Domingo, 21 de Julho de 2013
por Luís Naves

 

(Texto publicado também aqui)

 

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Tenho o hábito de discordar de Pedro Marques Lopes (PML), mas a segunda parte deste artigo deixou-me perplexo. O comentador cita uma frase do primeiro-ministro e conclui que este não tem condições para se manter no cargo.
A frase de Passos Coelho citada é a seguinte: "O País precisa de quem não acalente a fantasia de uma súbita e perpétua vontade de o Norte da Europa passar a pagar as nossas dívidas provavelmente para sempre". A finalizar o seu comentário, Marques Lopes atribui ao primeiro-ministro uma “profunda ignorância sobre as causas da crise europeia e portuguesa”. Rendi-me, incrédulo. Seria útil uma explicação sobre as causas da crise, segundo quem não tenha a tal profunda ignorância.
Transcrevo a parte do artigo de PML que interessa:
«Digamos que estas palavras proferidas na Assembleia da República e repetidas no Conselho Nacional do PSD já indicavam que as negociações estavam condenadas. Mas isso seria o menos. O que esta afirmação indica é uma profunda ignorância sobre as causas da crise europeia e da portuguesa, exibe que Passos Coelho é uma espécie de porta-voz da tese que defende que os portugueses são uns preguiçosos que vivem à custa dos trabalhadores do Norte da Europa, mostra um fundamentalismo ideológico capaz de fazer corar a sra. Merkel, reproduz a vergonhosa conversa do viver acima das possibilidades. Bastavam estas palavras para percebermos que Passos Coelho não pode continuar como primeiro-ministro de Portugal".

 


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Sexta-feira, 19 de Julho de 2013
por Luís Naves

Escrevo no momento em que os três partidos que assinaram o memorando de entendimento estão na fase crucial da negociação de um acordo chamado de ‘salvação nacional’. O resultado é ainda incerto, mas queria deixar aqui algumas ideias sobre a crise política, apesar do post poder ficar desactualizado em poucas horas.

 

Tanto quanto se sabe, o que separa os partidos é a ‘reforma do Estado’, ou seja, os 4,7 mil milhões de euros de cortes na despesa pública. Em resumo, este acordo tem no seu osso a questão do segundo resgate.
Se Portugal conseguir cortar na despesa num montante de 4,7 mil milhões de euros, terá concluído o ajustamento. A equação é simples: com o corte, teremos contas públicas sustentáveis; se falharmos, o segundo resgate é inevitável.
Muitos portugueses têm sido mal informados sobre as exigências da troika. Para atrairmos investimento externo e podermos ter crescimento económico e emprego, necessitamos de equilibrar de forma sustentável a balança corrente e o orçamento. O primeiro indicador já é excedentário, o segundo precisa ainda do corte de 4,7 mil milhões. São quase 3% do PIB, ou seja, um pouco mais do que o actual défice estrutural. Mesmo assim, no final do ajustamento, teremos concluído um programa com metade de impostos e metade de cortes na despesa.


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Quarta-feira, 17 de Julho de 2013
por Luís Naves

Estamos todos um bocadinho cansados da política e desiludidos com as elites, por isso, talvez mais cínicos, incapazes de vislumbrar um passe de mágica que de repente possa consertar tudo à nossa volta.
Os comentadores mediáticos não ajudam a descodificar a realidade. Muitos nunca souberam (ou não quiseram) explicar à opinião pública a camisa de varas em que estamos presos. Daí que se mantenham tantas ilusões sobre a culpa dos credores ou a simplicidade das alternativas. Os portugueses continuam a acreditar que o Estado não está falido e que bastaria gastar umas verbas (inexistentes) para criar milhões de empregos.
O comentário tem sido dominado por políticos profissionais e nunca percebemos se estão a analisar a situação ou enviar recados. Os factos são escolhidos conforme dá jeito. Um exemplo: o boletim do Banco de Portugal divulgado ontem tinha várias notícias assim-assim, dissecadas ao pormenor pela legião de comentários, e incluía uma boa notícia, que foi quase ignorada.


Refiro-me às previsões para a balança corrente e de capital, que são de tal forma inéditas, que é preciso olhar duas vezes para elas, esfregar os olhos e pasmar. Pois esse indicador, em 2013, poderá atingir 4,5% do PIB, positivos, e 6,4% no próximo ano. Não há memória de algo assim.
Fala-se muito no défice orçamental, que inclui o pesado lastro da dívida, mas menos no desequilíbrio externo, cuja componente mais importante tem sido esta balança, agora excedentária. Em 2008, foi de 11,1% do PIB, negativos, e em 2010 de 9,4%, também negativos, o que atesta bem o descalabro do governo anterior. Foi preciso financiar estes défices gigantescos e o País endividou-se de forma rápida. Se a previsão se confirmar, isso quererá dizer que, durante o ajustamento, a balança corrente melhorou 14 pontos percentuais de PIB, o que significa que o programa está quase concluído. Deixámos de nos endividar e parece haver condições para pagarmos a dívida no futuro.
Os que detestam as boas notícias lembram que isto foi conseguido à custa da quebra de importações e do colapso do consumo. Certo, mas havia outra forma? As pessoas adaptaram os seus padrões de consumo e, mesmo que agora muitos portugueses comecem a abrir os cordões à bolsa, os valores parecem ser sustentáveis. Eles são até um bom argumento para diferir os efeitos da reforma do Estado, os famosos 4,7 mil milhões que estão na origem da crise política.

 

Também aqui


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Sábado, 13 de Julho de 2013
por Luís Naves

A factura dos juros da dívida é um peso que nos leva para o fundo, tornando mais difícil equilibrar as contas públicas durante uma recessão já de si muito pronunciada.
Mas esta notícia, que está a passar de forma tão discreta, mostra bem o significado de ser um ‘bom aluno’ na crise das dívidas soberanas. A extensão das maturidades, que a oposição tanto desvalorizou quando estava a ser negociada, afinal representa uma poupança imediata da ordem de 2 mil milhões de euros anuais. Este dinheiro poderá ser usado no pós-troika para outros fins, por exemplo, redução de impostos, em vez de ser gasto em pagamentos de juros da dívida monstruosa que acumulámos (mais dinheiro do que gasta o maior ministério).


A notícia significa que, nos próximos dez anos, o País empurra com a barriga o pagamento de 23 mil milhões de euros, que poderá gastar na emergência económica.
Podia acrescentar-se que o mecanismo beneficia dois países cumpridores, Portugal e Irlanda, sendo surpreendente a redução em 17% da verba que estava em pagamento. É possível insistir no copo meio vazio, sublinhando que não existe perdão e que vamos mesmo pagar a dívida: mas uma coisa é pagá-la quando se anda a contar os tostões, outra é esperar por 2023, quando a situação for bem diferente.
Em resumo, este Governo está sob a ameaça de ser substituído no exacto instante em que começam a surgir notícias como esta, os primeiros indícios de recuperação lenta. Isto torna ainda mais incompreensível a crise política.

 

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Sexta-feira, 12 de Julho de 2013
por Luís Naves

Ao longo dos últimos meses, foi criada uma onda anti-parlamentar que começa a dar frutos. Algumas dezenas de pessoas manifestam-se nas galerias do parlamento e ninguém acha isso mal, embora seja um exemplo cru de atitude anti-democrática. Os deputados não podem ser pressionados dentro do edifício que simboliza a democracia, muito menos por um grupo organizado.

Foi neste terreno propício à contestação do parlamento e dos partidos que surgiu o apelo do Presidente Cavaco Silva, que desencadeou entre muitos comentadores a defesa do presidencialismo ou de homens providenciais que possam tomar o leme do executivo.


A criação de um clima anti-parlamentar está a transformar-se em contestação aos próprios partidos. Fazendo a síntese de muitas opiniões que tenho lido, a tese é a seguinte: os partidos são incapazes de recrutar gente competente, por isso é necessária uma reforma que reduza a sua importância no sistema.
Segundo alguns autores, o governo de iniciativa presidencial é a consequência natural de um parlamento sem soluções.
A menorização do parlamento vem geralmente associada à ideia da decadência: segundo dizem todos estes autores, os políticos são cada vez menos competentes e esta geração não se compara às anteriores.
Embora seja fácil encontrarmos exemplos que desmentem a ideia, ela continua a fazer um caminho sem contestação. E, no entanto, se olharmos com cuidado, os políticos de hoje são muito semelhantes aos de ontem.

 

     


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Quarta-feira, 3 de Julho de 2013
por Luís Naves

I

O sismo foi inesperado e seguiu-se um tsunami, com duas consequências imediatas: eleições legislativas, provavelmente no início de Setembro, seguidas de um segundo resgate quase inevitável.
Nas eleições, a abstenção será enorme, introduzindo grandes erros nas sondagens. O cenário mais provável, julgo, é o de vitória do PS com maioria relativa e derrota estrondosa do PSD, mas com os dois partidos condenados a entenderem-se. O parceiro menor da futura coligação (certamente o PSD) entra logo em guerra civil.
Enfim, isto parece apesar de tudo mais estável do que uma coligação entre socialistas e Paulo Portas, que ontem cometeu provavelmente o maior erro da sua carreira.

Portas tem o sonho de liderar o centro-direita e a demissão foi um golpe letal no maior adversário, o PSD, que está carregado de feridas internas não cicatrizadas. Passos Coelho é a partir de agora um líder de transição e o seu possível substituto, por exemplo Poiares Maduro, não teve ainda tempo para consolidar a posição e terá de reunir apoio dos outros barões, mas a facada do CDS torna isso mais fácil.
Um governo PS-PSD de dois anos implica impopularidade adicional para o bloco central (a radicalização adicional da política portuguesa) e o CDS conta ocupar parte desse espaço, tornando-se, a prazo, maior do que o PSD.
Entretanto, este último tem uma dificuldade imediata: o que fazer nas autárquicas? Continuar as alianças autárquicas com o CDS não faz sentido, romper essas coligações terá custos eleitorais importantes.

 


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Terça-feira, 2 de Julho de 2013
por Luís Naves

Portugal está hoje mais perto do segundo resgate do que estava ontem. Esta é a primeira consequência da saída do ministro Vítor Gaspar. Não há novo alento, apenas perigos e estreitar de margens.
Reconheço a validade de muitas críticas feitas a Vítor Gaspar, nomeadamente ter subestimado os efeitos perversos da austeridade, mas o ministro conseguiu credibilidade externa, o que colocou Portugal no caminho da Irlanda, evitando que o País percorresse o da Grécia.
A saída de Gaspar representa o triunfo dos grupos de interesses e dos lóbis, o avanço das corporações profissionais instaladas, dos negócios subsidiados, o sucesso da república dos juízes e da república dos comentadores políticos, a vitória das tácticas partidárias destrutivas e de movimentos sociais não eleitos.


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Quinta-feira, 27 de Junho de 2013
por Luís Naves

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Em tempos de crise, as pessoas gostam de rituais, tais como greves gerais e procissões para fazer chover. Eles ajudam a tranquilizar as consciências, embora por si não tragam qualquer mudança na crueldade da penúria.
Sendo para mim impossível fazer greve, tenho dificuldade em compreender as afirmações piedosas daqueles para quem o protesto se destina a defender o emprego.
Também não compreendo as indignações com o escrutínio dos sindicatos. Esta é uma polémica lateral, mas reveladora: uma recente pergunta de deputados social-democratas sobre o eventual financiamento público dos sindicatos de professores gerou uma tempestade de críticas. Habituámo-nos a ter agentes políticos que ninguém questiona. Não apenas sindicatos, mas associações patronais, de facto todos os parceiros sociais. Quem são, quem representam, quem os paga? Perguntas proibidas. Qual a legitimidade destas organizações ou a sua transparência interna? E qual a razão de serem tão escutadas? Perguntas impossíveis, num País onde muitos comentadores afirmam, sem contraditório, que o próprio Governo eleito perdeu a legitimidade.

 


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Terça-feira, 11 de Junho de 2013
por Luís Naves

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Em 1920, um governo português durou cinco minutos. Na madrugada de 16 de Janeiro, foi formado um executivo chefiado por Fernandes Costa (uma espécie de Vitor Gaspar do seu tempo), mas os radicais boicotaram essa ascensão das formações que emanavam da direita do partido republicano. Na manhã de 16 de Janeiro, houve tumultos em toda a cidade de Lisboa e, quando os ministros se reuniram no gabinete do chefe de governo designado, a multidão entrou no edifício (hoje, o Ministério das Finanças) e impediu a tomada de posse que se preparava. A reunião dos futuros ministros durou cinco minutos. Este episódio revela a facilidade da criação de climas pré-insurrecionais, mas também a fragilidade de regimes que se submetem à força dos mais barulhentos, aqueles que sempre aos gritos se reclamam ‘a maioria’. Sabemos como acabou a Primeira República e como acabaram as facções moderadas (o pior estava para vir).
Vivemos hoje num regime muito mais democrático e estável do que a I República, ancorado na NATO e na UE, no entanto começam a ser visíveis preocupantes divisões na sociedade portuguesa. As vaias espontâneas do 10 de Junho são um péssimo sinal.

 


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Domingo, 19 de Maio de 2013
por Luís Naves

As redes sociais são sobretudo utilizadas por pessoas das chamadas elites nacionais e estas andaram nos últimos dias numa lufa-lufa em torno da co-adopção por casais homossexuais. Pronunciei-me no passado sobre o tema, mas os argumentos que utilizei (contrários) não fazem a partir de agora grande sentido, pois a co-adopção leva necessariamente à adopção.

Qualquer obstáculo à expansão do universo seria discriminatório e absurdo. A lei agora aprovada beneficia potencialmente as crianças já adoptadas por um dos membros do casal. Terá essa criança óbvias vantagens em caso de morte súbita do pai ou da mãe, por exemplo. Se eu fosse deputado, teria votado a favor desta lei, que tem pelo menos este elemento de justiça.

 

O parlamento decidiu e o post não é sobre a co-adopção, mas sobre a forma das discussões. O que mais me impressionou desta vez foi a ausência de debate e a crispação das diferentes posições, incluindo insultos, rasgar de vestes, retórica sobre alegados avanços civilizacionais, um rebuliço impróprio para cardíacos, homofobia acompanhada pela intolerância oposta.

Sendo este um assunto lateral na vida da maior parte dos portugueses, surpreende a tensão revelada pela fúria da maioria das posições. Os dois campos recusam-se a ouvir a argumentação do outro lado (e há bons argumentos dos dois lados).

A crítica tornou-se impossível. Alguém que escreva uma tontaria e seja criticado por isso, sai à luta com duas pedras na mão. Isto é válido para qualquer debate, do insignificante ao decisivo.

 

Portugal vive numa espécie de desassossego, que terá certamente raízes na crise financeira, mas não apenas aí. Sobre os assuntos verdadeiramente importantes, a discussão tornou-se nula. Os factos são inutilidades. A comunicação social parece ter perdido o norte, embrulhada na verdadeira espiral recessiva, a da seriedade, onde cada notícia má tem de ser pior ainda.

 

 

 


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Segunda-feira, 6 de Maio de 2013
por Luís Naves

A esquerda parece entusiasmada com um artigo publicado na Alemanha, da autoria do ex-dirigente do Linke, Oskar Lafontaine, a sugerir a criação de um sistema monetário europeu e o fim do euro.

O texto pode ser lido, traduzido para português por Helena Araújo, no excelente blogue Dois Dedos de Conversa.

 

A Alemanha está em pré-campanha eleitoral e fazem o seu caminho as teses de abandono da moeda única. A ideia está também a crescer em Portugal. Voltar ao escudo seria, na visão de muitos, uma escolha que evitaria longos anos de austeridade.

Recentemente, um especialista alemão afirmava que os países do sul ainda têm de empobrecer 30%. (Com aliados assim, mais valia estarmos a lidar com inimigos). O valor é utilizado na argumentação de Lafontaine e alguns comentadores aproveitam a deixa para defender a nossa saída do euro. Infelizmente, não é explicado que o sistema monetário europeu, criado para conduzir as diferentes moedas a uma convergência que permitisse o euro, era instável e sujeito a especulação, bastando lembrar o devastador ataque à libra que atirou o Reino Unido para fora da moeda única.

 

Para Portugal, a sugestão de Lafontaine seria provavelmente uma catástrofe. Os riscos de haver pânico e desvalorização descontrolada do escudo seriam enormes.

Os bancos poderiam entrar em colapso, já que estão carregados de dívida cujo valor passaria talvez para dois terços ou até metade. Muitas empresas entrariam em incumprimento, atirando o desemprego para valores que o Estado não poderia sustentar.

As poupanças eram destruídas e o País não teria dinheiro para importações (pagas em moeda forte), nomeadamente para petróleo ou para medicamentos.

Desvalorizações descontroladas de moedas na União Europeia implicariam o fim do mercado único. Muitos países teriam a tentação de reintroduzir barreiras alfandegárias a todos os produtos dos países vizinhos, que subitamente surgiam a preços esmagadores das indústrias locais.

 

 

 


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Sexta-feira, 3 de Maio de 2013
por Luís Naves

Sob pressão de um compromisso internacional, o Governo vai ser forçado a avançar com cortes na despesa do Estado que equivalem a 3% do PIB. O anúncio das medidas será feito hoje, mas a ex-líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, já veio a público criticar esta política, dizendo que os cortes não terão qualquer resultado. Serão um desastre inútil, uma calamidade.

 

Compreendo que Bloco de Esquerda, PCP, até o PS, estejam contra os cortes na despesa. Já não compreendo quando a política é criticada por uma dirigente do PSD que sempre defendeu a redução do peso do Estado na economia. A isto chama-se hipocrisia.

Por inépcia, Manuela Ferreira Leite desperdiçou em 2009 uma excelente oportunidade para vencer eleições legislativas. Uma vitória do PSD, naquele momento, poderia ter evitado alguns dos erros que nos atiraram para a bancarrota.

Não cabe neste post discutir se as medidas do Governo serão adequadas. O que critico é que elas sejam arrasadas antes do respectivo anúncio. Ferreira Leite podia criticar uma medida em concreto, dizer que não funcionava, mas pronunciou-se antes de conhecer os detalhes. A antiga líder sabe que não é possível cortar na despesa do Estado sem mexer em pensões e salários. Mas critica os efeitos recessivos, sabendo ao mesmo tempo que não há margem para fazer de outra forma.

 

Cortar 4 mil milhões na despesa do Estado é uma imposição externa e Manuela Ferreira Leite sabe disso. Sem o anúncio das medidas de corte, não haverá sétima avaliação positiva e, portanto, o País estará numa catástrofe muito pior do que um corte de 3% do PIB na despesa pública.

A troika não se comove com a indignação de Ferreira Leite e é indiferente à sua inépcia. Julgo não haver um caso semelhante na Europa de um ex-líder de partido a criticar os seus sucessores quando estes estão no poder.

 

Vivemos numa época profundamente hipócrita, onde nunca há verdadeiras discussões. Quando surge uma questão que é necessário debater, logo a conversa se entrega à furiosa análise de pormenores bizantinos. Estamos rodeados por jogos de curto prazo, omissões, pontos de vista, falsos dilemas. Onde ontem havia uma convicção, agora existe apenas o vazio de uma fingida preocupação social.


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Sexta-feira, 26 de Abril de 2013
por Luís Naves

As reacções iradas ao discurso do Presidente Cavaco Silva na cerimónia oficial do 25 de Abril mostram que muitos portugueses continuam sem perceber a realidade em que estão metidos. Não me refiro a comentários de duvidosa desonestidade intelectual que li e ouvi nos media tradicionais, mas falo sobretudo de comentários contendo a genuína indignação de muitas pessoas que acreditam haver alternativas fáceis à actual situação.

 

O discurso do Presidente foi franco e claro. A meu ver, a ideia central contém um aviso aos partidos que assinaram o memorando: não pode haver crises políticas antes das eleições de 2015. Este aviso foi interpretado como o fim do consenso (mas qual consenso?) ou como hostilidade ao PS (que parte do PS? E o recado não serve para PSD e CDS?). Nas redes sociais proliferam posições de alta irritação, que incluem insultos, desprezo e até apelos à revolta. O PR está isolado, dizem, o País é contra esta política (com base em que sondagens?)  A elite com acesso a redes sociais ou a espaços de opinião nos media perdeu a serenidade e tenta levar a população para um suicídio colectivo.

 

O aviso do PR contra eventuais tentações de crise política justifica-se pelo estado de falta de soberania em que Portugal se encontra. Na sequência da pré-bancarrota, da qual o País foi salvo por uma intervenção externa, Portugal terá de demonstrar nos próximos meses que se encontra em condições de regressar aos mercados para se financiar.

A alternativa é o segundo resgate, cujas condições serão bem mais duras do que as actuais. A indignação não nos leva a qualquer tipo de saída do labirinto. Quem não paga aos credores vai à bancarrota. E a bancarrota será a catástrofe total, a destruição das poupanças e a explosão das dívidas, o encerramento de bancos e o colapso do emprego. Um recuo de 30 anos não é opção.

Em 2001, a Argentina teve três presidentes e quase entrou em derrocada social. E a Argentina pode viver mais ou menos fora dos mercados financeiros, pois é uma economia exportadora. No nosso caso, não haveria dinheiro para comprar petróleo.

 

 

 


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Quinta-feira, 25 de Abril de 2013
por Luís Naves

Tal como acontece às andorinhas, todos os anos em Abril regressa a este País a vocação e o gosto da sacristia. As beatas excitam-se e reclamam a necessidade da pureza ideológica do regime. Fazem-se discursos a cheirar a mofo, com o tremendismo típico dos sermões de missa. Enquanto se autoflagelam, os crentes vão recitando a ladainha: “ A democracia é nossa, 25 de Abril sempre”.

 

Em cada aniversário, reemergem os inúteis e velhos apelos a uma revolução mítica que nunca aconteceu, ressurgindo ao mesmo tempo todos os gastos argumentos sobre o destino de Portugal. Muitos regimes morrem por não conseguirem resolver os seus problemas. Foi assim com a monarquia constitucional, vítima da estagnação económica e da ausência de renovação política nas duas décadas após a bancarrota de 1891. Foi assim com a primeira república, que não resistiu ao apodrecimento causado pela instabilidade crónica. E não haveria 25 de Abril se o anterior regime tivesse lidado com o problema do império e da guerra colonial, mas os seus líderes preferiram enfiar a cabeça na areia.

 

Hoje, se lermos o que se escreve nas redes sociais, a discussão é sobre a propriedade intelectual do actual regime, reclamada pela esquerda em nome de mitos fundadores que, pelo menos fora do eixo Havana-Caracas, já deixaram de fazer sentido.

 

 

 


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Terça-feira, 16 de Abril de 2013
por Luís Naves

Muitos comentadores reagiram com simpatia à decisão judicial que proíbe a candidatura de Luís Filipe Menezes à Câmara Municipal do Porto. Esta decisão surgiu no âmbito de uma campanha que visa impedir os chamados “dinossauros” autárquicos, candidatos que cumpriram três mandatos num município e agora tentam ser eleitos noutro município.

Na origem da questão está uma lei que todos os juristas consideram ser ambígua e cujas contradições a Assembleia da República não aceitou esclarecer. Os tribunais também não conseguem decidir na interpretação. Ora, uma lei com ambiguidades é uma má lei. Há recursos pendentes e a questão será provavelmente decidida pelo Tribunal Constitucional.

 

O que está aqui em causa, a meu ver, não são as qualidades dos candidatos do PSD que viram rejeitadas as candidaturas, mas a interpretação populista que está a ser extraída desta lei com redacção deficiente.

No fundo, os comentadores que defendem a rejeição das candidaturas consideram que todos os autarcas são ladrões e que a lei deve impedir a “profissionalização” dos presidentes de câmara. Fazer três mandatos consecutivos (vencer três eleições) passa a ser cadastro.

Mas se as pessoas podem fazer carreira de deputado, qual a razão para não poderem fazer carreira de autarca?

Os limites de mandatos podem até fazer sentido. No caso do Presidente da República, o limite assegura o equilíbrio do sistema político. Três mandatos para o presidente de um município específico também pode fazer sentido, pois evita casos extremos de caciquismo. Mas não entendo a proibição relativamente a quem muda de município.

 

A interpretação de proibir um autarca vencedor de três eleições de se candidatar noutro local impede a mobilidade dos cidadãos e presume que os autarcas se dedicam ao crime.

Considera um País inexistente e passa um atestado de menoridade aos eleitores.

Um autarca que faça três mandatos numa câmara pode ser candidato a Presidente da República, mas não pode ser presidente de outra autarquia. Um autarca que decida mudar de vida e de cidade não pode sequer ser candidato no local onde passou a viver. Os seus direitos estão diminuídos. É simplesmente absurdo.

 

 

Aproveito este post para agradecer a todos os amigos que saudaram o meu regresso ao Forte Apache.


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Segunda-feira, 15 de Abril de 2013
por Luís Naves

Um dos conflitos recorrentes em Portugal tem sido o confronto entre estrangeirados e provincianos. É uma constante da nossa História e interessou a todos os maiores intelectuais.

Julgo que esse antagonismo (agora entre europeístas e soberanistas) é crucial para compreendermos devidamente a actualidade.

 

A emergência financeira em que vivemos tem na origem a dificuldade do País de se manter na exigente zona euro. A nossa economia não é competitiva no plano europeu e foram acumulados desequilíbrios externos que resultaram num endividamento insuportável, que por sua vez originou um resgate internacional a cujo pagamento não podemos fugir sem bancarrota.

Tendo Portugal um modelo económico ultrapassado, que sustenta poderosos grupos de interesses instalados, a crise não chega a todos com a mesma força. Neste caso, está a penalizar de forma desproporcionada a classe média. Muitos portugueses ingressaram neste grupo nas recentes décadas e tinham legítimas aspirações ao bem-estar, pelo que a sua frustração é compreensível.

Além disso, a sociedade portuguesa (nomeadamente a elite) sempre foi hostil à mudança, por isso estamos a assistir a uma cada vez mais organizada resistência às reformas, muito visível nos comentários que proliferam em toda a comunicação social.

 

Para os nossos credores europeus, não será suficiente que o País resolva os seus desequilíbrios financeiros. Eles querem a mudança de modelo, a criação de uma economia competitiva e exportadora, com um Estado menos gastador, mais eficaz e menos sensível à pressão dos interesses corporativos.

Para definir o que pretendem usam a expressão ‘reformas estruturais’. Na sua perspectiva, a resolução da crise implica a adopção dos princípios que regem a Europa rica, as suas regras, os seus costumes. Não bastará ao País importar legislação europeia, será necessário acreditar nessas leis e aplicá-las como se fossem nossas.

 

Emerge assim um conflito entre duas concepções de integração europeia. De um lado da barricada, estão os europeístas, que conhecem bem os mecanismos da comunidade e sabem que, no futuro, não haverá pequenos países incumpridores às cavalitas dos restantes. Do outro lado, estão aqueles que pensam que a soberania nacional tem precedente. Neste caso, usam-se eufemismos, tais como ‘bater o pé à Europa’ ou ‘a prioridade do crescimento e do emprego’, mas o que estas posições verdadeiramente traduzem é enorme ansiedade em relação ao estado de protectorado em que os socialistas nos deixaram.


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Sábado, 13 de Abril de 2013
por Luís Naves

Tendo encerrado um importante ciclo da minha vida e iniciado outro, recomeço a escrita regular no Forte Apache.

Estes seis meses dedicados à política deram-me lições sobre dignidade e coragem, sobre a interpretação do interesse público e a essência do País real. A frase não é minha, mas do Pedro Correia: ‘Política é ganhar batalhas e não é possível ganhar batalhas sem tropas”. Uma grande frase.

Aprendi que a política tem a ver com o poder. Que se baseia em rivalidades e amizades, alianças e traições. Não usa regra nem esquadro, mas sobretudo intuição. O que parece complicado é geralmente simples. A simplicidade e a complexidade estão intimamente ligadas, a ponto de não as podermos distinguir uma da outra.

Há paradoxos, tais como: os políticos mais decentes são os alvos mais fáceis.

 

Aprendi sobre hipocrisia e mentira, sobre manipulação e estupidez, mas também aqui os limites se esbatem: as maiores imbecilidades que vi cometer vieram de pessoas extraordinariamente inteligentes, que se consideram génios. Talvez isso tenha explicação: o poder habita muitas vezes numa bolha onde se deixa de ouvir o ruído da sociedade. Quanto mais insonorizada a bolha, menor o ciclo.

Fiquei a saber outros factos estranhos, por exemplo, que políticos com influência raramente podem dizer em público aquilo que verdadeiramente pensam, daí o seu fascínio pelo comentário na televisão, onde deixam de parecer políticos.

Vi muita raiva e cegueira. Mas esta é apenas uma parte do jogo de sombras, pois encontrei lealdade e boas intenções. O preto e branco do populismo demagógico e dos linchamentos mediáticos não descreve nem um pouco a realidade daquele mundo.

 

Deixo aqui um abraço a Miguel Relvas, a quem desejo as maiores felicidades.

 

*O título da primeira crónica desta série é tirado dos editoriais do velhinho DN da passagem do século.

 

 


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