Quinta-feira, 1 de Agosto de 2013
por Francisca Prieto

 

Meu Deus, isto está tão mal que as pessoas já se estão a vender a elas próprias.

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por Pedro Correia

"Ao contrário das previsões, o Algarve está quase esgotado neste início de férias de Agosto. Nesta altura já é praticamente impossível encontrar alojamento. A taxa de ocupação em hotéis e empreendimentos turísticos aumentou porque milhares de portugueses decidiram fazer férias em Portugal por causa da crise."

Lançamento de notícia no Primeiro Jornal da SIC


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Terça-feira, 16 de Julho de 2013
por Pedro Correia

 

Imaginem uma mesa onde se joga póquer. À volta da mesa, quatro cadeiras. Nessas cadeiras estão sentados quatro homens: Aníbal, António, Paulo e Pedro. Cada qual fazendo bluff, temendo as cartas que os restantes possam lançar.

A política portuguesa, por estes dias, transformou-se nisto. Há um país inseguro, que sustém a respiração, suspenso destas cartadas. Um país sob intervenção externa, que há mais de dois anos perdeu a soberania financeira, aguarda que naquela mesa termine o jogo. Sem a mais remota esperança que daqui resulte uma solução mais sólida e mais estável.

 

Passaram apenas duas semanas desde que foi tornada pública a demissão de Vítor Gaspar, acompanhada de uma carta que constitui um notável contributo para a antologia do humor negro na política portuguesa. "Os riscos e desafios do próximo tempo são enormes. Exigem a coesão do Governo. É minha firme convicção que a minha saída contribuirá para reforçar a sua liderança e a coesão da equipa governativa", dizia o ex-titular das finanças nessa missiva supostamente dirigida ao primeiro-ministro mas tendo afinal por destinatários dez milhões de portugueses, inaugurando o estilo "carta aberta" no exercício da governação.

Quinze dias depois, tudo parece ter regressado aos penosos dias do pântano - num teste quase desesperado à liderança e à coesão, palavras habitualmente invocadas na razão inversa da sua existência, como Gaspar bem sabia quando as colocou na sua carta que abriu oficialmente a saison de crises políticas.

Não admira, por isso, que um dos quatro opte por uma pausa no mais remoto e desabitado recanto do território português. Perfeita antítese da atribulada política portuguesa por estes dias, o plácido arquipélago das Selvagens. Com apenas quatro habitantes e banhado pelas águas mais limpas do mundo, como as classificou o oceanógrafo Jacques-Yves Cousteau.

 

A Bolse treme, levando Lisboa ao terceiro pior desempenho do mundo? Os juros disparam? Há novos pedidos de demissão na equipa das finanças? Chovem acusações de que se pretende "institucionalizar o caos"? Nada que o som das cagarras não dissipe enquanto se contempla o vasto Atlântico que inspirou os navegadores das naus de Quinhentos.

Talvez elas nos tragam notícias do eclipsado Gaspar, o ex-ministro em quem o chefe do Governo costumava "confiar plenamente" em dias que parecem já muito distantes. Talvez elas contribuam para atenuar o choque das contínuas surpresas em que se transformou a montanha russa da política nacional. Talvez elas ajudem a revigorar o supremo árbitro do sistema, mais eloquente nos longos períodos de silêncio do que no esporádico uso da palavra.

Ou talvez não.

 


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Quinta-feira, 11 de Julho de 2013
por Pedro Correia

Escutei hoje com atenção a Antena Aberta, da RTP N. Escutei hoje com atenção a Opinião Pública, da SIC Notícias. Foi quanto bastou: adquiri a certeza de que o país está salvo.

Ouvi frases de esclarecidos "populares" como esta: "Um país tão pequeno com tantos deputados é um caos total." Ou esta: "Depois do 25 de Abril os políticos venderam o País completamente." Ou ainda esta: "É preciso um governo que faça recolher os partidos e os sindicatos às cavernas durante vinte anos!"

Com tal caldo de cultura - abençoado por uma certa intelectualidade lisboeta que não esconde o seu imeeeeenso horrrrrrror pela existência de estruturas partidárias - não admira que se multipliquem ocorrências deste género, sem encontrarem a resposta adequada dos que deviam figurar na primeira linha da defesa das instituições democráticas.

Quem grita "fascismo nunca mais" na Assembleia da República parece desconhecer que o primeiro passo de todos os fascismos é descredibilizar os parlamentos. O segundo é encerrá-los.

 

Nos fóruns da "democracia televisiva", os "populares" foram designando sem rodeios nomes de putativos chefes de um governo de "salvação nacional", correspondendo ao aparente desígnio do Presidente da República.

Fui anotando esses nomes, com minuciosa reverência: Bagão Felix, Adriano Moreira, Jorge Miranda, Vital Moreira, Silva Peneda, Guilherme Oliveira Martins, Rui Rio, Marcelo Rebelo de Sousa.

Pelo menos estes foram mencionados. Mas admito que haja muitos outros. Freitas do Amaral, que também poderia figurar nesta lista, aludiu num recente serão televisivo a "pelo menos quinze ou vinte".

 

Ditosa pátria que tantos salvadores tem.

 


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por Carlos Faria

A utopia dá-nos muitas vezes força para caminhar, mas a maioria das vezes leva à desilusão quando sentimos que os pés se cansam para uma meta inalcançável.

Cavaco pôs em primeiro lugar a necessidade de ética política para salvar a Nação de uma forma sustentável a longo-prazo: em resumo, considerou imprescindível que os líderes dos partidos nacionais que dizem acreditar no sistema democrático ocidental, integrado na União Europeia e com as condicionantes do atual sistema de economia globalizada devem colocar os interesses fundamentais para a sobrevivência do futuro de Portugal acima dos interesses pessoais e de grupo que presidem e para acabarem com os jogos tendentes a meras vitórias passageiras de fação que prejudicam o que é essencial no País.

No campo dos princípios estou de acordo com a ideia de Cavaco Silva, o primeiro problema é se for impossível reunir um número mínimo de líderes nacionais de partidos chamados à ordem que coloquem de facto em primeiro lugar o interesse de Portugal.

O segundo é que na impossibilidade de resolução pela via dos líderes partidários, eu não vejo como os mesmos viabilizarão em seguida uma solução presidencial que coloque os interesses de Portugal acima dos das fações que eles defendem.

 


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por Pedro Correia

Se bem entendi a confusa e contraditória comunicação de Cavaco Silva ao País, Portugal estará durante um ano em campanha eleitoral. Nada melhor para promover a estabilidade política. Nada melhor para assegurar um executivo sólido. Nada melhor para garantir os nossos compromissos externos. Nada melhor para deixar os "mercados" imperturbáveis.


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por Pedro Correia

 

Em tempos de turbulência política aparecem sempre os mesmos a defender um executivo de salvação nacional, dando ênfase a estas duas palavras, como se produzissem efeitos mágicos. São poucos, mas parecem muitos porque falam imenso nas televisões - noite após noite. Sugerindo que é uma maçada ir a votos, que a Europa vê isso com maus olhos, que dá despesa, que o resultado é incerto.
Já vi este filme. E não gosto dele.

De génios em abstracto está a política portuguesa mais que cheia. Grande parte deles já "salvou" o País. A falar. Escuto um desses enquanto escrevo estas linhas.

O Governo - todos os governos - deve sair do voto livre dos portugueses, não de arranjos palacianos. E deve congregar um apoio parlamentar claro, sem depender da tutela majestática do Chefe do Estado.

Quem queira governar o País terá de cumprir algumas formalidades, eventualmente maçadoras. Candidatar-se. Ganhar o partido. Concorrer a eleições. Ganhar as eleições. Formar governo a partir dessas eleições.

Claro que é muito mais fácil alcançar isto nos debates televisivos do que na vida real. Mas o tempo em que o salvador da pátria chegava a Lisboa montado num cavalo branco já passou.

Imagem: desfile das tropas de Sidónio Pais em Lisboa (1918)


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Quarta-feira, 3 de Julho de 2013
por Alexandre Poço

 

Pedro Passos Coelho


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Terça-feira, 2 de Julho de 2013
por Carlos Faria

Confesso que após décadas a acompanhar a política nacional nunca assisti a um espetáculo de crise governativa tão degradante quanto ao que hoje se assisti.

Compreendo que numa coligação existam negociações na repartição de ministérios e cargos de ministros, até admito descontentamentos a determinados nomes de uma das partes face a outra e se ao Primeiro-ministro cabe a prerrogativa de aprovar o nome final, ao parceiro cabe o direito de assumir atempadamente veto na negociação.

Agora não compreendo que um descontentamento sem ameaça de veto ou de demissão durante a negociação se torne depois do nome ser tornado público e de ser constituído o gabinete pluripartidário do novo ministro, o parceiro apresente uma carta de demissão no dia seguinte publicamente.

Quando há um casamento, o representante legal ou da religião questiona na hora de se dar o nó se alguém conhece algum impedimento para o contrato que se vai celebrar, implícito que se não for nesse momento, quem se calou deve continuar calado se não surgir nada de novo. Hoje assisti a alguém desrespeitar todos os princípios de confiança numa negociação, rompendo depois de ter sido publicamente assumido o nó…

Na política não pode valer tudo...


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por Alexandre Poço


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por Pedro Correia

 

A expressão "Que se lixe a troika" - multiplicada nos espaços de intervenção pública, a começar nas redes sociais - inaugura, por via indirecta, um debate que vale a pena travar em Portugal. Funciona, desde logo, como um corolário do que poderíamos denominar "doutrina Pedro Nuno Santos", o deputado socialista que abriu caminho ao actual slogan quando proclamou sem rodeios "Estou-me marimbando [isto é, lixando] para os credores."

Confesso que não aprecio particularmente esta contaminação do discurso político pelos plebeísmos de linguagem que nos induzem a estar "lixando" para tudo, dos credores às eleições, passando pela inefável troika. Isto decorre do mesmo caldo de cultura que leva meio mundo a insultar a outra metade nos fóruns da Net e estimula as micromultidões de vaiadores de conselheiros de Estado e outros protagonistas da cena política nacional, com direito a longos directos televisivos e registo antecipado nas reportagens dos telejornais. Daí ao insulto mais desbragado como paupérrimo sucedâneo da argumentação racional vai um curto passo.

Mas desagrada-me ainda mais o alastramento do jargão tecnocrático ao discurso político. Ao menos o calão tem a vantagem de ser claramente perceptível pelo cidadão comum.

 

As palavras nunca são indiferentes ou neutras no debate político. Podemos dizer "Que se lixe o défice" ou "Que se lixe a dívida". Podemos - e devemos - gritar "Que se lixe o desemprego". Mas quando elejemos a expressão "Que se lixe a troika" temos a obrigação de saber onde esta palavra de ordem nos conduziria caso fosse seguida à letra. Rasgar o memorando com a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional, assumindo o incumprimento, levaria Portugal a ser expulso da zona euro.

E este é, portanto, o debate que vale a pena ser travado: devemos ou não permanecer no euro?

 

É um debate que urge travar, mesmo que algumas forças políticas que mandam "lixar a troika" o evitem. Essa foi uma clarificação que faltou à esquerda na última campanha legislativa grega e que explica porventura o desaire eleitoral do Syriza, contrariando o que diziam as sondagens: há uma contradição insanável entre a proclamada intenção de manter o euro como moeda enquanto se recusa o cumprimento das mais elementares obrigações impostas aos membros deste clube - à cabeça das quais está, naturalmente, o pagamento das dívidas.

Tal como o Luís Menezes Leitão, gostaria de ver esse debate travado em Portugal. Com argumentos sérios, não com slogans. Alguns economistas têm defendido sem rodeios a saída de Portugal do euro: são poucos, como João Ferreira do Amaral e Octávio Teixeira, mas os seus argumentos merecem ser escutados.

E é bom que não haja dúvidas sobre as consequências dessa opção. Mandar fora a troika seria mandar fora o euro mas sem que nos livrássemos da pressão dos credores. Porque, mesmo de regresso ao velho escudo, necessitaríamos de financiamento externo como de pão para a boca. Nenhum dos nossos actuais problemas terminava - e vários outros começariam. Resta saber que slogans iríamos gritar então.

 

Leitura complementar: Louçã antevê sacrifícios como os da II Guerra Mundial


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Terça-feira, 14 de Maio de 2013
por José Meireles Graça

Já houve entre nós um tempo de relativa simplicidade: havia os comunistas, que queriam a sociedade sem classes e o diziam sem rebuço. Tê-la-iam tentado atingir, ao cabo de uma guerra civil, se tivéssemos fronteira com um país soviético e os Americanos encolhessem os ombros; havia o PS, que queria que o país tivesse intelectuais franceses, estado social sueco, eficiência alemã e algum fado e caldo verde; havia o PSD, que nem sempre sabia o que queria e tinha, como hoje, uma quantidade inverosímil de prima-donas, mas que na versão sá-carneirista parecia querer a Suécia possível, fosse lá isso o que fosse; e havia o CDS, que desconfiava dos outros quereres e acolhia os desapossados da nova Situação, os eurocépticos avant-la-lettre, alguns liberais, e que tinha sido fundado por dois homens talentosos a quem fora encomendado o meritório serviço de trazer os fascistas para a democracia (destes, um queria uma tribuna - qualquer tribuna - de onde pudesse saltar para a proeminência e os lugares a que se julgava destinado, e o outro não teve tempo para dizer ao que vinha).

 

Tudo mudou:

 

Os comunistas querem, mas não dizem querer, a mesma coisa. Entretanto, especializaram-se, enquanto os ventos da História não mudam, em dar aulas sobre os malefícios do capitalismo, minar as instituições da sociedade civil (sindicatos, grupos de cidadãos contra ou a favor de qualquer coisa, etc.) e afectar respeito à democracia burguesa, a cuja sombra se acolheram.

 

Nasceu um partido novo, constituído no essencial por comunistas que não conseguem fingir que não existiram os desastres históricos do comunismo real, nem aceitar a organização do PCP, mas nem por isso perderam o amor acrisolado à igualdade, que consideram um valor que serve de estalão para todos os outros. Tem como fonds de commerce causas avulsas, partilhadas por uma boa quantidade de moços citadinos com acne e formação académica, mas sem emprego, e por moças que hesitam na hora de depilar as axilas, não vá estarem a ofender algum direito, inclusive delas.

 

O PS e o PSD tornaram-se ferozmente europeístas, e à sombra dos milhões da Europa, primeiro, e do crédito europeu, depois, conquistaram o eleitorado, deixando umas sobras à esquerda e à direita.

 

O CDS podia ter sido o MRPP da Direita, se tivesse conservado o eurocepticismo que uma vez foi seu. Mas não está na natureza dos partidos, se não forem alimentados por uma boa dose de fanatismo ideológico, cuspirem contra o vento. Tornou-se assim euro-realista, por oposição aos eurófilos à sua esquerda. E acabou por ser sempre vítima do PSD, que tinha tradicionalmente uma claque mais numerosa e pôde fazer consistentemente apelo ao voto útil.

 

Bastou uma crise mundial, daquelas que o excesso de crédito periodicamente engendra, mais a circunstância de o País ser governado ocasionalmente por um demagogo venal e inepto, para o edifício - do crédito, das convicções, da Europa - ruir.

 

E aqui chegamos, à tarefa ingrata de pagar os calotes, com juros sufocantes, e encontrar uma maneira nova de viver.

 

E, com surpresa, agora que a barraca está a arder, nem por isso estamos confrontados com escolhas claras: os comunistas e bloquistas defendem o não pagamos, mas que sociedade alternativa defendem, que o não pagar implica? O PS defende investimentos e défices, mas como pode fazer-nos acreditar que haja quem empreste mais? Os credores aceitam ou não aceitam que vamos conservando um módico de respeito por nós mesmos? Quem quer sair do Euro aceita ou não aceita que o País possa e deva ser gerido com orçamentos equilibrados, logo que possível? Quem acha que o País só se reforma com imposições vindas de fora, e que por isso não há exigências dos credores que sejam excessivas ou simplesmente estúpidas, reconhece ou não reconhece que essa posição é anti-democrática?

 

Não pus links na última pergunta porque são tantos os meus amigos que isso acham que não quero discriminar ninguém. Mas a todos recomendaria um pouco menos de confiança nos seus gráficos, e nos seus gurus, e um pouco mais de confiança em nós: andamos por cá há mais de oito séculos e terá que haver, para isso, boas razões. É que o presente tem medos, o futuro incógnitas e o passado lições.

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Segunda-feira, 8 de Abril de 2013
por João Espinho

 

Foi a melhor e mais eficiente comunicação de Passos Coelho desde que é Primeiro-Ministro. Não deixou margens para dúvidas: “não há dinheiro!” Haverá muita gente que não entendeu a mensagem, pois estava à espera que Passos Coelho prolongasse a crise política. Sem referir detalhes, Passos Coelho anunciou:
- Despedimentos na função pública;
- Reduções das pensões;
- Subida das propinas no superior;
- Aumentos das taxas moderadoras;
- Diminuição nas comparticipações dos medicamentos.

 

Isto é para fazer já. O que vier depois, será ainda mais doloroso. Para os que aplaudiram as decisões do Tribunal Constitucional, a resposta não se fez esperar. Até o Seguro ficou mudo. Não era ele que queria eleições? Esperemos que haja juízo, para que o poço não seja mais fundo.

(também no Praça da República


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Domingo, 7 de Abril de 2013
por José Meireles Graça

Encaremos os factos: anteontem a Esquerda, toda ela, teve uma vitória; e a Direita, toda ela, ficou num canto, ensimesmada, a lamber a ferida e a coçar a cabeça.

 

Não é surpresa: a Esquerda governa o País há quase quarenta anos, mesmo quando não está no Governo; e nas raras oportunidades que tem havido para reverter o rumo das coisas, sempre o espírito de compromisso, os princípios submetidos às razões táticas, o apego aos lugares com os quais o Centrão colonizou o aparelho de Estado e respectivo sector empresarial, e o medo "democrático" às reacções da clientela do Orçamento, que é hoje a maioria da população e do eleitorado, se conjugaram para anular qualquer veleidade de reforma, que aliás nunca foi senão timidamente defendida e, menos ainda, posta em prática.

 

Foi assim que a Constituição, cujo preâmbulo apontava o caminho do "socialismo" e continha efectivamente um programa de governo que deixava aberta a porta para lá chegar, foi aprovada, de má-fé, por dois partidos: pelo PCP e apêndices, que a    achavam útil não obstante conter elementos de democracia burguesa e cretinismo parlamentar; e pelo PSD, que a achava um progresso em relação à revolução da rua e fingia acreditar que a social-democracia era o que a Constituição defendia. A prolixidade, o tudo para todos que a Constituição é, como se os direitos económicos de uns não fossem as obrigações económicas de outros, foi o contributo do PS, uma associação de beneméritos com propensão para a generosidade a crédito.

 

O partido que ficou de fora da aprovação, o CDS, não tinha, como ainda hoje não tem, peso específico para influenciar significativamente o curso das coisas. Mas cabe referir que, se o PSD tivesse votado contra, as revisões que se foram sucedendo teriam podido ter outra profundidade, por ser mais nítida a clivagem esquerda/direita e mais equilibrado o espectro partidário.

 

Depois veio a "Europa". Então como hoje, o Centrão apostou todas as fichas na "solidariedade" europeia. E, mais tarde, comprometeu o País numa desastrada adesão ao Euro, um clamoroso erro de toda uma geração, que só ainda não é visto pacificamente como tal por os responsáveis que detêm as alavancas do Poder e da Opinião ainda serem basicamente os mesmos.

 

Chegámos aqui, na terceira edição da bancarrota que o regime democrático foi capaz de engendrar. E, mais uma vez, a curta oportunidade que houve de reformar seriamente o Estado, nos primeiros seis meses do Governo, foi desperdiçada por falta de lucidez (o prestigiado Gaspar é um estrangeirado que não conhece, nem entende, o País, e tem todos os tiques do apparatchik incompetente e europeu que efectivamente é), de coragem (os boys do PS e PSD só podem ser liquidados, e os poderes fácticos que minam a competitividade da economia portuguesa só podem ser afrontados, por quem esteja disposto a fazer hara-kiri) e erros de avaliação de forças: engolir acefalamente quanta prescrição idiota fazem os credores é, além de cobarde, não compreender que ajudá-los a receberem o que lhes é devido NÃO implica andar permanentemente de gatas.

 

No momento em que isto escrevo, está toda a gente em suspenso, no confronto atordoado das respectivas impotências. E arrisco que nada de dramático vai acontecer: uma remodelação talvez, uns cortes na despesa que deviam ter sido feitos há muito, uns aumentos de impostos para os "ricos", mais um esforço na "luta contra a evasão fiscal", mais uma renegociaçãozinha que a tróica fingirá ter grande dificuldade em engolir, et le tour sera joué.

 

Até ao próximo incidente. 


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Sábado, 6 de Abril de 2013
por Alexandre Poço

"Quem criou o problema que o resolva", reacção do provável futuro Primeiro-Ministro de Portugal, António José Seguro, ao chumbo de várias normas do OE2013 pelo Tribunal Constitucional.


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Segunda-feira, 1 de Abril de 2013
por Fernando Moreira de Sá

Nos últimos dias muito se escreveu sobre o putativo cenário de eleições antecipadas (ou um governo de iniciativa presidencial). Pensando com a máxima frieza e o distanciamento possível, aqui ficam as minhas dúvidas.

 

Temos cinco partidos (PSD, PS, CDS, PCP e BE) com votos e "máquinas partidárias" suficientes para elegerem deputados. Cinco. Desses, três defendem o caminho imposto pelos credores, a troika. São eles o PSD, o PS e o CDS. Os outros dois, PCP e BE dizem defender o caminho oposto. Os primeiros, independentemente de uma ou outra nuance (mais estratégica que outra coisa qualquer), entendem que Portugal deve permanecer no euro, na União Europeia e cumprir os seus compromissos com os credores. Os segundos, defendem a imediata saída do euro, em matéria de UE são suficientemente vagos para não se ter certezas e quanto aos compromissos com os credores... bem, entre renegociar, um perdão e o mais radical "não pagar" vai um pulinho. Isto, da forma mais reduzida e simplista possível. Bloco e PCP representam, a acreditar nas sondagens, menos de 20% dos eleitores. Pelo menos, por agora.

 

A receita que a troika nos prescreveu, como se está a ver, não resultou. Na minha opinião, a solução apresentada pelo Bloco e pelo PCP seria um desastre. Assim sendo, seria natural, perante o actual estado da nossa economia, que existisse uma alternativa. E que qualquer um dos três restantes partidos, a solo ou em conjunto, fossem os primeiros a apresentar um caminho alternativo. Mas não. As suas agendas estão desfocadas da realidade. As deles e as nossas. Aqui nossas significa: comentadores, bloggers, jornalistas e outros que tais (pedindo desde já desculpa pela generalização, algo sempre injusto). Por estes dias, com os números da economia profundamente negros, com a tragédia do crescimento constante do desemprego e as notícias aterradoras vindas do Chipre, o "planeta mediático nacional" discute o renascimento do comentador Sócrates, as palavras do CDS sobre a remodelação e as inacreditáveis fugas de informação do Tribunal Constitucional. Ou seja, estamos a falar uns para os outros, em circuito fechado. No Portugal "profundo" a discussão é outra: os que ainda guardam algumas poupanças nos bancos, perguntam a quem sabe (ou a quem julgam que sabe) o que fazer ao dinheiro (tirar do banco e meter em casa? Abrir conta no estrangeiro?). Boa parte dos jovens discute com os pais se partem já para Angola, Brasil, Moçambique ou qualquer outro país. Os mais velhos procuram sobreviver e os empresários evitam fechar perante semelhante esbulho fiscal. A esperança, essa, fugiu para parte incerta e o Portugal mediático transformou-se numa caricatura.

 

Uma verdadeira encruzilhada...

 

 

Nota: Aqui ao lado, em Espanha, fruto de mais uma bronca com dinheiros públicos, os ERE - Expediente de Regulación de Empleo, envolvendo políticos, empresários e sindicalistas (UGT e CCOO) colocou na agenda a questão da transparência dos dinheiros dos sindicatos. A UGT e a CCOO (a CGTP espanhola) receberam mais de 30 milhões de euros de dinheiros públicos sem terem realizado nenhum trabalho. Os números são incríveis: o governo da Andaluzia entregou aos sindicatos (a troco de garantir a paz social) mais de mil milhões de euros entre 2001 e 2010. As duas centrais sindicais receberam, só em 2011 e 2012, mais de 220 milhões de euros de dinheiros públicos sem qualquer controlo. A prisão de um sindicalista nos últimos dias, fez acordar a sociedade  civil espanhola para esta realidade. É caso para perguntar: e em Portugal, tudo normal??? 


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Terça-feira, 19 de Março de 2013
por Francisco Castelo Branco
A 7ª avaliação da troika trouxe uma importante novidade: a reforma da administração pública vai começar a ser feita. Finalmente!


Numa primeira fase o governo quer despedir administrativos, técnicos e auxiliares que abundam pela máquina do Estado e muitos deles estão sem fazer nada e a receber salários, subsídios e pensões sem justificação. É preciso fazer uma análise justa e antes de bater no governo perguntar quem é que meteu pessoas a mais na administração pública.


Na segunda fase serão os directores e presidentes que a ter guia de marcha. Normalmente um cargo destes exige responsabilidade e competência. Na maioria dos casos não há nem nenhuma destas duas qualidades necessárias para dirigir um serviço público. Viver e comer à custa do Estado não é uma qualidade, no entanto há muitos que desejam seguir este tipo de vida. 


Por fim, os institutos e associações públicas que não são necessárias têm de acabar, porque se os primeiros e segundos acima identificados têm "emprego" garantido para o resto da vida, é porque se permitiu durante anos a constituição de centros de emprego no sector do Estado. 


A razia que vai começar a ser feita é importante para colocar a casa na ordem. Que não se goste deste governo e lhe chamem de Neoliberal tudo bem, contudo não pode haver nenhum cidadão que concorde com o actual estado da nossa Administração Pública. 


Acabo com uma sugestão ao governo, para que estenda os horários dos serviços públicos em Portugal, a bem da produtividade do sector privado que tanto necessita de eficiência e organização da AP. 


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Quarta-feira, 13 de Março de 2013
por Carlos Faria

O desgaste do atual governo não só é ampliado devido ao modo deficiente como este comunica e explica as suas medidas, dos efeitos recessivos a curto-prazo que resultam da necessidade de correção da gestão do País incluindo das reformas que se impõem e deveriam substituir o aumento dos impostos, mas também da incapacidade em contrapor, publicamente e a bom som, os insucessos e contradições na prática da alternativa socialista.

Podemos mesmo esquecer a mais antiga, o facto de haver socialistas a repetirem até à exaustão que austeridade traz mais austeridade que ainda se atrevem com a falácia de abrir uma exceção para o PEC4 que, segundo eles, teria salvo o País.

Mas já não nos podemos esquecer que explicaram-nos em alta voz que veríamos como farol da Europa a via alternativa do crescimento que seria implementada por François Hollande em França, agora no poder aquele socialista cria uma austeridade de esquerda que equilibra contas e já não falam alto do modelo francês que evidencia a falácia do crescimento sem recursos para o sustentar.

Insistem que com o PS no poder as coisas seriam diferentes, mas a falácia cai por terra se compararmos os resultados entre o governo "entroikado" em Lisboa e o governo que garante que não traz a austeridade do Continente para os Açores e onde "O desemprego na Região cresceu em 2012 a um ritmo muito superior do que a nível nacional e os números da execução fiscal mostram que nos Açores a economia travou mais a fundo. As receitas do IVA (imposto sobre o valor acrescentado) caíram no ano passado 2% no país e 14,4 % nos Açores e as do IRC (imposto sobre o rendimento das pessoas coletivas) decresceram 17,3% no país e 42,5% na Região" como denuncia Luís Garcia hoje no jornal Incentivo.

Contraditório também é preciso sobre os resultados práticos e alternativas socialista no presente.


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Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2013
por Carlos Faria

Alguns gostam de interrupções da democracia para pôr os países em ordem e depois retomá-la já de casa arrumada à sua maneira, nem que para isso tenham de manter  a fachada de democracia e impôr Primeiros-ministros não eleitos que sejam da sua confiança estratégica. Fantoches manobrados de políticas impostas.

Por vezes esses mesmos amantes da democracia condicionada têm a sorte de um Estado eleger democraticamente um Primeiro-ministro da sua confiança  e então corre-se o risco de até esse Governo pensar que tem legitimidade para governar apenas pela cartilha desses amantes de  democracia com interruptores, que ora ligam, ora desligam.

Em democracia pode-se governar com medidas impopulares bem fundamentadas e com uma equipa técnica e moralmente credível, pois estas por vezes são até necessárias, mas não se pode governar sempre contra o povo apenas em benefício de uma credibilidade externa. Tanto num caso, como no outro, a curto ou médio-prazo a democracia tende a rejeitar aqueles amados só pelos que não os elegeram e, por norma, com grande ruído apostam no oposto da via que se seguia. O Cinco estrelas na Itália de hoje e o Syriza na Grécia de ontem são exemplos disto e deixam esta Europa atordoada, só espero que esta perceba antes que seja demasiado tarde.

A democracia regressou à Itália e como em democracia a política é o espelho do povo, os italianos votaram romaticamente no caos, contra uns sisudos e rijamente arrumados que lhe interromperam a democracia, só espero que estes sejam capazes de se adaptar à realidade e diversidade da Europa e permitam soluções equilibradas para todos, para bem de toda uma União Europeia e de todo o Velho Continente.


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Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2013
por jfd

Acho que deviam começar a cantar outras músicas e dar os NIFs de outras pessoas!

 

Moody's downgrades UK rating from AAA to AA1

Credit ratings agency Moody's downgrades UK from AAA to AA1, cites weak medium-term outlook

(...)

 

Ou será da Carne de Cavalo? Estou confuso...


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Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2013
por jfd

Deve ter sido nos Latino/Greco/Irish Grammy's....

 


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Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2013
por Alexandre Poço

"A Câmara de Cascais, por acaso PSD, ofereceu um jantar de 13 mil euros aos 250 participantes de um encontro da Internacional Socialista (IS), por acaso socialistas. Este gesto de generosidade e ecumenismo foi mal visto pela típica mesquinhez pátria e deu origem às indignações do costume, aflitíssimas com um repasto de 52 euros por estômago e convencidas de que a esquerda, só porque é esquerda, se alimenta a bifanas.

 

O curioso é que quase ninguém pareceu indignar-se com o encontro da IS propriamente dito. Arriscando acusações de parcialidade, acho esquisito que os principais obreiros da crise europeia passeiem nos países onde a crise é mais flagrante a fim de debatê-la e, não se riam, resolvê-la. Não seria muito diferente se um bando de pirómanos regressasse ao local do incêndio para discutir protecção florestal. Aliás, salvo a provável comparência da polícia no segundo caso e a incompreensível ausência da política no primeiro caso, não é nada diferente.

 

Mas o cúmulo do descaramento passou pela destacada presença do presidente da IS, Georgios Papandreou de sua graça. O seu papel na desgraça grega, que contemplou e, a bem da "agenda" pessoal, agravou enquanto primeiro-ministro chegaria, num mundo justo, para manter a criatura na prisão durante longos e pedagógicos anos. No mundo que temos, a criatura ciranda por aí a oferecer palpites e alertas. Os nossos media, que deram ao sr. Papandreou a antena que não dariam à comparativamente credível Leopoldina dos hipermercados, divulgaram-lhe as declarações na abertura do convívio cascalense: "A crise não acabou. Ainda hoje, se a Europa não tomar mais medidas, os sacrifícios dos portugueses, gregos, espanhóis e italianos poderão perder-se e mais nos será exigido."

 

Nem uma admissão de culpas, nem um pio sobre responsabilidade: o importante, note-se, é a Europa "tomar medidas". Não importa que os socialistas tomem juízo ou vergonha na cara. No máximo, tomaram café após o jantar pago pelo contribuinte, uma despesa minúscula face à factura que essa gente já nos legou."

 

Alberto Gonçalves no DN


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Sábado, 9 de Fevereiro de 2013
por André Miguel
Camões terminou a sua epopeia com a palavra "inveja", como que atestando ad eternum, quiçá, a nossa pior característica enquanto povo. Invejamos especialmente o sucesso e a prosperidade, elegendo como alvo preferencial essa classe ignóbil que são os ricos. Invejamo-los não porque desejemos ser como eles, mas antes que eles fossem como nós: pobres. O português não quer ser como o rico, prefere que o rico fique pobre.

Isto jamais aconteceria numa sociedade onde fosse fácil e atingível enriquecer, onde o mérito fosse premiado e recompensado. É tarefa hercúlea enriquecer em Portugal. Até a cultura popular o atesta dizendo que "quem cabras não tem e cabritos vende de algum lado lhe vem". Por todo o nosso colectivo existe a imagem, bastante palpável, de que sem as ligações certas ou por meios obscuros dificilmente se enriquece em Portugal. Quem não nascer em "berço de ouro" parece condenado à partida à sua condição social, sendo que os poucos que nele nascem parecem tudo fazer para não terem sombras de outrem ao seu status quo, pois afinal o respeitinho é muito bonito e a concorrência só é salutar no futebol. Mas apesar de tudo, felizmente, existem (alguns poucos) ricos em Portugal, por isso apelamos a uma maior igualdade na distribuição de rendimentos, de preferência sob a batuta de sua santidade o Estado: que os pobres sejam menos pobres e os ricos menos ricos; que se apoiem os primeiros com os impostos sobre os segundos. Pelo Estado se enriquece, pelo Estado se empobrece.

E assim emigramos, procurando ser lá fora como os ricos que diabolizamos cá dentro. Enquanto não existir a liberdade de fazer escolhas e de assumir as suas consequências pela procura da prosperidade, sem o empecilho de um Estado controlador e manipulador, dificilmente o panorama irá mudar. Por isso emigramos, procurando e encontrando lá fora a riqueza e prosperidade que nos é negada cá dentro. Porque sabemos que a distribuição e a igualdade não funcionam, mas enquanto não assumirmos que sem criação de riqueza a única coisa a distribuir é pobreza estaremos todos condenados a esta última.


(*) Tucídides, As Guerras do Peloponeso


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Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2013
por José Meireles Graça

Somos quase todos mentirosos. Mas temos desculpa: Os partidos raramente dizem ao que vêm; os senadores da influência raramente dizem ao que vêm; as centrais que se imagina representam os trabalhadores e as que se imagina representam os patrões parecem dizer ao que vêm; na Presidência da Republica raramente se diz ao que se vem, e também no Parlamento, nos jornais e até mesmo aqui na blogosfera.

 

Comecemos pelos partidos: O PCP é o campeão dos destituídos, dos perdedores, dos desempregados, dos fracos, numa palavra, dos de baixo, e ao serviço teórico deles denuncia abusos, prepotências, desmandos, ganâncias, patrões, capitalistas e, em geral, a patente falência dos sucessivos poderes que nos trouxeram a este passo.

 

O BE nunca foi, nem é, mais do que uma federação lunática de comunistas com falta de sentido prático e horror à disciplina do PCP, universitários amantes de causas e contestatários sortidos. Numa situação revolucionária seriam compagnons de route e, depois, se bem-sucedida para a esquerda, emigrantes, desaparecidos, ou ovelhas do rebanho.

 

O PS é o principal autor da "aposta" sôfrega na Europa do ami Mitterrand, do Euro, do seguidismo pateta de quanta modernidade alienígena brota das cabeças da casta apátrida de Bruxelas, e do intervencionismo estatal na economia. Este último numa versão latina em que o político sabe sem sombra de dúvida o que são e não são investimentos que interessam ao País, não apenas com dinheiro público para investimentos públicos, mas também com dinheiro público para investimentos privados, num caso e noutro tendo gasto liberalmente não apenas o que conseguiu extorquir ao contribuinte exangue mas também aos que ainda estão para nascer até não se sabe quantas gerações para a frente.

 

O PSD é o PS com mais mundo, mais amor a um módico de rigor nas contas, menos ingenuidade na gestão da economia e, dentro da complexidade dos baronatos e das teias de interesses, com uma corrente liberal que ora tem alguma, ora pouca ora nenhuma importância.

 

O CDS começou por ser o partido do qual se suspeitava fosse o antro onde se acolheram todos os saudosos do antigamente; e, passada essa fase, viveu sempre dividido entre a falta de popularidade das soluções em que realmente acredita e a necessidade de não desaparecer: o socialismo, desde há quase quarenta anos, vende; a liberdade económica, a competição e o nacionalismo, mesmo que aggiornato, não. E ser o MRPP da Direita seria talvez muito digno mas de utilidade prática discutível.

 

Vai daqui ninguém diz o que pensa:

 

O PCP tem a capacidade de fazer uma sociedade comunista, sabe como fazê-la e acredita que a nossa bonomia e o conhecimento de algumas violências mais notórias da implantação do regime noutras paragens permitiriam evitá-las. Tudo o que faz e diz é, mesmo quando circunstancialmente tem razão, instrumental quanto a este propósito. E por isso mente.

 

No BE há alguma gente ingénua ao ponto de acreditar naquilo que diz. Os mais lúcidos, porém, sabem que levar muito mais longe o esbulho fiscal dos "ricos" é matar de vez o pobre capitalismo indígena, juntamente com a esperança de algum investimento estrangeiro. E a receita delirante de impor condições aos credores, associada à completa falta de credibilidade dos seus dirigentes, não faria mais do que mergulhar o País num insondável buraco. Por isso o BE vai fazendo prova de vida, ecoando o PCP numa versão com camisa de marca e com dois botões desapertados. Finge que não é objectivamente um compagnon de route do PCP. Mente.

 

O PS parece ser um caso clínico, do foro psiquiátrico, na variedade comportamento maníaco-obsessivo: tem a cabeça esbotenada por ter com ela batido numa parede, mas, ao invés de consertar a cabeça, os seus próceres recomendam doses reforçadas de cabeçadas, indo as feridas sarar por efeito de habituação. Mas é claro que, a despeito das aparências, o PS tem uma ideia de solução, que consiste nisto: Portugal passa permanentemente a ter o mesmo grau de independência do Arkansas. Porém, ao contrário do Arkansas, não sofrerá consequências pelas derrapagens das contas públicas porque o orçamento federal fará transferências para cobrir os défices. Ora, o PS não apresenta a coisa assim. E por isso mente.

 

O PSD encetou a tarefa de reduzir a obesidade do Estado. E mesmo que tivesse arrastado os pés; ainda que deixasse para trás muito corte de gente que não berra na rua mas berra ao telefone e nos gabinetes; tendo levado a fiscalidade que se vê para níveis demenciais; e tendo levado a fiscalidade que não se vê, que é a das prepotências, abusos e extorsões da Administração Fiscal, para níveis criminosos: reduziu a despesa, antes dos juros, para níveis respeitáveis. Todavia, vem anunciando a retoma para anteontem, ontem, e para a semana. E sabe muitíssimo bem que não são seguros os anúncios, nem, quando ela vier, será suficiente, como aqui se explica. Mas isto não diz, e por isso mente.

 

O CDS também mente. Mesmo agora, quando o edifício do regime vive ligado a uma máquina, nem por isso deixou de viver em estado de necessidade: tem que fazer o que quer mas também o que não quer porque não é o principal responsável pelo Governo do dia. Mas não pode ser franco - perdoar-se-me-á a parcialidade de dizer que mente por necessidade, porque teme que abanar o edifício não trouxesse nenhum proveito ao País, e menos ainda a si próprio.

 

As centrais sindicais fingem antes de mais que não são uma correia de transmissão dos partidos. Claro que são, e quem precisar que se lhe o demonstre ou não vive em Portugal ou não está em condições de entender a explicação. E as centrais patronais são clubes de amigos que esperam ganhar notoriedade e relações úteis para a vantajosa mecânica dos subsídios, dos licenciamentos e do abrir de portas. Umas e outras colaboram alegremente no teatro social. Que só não digo que é uma farsa porque tanto os actores quanto os espectadores (estes mais) parece que acreditam na peça.

 

Na Presidência da Republica passam-se coisas que só se sabem quando se diz que se passaram; cada discurso do Presidente é um manancial de "mensagens", "recados", "avisos" e "preocupações", que cada qual interpreta do modo que lhe dá jeito. Isto é o menos, que nem a transparência é um valor necessariamente estimável em certas funções nem os discursos de circunstância merecem grande atenção. Mas Cavaco Silva diz sempre que sabe qual é o caminho. Eu acho que não sabe. E por isso mente.

 

Razões por que, no meio de tanta mentira, não é demasia esperar que cada qual encontre a sua verdade.

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Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2013
por Carlos Faria

Esta semana o Governo de Passos Coelho teve duas boas notícias: a venda de dívida nos mercados a juros baixos (ou pelo menos bem inferiores à última antes da troika ainda no tempo de Sócrates) e o défice público de caixa inferior aos 5% acordados com a troika (muito inferior aos mais de 10% herdados do tempo de Sócrates e que nos aceleraram para a bancarrota).

Gosto de receber boas notícias e depois de uma série de más, sobretudo, de um conjunto de previsões pessimistas, marteladas pelos opositores até à exaustão e replicadas com toda a força pelos OCS, sabe bem respirar um pouco casos de sucesso.

Todavia nada de euforias!

Nunca escondi que sou mais defensor de reformas nas despesas do Estado do que pela austeridade, mas nunca exclui a necessidade desta última. Na minha opinião, o Governo não só se atrasou demasiado nas primeiras, como exagerou na segunda. Apesar de tudo, reformar o Estado vai merecer a mesma intensa oposição que mereceu a austeridade, vinda de interesses instalados, das sanguessugas do setor público, dos oportunistas políticos e das esquerdas mais radicais. Hoje viu-se como procuram, sem qualquer benefício para Portugal, retirar méritos ao Executivo, desvalorizar e desacreditar os sucessos desta semana, como se não precisássemos destes para conforto psicológico e, sobretudo, para criar um clima e perspetivas económicas favoráveis ao investimento. Eles que se diziam pelo crescimento, tudo têm feito para ver se desmoralizam a sociedade e, consequentemente, o investidor

O Governo agora tem dois casos de sucesso para argumentar que não está tão errado na sua estratégia quanto muitos diziam, espero que os saiba utilizar a favor do País, mas ainda acontecerão coisas menos boas, veremos mais previsões pessimistas e ainda há um risco de uma entidade a não aceitar determinados valores do défice por critérios estatísticos que não são saldos de caixa e o risco de falhanço não desapareceu.

Acendeu-se uma luz no fundo do túnel, mas ainda muitos vão tentar abater o teto deste para que não haja sucesso para Portugal, pois há, uns por ideologia e outros por interesses pessoais, quem queira mesmo que Portugal não se reforme neste sentido ou faça força para que tudo fique na mesma e o País não ultrapasse os problemas que está a atravessar.


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Terça-feira, 22 de Janeiro de 2013
por Francisco Castelo Branco

Neste mês de Janeiro muitos clubes aproveitam para equilibrar as suas equipas com novos jogadores. Ao contrário do que acontece no defeso normal, é neste período que se efecutam as transferências mais caras e surpreendentes.

Será também neste mês de Janeiro que Portugal vai regressar aos mercados. Não o futebolístico, mas o financeiro. Parece que Portugal está de volta e com mais força........

E antes do previsto!


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por Carlos Faria

Habituei-me a que este Governo quando dá uma notícia, fá-lo por norma com escassas informações de enquadramento que logo permitem alimentar todo o género de especulações contra a estratégia do Executivo. O Governo sempre disse que mais tempo representava mais dinheiro.

Assim, com a justificação de que Portugal sempre tem cumprido com os seus compromissos (isto inclui aguentar no tempo de Passos com as imposições do memorando assinado no tempo de Sócrates) será viável que este alargamento do prazo pedido por Vítor Gaspar para reembolso do dinheiro da troika seja sem mais juros?

Se implicar mais juros, Vítor Gaspar mantém o pedido ou este fica sem efeito?

É que num cenário de aumentar os prazos sem mais juros face ao que os Portugueses já passaram, é um argumento de que os sacrifícios têm valido a pena, pois aumentaram a nossa credibilidade e dão-nos agora a capacidade de negociar a nosso favor, se não for assim, é uma mera aproximação encapuçada ao discurso de Seguro e uma derrota parcial da estratégia do Governo.

Já agora, nesta oportunidade de pedido cabal esclarecimento, embora eu perceba a ideia de cortar definitivamente 4 mil milhões de euros de forma permanente nas despesas do Estado, aproveito para dizer que seria igualmente correto, em termos de estratégia comunicacional política, que o Governo deixasse bem claro de onde vem este montante e explicasse aos Portugueses as razões de tal redução, em vez de deixar campo aberto aos seus opositores para minarem a implementação deste objetivo.


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Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2013
por José Meireles Graça

O nosso pano de fundo é simples: A dívida pública continuará a crescer enquanto houver um Euro de défice. E como o País está ligado à máquina, o dono dela impõe as suas regras, que são simples - apertem o cinto, desliguem a luz, emigrem, vão plantar batatas ou pedir para as esquinas, mas mais arame não, que o nosso apoio é um negócio, não uma obra de beneficência.

 

Depois vêm as complicações: ai o que interessa não é o que devemos, é a capacidade de ganhar para pagar - precisamos de crescer; ai se a gente não tivesse que pagar juros, ou eles fossem reduzidos, e pudéssemos pagar mais devagar - 30, 40, 50 anos - a coisa nem se notava; ai Chefe, não somos só nós, há por aí uma quantidade de caloteiros potenciais que estão a assobiar para o lado, a fingir que não vão pelo mesmo caminho. E como são muito maiores do que nós, ou o Chefe se põe manso ou nós damos com os burros na água e atrás de nós vão eles - e aí é o Chefe que também afunda, que não há que chegue para tanto caloteiro; ai que precisamos é de restaurar a agricultura, e a indústria, e as pescas, e olhar o mar - o mar das 200 milhas, do qual a República Checa tem grande inveja.

 

As complicações são, como a palavra deixa entender, complicadas. Há quase quatro décadas que o País vinha perdendo velocidade, até que parou e, de momento, está fazendo marcha-à-ré. A cornucópia dos biliões da defunta CEE, a massiva "aposta" na educação, na formação profissional, nos equipamentos públicos (Depósito de Água de Belém, Caixote Musical do Porto, Exposição de Masturbações 98, estádios do Euro, Pavilhões Multi-Calotes por todo o lado, et j'en passe) deram: a "geração mais bem preparada de sempre", presentemente a enriquecer com o seu trabalho outras paragens; a indústria dos subsídios para disfarçar o desemprego, alimentar empresas, umas inúteis, outras falidas, outras que não necessitavam de qualquer apoio, e ainda para sustentar gabinetes, centrais sindicais e outros luxos; e a erecção de monumentos e a promoção de eventos ligados à Cultura, ao Desporto, ao Lazer, tudo "investimentos" públicos que se distinguiram - e distinguem - pela característica um tanto contraditória de gerarem despesas e não retorno.

 

O Plano Marshall, que algumas almas puras reclamam do Altíssimo, resolvia sem dúvida os nossos problemas, por mais uma geração. Já o investimento público de alguns lunáticos da extrema-esquerda, e de alguns cínicos do PS, mesmo que fosse viável, seria mais do mesmo: eles são os mesmos, e nós também.

 

A ideia de fazer finca-pé na redução dos juros não é má. Tem o defeito de, como aqui se explica, não resolver nada. O reescalonamento tem uma qualidade e dois defeitos: a qualidade é o alívio das nossas dificuldades; os defeitos são o adiar da reforma do Estado e propiciar o regresso às fantasias que nos trouxeram aqui. Não dão algumas sondagens a maioria ao PS? Quod erat demonstrandum.

 

Para a ideia de estourar com tudo, forçando a mão à UE, requerer-se-ia um governo dos comunistas, uma ditadura nacionalista, ou a consciência difusa de que o Euro e a UE fazem parte dos nossos problemas, não das soluções. Não há povo, e menos ainda classe dirigente, para nada disso.

 

O mar está aí, bem vivo nos discursos. E requer investimento privado, que o Estado afugenta, ou investimento público, para o qual felizmente não há crédito. Vai continuar nos discursos, o lugar natural das irrelevâncias.

 

Resta o lamentável Governo que está. Pusilânime e promíscuo com interesses ilegítimos, liberal na medida em que lhe forçam a mão, hiper-intervencionista na economia, completamente alheio à realidade das pequenas empresas, sem ter sequer a humildade de as deixar em paz, intrometido nas casas e nas vidas das pessoas, recheado de personagens, desprezíveis umas, ignorantes outras, revoltantemente subserviente às luminárias europeias, e não apenas na medida da necessidade - chega?

 

Chega. Porque quem não tem cão caça com gato; e, dadas as alternativas, atrás de si viria quem de si bom faria. Entretanto, no que à sorrelfa quase toda a gente aposta é que a Europa descalçará esta bota. É o bom que tem ser empregado: o verdadeiro responsável é o patrão.

 

Escusam assim alguns blogueiros que são ou se imaginam de direita de se absterem de verberar o que vejam como erros, omissões e defeitos - não fazem trabalho útil nem são necessários, o que tiver que ser será. E, para todos, um módico de humildade aconselharia a não dar como adquirido que o caminho dos cortes na despesa pública, sem mais, proporcionará as condições para o crescimento antes de o País estar num caco. Essa certeza, na qual gostava de acreditar sem reservas, tem a virtude de ser a oposta da fé esquerdista na capacidade demiúrgica do Estado. Mas o oposto do erro não é necessariamente o acerto: há muitas maneiras de errar. E de certezas de economistas só os insensatos não estão fartos. 

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Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2013
por Francisco Castelo Branco

O país ficou chocado e perplexo com o pacote de corte na despesa apresentado pelo FMI durante esta semana. Este pacote não é mais do que medidas de austeridade adicionais disfarçadas sobre cortes na despesa que vão afectar sobretudo os funcionários públicos, no entanto convêm perguntar onde é que se coloca estas pessoas que vão para o desemprego...mais despesa por causa dos subsídios?

 

O governo foi o unico que reagiu bem às recomendações. Como era de esperar a oposição saiu a terreno pedir eleições, o CDS está contra mas só o diz pelos jornais e enquanto isto o PR continua em silêncio, mas isso não é novidade para quem leu a última entrevista de Cavaco ao Expresso. O FMI sugeriu, o Presidente do Parlamento Europeu contra atacou a instituição internacional. Schulz é social democrata e alemão pelo que sabe do que está a falar. Estas dúvidas de alguém que está bem documentado sobre a situação económica portuguesa e não só mostra o desnorte em que se encontram os líderes mundiais que não sabem o que estão a fazer em relação à Grécia e Portugal. Ora isto não é admissível quando todos os dias vão pessoas para o desemprego e empresas estão à beira da falência.

 

Já por diversas vezes mostrei a minha relutância sobre a receita a aplicar, o problema é que por cada novo pacote apresentado (quando será o ultimo?), há sempre contradições em relação ao discurso optimista que as próprias instituições internacionais fazem do esforço português.


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Sábado, 5 de Janeiro de 2013
por Alexandre Poço

"A guerra de 2012 passou. Quem se opõe ao governo sabe que não há outro caminho, que Portugal só tem pela frente um desafio (regressar aos mercados para garantir crédito), que o Estado social deve servir os pobres e não os ricos, que o país tem de produzir e exportar mais sapatos, mais vinhos, mais celulose, mais madeira e cortiça. De fora ficam os reaccionários que pensam que Portugal poderá regressar a 1980, a 1990 e a 2000 - o tal dos "projectos", da subsidiação a fundo perdido, do emprego nas autarquias, do "rendimento mínimo garantido" - e que aqui estávamos, solarengos neste canto da Europa meridional, de mão estendida aguardando os fundos europeus e que a Alemanha - grande leiteira que a todos alimentava - estaria disposta a eternizar um estado de coisas no mínimo aviltante para que recebe."


Um excelente texto, a ler no Combustões.


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