Quinta-feira, 4 de Abril de 2013
por jfd

Uma grande tristeza para os amantes de cinema. Este senhor fez, foi e será história. Que Deus o tenha.

 


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Segunda-feira, 11 de Março de 2013
por Francisca Prieto

 

Tinha gravado a versão condensada dos Óscares e, embora já estivesse devidamente a par dos laureados, só agora consegui ver.

Aconteceu mais uma vez um fenómeno para o qual não encontro explicação. Diria que é mais ou menos assumido para a comunidade cinematográfica que, salvo honrosas excepções como O Artista no ano passado, os Óscares visam premiar filmes de origem anglo-saxónica, ressalvando a existência de uma estatueta para o Melhor Filme Estrangeiro. Fair enough.

 

O que baralha o sistema e vem trazer situações de desconforto perfeitamente evitáveis são as nomeações de actores em filmes estrangeiros para as categorias de melhor performance que são depois, invariavelmente, preteridos a favor de gente que ainda tem muita sopa para comer nas cantinas do ofício.

 

Lembro-me do exemplo gritante da nomeação de Fernanda Montenegro, em 1999, pela actuação em Central do Brasil. Dora é, para qualquer actriz, a personagem de uma vida e Fernanda Montenegro fá-la crescer pelo filme fora. Logo aos primeiros dez minutos deixamos de reconhecer a senhora que nos entrava pela casa em historietas de novela e somos apresentados a uma mulher amargurada pela vida que desenvolve uma improvável amizade com uma criança de dez anos.

O Óscar foi parar às mãos de Gwyneth Paltrow, por Shakespeare in Love. A rapariga não ia mal, mas não são actuações comparáveis e se não era para oferecer o galardão a Fernanda Montenegro, mais valia nem a terem nomeado, que até era uma coisa de que ninguém estava à espera. Poupava-se o constrangimento de ver uma grande senhora a ser injustamente ultrapassada.

 

Este ano, o fenómeno bisou de forma igualmente gritante. Se era para dar o Óscar a Jacki Weaver, por que cargas de água resolveram meter Emmanuelle Riva na lista das candidatas? Quem viu Amour assistiu a uma actuação de excelência num papel impossível. O filme ganhou o prémio de Melhor Filme Estrangeiro e estava muito bem assim, não era preciso expor uma digna octagenária a um tal carnaval.

 

Um estrangeiro ser nomeado para um Óscar é uma honra. Mas perder o prémio para um americano que está vários furos abaixo pode ter um efeito perverso.

 

 


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Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2013
por Francisca Prieto

 

Estreia amanhã no Brasil o filme “Colegas”. Tive o privilégio de o ver em primeira mão, há um par de meses, no decorrer do Festival de Cinema de São Paulo, com direito a intervenção do realizador no final da fita.

Ganhou o Grande Prémio do Público.

 

Optei por não colocar aqui o trailer por me parecer que é redutor na medida em que se limita a apresentar um grupo de adolescentes com Síndrome de Down a fazerem palermices.

 

Marcelo Galvão, provavelmente por ser sobrinho de um portador da síndrome, conseguiu construir uma divertidíssima história com o olho e o par de ventrículos que só está acessível a quem convive de perto com estas pessoas. Chegou lá, à desarmante ironia e ao refinado sentido de humor, à pretensa ingenuidade que, por ser subestimada, raramente é tomada por inteligência pura.

 

Para nós, portugueses, há uma cereja inesperada a esborrachar-se no topo do bolo: o Rui Unas (actor com quem nem simpatizo particularmente) apresenta-se de forma hilariante a fazer de detective português.

 

Aplaudo a estreia do filme, como aplaudi de pé a sua apresentação, no meio de uma plateia de adolescentes trissómicos brasileiros, bonitos, espertos, bem arranjados e divertidos. E fico à espera que passe por cá.

 

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Domingo, 24 de Fevereiro de 2013
por Dita Dura

Na noite dos Óscares, deixo aqui as minhas escolhas pessoais. Tendo visto todos os filmes, com excepção do melhor filme estrangeiro e de animação, observo que este foi um ano de grandes produções em películas de mais de duas horas. Django Unchained é puro entretenimento, numa mistura de western spaghetti com Kill Bill; Lincoln é uma lição de história americana para quem tiver paciência; Argo é espionagem e acção num filme intermitente; Zero Dark Thirty é a desilusão do ano; Les Misérables é a supresa de vermos o Hugh Jackman e o Russel Crowe a cantarem; Silver Linigs Playbook é um argumento modesto com interpretações geniais; Life of Pi é a produção espectacular e fiel ao livro; Amour é o orgulho europeu sobre um tema polémico; e Beasts of the Southern Wild o ressurgimento do neo-realismo num filme surpreendente.

 

 

Melhor Filme: "Django Unchained"

 

Melhor Realizador: Ang Lee por "Life of Pi"

 

Melhor Ator Principal: Bradley Cooper em "Silver Linings Playbook"

 

Melhor Atriz Principal: Quvenzhané Wallis em "Beasts of the Southern Wild"

 

Melhor Ator Secundário: Robert De Niro em "Silver Linings Playbook"

 

Melhor Atriz Secundária: Anne Hathaway em "Les Misérables"

 

Melhor Argumento Original: Django Unchained

 

Melhor Argumento Adaptado: Beasts of the Southern Wild


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Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2013
por Fernando Moreira de Sá

... por tão sublime post sobre um filme.


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Terça-feira, 2 de Outubro de 2012
por Joana Nave

Um pormenor tem, ou não tem importância? Existirá por certo muita divergência na resposta a esta pergunta. O pormenor é um detalhe, algo que pode ser acessório ou fulcral, dependendo do contexto em que se aplica. Por um lado, associa-se a característica do pormenor a uma pessoa que se perde em detalhes, por outro, a alguém que lhes dá valor. É tudo uma questão de perspectiva.

Estar atento a pormenores pode ser uma real perda de tempo, onde se deixa de ser objectivo para dar destaque ao que é supérfluo. Contudo, há momentos que se traduzem em pequenos pormenores, que fazem toda a diferença e que perpetuam lugares, palavras e gestos. Um pormenor pode não significar nada, pode ser banal, mas também pode ser um marco decisivo numa vida singular.

No indie Lisboa deste ano passou um filme – The Loneliest Planet – em que um pormenor muda radicalmente a vida de um casal, como descrevi num artigo que escrevi sobre o festival e que agora transcrevo: “O The Loneliest Planet de Julia Loktev é um filme surpreendente, que nos remete para as bonitas paisagens das montanhas do Cáucaso, na Geórgia, onde um jovem casal, alguns meses antes do casamento, resolve passar umas férias. A paixão que os envolve é notória desde o primeiro instante, mas há um momento no filme, um momento singular, que muda todo o rumo da história e coloca em causa tudo o que até então unia este casal. Neste enredo, a importância de certos gestos, aliada aos impulsos inerentes a qualquer ser humano, revela a complexidade e fragilidade das relações humanas e deixa-nos a pensar...”

Eu gosto de pormenores, tanto dos acessórios como dos fulcrais. Gosto de esmiuçar o sentido das coisas, de lhes captar o odor, a essência, de as sentir. Por vezes, perco-me no meio de tanto detalhe, torno-me subjectiva, redundante, mas é nos pormenores que encontro a beleza que liga tudo o que existe no universo, porque valorizo cada partícula como fazendo parte de um todo em que estamos inseridos.


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Sábado, 25 de Agosto de 2012
por Joana Nave

A minha vida dava um filme do Woody Allen, uma verdadeira tragicomédia com todos os ingredientes do drama e da comédia. Sou uma grande fã do cineasta e tenho um ficheiro em excel com toda a filmografia, onde vou anotando todos os filmes que já vi, os que compro e os que me faltam ver. Gosto de todos, mas tenho os meus preferidos, aqueles que são de alguma forma mais Woody Allenescos. As dúvidas existencialistas, as peripécias do dia-a-dia, o medo da morte e as relações disfuncionais compõem os dramas mais comuns.

Muitas vezes penso que podia ser uma determinada personagem e identifico-me com a história, sofrendo ou regozijando-me com o desfecho. É tão fácil sentirmo-nos meio perdidos, meio tontos, umas vezes tristes, outras contentes, porque a vida é esta linha cheia de curvas e contracurvas que ocultam sempre o que vem a seguir. Numas alturas somos o inferno, noutras o céu, e é esta busca incessante pelo equilíbrio que nos faz acordar em cada manhã. Se tudo corresse de acordo com as nossas expectativas, se as relações humanas fossem simples, a vida não teria qualquer sentido e, de repente, os consultórios dos psicólogos encher-se-iam de pessoas terrivelmente desgostosas com a sua imensa felicidade.

O ser humano é complexo e é isso que o torna interessante. A vida é uma permanente caça ao tesouro. Atravessamos continentes, cruzamos oceanos, para um dia encontrarmos a paz e a serenidade, quase sempre e invariavelmente no leito da morte. Procura-se alcançar a tranquilidade de morrer porque se cumpriu o destino, ou simplesmente porque se aceita o que se viveu sem mágoa nem julgamentos.

Eu, uma personagem tipicamente Woddy Allenesca, gosto da complexidade da vida, interesso-me pelo estudo do comportamento humano, as contrariedades da psique e tudo o que diga respeito às relações sociais. Considero que entender quem somos é um desafio que nos manterá eternamente activos, porque ao longo de séculos de história fomos sempre surpreendidos pela evolução. O desenvolvimento é tão extenso para o mal como para o bem, e é por isso que é tão importante alcançar o ponto médio que nos equilibra e sustém no arame em que percorremos os nossos dias.


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Sábado, 18 de Agosto de 2012
por Joana Nave

No próximo dia 1 de Setembro vai passar no King o filme “Carnage” de Roman Polanski. Deixo aqui a sugestão para quem não teve oportunidade de o ver antes. Carnage significa carnificina. Esta tradução faria bem mais sentido que “O Deus da carnificina”, até porque me parece que a carnificina não é divina, mas sim um atributo do homem.

O filme conta um episódio caricato na vida de dois casais que se cruzam na sequência de um desentendimento entre os filhos. A raiz do desentendimento é banal: um grupo de crianças onde o líder rejeita a entrada de uma criança para o grupo. Entretanto, os pais são chamados a intervir de forma a repor a ordem e argumentam o sucedido com a educação que transmitiram aos filhos. O genial de tudo isto é que os pais acabam por revelar características de conduta em sociedade bem mais absurdas e intransigentes que as adoptadas pelos filhos. Enquanto os pais se agridem verbalmente e revelam as suas falhas educativas através do entendimento que fazem dos factos, os filhos acabam por fazer as pazes, porque as crianças são bem mais sensatas, práticas e simples que muitos adultos.

Polanski dá-nos assim a conhecer uma experiência social fortíssima, pois basta colocar dois casais perfeitamente desconhecidos num espaço fechado, a discutir os métodos pedagógicos que regem o comportamento dos filhos, para desencadear os monstros que se escondem por trás das aparências da vida em comunidade. Quem nunca ouviu uma mãe ou um pai gabar os seus filhos como se fossem os melhores do mundo? Quem nunca viu uma mãe ou um pai defenderem os actos mais cruéis dos seus filhos apenas porque são os seus filhos, os mesmos com os quais se comprometeram cuidar, proteger e educar? Ter um filho é uma responsabilidade tremenda, um compromisso para a vida. Antigamente tinham-se filhos para ajudar os pais, hoje são os pais que ajudam os filhos, fruto da evolução dos tempos em que a emancipação é cada vez mais tardia.

No entanto, a abordagem social que está aqui presente é a que rege as crenças e os valores dos pais. A complexidade da vida adulta, tão exigente e permeável, é um desafio constante até para o mais atento, bondoso e respeitador ser humano. Os adultos têm de ser filhos gratos, trabalhadores responsáveis, maridos e mulheres carinhosos e pais exímios. Os vários papéis estão ainda sujeitos às contrariedades do dia-a-dia, às relações que têm com os amigos e ao desempenho de um papel social de dedicação e empenho para as causas e efeitos que governam o mundo. Por vezes, ser adulto cansa. Seria bom poder carregar num botão e de repente, por apenas uns instantes, não termos de cumprir nenhum papel a não ser o de sermos nós próprios, seres frágeis, com as nossas dúvidas e medos, e altamente falíveis.

Esta é a verdadeira carnificina dos nossos dias, que não nos dá um só segundo para sermos seres humanos, exigindo que sejamos divinos, perfeitos e complacentes.


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Sábado, 28 de Julho de 2012
por Joana Nave

Distinguir a realidade da ficção pode ser uma odisseia bem complexa para o ser humano. Desde pequenos somos motivados a desenvolver a nossa criatividade e imaginação. Ao longo da vida a originalidade é premiada com louvor e glória. Se queremos ir mais longe, temos de ser mais ousados, mais afoitos, mais criativos. Criar é assim um acto de tornar em matéria um simples pensamento, que surge na nossa cabeça de forma mais ou menos espontânea. Parece pois absurdo que seja precisamente a imaginação desenfreada a causa de tantas doenças do foro psicológico. A panóplia de enfermidades é tão ou mais criativa que a própria imaginação: Esquizofrenia, Parkinson, Alzheimer, TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo), Hipocondria, Narcolepsia, Bipolaridade, Anorexia Nervosa, Bulimia, apenas para nomear algumas.

A questão que me perturba é a forma como estas doenças são muitas vezes usadas com elevada inteligência pelos seus portadores, influenciando a realidade em que vivem e induzindo aqueles que os rodeiam. Confesso que tenho alguma dúvida em relação à cura destas doenças, pois uma mente perturbada muito dificilmente encontrará forças para se libertar ou será permeável a ajuda externa.

Há um filme que ilustra na perfeição este tipo de patologias neurológicas – “À la folie... pas du tout” de Laetitia Colombani, com Audrey Tautou e Samuel Le Bihan. O filme conta a história de uma jovem mulher (Angélique), artista plástica, com uma carreira promissora pela frente, que se apaixona por um homem casado (Loïc). Na mente de Angélique, Loïc corresponde ao amor que ela lhe tem, trocam presentes, planeiam uma viagem, mas ele não deixa a mulher e ela sofre com isso e espera… Enquanto espera, a sua obsessão leva-a a atropelar a mulher de Loïc, que espera um filho deste, e que Angélique julga o verdadeiro entrave à separação do casal. Quando vemos a realidade através da mente de Loïc tudo se torna claro e é bem visível a doença que perturba Angélique e a faz confundir a imaginação com a realidade, tornando-a perigosa, mas irresponsável pelos seus actos…


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Domingo, 22 de Julho de 2012
por José Meireles Graça

Lembrei-me dele por causa deste post, no qual um interminável soporífero é recomendado, sem piedade, a indefesos meninos e meninas.


É triste, mas as coisas são o que são: na ordem natural das coisas, Manuel de Oliveira não durará muito mais. Antecipo, para quando morrer, uma longa série de declarações oficiais, uma comoção nos meios de comunicação social, horas e horas de entrevistas, recensões de publicações no estrangeiro, bandeiras a meia haste e o mais de que se lembre quem há muito o promoveu a génio.


Enquanto é vivo, posso ainda dizer: Manuel de Oliveira é um realizador cujos únicos méritos consistem em fazer filmes de tal modo maus que quase ninguém acredita que possam ser tão maus como parecem, teimar em fazê-los para lá de todo o enjoo e toda a indiferença de quem não o tolera mais de dez minutos, e durar há décadas. Esta durabilidade é em parte chave do sucesso - em Portugal qualquer artista que produza tenazmente e ultrapasse os quarenta tem pelo menos talento e, se ultrapassar os setenta, passa automaticamente ao estatuto de génio - é a genialidade em regime de diuturnidades.


Fosse eu a personagem importante que com grande pena minha não sou, estas linhas singelas mereceriam um coro de indignados protestos de quanto intelectual profundo leu dez livros da moda e viu uma dúzia de clássicos da VII Arte; não falando dos que defendem a produção artística a golpes de subsídios, que são quase todos os que têm importantes mensagens a comunicar aos seus contemporâneos distraídos.


Se houver porém quem goste genuinamente das estopadas que Oliveira regularmente debita, relevar-me-á o atrevimento se se lembrar que, como contribuinte, paguei; e era o que mais faltava se, além de pagar, não pudesse refilar.


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Sexta-feira, 27 de Abril de 2012
por Alexandre Guerra

Agora, depois de o ter visto, este apache percebe porque é que o All The King’s Men (1949) é um daqueles filmes obrigatórios para quem trabalha em comunicação política.

Vencedor de três óscares da Academia, incluindo Melhor Filme, e baseado na obra homónima de Robert Penn Warren, de 1946, laureada com o Pulitzer no ano seguinte, All The King’s Men conta a história da ascensão política de Willie Stark nos anos 30 num Estado pobre dos Estados Unidos que, com a sua base de apoio assente nos “hicks” (provincianos, labregos), conquista o poder e o vai mantendo a todo o custo. Porque, a verdade é que a “política é um jogo sujo”, mesmo que esteja ao serviço do “Bem”.

A seu lado, Willie Stark tem Jack Burden, um antigo jornalista, que, acreditando no homem e no político, passa para o “outro lado” e se torna no seu assessor mais próximo.

O filme começa precisamente com Jack Burden, ainda repórter político do “Chronicle”, a ser chamado ao gabinete do seu editor. Este pergunta-lhe se já ouviu falar num tal de Willie Stark. Ao que Burden responde não.

É então que o editor lhe diz que se trata de um político de Kanoma City, uma capital de comarca “típica, quente, poeirenta e remota”, que se vai candidatar a um cargo público no “county council”.

E perante esta informação aparentemente algo inócua e sem interesse jornalístico, Stark pergunta: “E o que tem isso de especial?”

“Dizem que é um homem honesto”, responde o editor.

 

É neste discurso que Willie Stark, falando com paixão e com sinceridade ao povo, inverte a tendência negativa da sua primeira campanha eleitoral para Governador. Acabaria por perder, mas longe de ser a derrota estrondosa que muitos previam. Na altura em que soube os resultados eleitorais, anunciando a sua derrota, Willie Stark sorriu. Alguém perguntou-lhe porquê e ele respondeu: "Agora perdi, mas aprendi como se ganha!"


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Segunda-feira, 19 de Março de 2012
por Mr. Brown

Detesto intervalos no cinema. Quando começo a ver um bom filme gosto de vê-lo do princípio ao fim sem distracções várias que me perturbem a concentração. Em parte, esse é também o motivo porque detesto o 3D. Como se não bastasse o incremento no preço do bilhete, não me queiram meter a ver um filme a usar óculos. Dizem que é o futuro, deixem-me com o passado. Mas voltando ao intervalo: faço cedências. Por exemplo, O Senhor dos Anéis, o Regresso do Rei, 201 minutos, vi-o com intervalo no El Corte Inglês e não me queixei. Mas naquela faixa entre os 90 e os 150 minutos, não me lixem. Não há negócio das pipocas que compense o estragar de um filme.

Vem isto a propósito de um filme que começou a passar ontem na RTP. Digo começou porque não acredito que tenha acabado. La meglio gioventù, 366 minutos, realizado por Marco Tullio Giordana. Estamos, como compreenderão, perante outra excepção. É o tipo de filme que pode facilmente dar em mini-série de televisão. Aliás, sete horas é garante de insucesso na bilheteira. Mas abençoado Marco Giordana por se ter metido em tamanha aventura. O filme é bom, muito bom, o tempo passa a fugir e levamos com o melhor de uma certa tradição do cinema italiano que tem uma enorme capacidade de nos sensibilizar, como - para não ir mais longe e ficando por obras mais recentes - nos demonstram os notáveis Nuovo Cinema Paradiso ou o La vita è bella.

Ainda no domínio dos filmes longos, há outro italiano que não esqueço. Novecento, 317 minutos, realizado por Bernardo Bertolucci. Requisitado na biblioteca local, comecei a vê-lo sem saber no que me metia. A rapariga da biblioteca lembrou-se de só me disponibilizar um dos cd's e eu não fazia ideia que o filme eram dois. O filme ia com três horas e eu bem pensava que àquele ritmo não estava a ver onde a história pretendia ir parar. Pois parou a meio e acabei por decidir não requisitar o cd em falta. Desde então, e no que a este filme diz respeito, estou no chamado intervalo interminável. Talvez um dia...

Para terminar, a referência a um dos meus filmes favoritos: Das Boot de Wolfgang Petersen. Há versões para todos os gostos desta maravilhosa e aterradora viagem à vida num submarino alemão durante a segunda guerra mundial, mas na minha opinião este é um daqueles casos em que quanto maior, melhor. Podem ficar pelos 150 minutos da versão originalmente lançada para o cinema ou pelos 209 minutos do director's cut, mas ideal mesmo é procurarem a versão sem cortes exibida na televisão em formato de mini-série. São 293 minutos que merecem ser vistos de seguida. Vá lá, com um ou outro intervalozinho pelo meio.

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Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012
por Pedro Correia

 

Já escutei hoje mais de dez vezes a frase "sem surpresas" referente à distribuição dos Óscares. Se não há surpresa, não há notícia. Mas houve notícia. O cineasta galardoado com a estatueta de melhor realizador é francês (quantas vezes isso já sucedeu na história da Academia de Hollywood, ó jornalistas nada surpreendidos?). A película vencedora, O Artista, é uma produção franco-belga (lembram-se da última vez em que isto sucedeu ou se alguma vez ocorreu nestas oito décadas de distribuição dos Óscares, caros amigos?). O actor que recebeu o prémio para o melhor desempenho masculino, Jean Dujardin, é também francês (digam-me, por favor, qual foi o actor fancês que antes dele levou um Óscar para casa). E Christopher Plummer, veterano de longas-metragens que há muito fazem parte do imaginário universal, como Música no Coração, foi o mais velho actor de sempre a conquistar uma estatueta, neste caso destinada a premiar o melhor desempenho secundário.

Limitei-me a anotar algumas novidades em poucos minutos, ao correr da pena. Outras houve que poderia igualmente sublinhar aqui - do Óscar de melhor argumento original para Woody Allen por um filme de produção europeia até ao cineasta iraniano distinguido com o prémio para melhor filme de fala não-inglesa.

Mas reconheço que é muito mais fácil iniciar notícias com o chavão "não houve novidades". Marca de um certo jornalismo preguiçoso que permanece instalado entre nós.

Imagem: Jean Dujardin e Bérénice Bejo numa cena d' O Artista

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Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012
por Fernando Moreira de Sá

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Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012
por Mr. Brown

Era suposto sair um post sobre o Livro Negro do Paul Verhoeven e o Sedução, Conspiração do Ang Lee, mas são tantos os artigos que uma pesquisa rápida pelo google disponibiliza onde os dois filmes são comparados que decidi aproveitar a porta que tinha aberto para ir ao começo da carreira de ambos os realizadores. Paul Verhoeven é conhecido sobretudo pelo seu trabalho em Hollywood, mas na minha opinião os seus melhores filmes foram feitos em terras holandesas. Um é o recente e já referenciado Livro Negro, para encontrar o outro é preciso ir até 1977 e dar com O Soldado da Rainha, um retrato baseado em factos reais da resistência holandesa durante a segunda guerra mundial. Já Ang Lee terá entrado no circuito mainstream com a sua adaptação da obra de Jane Austen, Senso e Sensibilidade, mas antes disso realizou uma trilogia, sob a temática «father knows best», que deixava evidente boa parte dos atributos que fazem do realizador taiwanês um dos melhores na sua arte. Dessa trilogia gosto particularmente dos dois últimos, ambos nomeados na categoria de melhor filme estrangeiro nos Óscares: O Banquete de Casamento e Comer Beber Homem Mulher. Para efeito deste post, vou concentrar-me no último.


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Domingo, 29 de Janeiro de 2012
por Fernando Moreira de Sá

 

Nos últimos anos evito ir ao cinema e prefiro ficar, calmamente, a ver os meus filmes preferidos em casa. Não tanto pelo ruminante barulho dos comedores de pipocas (eu até gosto de pipocas) - o conceito das salas de cinema em barda dos centros comerciais permitiu dar a conhecer o elevado número de portugueses que comem pipocas de boca aberta!

Não, o problema maior, no meu caso, foi a chegada dos telemóveis. Primeiro com a malta que, educadamente, não desligava o som aos telemóveis. Mais tarde, a grande elevação e respeito pelo vizinho de atenderem as chamadas e agora, tendo a marralha aprendido a colocar os bichos em silêncio, o maravilhoso clarão dos ditos aparelhos sempre que uma sms é trocada com elevado denodo. Enfim.

Mesmo assim, como sou um despistado, por vezes esqueço a realidade e vou ao cinema. O preço dos bilhetes está, vou ser simpático, puxadote. Como a oportunidade e respectiva disponibilidade é rara, procuro escolher filmes de realizadores que aprecio, histórias que me fascinam ou então aqueles cujos efeitos especiais só podem ser devidamente apreciados numa sala de cinema. Fora isso, nem arrisco.

Foi o caso do filme "J. Edgar", de Clint Eastwood. A história de Hoover é fascinante. Os filmes de Clint Eastwood costumam ser fantásticos. Nem hesitei. Após os primeiros 20 minutos fiquei sem palavras. Que enorme balde de água fria. Uma história fantástica e com pano para mangas. Um filme com tudo para dar certo que se transformou, na minha opinião, que vale o que vale, num fiasco. Leonardo DiCaprio nunca conseguiu ser J. Edgar Hoover e apenas Naomi Watts convenceu. Só não me "pirei" no intervalo pelo enorme respeito a Clint Eastwood que tanto admiro. Uma grande história estragada por um actor esforçado que nunca, nem por sombras, nos consegue convencer que é Hoover. Que pena. Que desperdício.


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Sábado, 7 de Janeiro de 2012
por Mr. Brown

Agora que os chineses entram na EDP, um pouco de história chinesa não faz mal a ninguém. A esse propósito há dois filmes que muito recomendo, são eles o Adeus minha Concubina e o Viver. Produtos de 1993 e 1994 respectivamente, estes representarão as duas visões mais interessantes e bem conseguidas, ainda que não totalmente coincidentes, dos períodos mais tumultuosos do século XX chinês (O Papagaio de Papel Azul é outro filme que costuma ser incluído no grupo, mas no que a este post diz respeito fica à margem). E nesse objectivo ambicioso a que os realizadores se propuseram, o de retratar a história de um povo durante um período agitado de mais de 50 anos - que inclui a ocupação da China pelos japoneses; a guerra civil que resultou na ascensão ao poder dos comunistas; o Grande Salto em Frente; e a Revolução Cultural -, ambos recorreram à literatura que pela mão de Lilian Lee no primeiro caso e Yu Hua no segundo haviam escrito o material que serve de suporte ao argumento, se bem que os livros quando comparados com os filmes sejam obras menores. Os realizadores esses são Chen Kaige e Zhang Yimou, os dois expoentes máximos da que ficou conhecida como a Quinta Geração, uma geração nascida dos destroços da Revolução Cultural e que, paradoxalmente, revolucionou o cinema chinês, sempre com um olhar muito crítico para com o regime vigente, para grande insatisfação deste que nunca se coibiu de lhes fazer a vida negra.

Ambos os filmes contam como protagonista com a - vou ficar pelo uso de um único adjectivo, sabendo à partida que é pouco - fascinante Gong Li, diva do cinema chinês que acompanhou profissionalmente os dois realizadores em muitos outros filmes e manteve uma relação íntima com Yimou que, para lamento de muito cinéfilo, terminou no ano seguinte à exibição de Viver, pondo fim a uma das maiores e mais bem sucedidas duplas que o grande ecrã conheceu (ainda que anos mais tarde, sem a mesma chama, tenham-se reencontrado em A Maldição da Flor Dourada). Comum é também a presença do actor Ge You, num papel menor em Adeus minha Concubina, mas presença maior em Viver, pelo qual recebeu o galardão de melhor actor no consagrado festival de Cannes. A acompanhar Gong Li em Adeus minha Concubina nos papéis principais estiveram o calmeirão Zhang Fengyi e o - não consta que tenha recebido algum prémio de maior pelo seu desempenho, o que mostra como o mundo é injusto - Leslie Cheung, na pele de um personagem homossexual, papel que mais tarde veio a revelar-se também era o seu na vida real.

 

 

Na história propriamente dita, o filme de Chen Kaige, que se prolonga ao longo de quase três horas, desenvolve-se em torno de um triângulo amoroso e aproveita uma coisa tão tradicional como a Ópera de Pequim - que proporciona imagens lindíssimas - para demonstrar o efeito das várias mudanças bruscas pelas quais a sociedade chinesa passou no período em análise. Inesquecível será a cena da revolução cultural, quando os três personagens são forçados a confrontarem-se entre si e solta-se o que de mais negro há dentro de cada um. A partir dai segue-se uma melancolia sem fim que fará soltar a lágrima ao espectador mais emotivo. Já no filme de Zhang Yimou, o tradicional também está presente na forma do espectáculo de fantoches que serve de ganha pão ao personagem principal. Escusado será dizer que ambas as tradições acabam esmagadas pela fúria do "progresso" revolucionário.

No que a cenas marcantes diz respeito, Viver também tem a sua quota parte, para registo fica a da maternidade de um hospital onde os médicos seniores, sob a acusação de serem colaboradores das forças burguesas e capitalistas, foram presos e substituídos por jovens inexperientes amantes da revolução. Num ambiente assim, onde as regras rígidas e absurdas imperam, a tragédia está permanentemente presente e o individuo, subjugado a ser peça na engrenagem de uma máquina colectiva imparável, acaba confrontado com resultados que fogem ao seu controlo mas são consequência das suas acções, o que origina um sentimento de culpa individual difícil de suportar e de lidar. O tema é recorrente na obra de Yimou - por exemplo, na história de Songlian em Esposas e Concubinas e na de Xiao Jingbao n'A Tríade de Xangai -, mas com o Xu Fugui de Viver as coisas chegam ao ponto de este alegrar-se com a irresponsabilidade passada - a perda da fortuna familiar no jogo - por esta lhe ter permitido melhor sobreviver no contexto da nova ordem instituída - onde não seria confundido com um burguês endinheirado. É o mundo ao contrário. Mas é também o instinto de sobrevivência em acção. Um instinto que mesmo quando confrontado com os maiores infortúnios vai mantendo os personagens principais agarrados à vida. O instinto e um permanente sentido de esperança, presente no fim do filme quando Xu Fugui, perdida a ilusão, deixa cair o comunismo, mas mantém viva perante o neto a promessa de uma vida que «só irá melhorar».

Fosse qualquer um destes filmes comparado com um combate de boxe e ficaria claro que ambos os realizadores haviam ganho por knockout. Entre outros, no tapete, derrotado, quedaria-se Mao Tse-tung e a sua revolução.


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Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011
por Ricardo Vicente

Segundo o DN, que cita a revista Empire, que por sua vez cita Steven Spielberg -  George Lucas está a escrever o guião para um quinto filme do Indiana Jones.

 

Depois da bosta que foi o Indy 4 e depois dos três primeiros filmes (e a série de televisão do "jovem Indiana Jones") serem já uma obra acabada, completa, perfeita - para que é que o George ainda insiste em mais guiões? Já há três filmes inultrapassáveis (e uma série que desenvolveu ainda mais a personagem). Aquela obra, a personagem, a fantasia estão prontos, completos. Tudo o que vier agora, incluindo o quarto filme, já é um excesso, um apêndice que só serve para ir inquinando a memória e os sonhos anteriores. Vender mais uns bilhetes de cinema não compensa a depreciação daquelas obras-primas no imaginário global.

 

Oh George, larga lá o guião e vai mas é ler o Vergílio Ferreira!! O que está acabado, findado está e é nesse fim que as coisas se completam e ganham o seu sentido definitivo. Tudo o mais é bosta.

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Sábado, 26 de Novembro de 2011
por Francisca Prieto

 

O novo filme do Almodóvar é estranho. Muito estranho.

Todos os filmes de Almodóvar são estranhos, mas este ultrapassa uma fronteira inédita. Porque este filme podia não ser de Almodóvar.

Com uma direcção exímia, uma história poderosa e vários episódios chocantes, o filme podia ter sido realizado por qualquer bom realizador, que não Almodóvar.

 

Faltam-lhe dois ingredientes primordiais para poder fazer parte da cinematografia almodóvariana: meia dúzia de pontos altos de humor prosaico e uns quantos pormenores kitsch, seja no décor, seja no guarda-fato, seja nos diálogos.

Se retirarmos à fita uma cena perfeitamente secundária em que há um pequeno mal-entendido entre medicação psiquiátrica e pastilhas da night e outro episódio em que aparece um homem mascarado de tigre, sobra apenas uma realização de mestre. Mas não necessariamente de Almodóvar.

 

Tendo assistido a um grande filme, fiquei profundamente desiludida. Apetecia-me mais salero.

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Quinta-feira, 8 de Setembro de 2011
por Fernando Moreira de Sá

O momento em que Cleo, banhada em lágrimas, se despede do pai é profundamente perturbador. Naquele instante senti o estômago colar e medo. O verdadeiro medo de algum dia passar por semelhante calvário.

 

Somewhere, de Sofia Coppola, entrou directamente e a exemplo de “Lost in Translation” para a galeria dos grandes filmes da minha vida. Este filme é um retrato fiel destes tempos que, no fundo, pouco diferem dos anteriores excepto na forma livre como hoje tudo pode mudar. Um filme sem preconceitos nem lições de moral para o espectador. Um retrato. Um espelho de muitas vidas e outras tantas relações interrompidas com os filhos apeados no meio do caminho.

 

Somewhere é um filme perturbador. Pelo menos para mim. Perturbou-me. É isso que espero do cinema, que me surpreenda, que me conte uma história, que me deixe a pensar ou a sonhar. Senti, ao visionar Somewhere, o mesmo que sentira antes com “Breaking the Waves” de Lars Von Trier, ou “Simplesmente Genial” de Scott Hicks ou o mítico “Cinema Paraíso” de Giuseppe Tornatore.

 

Quando Johnny pára no meio de nenhures, com o seu magnífico Ferrari e parte, deixando tudo para trás, fiquei, literalmente, como um pugilista depois de uma valente esquerda: pendurado nas cordas inanimado.

 

Levantei-me, peguei no marlboro e no copo numa só mão enquanto com a outra puxei a minha mulher e fomos até à varanda fumar um cigarro olhando para a madrugado do nosso Douro. Saboreando o filme acabado de ver, não trocamos uma única palavra durante alguns minutos. Nada havia a dizer. A Sofia Coppola já tinha dito tudo. Em Somewhere, um filme apaixonante. Como a vida.

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por Francisca Prieto

 

Em Setembro de 2009 uma grande amiga minha ligada às lides cinematográficas foi convidada para fazer parte do júri do Festival de Cinema de San Sebastián. Coube-lhe a ela entregar em mãos o prémio de melhor actor a Pablo Piñeda, o jovem espanhol protagonista de Yo También, famoso por ter sido, na Europa, o primeiro portador de Síndrome de Down a conseguir completar uma licenciatura.

 

Na altura vi o trailler mas não fiquei particularmente impressionada. Sabe-se lá porquê, fiquei com a ideia de que se tratava de mais um filme poético sobre um trissómico sonhador.

 

O filme não chegou a estrear por terras lusas, de maneira que se perdeu pelas brumas da memória até ao mês passado quando o meu marido, chegado do estrangeiro, gritou “alvíssaras” de DVD em punho.

 

Foi com um certo fastio que me sentei diante do televisor e foi com muita resistência que ultrapassei as imagens iniciais de uma aula de dança para adultos com Síndrome de Down. Sou profundamente defensora da inclusão de portadores de SD e fico de cabelos em pé quando assisto à cena típica do “adulto colectivo”, à excursão de mongolóides que caminha desengonçada a dizer disparates, acompanhada por adultos paternalistas que sorriem condescendentemente.

 

Para minha surpresa, o filme é o contrário do que estava à espera. Ao invés de um trissómico sonhador, damos de caras com um jovem lucidíssimo, com um sentido de humor fenomenal. Não fora ter tão vincados os traços físicos característicos da síndrome, aliados a uma dicção deficitária, e acharíamos tratar-se apenas de um actor baixinho.

 

O papel é o de um trissómico a fazer de pessoa normal. Ou melhor, de um trissómico que, por ser tão normal, vive num limbo desconcertante.

No fundo, precisamente o inverso do que Dustin Hoffman desempenhou em Rain Man, com direito a Óscar da Academia.

 

Contou-me a minha amiga que, enquanto jurada, teve de defender por mais de uma vez que premiar Pablo Piñeda não se tratava de um lugar comum. Não era o óbvio prémio “ao desgraçadinho”, era o reconhecimento do excepcional trabalho de um actor.

 

Yo También é um filme de excelência, que toca de uma forma desconcertantemente pragmática nas questões da integração social. Mas, Yo También, é sobretudo, um filme delicioso.


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Terça-feira, 6 de Setembro de 2011
por Carla Faria

 

Tanta chapa amassada, credooo. Mas não é disso que vinha falar, mas sim de mais uma excelente interpretação do nosso querido conterrâneo Joaquim de Almeida. Mais uma vez somos surpreendidos com a extraordinária volatilidade deste actor, que neste filme se nos apresenta como um industrial corrupto e traficante de droga. Este papel representa uma enorme evolução na carreira do actor, visto que normalmente apenas o vimos como traficante de droga, ou traficante de armas. Hollywood viu sem dúvida as capacidades do nosso Joaquim e resolveu acrescer-lhe o "industrial corrupto" ao traficante de droga.
Sei de fonte segura que Hollywood prepara mais um blockbuster em que Joaquim de Almeida é já presença assegurada. Vai interpretar desta vez um traficante de tabaco com ligações à máfia. É refrescante ver como a maior industria cinematográfica do mundo tem noção das capacidades camaleónicas dos actores. Incrível mesmo.
Quanto ao Fast Five... tanta chapa amassada, credooo. Já tinha dito, não já?

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Segunda-feira, 5 de Setembro de 2011
por Pedro Correia

 

«Apanhámo-los, rapazes! Vamos acabar com eles e depois voltamos para o nosso forte.» Segundo a tradição, estas terão sido as últimas palavras pronunciadas pelo coronel George Armstrong Custer ao mandar avançar a sua cavalaria contra os índios Sioux, liderados pelos chefes Touro Sentado e Cavalo Louco. Nunca é de mais lembrar este episódio culminante da batalha de Little Big Horn para se avaliar até que ponto as aparências iludem. O voluntarismo é mau conselheiro, na guerra como na política: impede os seus cultores de perceber até que ponto o chão lhes foge debaixo dos pés. Há quem imagine que cerca quando está cercado, há quem suponha que ataca quando a única solução que lhe resta é defender-se. John Ford, que sabia tanto de cinema como sabia da vida, deixou-nos esta batalha imortalizada num dos seus melhores filmes. Forte Apache, precisamente.

À primeira vista, parece um épico. Mas cuidado com as aparências: é um dos melhores retratos jamais feitos do reverso do sonho americano. Uma longa-metragem que devia ser (re)vista por políticos de todas as latitudes e de todos os quadrantes. Para assimilarem a milenar sabedoria de Sun Tzu: "A suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar."

Imagem: fotograma de Forte Apache (1948)


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