas a 11 de Julho de 2012 às 11:58
PC
Obrigado pela resposta.Eu também tenho,e de que maneira,isso bem presnte. Defendo a poupança em todas as migalhas e fico danado quando vejo os nossos governantes fazerem-se acompanhar de grandes comitivas nas visitas ao estrangeiro,porque,além do mais,sei que vão gastar à conta do que,inconstitucionalmente,me subtrairam.E insisto que gostaria de conhecer o retorno dessas mesmas visitas.Numa boa parte delas,ganharíamos muito se se deixassem ficar por cá.


De Pedro Correia a 11 de Julho de 2012 às 15:06
De acordo, novamente.


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