Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2013
por José Meireles Graça

O nosso pano de fundo é simples: A dívida pública continuará a crescer enquanto houver um Euro de défice. E como o País está ligado à máquina, o dono dela impõe as suas regras, que são simples - apertem o cinto, desliguem a luz, emigrem, vão plantar batatas ou pedir para as esquinas, mas mais arame não, que o nosso apoio é um negócio, não uma obra de beneficência.

 

Depois vêm as complicações: ai o que interessa não é o que devemos, é a capacidade de ganhar para pagar - precisamos de crescer; ai se a gente não tivesse que pagar juros, ou eles fossem reduzidos, e pudéssemos pagar mais devagar - 30, 40, 50 anos - a coisa nem se notava; ai Chefe, não somos só nós, há por aí uma quantidade de caloteiros potenciais que estão a assobiar para o lado, a fingir que não vão pelo mesmo caminho. E como são muito maiores do que nós, ou o Chefe se põe manso ou nós damos com os burros na água e atrás de nós vão eles - e aí é o Chefe que também afunda, que não há que chegue para tanto caloteiro; ai que precisamos é de restaurar a agricultura, e a indústria, e as pescas, e olhar o mar - o mar das 200 milhas, do qual a República Checa tem grande inveja.

 

As complicações são, como a palavra deixa entender, complicadas. Há quase quatro décadas que o País vinha perdendo velocidade, até que parou e, de momento, está fazendo marcha-à-ré. A cornucópia dos biliões da defunta CEE, a massiva "aposta" na educação, na formação profissional, nos equipamentos públicos (Depósito de Água de Belém, Caixote Musical do Porto, Exposição de Masturbações 98, estádios do Euro, Pavilhões Multi-Calotes por todo o lado, et j'en passe) deram: a "geração mais bem preparada de sempre", presentemente a enriquecer com o seu trabalho outras paragens; a indústria dos subsídios para disfarçar o desemprego, alimentar empresas, umas inúteis, outras falidas, outras que não necessitavam de qualquer apoio, e ainda para sustentar gabinetes, centrais sindicais e outros luxos; e a erecção de monumentos e a promoção de eventos ligados à Cultura, ao Desporto, ao Lazer, tudo "investimentos" públicos que se distinguiram - e distinguem - pela característica um tanto contraditória de gerarem despesas e não retorno.

 

O Plano Marshall, que algumas almas puras reclamam do Altíssimo, resolvia sem dúvida os nossos problemas, por mais uma geração. Já o investimento público de alguns lunáticos da extrema-esquerda, e de alguns cínicos do PS, mesmo que fosse viável, seria mais do mesmo: eles são os mesmos, e nós também.

 

A ideia de fazer finca-pé na redução dos juros não é má. Tem o defeito de, como aqui se explica, não resolver nada. O reescalonamento tem uma qualidade e dois defeitos: a qualidade é o alívio das nossas dificuldades; os defeitos são o adiar da reforma do Estado e propiciar o regresso às fantasias que nos trouxeram aqui. Não dão algumas sondagens a maioria ao PS? Quod erat demonstrandum.

 

Para a ideia de estourar com tudo, forçando a mão à UE, requerer-se-ia um governo dos comunistas, uma ditadura nacionalista, ou a consciência difusa de que o Euro e a UE fazem parte dos nossos problemas, não das soluções. Não há povo, e menos ainda classe dirigente, para nada disso.

 

O mar está aí, bem vivo nos discursos. E requer investimento privado, que o Estado afugenta, ou investimento público, para o qual felizmente não há crédito. Vai continuar nos discursos, o lugar natural das irrelevâncias.

 

Resta o lamentável Governo que está. Pusilânime e promíscuo com interesses ilegítimos, liberal na medida em que lhe forçam a mão, hiper-intervencionista na economia, completamente alheio à realidade das pequenas empresas, sem ter sequer a humildade de as deixar em paz, intrometido nas casas e nas vidas das pessoas, recheado de personagens, desprezíveis umas, ignorantes outras, revoltantemente subserviente às luminárias europeias, e não apenas na medida da necessidade - chega?

 

Chega. Porque quem não tem cão caça com gato; e, dadas as alternativas, atrás de si viria quem de si bom faria. Entretanto, no que à sorrelfa quase toda a gente aposta é que a Europa descalçará esta bota. É o bom que tem ser empregado: o verdadeiro responsável é o patrão.

 

Escusam assim alguns blogueiros que são ou se imaginam de direita de se absterem de verberar o que vejam como erros, omissões e defeitos - não fazem trabalho útil nem são necessários, o que tiver que ser será. E, para todos, um módico de humildade aconselharia a não dar como adquirido que o caminho dos cortes na despesa pública, sem mais, proporcionará as condições para o crescimento antes de o País estar num caco. Essa certeza, na qual gostava de acreditar sem reservas, tem a virtude de ser a oposta da fé esquerdista na capacidade demiúrgica do Estado. Mas o oposto do erro não é necessariamente o acerto: há muitas maneiras de errar. E de certezas de economistas só os insensatos não estão fartos. 

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2 comentários:
De Ilídio Neves a 21 de Janeiro de 2013 às 22:40
Às vezes as palavras saem-nos sem darmos conta e os resultados podem não ser bons. Já reparou nas expressões «lamentável governo (...) recheado de peronagens, desprezíveis umas, ignorantes outras, revoltantemente subservientes às luminárias europeias»? Como vai enquadrar este naco de prosa apaixonado e vituperante, agressivo e incendiário, furibundo e destrutivo, no conceito, sem dúvida exigente para quem escreve, de análise racional e objetiva, de ponderação serena e fundamentada?


De José Meireles Graça a 22 de Janeiro de 2013 às 03:31
Concedo que há algum exagero retórico. Porém, para cada uma das afirmações lembro-me pelo menos de um governante, que aliás pode acumular. E, para o governo seu conjunto, creio que muitos cortes na despesa foram inexplicavelmente adiados até ao ponto em que os credores deram as suas ordens; a punção sobre os contribuintes ultrapassou os limites do tolerável; e desde o princípio houve, e continua a haver, uma indesculpável benevolência no trato com plutocratas, um acumular de erros na previsão económica que só tem paralelo na suficiência com que são feitas, e um clima de bom entendimento com os burocratas da UE que, a mim que não sou europeísta, me incomoda. E como não sou nem serei candidato a nada, me são razoavelmente indiferentes as opiniões e as modas de pensamento que andam no ar, e tenho um respeito moderado por autoridades, sejam de que tipo forem, posso bem dar-me ao luxo de, aqui e além, me deixar ir numa ou outra hipérbole. Cordiais cumprimentos.


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