Quarta-feira, 17 de Julho de 2013
por Pedro Correia

 

No seu habitual espaço de comentário da TVI 24, Manuela Ferreira Leite louvou o «belíssimo discurso» ao País do Presidente da República. Como seria de esperar. Chegou a dizer o seguinte, que aqui registo para memória futura: «Se a atitude do Presidente da República provocasse um terramoto interno nos partidos não seria mau. Se há coisa sobre a qual a opinião pública não tem uma boa opinião é relativamente aos partidos», havendo portanto que «metê-los na ordem».

Anotei a perfeita sintonia destas palavras com declarações quase simultâneas de Rui Rio, também em claro elogio ao inquilino de Belém. «Não sei se os partidos se conseguem entender. Mas foi-lhes dada pelo Presidente da República uma oportunidade única de se poderem credibilizar perante a opinião pública», declarara horas antes o presidente da Câmara Municipal do Porto.

Começa a fazer caminho, entre as personalidades que têm como principal referência política o actual Chefe do Estado, a ideia de que a democracia portuguesa está degenerada por culpa dos partidos.

É um caminho perigoso e que contradiz todo o património histórico do PSD desde os tempos do seu fundador, Francisco Sá Carneiro.

Vale a pena reler com atenção a última entrevista concedida por Sá Carneiro, publicada no próprio dia da sua trágica morte, a 4 de Dezembro de 1980, na revista espanhola Cambio 16. «Eanes, com este projecto impossível de acordo entre os socialistas e os sociais democratas, é um factor de instabilidade», criticava o malogrado fundador do PSD, visando o então Presidente da República, a quem acusava sem rodeios: «Eanes é um homem que provoca crises nos partidos porque tem uma visão da política que é a do poder pessoal.»

A história repete-se, com mais frequência do que muitos imaginam. Não deixa de ser irónico que Cavaco - ex-ministro das Finanças de Sá Carneiro - sirva hoje de bandeira à retórica antipartidos emanada de alguns dos seus apoiantes mais notórios.

 

Imagem: Cavaco Silva e Sá Carneiro em 1980


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Terça-feira, 16 de Julho de 2013
por Pedro Correia

 

Imaginem uma mesa onde se joga póquer. À volta da mesa, quatro cadeiras. Nessas cadeiras estão sentados quatro homens: Aníbal, António, Paulo e Pedro. Cada qual fazendo bluff, temendo as cartas que os restantes possam lançar.

A política portuguesa, por estes dias, transformou-se nisto. Há um país inseguro, que sustém a respiração, suspenso destas cartadas. Um país sob intervenção externa, que há mais de dois anos perdeu a soberania financeira, aguarda que naquela mesa termine o jogo. Sem a mais remota esperança que daqui resulte uma solução mais sólida e mais estável.

 

Passaram apenas duas semanas desde que foi tornada pública a demissão de Vítor Gaspar, acompanhada de uma carta que constitui um notável contributo para a antologia do humor negro na política portuguesa. "Os riscos e desafios do próximo tempo são enormes. Exigem a coesão do Governo. É minha firme convicção que a minha saída contribuirá para reforçar a sua liderança e a coesão da equipa governativa", dizia o ex-titular das finanças nessa missiva supostamente dirigida ao primeiro-ministro mas tendo afinal por destinatários dez milhões de portugueses, inaugurando o estilo "carta aberta" no exercício da governação.

Quinze dias depois, tudo parece ter regressado aos penosos dias do pântano - num teste quase desesperado à liderança e à coesão, palavras habitualmente invocadas na razão inversa da sua existência, como Gaspar bem sabia quando as colocou na sua carta que abriu oficialmente a saison de crises políticas.

Não admira, por isso, que um dos quatro opte por uma pausa no mais remoto e desabitado recanto do território português. Perfeita antítese da atribulada política portuguesa por estes dias, o plácido arquipélago das Selvagens. Com apenas quatro habitantes e banhado pelas águas mais limpas do mundo, como as classificou o oceanógrafo Jacques-Yves Cousteau.

 

A Bolse treme, levando Lisboa ao terceiro pior desempenho do mundo? Os juros disparam? Há novos pedidos de demissão na equipa das finanças? Chovem acusações de que se pretende "institucionalizar o caos"? Nada que o som das cagarras não dissipe enquanto se contempla o vasto Atlântico que inspirou os navegadores das naus de Quinhentos.

Talvez elas nos tragam notícias do eclipsado Gaspar, o ex-ministro em quem o chefe do Governo costumava "confiar plenamente" em dias que parecem já muito distantes. Talvez elas contribuam para atenuar o choque das contínuas surpresas em que se transformou a montanha russa da política nacional. Talvez elas ajudem a revigorar o supremo árbitro do sistema, mais eloquente nos longos períodos de silêncio do que no esporádico uso da palavra.

Ou talvez não.

 


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Quinta-feira, 11 de Julho de 2013
por José Meireles Graça

Quem tiver vivido a presidência de Jorge Sampaio lembrar-se-á vagamente que era um tipo que falava bem Inglês, recomendava serenidade a todos os propósitos, mesmo quando não havia razão para nervos, e declarava torrencialmente coisas que, quando se percebiam, eram ou banalidades da esquerda soft ou irrelevâncias. Ainda hoje, se inquirido, Jorge conserva a capacidade de falar muito e não dizer nada, que Deus o conserve por muitos anos e bons. Um homem de Estado para leitores do Courier International e Tino de Rans, em suma.

 

Mas Sampaio deixou marca quando declarou para a posteridade que havia vida para além do défice, e mais ainda quando demitiu um governo com maioria parlamentar, oficialmente por ser liderado pelo ex-secretário de Estado dos Teatros, na realidade por as sondagens mostrarem que o PS tinha maioria. E deixou marca sobretudo porque criou um precedente, que tinha pernas para se constituir num costume constitucional: sempre que o Presidente for de uma maioria diferente da que apoia o Governo, e logo que a opinião pública simpatize com o cavalo ganhador da mesma seita que o Presidente, este demite.

 

Não há mal nenhum em ter costumes constitucionais: o regime e as pessoas adaptam-se e, se a coisa for por demais inconveniente, há as revisões periódicas da Constituição.

 

Isto julgava eu, porque a inversa seria que sempre que o Presidente fosse da mesma cor que a maioria, o Governo iria, mesmo que aos tropeços, até ao fim do mandato. Mas Cavaco veio baralhar os dados, com a criação de rajada de novas figuras: i) Os governos podem estar em plenitude de funções, mas a prazo - assim como quem diz um bocadinho grávidos da sua própria demissão; ii) Se os governos forem de coligação, o líder do mesmo partido que o Presidente tem de ser da simpatia deste, e não apenas dos militantes e dos eleitores comuns que o elegeram; iii) Pelo(s) lídere(s) do(s) partido(s) minoritário(s) coligado(s) o Presidente não pode nutrir um ódio profundo, senão fica autorizado implicitamente a fazer-lhe(s) a cama; iv) O interesse nacional não é matéria de opinião, pelo que os partidos coligados têm de ter a mesma opinião entre si, que tem de coincidir com a do Presidente; v) O Governo não pode encontrar os seus apoios apenas no Parlamento, tem também que ter encontros num hotel com a Oposição, sob a égide de um velho de barbas brancas da confiança do Presidente; vi) Se tudo falhar, o Presidente está autorizado a escrever um artigo com a fábula tradicional da boa e da má moeda, incluindo um anexo em que liste os numerosos momentos em que fez avisos de que as coisas, em não correndo bem, poderiam correr mal.

 

Mas estas inovações não terão a menor hipótese de vir a adquirir a dignidade de costumes constitucionais. De asneirol, a Constituição já tem avonde.


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por Carlos Faria

A utopia dá-nos muitas vezes força para caminhar, mas a maioria das vezes leva à desilusão quando sentimos que os pés se cansam para uma meta inalcançável.

Cavaco pôs em primeiro lugar a necessidade de ética política para salvar a Nação de uma forma sustentável a longo-prazo: em resumo, considerou imprescindível que os líderes dos partidos nacionais que dizem acreditar no sistema democrático ocidental, integrado na União Europeia e com as condicionantes do atual sistema de economia globalizada devem colocar os interesses fundamentais para a sobrevivência do futuro de Portugal acima dos interesses pessoais e de grupo que presidem e para acabarem com os jogos tendentes a meras vitórias passageiras de fação que prejudicam o que é essencial no País.

No campo dos princípios estou de acordo com a ideia de Cavaco Silva, o primeiro problema é se for impossível reunir um número mínimo de líderes nacionais de partidos chamados à ordem que coloquem de facto em primeiro lugar o interesse de Portugal.

O segundo é que na impossibilidade de resolução pela via dos líderes partidários, eu não vejo como os mesmos viabilizarão em seguida uma solução presidencial que coloque os interesses de Portugal acima dos das fações que eles defendem.

 


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por Pedro Correia

Se bem entendi a confusa e contraditória comunicação de Cavaco Silva ao País, Portugal estará durante um ano em campanha eleitoral. Nada melhor para promover a estabilidade política. Nada melhor para assegurar um executivo sólido. Nada melhor para garantir os nossos compromissos externos. Nada melhor para deixar os "mercados" imperturbáveis.


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Sábado, 27 de Abril de 2013
por José Meireles Graça

Nunca elegemos um liberal ou um conservador para Presidente da Republica. Aliás, que me lembre, nunca houve um candidato assumidamente liberal ou conservador e, se tivesse havido, teria sido copiosamente derrotado.

 

Ramalho Eanes foi eleito porque parecia, e possivelmente era, a melhor defesa contra a deriva comunista.

 

Mário Soares foi eleito porque ainda havia a memória fresca do seu panache de herói da resistência civil e se apresentava como o amigo de Mitterrand e da Europa rica, para a qual estendíamos olhos cúpidos.

 

Sampaio foi eleito por ter conseguido apresentar-se como o herdeiro natural de Soares, que foi popular por ter sido hábil e festivo num tempo em que a festa ainda era possível, e porque o então candidato Cavaco ainda tinha o peso da erosão recente de dez anos de PM.

 

E chegamos onde estamos, com a eleição de Cavaco em 2006. A Wikipédia diz dele que foi o "primeiro presidente da área ideológica da direita", afirmação que faz sorrir.

 

Cavaco sempre teve uma inabalável fé nos poderes demiúrgicos do Estado como principal agente económico e limitou-se a cortar o cabelo, quando no Governo, aos restos consideráveis da economia comunista, via privatizações, e a modernizar o País noutras áreas, como competia a um membro da CEE, por exemplo permitindo canais privados de televisão. De resto, colaborou entusiasticamente na amarração do País à Europa e ao Euro, manteve um respeitável sector público, criou um sistema de remunerações e carreiras dos funcionários públicos que veio a causar não pequenos problemas no futuro, e nunca hesitou em atrapalhar a vida das pequenas empresas, cuja realidade, aliás, completamente ignorou.

 

Pareceu muito e foi certamente alguma coisa. Mas nada, absolutamente nada, o qualifica como de direita, em qualquer das suas múltiplas declinações, excepto talvez em questões de costumes.

 

Isto significa que uma parte dos eleitores que levaram Cavaco a Belém, mesmo sem contar com as idiossincrasias da personagem, que despertam anticorpos, escolheu um mal menor.

 

Fui um desses. E hoje por hoje, quando um PS delirante, sem fazer mea-culpa por ser o partido da bancarrota; sem parar para pensar que só pode querer o derrube extemporâneo do Governo quem queira aumentar o preço do resgate - quer à viva força ocupar os lugares pouco invejáveis de um Governo aflito:

 

Concluo que não deitei o meu voto fora. Cavaco disse não, que não há eleições. Fez bem. Esperai por 2015, récua de socialistazinhos de uma figa. Se lá chegarmos.


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Domingo, 6 de Janeiro de 2013
por Pedro Correia

«Faltam-me algumas qualidades atribuídas aos políticos. Não tenho vocação para a intriga, nem para a sedução de jornalistas; não tenho vocação para os jogos político-partidários - são coisas que me cansam. Há outros que são muito melhores do que eu nessa matéria.»

 

«[Vítor Gaspar] trabalhou comigo no Banco de Portugal e foi meu aluno em Finanças Públicas. Foi um aluno muito bom.»


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Segunda-feira, 8 de Outubro de 2012
por José Meireles Graça

O doente tem uma doença gravíssima, mas sobre a natureza do mal as opiniões médicas dividem-se e o corpo não está a reagir bem aos tratamentos, na opinião de alguns por serem apenas sintomáticos: as chagas progridem, há agora escaras, nos membros inferiores um princípio de gangrena, na cabeça uma fractura exposta que se recusa a cicatrizar.

 

Diz o chefe da junta médica que a radiação produzirá ainda bastantes estragos, antes de a doença ser vencida e a recuperação se começar a notar.

 

Uma sumidade veio à cabeceira e, feitos os exames da praxe, declarou com voz cava: as escaras dão muito mau dormir, essas feridas estão a supurar, confirmo que o doente o está efectivamente, e com gravidade; ficam os meus ilustres colegas prevenidos, não se me venha dizer que não avisei.

 

Feita a declaração, retirou-se com dignidade, deixando os facultativos a entreolharem-se, cabisbaixos.

 

O Senhor Professor é um clínico muitíssimo distinto, nem era preciso mais esta concludente prova.


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Sábado, 28 de Julho de 2012
por jfd

 

 

 


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Quinta-feira, 28 de Junho de 2012
por Francisca Prieto

  

Fonte desconhecida, à qual me reverencio. 

Bom demais para não ser republicado.


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Domingo, 10 de Junho de 2012
por jfd

Fico incomodado com a forma como se está subtilmente a querer fazer parecer que há uma revolta no lume, de um cozinhado que não passando das mãos de chefs de franjas agarradas ao passado não têm nem reflexo nas massas nem olhos naquilo que é presente nem futuro.

O pior é que esta gente, a bem ou mal, vai tendo espaço de antena para os seus pratos. Haja liberdade de expressão, dizem eles. Muito bem, concordo eu. Mas e que tal aquela liberdade da maioria de pessoas que se estão cagando para apelos velados de revolta e que querem apenas que o que agora sofremos valha de algo e passe depressa?

 

Nos jugulares é com os brandos costumes.

No cinco dias são surrealismos.

No arrastão, e aproveitando a legitimidade de outros que se dizem apartidários, apela-se à retirada do conforto ao Governo...


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Quarta-feira, 6 de Junho de 2012
por Sérgio Azevedo

Sempre tive António Borges como um excitado da política. E um excitado da política, que é manifestamente diferente de um excitado da vida, é normalmente um ser vaidoso de pseudo superioridade intelectual, normalmente com um pensamento estruturado de forma a que poucos  entendam (e por isso alguns os têm como  brilhantes - a ininteligibilidade também tem destas coisas...) mas que sempre que lhes é metido, passo expressão, um microfone à frente descontrolam-se de tal forma que a intelectualidade arrumadinha dá rapidamente lugar à verborreia.

 

A declaração sobre a necessidade de baixar salários não foge à regra. 

 

Mas por isso, falando de coisas sérias e que realmente contam, é que gosto do Presidente Cavaco. Nestas declarações Cavaco corrige o incidente. E nós agradecemos.

 

Primeiro porque tranquiliza os cépticos nas políticas do Governo que, diga-se, nunca indiciou caminhar nesse sentido. Depois porque, e com algum gozo mesquinho, corrige a asneira e a vaidosice do seu amigo Borges.


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Quarta-feira, 28 de Março de 2012
por CAA

O presidente da República escolheu a cidade de Lisboa para palco das comemorações do 10 de Junho. Escolha natural, obviamente. Provavelmente, o palco propício, sugiro eu, será o Terreiro do Paço! E, a partir dessa sede tão adequada, existirão fortes proclamações sobre a coesão territorial e as assimetrias regionais que a Democracia, lamentavelmente, acentuou. Enfim, Portugal, no que tange a algumas enfermidades já endémicas, continua cada vez mais igual a si próprio...


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Segunda-feira, 12 de Março de 2012
por Miguel Félix António

Não consigo encontrar uma réstea de utilidade em parte do conteúdo do prefácio mais comentado nos últimos dias. Como pode o Chefe do Estado admitir que há uma deslealdade institucional, sem precedentes, da parte do Chefe do Governo e ainda assim mantê-lo em funções? Como pode vir dizer isso mesmo largos meses depois, assumindo que nada fez numa situação que ele próprio considera gravíssima? Qual é a utilidade de ter um Presidente da República que sustenta a sua impotência para lidar com este tipo de problemas? Não estou desiludido, simplesmente, porque nunca me iludi!  


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por jfd

Não comento Cavaco Silva neste momento. Não sei que dizer. Tenho de digerir. E as suas palavras, na integra, no site da Presidência vieram-me confundir mais.

Mas algo é mais que certo e viu-se neste fim-de-semana. Sócrates está vivo e continua a comandar com mão de ferro o seu fervoroso grupo de seguidores.


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Sexta-feira, 9 de Março de 2012
por João Espinho

E poucos são aqueles que têm sabido resistir-lhe: ajustar contas com o passado (ou com os adversários) escrevendo autobiografias que só servem para alimentar o ego e relatar episódios que, em princípio, são desconhecidos do grande público. 

Há também esta moda dos presidentes compilarem discursos e, moda mais recente, de tentarem fazer um balanço autobiográfico das suas viagens, passeios ou "roteiros". Aquilo que deveria ser o tronco essencial das "memórias" reparte-se assim por vários volumes, de consulta e efeito rápidos.

O caso de Cavaco Silva torna-se mais grave, pois decidiu-se a "fazer história" num prefácio de  duvidosa oportunidade. Para quem acompanhou o "casamento" entre o actual Presidente e o anterior Primeiro-Ministro, o azedume vindo agora a lume não faz sentido e só pode indiciar que Cavaco Silva se prepara para fazer política dura, ele que se se diz pouco talhado para a política. Aguardemos  pelos próximos capítulos dos roteiros de Cavaco Silva onde ficaremos a conhecer melhor os contornos desta coabitação com Passos Coelho. E espera-se que o Volume 7 de Roteiros não tenha prefácio. Para bem de todos nós.

 


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por Rodrigo Saraiva

Prefácios são os novos livros de reclamações.


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por José Meireles Graça

Sobre a chateza do discurso, o recurso a chavões, o economês, o politiquês, pouco digo  - cada um dá o que pode, e o que Cavaco pode ajudou, como o próprio recorda com justiça, a ganhar recorrentemente eleições. Os "desafios do futuro", a "responsabilidade histórica", as "linhas de rumo" e toda a parafernália de frases pedantes e estafadas, sempre serviram para Cavaco fazer passar a imagem da fluência com que a Providência não o dotou, do voluntarismo que não tem, da coragem que lhe falta, da competência técnica que, num político, é acessória, e da profundidade de pensamento que, nele, é um transparente véu sobre a mediania.


Agora, como estratega, Cavaco é brilhante: nunca aceitou um debate que pudesse evitar e, nunca, num debate, se afastou da cassette da resposta estudada para a pergunta óbvia e o argumento previsível; nunca, como decisor, se afastou do mainstream do pensamento económico, em particular na relação com a CEE e depois com a UE e o Euro; nunca, como magistrado ("o mais alto magistrado da Nação", aposto que terá dito, é o género de coisa que gosta de dizer) foi claro para o cidadão, excepto na generalidade dos sentimentos e das preocupações pias que quase ninguém contesta; e sempre teve o cuidado de, suspeitando dos riscos da política A ou B, evidenciá-los, para poder dizer no futuro que alertou, avisou e preveniu.


Cavaco ajudou a derrotar um Sócrates moribundo, depois de ter andado de braço dado com ele quando Sócrates era um menino de ouro, benquisto por uma maioria por cima da qual espargiu o dinheiro que pediu emprestado, as aldrabices várias em que foi mestre e as promessas e iniciativas loucas com que engrupiu o eleitorado e os crentes da sua seita.


Cavaco, diga o que disser, foi cúmplice: não há dois Sócrates, o de antes e o de depois da crise, há apenas um, e esse não se recomenda. Na melhor das hipóteses, deixou-se iludir - como já antes lhe acontecera com demasiados outros.


Estratega brilhante, disse acima. Tão brilhante, ou eu tão medíocre, que o propósito do exercício me escapa: i) É um testemunho histórico? Mas Cavaco tem anos de actividade política pela frente, e quase nunca o futuro foi tão incerto - o tempo de publicar memórias seria mais à frente; ii) É um ajuste de contas? Mas quais contas, se as que Sócrates terá que prestar são porventura de ordem judicial, que as políticas já estão feitas?; iii) É um apoio ao Governo? Mas como, se por estes dias o Presidente tem feito bastas críticas, no seu estilo bate-e-foge?


Não percebo. Não devo ser o único, bora lá todos ler o Abrupto, logo que saia a leitura das entranhas - as tendas querem-se com quem as entenda.


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por Rodrigo Saraiva

as comunicações entre Lisboa e Paris agora são feitas através de prefácios.


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Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012
por Fernando Moreira de Sá

... o Senhor Presidente da República fez um roteiro pela Juventude, certo? Andou pelo Norte do país, certo? Falou sobre empreendedorismo, certo? Visitou exemplos de jovens empreendedores, certo? A iniciativa não teve nada a ver com aquela coisa dos jovens numa escola, certo? Aliás, a Presidência fez saber que já estavam a preparar o dito roteiro e que não foi uma coisa à pressão, certo?

 

Então, como se explica que estando o Presidente no Norte, dedicando uns dias à Juventude, não visitou a Capital Europeia da Juventude? Não sendo coisa organizada à pressão, caso contrário até se aceitava o esquecimento, o lapso, podemos ser levados a concluir que foi propositado. Sendo-o, qual o motivo? É que olha-se para o roteiro e compara-se com a Capital Europeia da Juventude e está lá tudo: empreendedores, empreendedorismo, debate de ideias sobre o futuro, casos de sucesso, incubadoras de empresas de e para jovens, Universidades, etc.

 

Eu não quero acreditar. Por isso, só estou a perguntar... 


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por José Meireles Graça

Henrique Raposo não diz, mas digo eu, que se a cidade mais a Sul de Portugal fosse Coimbra boa parte dos nossos problemas, a começar pela dívida externa, estariam a caminho de desaparecer.

E o segredo mora no trabalho, na criatividade e na imaginação de uma colecção de inapresentáveis grunhos, incapazes pela maior parte de articular convincentemente as razões do seu próprio sucesso, falhos de diplomas e de teorias profundas, distantes de Lisboa, das elites que pensam, dos que comem à mesa do Orçamento, dos monopólios e dos oligopólios.

Se andassem atentos, papagueariam e ouviriam coisas como estas:


"Ou Portugal muda o seu modelo de desenvolvimento, apostando na inovação, na ciência e nas tecnologias do futuro, ou nunca sairá da cepa torta"; "Como aconteceu em Oulu e um pouco em toda a Finlândia, o futuro de sucesso está na existência de sólidas ligações entre as universidades e as empresas".

"Portugal não planeia, sendo por isso um país sem futuro e que serve de alavancagem para que países como a China entrem no mundo".

"... assinala ainda o que considera ser alguma falta de empenho dos empresários no sentido de exportar mais".


Apostas no futuro, desafios assim e assado, planificações, modelos de desenvolvimento, ligações entre isto e aquilo, alavancagens, Presidentes à míngua de dizer coisas, empresários do discurso desenvolvimentista à sombra do Estado, e visionários com ideias argutas sobre a melhor forma de gastar o dinheiro do contribuinte - temos há décadas.

Agora que o dinheiro dos outros acabou, e o nosso também, talvez esteja aberta (como é que eles dizem?), ah, uma janela de oportunidade.

Isto se, e apenas se, os nossos dirigentes forem um pouco básicos, bastante teimosos e de ideias fixas; ou se a realidade fizer as escolhas por eles. Será?


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Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012
por José Adelino Maltez

 

Depois de Luís de Camões, Aníbal Cavaco Silva. Consta que o dr. Mário Soares já emitiu sonoro protesto contra esta ultrapassagem cénica e de museu. Mas a verdade é só uma: a soma de uma década de chefe do governo com mais uma, ainda em curso, de chefia de Estado. Portugal, visto de fora e em cera, é Aníbal, mesmo sem Barca, mas com muita memória de elefantes. Nem Saramago o destrona, na Espanha da bonecada. Todas as revoluções são sempre pós-revolucionárias.

 

Imagem picada aqui


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Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012
por jfd

(...)O que eu peço a esses cavaquistas, que eu não sei quem são, anónimos, é que desamparem a loja, o tempo deles passou, calem-se, desapareçam, reformem-se, brinquem com o que quiserem, mas não com o país”, defende o antigo líder do PSD.

Não comprometam o Presidente, não obriguem o Presidente a perder espaço de manobra e a ter que dizer que não tem nada a ver com esses cavaquistas”, sustenta Marcelo Rebelo de Sousa.

 


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Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012
por Francisco Castelo Branco

Muito se tem dito e escrito sobre as declarações de Cavaco Silva. À semelhança do que aconteceu com a frase de Sócrates sobre a dívida e a questão da emigração levantada por Passos Coelho, o Portugal pequenino diverte-se à conta de uma frase do actual Presidente da Republica, que por esta altura celebra um ano do seu segundo mandato em Belém.

Ora, temos vindo a assistir entre nós a uma autêntica desvirtualização e campanha negra contra declarações proferidas por responsáveis políticos. Tudo começa por uma frase tirada do contexto que depois é comentada pelos habituais politólogos da praça e escrita nos jornais pelos mesmos de sempre e muito bem ironizada na blogosfera.

Durante dias e dias o assunto é o mesmo e nada de novo se diz.

Sem me referir ao que o PR disse, porque se uma pessoa abdica do seu mísero vencimento em nome da austeridade é porque tem a noção de cidadania. Até porque já se falou demais deste assunto e não queria contribuir para alimentar mais um fait-divers.

No entanto, é estranho que já se peça a demissão do actual Presidente por causa destas declarações.

Assim vai a nossa política e o mundo que a rodeia. Sem assunto sério para discutir, sem responsabilidade. O mais grave de tudo é o facto de não haver propostas, caminhos, pensamentos e ideias que nos conduzam a um rumo. O que interessa é o que x ou y disse ou quis dizer.

Há muito tempo que andamos divertidos com questões menores e não saímos do mesmo sítio.

Reagimos assim porque sabemos que vamos para a bancarrota?


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por Ricardo Vicente

A propósito do post anterior de Luís Naves...

Eu não sinto estranheza nenhuma: a violência das reacções às palavras de Cavaco Silva é explicada pelo factor do costume: o mesmo velho racismo social que escolheu há já décadas Cavaco  Silva como inimigo público número um.

No Portugal socialista que andamos a sofrer desde 1974, as simpatias são dirigidas exclusivamente aos aristocratas: soares, socialistas, militares e outros. Ao mesmo tempo, quem sobe a pulso vindo de família pobre é sempre desdenhado e detestado.

Uma grande parte da sociedade portuguesa tem uma inveja odienta ou um ódio invejoso a todos os que se fazem a si mesmos. Portugal odeia o mérito. E usa da mais rasteira falsidade para dar largas a esse ódio: ainda no outro dia ouvi um comediante popular acusar Cavaco Silva de ter sido toda a vida um privilegiado.


Por outro lado, as pessoas dão mais valor à forma do que à substância. Políticos fotogénicos, com verbo fácil e estilo mãe-galinha são preferidos a gente séria que diz o que pensa e diz a verdade sem eufemismos nem embelezamentos. Guterres, Sampaio, Sócrates foram preferidos a Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite.

 

Os portugueses preferem também a literatice à economia. As cabeças portuguesas não aguentam muito cálculo e as frases verdadeiras, directas e justas magoam muito os nossos sentimentos. Cavaco Silva é culpado de ser economista e isso é o mesmo que não ter literatura. Viveu em África e Inglaterra mas será sempre injustamente denunciado de "não ter mundo". Mas qualquer analfabeto de contas e finanças é louvado desde que seja republicano, socialista e laico.

 

A balança pende pois sempre mais para um soares do que um cavaco e isso explica muito da actual desgraça e frustração portuguesas. O resultado é esta triste vida poética em que se fala de Quinto Império, maçonarias, lusofonia mas só se encontra mediocridade, corrupção e subserviência canina a tudo o que não é nacional (o aborto ortográfico é só um exemplo entre um número infinito deles).

Gostaria que alguma dessas fábricas de teses de mestrado politicamente correctas, que afirmam que Portugal é muito mais racista, homofóbico e machista do que os outros países e do que os portugueses pensam, se debruçasse sobre este assunto: o racismo social e o ódio ao mérito neste país.


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Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012
por Fernando Moreira de Sá

Se de cada vez que uma multidão assobia a um político ele se demitir, estamos feitos: eleições todos os meses. 

Não pretendo nem desvalorizar o que o Presidente da República disse nem o que a multidão pretendeu dizer. Este segundo mandato de Cavaco Silva só está a ser difícil por sua causa. Se não quer dizer as coisas de forma simples e clara, é preferível que não diga nada. Não é Mário Soares quem quer.

Porém, daí ao "tumulto" de certa esquerda perante a expressão de descontentamento de uma multidão, vai uma enorme distância. 


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por João Gomes de Almeida

 

Nunca como hoje fez tanta falta o PPM do antigamente nesta AD. Sei que esta frase pode criar agitação nas hostes de todos aqueles que como eu defendem e sempre defenderam este governo - que na minha modesta opinião tem feito o que consegue e muitas vezes o que não consegue, para endireitar o nosso país e cumprir à risca o acordo estabelecido com os nosso credores.

 

Digo isto depois de mastigar, ao longo do fim-de-semana, as declarações do Professor Cavaco Silva. Resumindo: as palermices ditas pelo próprio e largamente citadas em todo o lado, explicam em grande parte o porquê de eu ser monárquico.

 

Nunca um chefe de estado, no estado a que chegou o nosso país e perante a calamidade social que muitos portugueses enfrentam, pode proferir tais declarações. É inaceitável que o originalmente modesto Cavaco de Boliqueime, na posição que ocupa, possa usar do seu exemplo - bem remunerado ao longo da vida e com imensos privilégios legítimos dos cargos que ocupou - para dizer que está a sentir a crise e que não sabe como irá arcar com as suas despesas.

 

Um rei nunca diria isto, porque o vínculo que o une ao seu povo é muito maior e na maioria das vezes mais ténue, obrigando-o a ser verdadeiramente um porta-voz dos eleitores que nunca o elegeram, mas que têm sempre o ónus do poderem mandar dar uma volta quando lhes apetecer.

 

Voltando ao primeiro parágrafo. A esta AD fazem visívelmente falta homens de boa vontade, que ponham em causa o regime republicano, que cem anos depois de instaurado nada fez pela melhoria da nossa qualidade de vida e que nada augura de bom para os próximos cem anos do nosso Portugal. O momento deve ser de profunda reflexão em torno do nosso país e do seu futuro, "pelo que não devem existir assuntos tabu" (cito Manuel Alegre nas comemorações do centenário da república).

 

Nos momentos que correm, houvesse um PPM no governo - como o de Ribeiro Telles, Augusto Ferreira do Amaral, Barrilaro Ruas, João Camossa, Rolão Preto e Luís Coimbra - e a próxima revisão constitucional certamente atribuíria ao povo português a possibilidade de pela primeira vez referendar o seu regime. Parar, pensar, votar e decidir, sobre o futuro da sua nação - em decréscimo, desde há mais de um século.

 

Perante o estado de sítio a que chegámos e perante o descrédito das instituições, sei que o povo português irá reagir. Só espero que a classe política portuguesa tenha a coragem de discutir abertamente o regime. As mudanças mais simbólicas, na maioria das vezes, são aquelas que mais fazem por uma nação.


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Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011
por jfd

O Presidente da República confessa, à Bloomberg, que Portugal está comprometido com metas definidas na ajuda internacional, mas diz que as exigências para os bancos deviam ser menores.(...)


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Quinta-feira, 13 de Outubro de 2011
por Ricardo Vicente

"Vamos constatando a emergência de um directório, não reconhecido nem mandatado, que se sobrepõe às instituições comunitárias e limita a sua margem de manobra. Este é um caminho errado e perigoso. Errado porque ineficaz. Perigoso porque gerador de desconfianças e incertezas que minam o espírito da união".

 

"Enredada numa retórica política de recriminações mútuas, evitando reconhecer a responsabilidade partilhada, ignorando a evidência dos riscos de contágio, hesitando na solidariedade, oscilando nos instrumentos a usar, promovendo uma deriva intergovernamental, a União Europeia deu guarida a uma crescente especulação sobre a zona euro, alimentando as incertezas sobre o próprio futuro da moeda única".

 

(Ler tudo aqui).


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