Terça-feira, 18 de Setembro de 2012
por José Meireles Graça

Camilo Lourenço encolhe os ombros, suspira, e diz: "Portugal não tem nem políticos nem cidadãos preparados para estar no Euro. É melhor assumir isso e negociar uma saída ordenada."


Bem-vindo, Camilo, a barca anti-Euro tem muitos lugares disponíveis - a quase totalidade dos seus colegas está no paquete pró-Euro.


Mas as suas razões, sabe, não são muito boas. É que, logo a seguir, afirma que "pode ser que, entretanto, tenhamos dado uma vassourada na miserável classe política que levou o país à falência três vezes em 34 anos". Ora, duas das falências foram com moeda própria, e delas se saiu com relativa facilidade. A terceira foi com o Euro e, como se vê, é seguro que dela não vamos sair com facilidade, se é que alguma vez sairemos em nossas vidas.


Sucede que, sendo relativamente fácil mudar de políticos, não se pode mudar de Povo. E ao povo foi prometido por toda a gente, com exclusão dos comunistas, um CDS hesitante e dois ou três colegas seus, que uma moeda de ricos era o caminho mais seguro para ficar ... rico. Agora, parece que era preciso fazer também uma data de outras coisas, de que ninguém se lembrou na altura. No intervalo, os cidadãos endividaram-se entusiasticamente, com a benção do Estado, da Banca, das instituições europeias e da sua classe. Críticas às políticas seguidas houve, mas avulsas - e disso há sempre.


Sem Euro, teríamos falido pela terceira vez à mesma. Mas nem a dívida pública seria tão grande, nem muito menos a privada - os credores teriam aberto os olhos mais cedo.


Os políticos têm grandes culpas, mas boa parte deles é genuinamente europeísta e não se tem culpa por ter opiniões, mesmo que condenadas. E não é razoável querer que os políticos ponham nas prateleiras do supermercado das ideias teses que não vendem. O europeísmo vendia (a "Europa connosco", ou lá o que era) e vendia também porque os economistas, sacerdotes das crenças do nosso tempo, acreditavam no milagre da engenharia da moeda e na "Europa" do leite e do mel.


Ainda acreditam, pela maior parte, com a condição de sermos governados por gente loira - o Povo não presta, não é verdade?


O Senhor perdoa se houver arrependimento, dizem os católicos. Eu, que não sou católico, entendo que, sejam quais forem os motivos, não é preciso fazer mea-culpa, mesmo que ela seja mais do que recomendável.


Bem-vindo, Camilo.


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