Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2013
por José Meireles Graça

Somos quase todos mentirosos. Mas temos desculpa: Os partidos raramente dizem ao que vêm; os senadores da influência raramente dizem ao que vêm; as centrais que se imagina representam os trabalhadores e as que se imagina representam os patrões parecem dizer ao que vêm; na Presidência da Republica raramente se diz ao que se vem, e também no Parlamento, nos jornais e até mesmo aqui na blogosfera.

 

Comecemos pelos partidos: O PCP é o campeão dos destituídos, dos perdedores, dos desempregados, dos fracos, numa palavra, dos de baixo, e ao serviço teórico deles denuncia abusos, prepotências, desmandos, ganâncias, patrões, capitalistas e, em geral, a patente falência dos sucessivos poderes que nos trouxeram a este passo.

 

O BE nunca foi, nem é, mais do que uma federação lunática de comunistas com falta de sentido prático e horror à disciplina do PCP, universitários amantes de causas e contestatários sortidos. Numa situação revolucionária seriam compagnons de route e, depois, se bem-sucedida para a esquerda, emigrantes, desaparecidos, ou ovelhas do rebanho.

 

O PS é o principal autor da "aposta" sôfrega na Europa do ami Mitterrand, do Euro, do seguidismo pateta de quanta modernidade alienígena brota das cabeças da casta apátrida de Bruxelas, e do intervencionismo estatal na economia. Este último numa versão latina em que o político sabe sem sombra de dúvida o que são e não são investimentos que interessam ao País, não apenas com dinheiro público para investimentos públicos, mas também com dinheiro público para investimentos privados, num caso e noutro tendo gasto liberalmente não apenas o que conseguiu extorquir ao contribuinte exangue mas também aos que ainda estão para nascer até não se sabe quantas gerações para a frente.

 

O PSD é o PS com mais mundo, mais amor a um módico de rigor nas contas, menos ingenuidade na gestão da economia e, dentro da complexidade dos baronatos e das teias de interesses, com uma corrente liberal que ora tem alguma, ora pouca ora nenhuma importância.

 

O CDS começou por ser o partido do qual se suspeitava fosse o antro onde se acolheram todos os saudosos do antigamente; e, passada essa fase, viveu sempre dividido entre a falta de popularidade das soluções em que realmente acredita e a necessidade de não desaparecer: o socialismo, desde há quase quarenta anos, vende; a liberdade económica, a competição e o nacionalismo, mesmo que aggiornato, não. E ser o MRPP da Direita seria talvez muito digno mas de utilidade prática discutível.

 

Vai daqui ninguém diz o que pensa:

 

O PCP tem a capacidade de fazer uma sociedade comunista, sabe como fazê-la e acredita que a nossa bonomia e o conhecimento de algumas violências mais notórias da implantação do regime noutras paragens permitiriam evitá-las. Tudo o que faz e diz é, mesmo quando circunstancialmente tem razão, instrumental quanto a este propósito. E por isso mente.

 

No BE há alguma gente ingénua ao ponto de acreditar naquilo que diz. Os mais lúcidos, porém, sabem que levar muito mais longe o esbulho fiscal dos "ricos" é matar de vez o pobre capitalismo indígena, juntamente com a esperança de algum investimento estrangeiro. E a receita delirante de impor condições aos credores, associada à completa falta de credibilidade dos seus dirigentes, não faria mais do que mergulhar o País num insondável buraco. Por isso o BE vai fazendo prova de vida, ecoando o PCP numa versão com camisa de marca e com dois botões desapertados. Finge que não é objectivamente um compagnon de route do PCP. Mente.

 

O PS parece ser um caso clínico, do foro psiquiátrico, na variedade comportamento maníaco-obsessivo: tem a cabeça esbotenada por ter com ela batido numa parede, mas, ao invés de consertar a cabeça, os seus próceres recomendam doses reforçadas de cabeçadas, indo as feridas sarar por efeito de habituação. Mas é claro que, a despeito das aparências, o PS tem uma ideia de solução, que consiste nisto: Portugal passa permanentemente a ter o mesmo grau de independência do Arkansas. Porém, ao contrário do Arkansas, não sofrerá consequências pelas derrapagens das contas públicas porque o orçamento federal fará transferências para cobrir os défices. Ora, o PS não apresenta a coisa assim. E por isso mente.

 

O PSD encetou a tarefa de reduzir a obesidade do Estado. E mesmo que tivesse arrastado os pés; ainda que deixasse para trás muito corte de gente que não berra na rua mas berra ao telefone e nos gabinetes; tendo levado a fiscalidade que se vê para níveis demenciais; e tendo levado a fiscalidade que não se vê, que é a das prepotências, abusos e extorsões da Administração Fiscal, para níveis criminosos: reduziu a despesa, antes dos juros, para níveis respeitáveis. Todavia, vem anunciando a retoma para anteontem, ontem, e para a semana. E sabe muitíssimo bem que não são seguros os anúncios, nem, quando ela vier, será suficiente, como aqui se explica. Mas isto não diz, e por isso mente.

 

O CDS também mente. Mesmo agora, quando o edifício do regime vive ligado a uma máquina, nem por isso deixou de viver em estado de necessidade: tem que fazer o que quer mas também o que não quer porque não é o principal responsável pelo Governo do dia. Mas não pode ser franco - perdoar-se-me-á a parcialidade de dizer que mente por necessidade, porque teme que abanar o edifício não trouxesse nenhum proveito ao País, e menos ainda a si próprio.

 

As centrais sindicais fingem antes de mais que não são uma correia de transmissão dos partidos. Claro que são, e quem precisar que se lhe o demonstre ou não vive em Portugal ou não está em condições de entender a explicação. E as centrais patronais são clubes de amigos que esperam ganhar notoriedade e relações úteis para a vantajosa mecânica dos subsídios, dos licenciamentos e do abrir de portas. Umas e outras colaboram alegremente no teatro social. Que só não digo que é uma farsa porque tanto os actores quanto os espectadores (estes mais) parece que acreditam na peça.

 

Na Presidência da Republica passam-se coisas que só se sabem quando se diz que se passaram; cada discurso do Presidente é um manancial de "mensagens", "recados", "avisos" e "preocupações", que cada qual interpreta do modo que lhe dá jeito. Isto é o menos, que nem a transparência é um valor necessariamente estimável em certas funções nem os discursos de circunstância merecem grande atenção. Mas Cavaco Silva diz sempre que sabe qual é o caminho. Eu acho que não sabe. E por isso mente.

 

Razões por que, no meio de tanta mentira, não é demasia esperar que cada qual encontre a sua verdade.

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2 comentários:
De André Miguel a 5 de Fevereiro de 2013 às 20:56
Mas que grande posta!
Faço a devida vénia a tão brilhante retrato do país.


De José Meireles Graça a 6 de Fevereiro de 2013 às 01:51
Obrigado, André, muito obrigado pelo exagero - fico contente.


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