Sábado, 9 de Fevereiro de 2013
por André Miguel
Camões terminou a sua epopeia com a palavra "inveja", como que atestando ad eternum, quiçá, a nossa pior característica enquanto povo. Invejamos especialmente o sucesso e a prosperidade, elegendo como alvo preferencial essa classe ignóbil que são os ricos. Invejamo-los não porque desejemos ser como eles, mas antes que eles fossem como nós: pobres. O português não quer ser como o rico, prefere que o rico fique pobre.

Isto jamais aconteceria numa sociedade onde fosse fácil e atingível enriquecer, onde o mérito fosse premiado e recompensado. É tarefa hercúlea enriquecer em Portugal. Até a cultura popular o atesta dizendo que "quem cabras não tem e cabritos vende de algum lado lhe vem". Por todo o nosso colectivo existe a imagem, bastante palpável, de que sem as ligações certas ou por meios obscuros dificilmente se enriquece em Portugal. Quem não nascer em "berço de ouro" parece condenado à partida à sua condição social, sendo que os poucos que nele nascem parecem tudo fazer para não terem sombras de outrem ao seu status quo, pois afinal o respeitinho é muito bonito e a concorrência só é salutar no futebol. Mas apesar de tudo, felizmente, existem (alguns poucos) ricos em Portugal, por isso apelamos a uma maior igualdade na distribuição de rendimentos, de preferência sob a batuta de sua santidade o Estado: que os pobres sejam menos pobres e os ricos menos ricos; que se apoiem os primeiros com os impostos sobre os segundos. Pelo Estado se enriquece, pelo Estado se empobrece.

E assim emigramos, procurando ser lá fora como os ricos que diabolizamos cá dentro. Enquanto não existir a liberdade de fazer escolhas e de assumir as suas consequências pela procura da prosperidade, sem o empecilho de um Estado controlador e manipulador, dificilmente o panorama irá mudar. Por isso emigramos, procurando e encontrando lá fora a riqueza e prosperidade que nos é negada cá dentro. Porque sabemos que a distribuição e a igualdade não funcionam, mas enquanto não assumirmos que sem criação de riqueza a única coisa a distribuir é pobreza estaremos todos condenados a esta última.


(*) Tucídides, As Guerras do Peloponeso


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7 comentários:
De Tiro ao Alvo a 9 de Fevereiro de 2013 às 16:37
Escreveu "quem cabras não tem e cabritos vende de algum lado lhe vem", mas eu apreendi assim:"quem cabritos vende e cabras não tem, de algures lhe vem", forma que, pelo menos, acho mais bonita e que será sempre válida. Sobretudo nos tempos que correm. Acho eu.


De André Miguel a 9 de Fevereiro de 2013 às 16:50
Deve ter razão, não sou lá muito dado a ditados populares, por isso não me recordava ao certo.


De Alexandre Poço a 9 de Fevereiro de 2013 às 18:59
Excelente texto!

Um abraço


De André Miguel a 9 de Fevereiro de 2013 às 20:19
Obrigado Alexandre!

Abraço,


De Algarvio a 14 de Fevereiro de 2013 às 06:52
" Quem não herda nem rouba toda a vida é um merda!"
Talvez não conhecesse esta.

Ou ainda esta: " A corrupção em Portugal é endémica e vem desde Afonso Henriques." - Marcelo Rebelo de Sousa,


De Algarvio a 14 de Fevereiro de 2013 às 07:55
Já agora algo de, salvo erro, 2008 ou 2009. Na 1ª pág, de um diário, não lembro qual, em letras garrafais: " Atraso português deve-se a baixas qualificações dos trabalhadores."
Mais ou menos na mesma altura nas pág. INTERIORES numa caixinha perdida entre curiosidades de um suplemento económico: " Estudo de organismo estrangeiro, (não fixei nem o organismo nem o suplemento), conclui que atraso português se deve à fraca qualidade das elites económicas". Ou seja que o diminui os trabalhadores vai de 1ª pág. se, como no caso se refere às elites, aí vai na maior discrição no meio de historietas.
Convém lembrar que além da inveja outra característica da portugalidade é o nojo das classes populares e do trabalho. Uma ilustração - amiga, ex militante MRPP, comentando sobre alguém que conhecera recentemente: - "É electricista! É electricista MAS é um gajo porreiro". Por sinal o avô desta amiga foi padeiro numa ex colónia o que permitiu alguma ascensão social e até já ostentam apelidos compostos divididos por um "de". Pelo menos simbolicamente a ascensão social até é relativamente fácil em Portugal. E vai logo ao ponto de informar de forma subliminar uma origem aristocrática. Lembro também nos últimos 20 anos a proliferação de nomes como Gonçalo e Martim. Acho que agora a praga são os Santiago e as Benedita. Ainda virá o tempo das Urracas e das Sanchas. Noblesse oblige!


De André Miguel a 14 de Fevereiro de 2013 às 19:08
Talvez mais que a fraca qualidade das nossas elites seja a ausência de verdadeiras elites. Temos défice de líderes e quando assim é acontece tudo o que estamos aqui a comentar.


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