Terça-feira, 24 de Abril de 2012
por Maurício Barra

Segundo Rui Ramos, quando, a seguir ao PREC, de 1979 a 1982, com o surgimento e vitória da AD, «se começou a falar de “iniciativa privada” , “sociedade civil” e “classe média” em vez de “apropriação colectiva”, “planeamento central” e “classe operária”, Portugal dispôs de uma margem de manobra que lhe permitiu a revisão da Constituição, iniciar a entrada da CEE e tornar respeitável a linguagem do mercado e da sociedade civil. ». Com a morte de Sá Carneiro, « a reforma através do confronto não podia ir mais longe. A partir daí, o que se conseguiria seria através de acordo. Que o PS e o PSD transformaram em Bloco Central da vida política portuguesa, num pacto em que, se o “socialismo” ficava na gaveta, o ”reformismo” também.»

Este “situacionismo” subsequente, vivemo-lo ao longo dos últimos trinta anos. É uma democracia social de Estado, um modelo no qual se edificou o Estado sobredimensionado, um sistema eleitoral que se alimenta da sobre-valência dos acordos partidários sobre os direitos individuais dos cidadãos, a manutenção de uma economia largamente corporativa, o acordo implícito com a CGTP de que “muda-se tudo menos o essencial”. Até Cavaco Silva, quando foi primeiro-ministro, “não pisou o risco”.

Este “situacionismo” (*) é, também, o líquido amniótico no qual flutuou e se alimentou o poder do PS, nas suas várias versões, despreocupado por ter encontrado o ouro do Brasil nos Quadros Comunitários de Apoio vindos da Europa. Até ao momento em que, representado por um primeiro-ministro irresponsável e incompetente, completamente desqualificado para o ser, atingiu o paradoxismo de substituir a realidade por uma ficção. Mas o rei estava nu: o situacionismo gerou a sua própria bancarrota.

Esta bancarrota colocou-nos num ponto de viragem, que pode ser a primeira oportunidade que Portugal tem, desde Sá Carneiro, para se reformar.

Hoje, são estes dois Portugais que se confrontam (**): os que supõem que “o tempo pode voltar para trás” ( andam desesperadamente à procura de um modelo alternativo para o qual não têm dinheiro nem crédito ), e aqueles que ( em diferentes graus de moderação ) sabem que só na reforma do nosso modelo de desenvolvimento haverá saída colectiva para todos nós.

Vai a reforma vingar ?

Algum caminho será feito, mas tem dois limites.

O primeiro limite, ultrapassável, advém do facto da maioria dos portugueses terem aceitado a austeridade com a expectativa de que esta seja a plataforma para o crescimento económico e criação de emprego. Se tal não suceder, a decepção transformar-se-á em falta de apoio político.

O segundo limite, ainda parcialmente inultrapassável, poderá ser o limite permanente das nossas insuficiências futuras : a dimensão das corporações na economia portuguesa ( e a ausência de uma legislação de concorrência eficaz ) ; o desequilíbrio estrutural da economia portuguesa, sustentado num Estado sobredimensionado, inviabilizando a redução da carga fiscal agora imposta aos portugueses; e a inversão da pirâmide da representatividade política ( reforma do sistema eleitoral ) que nivele os actuais poderes excessivos e respeite os direitos individuais dos cidadãos.

 

(*) aliás, este situacionismo, sem democracia e com guerra colonial, era o modelo político de Marcelo Caetano.

(**) é sintomático que Mário Soares e Vasco Lourenço, máximos defensores desta democracia social de Estado, tomem atitudes de ruptura formal com esta evolução democrática em curso. Não querem reconhecer o que os portugueses, eleitoralmente, já reconheceram: chegou ao fim o ciclo que nos levou à bancarrota. 

tags:

tiro de Maurício Barra
tiro único | comentar | ver comentários (2) | gosto pois!

Segunda-feira, 16 de Abril de 2012
por Maurício Barra

 

 

O último timoneiro enganou-nos, disse que a rota era segura, levou-nos a arribar aqui (1) . A caravela, vasa no  costado da alheta (2), já adorna, retirámos lastro, o aparelho (3) destroçado, o velame arreado (4), o risco de encalhar para não afundar é o nosso presente imediato. Esportelando-nos, é a ajuda de aliados  que nos está a manter à tona da água. Esta caravela , que já nos levou longe, com ela criámos outros mundos neste mundo, a cada torna viagem, tivesse tormentas ou mar chão, quando arribávamos voltávamos sempre com o dever cumprido, com a esperança de que, se pouco arrecadámos, da próxima esforçar-nos-íamos  mais. Substituímos timoneiros , chegámos a trocar tripulações inteiras. E a caravela , velhinha, trouxe-nos até aqui. Nos últimos duzentos anos andámos muitas vezes à deriva, sem timoneiro, sem carta de marear ou com homens do leme que não sabiam a rota. Fomos corsários sob pavilhão estranho, tivemos marinheiros de água doce, que não sabiam afastar-se da costa o suficiente para cursar em futuros imaginados. Também tivemos flibusteiros que, em nome de amanhãs que cantam, quase nos iam causando naufrágio. Estamos agora com um homem ao leme que nos assegurou que tínhamos chegado às ilhas Encantadas, mas afinal encalhámos nuns baixios, com o bartedouro ( 5) sempre em função, longe do metal e do alimento, onde corremos o risco de nos perdermos antes de nos encontrarmos. A  tripulação está confusa e dividida : uns, encadeados pelo encantamento,  ainda acreditam que as ilhas estão logo ali à proa; outros, sensatos,  sabem que se não arrimam a nau, o perigo de naufragar é o mais certo;  outros ainda, sem esperança, atiram-se para os quebra-peitos (6), querem baixar porta-ló (7), abandonam a caravela, arriscando ver salvação numa costa cega (8). Outros ainda, loucos, preferem afundar a nau.

Um fraco timoneiro faz fracos os fortes nautas. Um timoneiro sem bom senso exacerba o mau senso dos irresponsáveis e inconsequentes. Um timoneiro que não se engana a enganar, transforma os cépticos em velhacos. Fossem os tempos mais atrasados, o último mereceria a última das três cordas embarcadas (9), Mas estamos todos na mesma nau. Aqui. Se a este timoneiro o tino falhar, a caravela, sem mão sabedora ao leme, nesta geração, não terá carta partida (10), fundeará para sempre. Sabemos caturrar (11) vagas, ultrapassar bojadores, sabemos navegar à bolina, mas se não nos desatarem os nós que nos prendem a quimeras, não poderemos desbravar os nós de mar desta derrota (12) de bóias cegas (13) que temos a obrigação enfrentar. Para sairmos desta linha da água (14).

 

(0) período de tempo em que não há corrente de maré

(1) levar a porto que não é de destino

(2) zona de costado de uma embarcação entre a popa e o través

(3) conjunto de cabos, poleame e velame de um navio

(4) termo usado quando se baixa uma vela

(5) recipiente para esgotar água de uma embarcação

(6) escada de corda e degraus de madeira na qual se pendura o prático para subir a bordo em alto mar.

(7) escada que leva do cais ao navio

(8) costa de que não se conhecem as localidades

(9)a bordo dos navios as cordas são designadas por cabos.  A bordo existem apenas três cordas: a do relógio, a do sino e a da forca.

(10) contrato de afretamento

(11 ) oscilação de uma embarcação no sentido popa-proa por efeito da ondulação

(12) caminho seguido numa viagem por mar.

(13) bóias de sinalização sem luz intermitente

(14 ) linha que separa as obras vivas das obras mortas. Que obras são estas deixo para vocês adivinharem.

 

Com a preciosa ajuda do Pedro P. :

(6) estas escadas também são conhecidas como quebra-costas.

(9) existe ainda mais uma corda : "acorda que está na tua hora ", frase que se usa na mudança de quartos.

(11) a este movimento ( proa/popa) também se chama de "cabeceamento "

tags:

tiro de Maurício Barra
tiro único | comentar | gosto pois!

Sexta-feira, 6 de Abril de 2012
por Maurício Barra

(*)

 

OSTERA , PESCHAD e a RESSURREIÇÃO

 

Muito antes de ser considerada a festa da ressurreição de Cristo, a Páscoa anunciava o fim do Inverno e a chegada da Primavera.

A Páscoa sempre representou a passagem de um tempo de trevas para outro de luz, isto muito antes de ser considerada uma das principais festas da cristandade. A palavra "páscoa" – do hebreu "pesach", antes "peschad", em grego "paskha" e latim "pache" – significa "passagem", uma transição anunciada pelo equinócio de primavera (ou vernal), que no hemisfério norte ocorre a 20 ou 21 de Março e, no sul, em 22 ou 23 de Setembro.

 

Ostera (ou Ostara) é a Deusa da Primavera, que segura um ovo em sua mão e observa um coelho, símbolo da fertilidade, pulando alegremente em redor de seus pés nus. A deusa e o ovo que carrega são símbolos da chegada de uma nova vida. Ostera equivale, na mitologia grega, a Persephone. Na mitologia romana, é Ceres.

A celebração de Ostera, comemora a fertilidade, um tradicional e antigo festival pagão que celebra o evento sazonal equivalente ao Equinócio da primavera. Algumas das tradições e rituais que envolve Ostera, incluía fogos de artifícios, ovos, flores e coelho.

Ostera representa o renascimento da terra, muitos de seus rituais e símbolos estão relacionados à fertilidade. Ela é o equilíbrio quando a fertilidade chega novamente depois do inverno. É o período que a luz do dia e da noite têm a mesma duração. Ostera é o espelho da beleza da natureza, a renovação do espírito e da mente.

 

Para os judeus, que comemoram a sua Páscoa desde mil e trezentos anos antes do nascimento de Cristo, a sua origem é diferente. A Páscoa judaica chama-se Pesach, palavra hebraica que significa "passagem", e lembra a passagem de um anjo que teria poupado os judeus da morte pelas pragas que caíram sobre o Egipto.

A Páscoa judaica comemora a passagem do povo de Israel da escravidão do Egipto para a liberdade na terra prometida, atravessando o deserto do Sinai. Assim, a Páscoa, é a comemoração do voltar a ser feliz, é a festa da alegria, da fraternidade de quem ultrapassou provações em comunidade.

O ritual da Páscoa judaica é apresentado no livro do Êxodo (Ex 12.1-28). Por essa festa, a mais importante do calendário judaico, o povo celebra o facto histórico da sua libertação da escravidão do Egipto acontecido há 3.275 anos, com  Moisés no comando a atravessar com o seu povo o Mar Vermelho e o Deserto do Sinai.

O Êxodo compreende a libertação do Egipto, a caminhada pelo deserto e a aliança no Monte Sinai (sintetizado nos dez mandamentos dado a Moisés). Com o tempo, esta realidade histórica transformou-se num acto de fé.

Todos os anos, na noite da primeira lua cheia da Primavera, os hebreus celebravam a Páscoa, com o sacrifício de cordeiro e o uso dos pães ázimos (sem fermentos), conforme a ordem recebida por Moisés (Ex 12.21.26-27; Dt 12.42). Era uma vigília para lembrar a saída do Egipto (forma pela qual tal facto era passado de geração em geração – Ex 12.42; 13.2-8).

Esta celebração, com o passar do tempo e das cruéis vicissitudes que o povo judeu sofreu, ganhou adicionalmente uma dimensão de resistência. Quando sofriam  subjugações por estrangeiros, êxodos e pogroms, celebravam a Páscoa lembrando o passado, mas pensando no futuro, com esperança de uma nova libertação, última e definitiva, quando toda escravidão seria vencida, e haveria o começo de um mundo novo há muito tempo prometido.

 

Para os Cristãos, a Páscoa adapta a simbologia de Ostera dos antigos deuses pagãos e da Pesach dos judeus.

Os símbolos tradicionais da Páscoa vêm de Ostera. Os ovos, símbolo da fertilidade, eram pintados com símbolos mágicos ou de ouro, eram enterrados ou lançados ao fogo como oferta aos deuses. Era o Ovo Cósmico da vida, a fertilidade da Mãe Terra.

A comemoração de Ostera era determinado pelo antigo sistema de calendário lunar, que coloca o colocava  após a primeira lua cheia a seguir ao equinócio da Primavera.

O nome  Páscoa ( Easter ) vem do deus saxão da fertilidade Eostre, que acompanha as festas de Ostara como um coelho, o que deu origem ao símbolo do coelho de páscoa na tradição cristã. ( o coelho é também um símbolo de fertilidade e da fortuna ).

Assim, a Páscoa cristã justapôs-se cronologicamente às festas pagãs de Ostara, reorientando  a tradição dos símbolos do Ovo e do Coelho. Isso sucedeu na Idade Média, adoptando  dos antigos povos pagãos europeus as celebrações que, nesta época do ano, homenageavam Ostera, ou Esther  ( em inglês, Easter quer dizer Páscoa ).

O Domingo de Páscoa continuou a ser determinado pelo antigo sistema de calendário lunar, sendo a data do feriado cristão fixada durante o Concílio de Nicéa, em 325 d.C.,  "o primeiro Domingo após a primeira Lua Cheia que ocorre após ou no equinócio da primavera boreal ".

Simbólicamente, a Páscoa passou a ser uma celebração da última Ceia de Jesus com os apóstolos. Nesta ceia ou refeição, os primitivos cristãos tomavam a refeição simbólica da Ceia do Senhor para comemorar a Última Ceia, na qual Jesus e seus discípulos mantinham o hábito de observaram a tradicional festa judaica da Peschad. Os temas das duas refeições eram os mesmos. Na Peschad os judeus regozijavam-se porque Deus os havia libertado dos seus inimigos e aguardavam com expectativa o futuro como filhos de Deus. Na Ceia cristã, os cristãos celebravam o modo como Jesus os havia libertado do pecado e expressavam sua esperança pelo dia quando Cristo voltaria (1Co 11.26). A princípio, a Ceia do Senhor era uma refeição completa que os cristãos partilhavam em suas casas. Cada convidado trazia um prato para a mesa comum. A refeição começava com oração e por comer pedaços de um único pão, que representava o corpo partido de Cristo. Encerrava-se a refeição com outra oração e a seguir bebiam de uma taça de vinho, que representava o sangue vertido de Cristo.

Para os cristãos, o centro da fé é o Jesus que morreu e que acreditam que ressuscitou para mostrar que a utopia de um mundo justo e de paz é possível. A vida, a morte e a ressurreição de Jesus são a concretização dessa utopia.

Se bem que a imagem da Páscoa Cristã seja o cruxifixo representando a morte de Jesus, é a sua ressurreição que verdadeiramente simboliza a cristianização de Ostera e do Pesach, a celebração da renovação da vida depois da morte, a remissão da culpa depois do arrependimento, a alegria depois do sofrimento, a passagem de um tempo de trevas para outro de luz.

(*) Capela de S. Tiago (desenho de Carlos Van Zeller, 1835), Praça de S. Tiago, Guimarães. A primitiva capela da Praça de S. Tiago seria, segundo a tradição, um templo pagão, dedicado à deusa Ceres. in Memórias de Araduca.

 

(**) Texto elaborado a partir de diversas pesquisas sobre História da Religião.

tags:

tiro de Maurício Barra
tiro único | comentar | ver comentários (4) | gosto pois!


Regimento
outras cavalarias
tiros recentes
tiros mais comentados
cofre
tags
Arregimentados
Subscrever feeds
visitas