Quarta-feira, 18 de Julho de 2012
por Luís Naves

Qualquer observação superficial feita de fora conclui com facilidade que os portugueses passam sem transição de estados eufóricos a profundas melancolias. A nossa política sofre do mesmo mal e o sistema mediático amplifica o fenómeno com a tese, porventura falsa, de que uma má notícia vende sempre mais papel.
Isto justifica a circunstância das análises políticas que vejo na TV ou leio na imprensa parecerem crescentemente desfasadas da realidade. O fenómeno é mais visível nas observações sobre Europa, mas começa a sê-lo também na situação nacional. Alguns autores, por exemplo, da blogosfera, deviam meditar sobre o que escreviam há um ano.

 

Num desenho animado dos anos 60, baseado nas Viagens de Gulliver, havia um grupo de liliputianos e, entre estas personagens, surgia um tal Glum, um pessimista crónico que nos momentos de maior perigo dizia invariavelmente "we're doomed" ou "it's hopeless", com uma voz arrastada de quem se sentia mesmo condenado ou de quem afirmava que qualquer esforço era simplesmente inútil.
Os pessimistas crónicos como Glum nunca são lúcidos. As suas previsões falham e os liliputianos salvam-se sempre, mas Glum fica na sua. Quando as outras personagens criam um mecanismo que pode resultar, lá aparece Glum, impávido, a dizer que não vai funcionar, "it'll never work". Glum é de longe a figura mais cómica do desenho animado.


 

Existe um lado patético e divertido nos pessimistas militantes. Veja-se a questão europeia, por exemplo: a última cimeira deu origem a uma série de decisões que mudam de forma substancial o rumo da zona euro, com um passo adicional na direcção da união política. Mas em vez de explicações sobre o que poderá isso implicar para o futuro, ouviam-se sobretudo previsões que apontavam para a destruição iminente do euro e expressões sarcásticas sobre a impotência dos líderes europeus. António Vitorino ou Teresa de Sousa foram dos raros comentadores nacionais que conseguiram explicar o que acontecera.

Na observação da situação nacional, os comentários são quase sempre de um negativismo absoluto. Segundo alguns, estamos a assistir ao fim da Pátria e a uma dissolução social em crescendo, a qual nunca se concretiza. A nuvem é constantemente confundida com Juno e uma manifestação de algumas centenas é sempre o povo a manifestar-se e o caos ao dobrar a esquina.

Estes mitos foram sobretudo alimentados pela esquerda do PS, que se colocou num labirinto de difícil saída. Ao fim de vários meses a martelar a profecia da desgraça iminente, torna-se impossível justificar qualquer sinal positivo. Isso implica a imediata desvalorização do indicador ou a sua omissão (há uma semana, o défice de 2012 ia para os 7,9%, não se lembram?). Por agora, esta opção vai funcionando, pelo menos enquanto durar a recessão, mas a melhoria da conjuntura parecerá um pesadelo, sobretudo para os socialistas e, entre estes, os que insistem em imitar Glum, a personagem dos desenhos animados.
Os políticos que continuam a apostar no afundamento têm apenas meses para mudar de táctica. O tempo também começa a encurtar para os comentadores que repetem à exaustão "nunca vamos conseguir" ou "estamos condenados". Em breve, alguns começarão a considerar que Pedro Passos Coelho afinal é credível, ou que Vítor Gaspar protagonizou a reviravolta e que, afinal, este Governo até acertou no alvo ao apostar na estratégia de ganhar tempo e fazer o "trabalho de casa" (adoro este lugar-comum). Dirão também que houve sorte à mistura e que parte do mérito se deve ao bom senso dos juízes do constitucional e também à tolerância do FMI, pois em relação à Alemanha, como sabemos, está tudo errado e devíamos apostar no crescimento e no federalismo e "we're doomed" se a senhora Merkel, essa tipa do leste...

 


tiro de Luís Naves
tiro único | comentar | gosto pois!

Regimento
outras cavalarias
tiros recentes
tiros mais comentados
cofre
tags
Arregimentados
Subscrever feeds