Terça-feira, 2 de Julho de 2013
por Pedro Correia

 

A expressão "Que se lixe a troika" - multiplicada nos espaços de intervenção pública, a começar nas redes sociais - inaugura, por via indirecta, um debate que vale a pena travar em Portugal. Funciona, desde logo, como um corolário do que poderíamos denominar "doutrina Pedro Nuno Santos", o deputado socialista que abriu caminho ao actual slogan quando proclamou sem rodeios "Estou-me marimbando [isto é, lixando] para os credores."

Confesso que não aprecio particularmente esta contaminação do discurso político pelos plebeísmos de linguagem que nos induzem a estar "lixando" para tudo, dos credores às eleições, passando pela inefável troika. Isto decorre do mesmo caldo de cultura que leva meio mundo a insultar a outra metade nos fóruns da Net e estimula as micromultidões de vaiadores de conselheiros de Estado e outros protagonistas da cena política nacional, com direito a longos directos televisivos e registo antecipado nas reportagens dos telejornais. Daí ao insulto mais desbragado como paupérrimo sucedâneo da argumentação racional vai um curto passo.

Mas desagrada-me ainda mais o alastramento do jargão tecnocrático ao discurso político. Ao menos o calão tem a vantagem de ser claramente perceptível pelo cidadão comum.

 

As palavras nunca são indiferentes ou neutras no debate político. Podemos dizer "Que se lixe o défice" ou "Que se lixe a dívida". Podemos - e devemos - gritar "Que se lixe o desemprego". Mas quando elejemos a expressão "Que se lixe a troika" temos a obrigação de saber onde esta palavra de ordem nos conduziria caso fosse seguida à letra. Rasgar o memorando com a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional, assumindo o incumprimento, levaria Portugal a ser expulso da zona euro.

E este é, portanto, o debate que vale a pena ser travado: devemos ou não permanecer no euro?

 

É um debate que urge travar, mesmo que algumas forças políticas que mandam "lixar a troika" o evitem. Essa foi uma clarificação que faltou à esquerda na última campanha legislativa grega e que explica porventura o desaire eleitoral do Syriza, contrariando o que diziam as sondagens: há uma contradição insanável entre a proclamada intenção de manter o euro como moeda enquanto se recusa o cumprimento das mais elementares obrigações impostas aos membros deste clube - à cabeça das quais está, naturalmente, o pagamento das dívidas.

Tal como o Luís Menezes Leitão, gostaria de ver esse debate travado em Portugal. Com argumentos sérios, não com slogans. Alguns economistas têm defendido sem rodeios a saída de Portugal do euro: são poucos, como João Ferreira do Amaral e Octávio Teixeira, mas os seus argumentos merecem ser escutados.

E é bom que não haja dúvidas sobre as consequências dessa opção. Mandar fora a troika seria mandar fora o euro mas sem que nos livrássemos da pressão dos credores. Porque, mesmo de regresso ao velho escudo, necessitaríamos de financiamento externo como de pão para a boca. Nenhum dos nossos actuais problemas terminava - e vários outros começariam. Resta saber que slogans iríamos gritar então.

 

Leitura complementar: Louçã antevê sacrifícios como os da II Guerra Mundial


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Segunda-feira, 27 de Maio de 2013
por Miguel Félix António
Hoje no Diário de Notícias, traço o paralelismo entre os livros de António de Spínola e de João Ferreira do Amaral, respectivamente, "Portugal e o Futuro" e "Porque Devemos Sair do Euro".
 
 
 


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Segunda-feira, 29 de Abril de 2013
por José Meireles Graça

Temos os que defendem o Euro à outrance (recuar nunca, credo!), dos quais há duas variedades: os que temem que isso faça ruir o projecto europeu, com grandes riscos, imaginam, para a paz na Europa, a qual, aliás, para ter peso no Mundo, tem que "falar a uma só voz"; e os que se abstêm de grandes voos de especulação geoestratégica, mas acham que a sobrevivência dentro do Euro implica disciplina das contas públicas, coisa que a Democracia entre nós nunca deu sinais de garantir.

 

Uns e outros estão dispostos a alienar o mais remoto resquício de autonomia financeira, os primeiros porque supõem que no colégio europeu a voz portuguesa teria, logo que a deriva autoritária alemã esteja emendada, mais peso do que isolada no Mundo, e que a solidariedade entre países não é uma fantasia; e os segundos porque não veem a utilidade da independência, se for para nos condenar ao tipo de gestão orçamental e económica que nos pôs de joelhos, e à sociedade atrasada e pobre que, creem, é o corolário lógico de uma moeda fraca, que seria por sua vez o corolário lógico da gestão socialista a que estamos condenados.

 

Há mais factores, claro, desde o pavor do desconhecido (os precedentes que existem - Império Austro Húngaro, Checoslováquia, Argentina, outros ainda, nem são convincentes nem aliciantes) até à imensa burocracia que tem o prestígio e o bem-estar ancorados à "Europa", passando pelos nossos responsáveis que, tendo comprometido o País na aventura, não podem, sem perder a face, dizer hoje o contrário do que sempre disseram.

 

Depois, há os que defendem a saída do Euro. Fora os comunistas, são uma insignificante, ainda que crescente, minoria, tão pequena que é muito mais provável que o Euro se esboroe, ou dele sejamos convidados a sair, ou dele saiam outros e nós por arrasto, do que algum dos partidos que têm estado no Poder desde há mais de três décadas dê o dito há pouco mais de uma por não-dito.

 

Estes últimos, ademais, têm a vida consideravelmente dificultada porque se lhes exige que digam, expliquem, quantifiquem, o que se vai passar, e eles, coitados, não sabem, que Deus lhes perdoe. É como dizia há dias um economista, cujo nome não retive, para Ferreira do Amaral, com o dedo em riste: Mas reconheça que o problema conceptual da saída é muito diferente do da entrada! Ferreira concordou, e eu também concordaria: a entrada foi muito feliz, mas a sociedade engravidou de um problema, e agora resolvê-lo é conceptualmente - de facto - muito diferente. Para quem quiser inteirar-se do que nos espera, um bom começo é este livrinho e este estudo. Nem um nem outro responde à dúvida principal, que é esta: economia de horror durante quanto tempo?

 

Isto julgava eu: Ficar ou sair, eis a questão. E a ela dei há muito a minha resposta, previsivelmente minoritária.

 

Tropeço agora nesta declaração: "Sou partidário de uma saída provisória da união monetária por parte dos países mais débeis", disse Sinn ao jornal Fankfurter Allgemeine Zeitung.

 

Ele já havia um partido a defender a saída da Alemanha. Saídas provisórias, sem mais detalhes, parece-me à primeira vista fazer sentido nenhum.

 

Mas as brechas do edifício alargam-se; e aparecem novas. Talvez venhamos, mais cedo do que julgamos, os que contam com a Alemanha para pôr ordem na casa, e os que não querem ordem a preço e prazo incomportáveis, a ficar sem motivo para desentendimento. 

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Segunda-feira, 3 de Dezembro de 2012
por José Meireles Graça

Agostinho Lopes é um conhecido carroceiro do PCP. Não é grave, a espécie é transversal ao espectro partidário: num partido geralmente cordato como o PSD, repleto de gente circunspecta e engravatada, é possível um Odorico Paraguaçu ter granjeado votos, sucesso e prestígio ao longo de décadas. É certo que o preço fica para os sucessores pagarem, mas no resto do País, governado por gente com muito mais gravitas, a coisa não foi diferente. Porém, não é realmente disso que quero falar - as palavras são como as cerejas.

 

Agostinho, em pleno Congresso, disse o seguinte: "Há duas ilusões a evitar, a que é possível uma política alternativa com a manutenção do euro e mais federalismo como querem o PS e o Bloco de Esquerda e a ideia de que tudo se resolve com uma saída pura e simples do euro, qualquer que seja a forma como se sai e as condições de saída." Para Agostinho Lopes, um governo "patriótico e de esquerda" deve, no entanto, preparar o país para "a reconfiguração da zona euro, nomeadamente a saída da união económica e monetária, por decisão própria ou crise na União Europeia, salvaguardando os interesses de Portugal."

 

Isto é muito embaraçoso: porque, no essencial e com apenas duas correcções, não tenho nenhum problema em subscrever a tirada.

 

A primeira é que com a manutenção do Euro seria possível uma política alternativa, consistindo em privilegiar cortes na despesa e não aumentos de receita. A diferença teria sido um efeito menos depressivo, menos conflitualidade (aproveitando um estado de graça agora finado), e criação de condições para, se e quando o crescimento recomeçasse, o governo do dia, presumivelmente do PS, partisse de uma base muito mais baixa para restaurar o despesismo público - que é na prática o que o PS sabe fazer. Esse corte vai agora acentuar-se, ainda que em parte: quando tudo o mais falha, nomeadamente a cobrança de impostos, o único caminho possível para atingir o fugitivo equilíbrio é cortar na despesa.

 

A segunda é que o patriotismo não é património da Esquerda. No caso do PCP, aliás, os textos sagrados recomendam o internacionalismo proletário: alguém duvida que o PCP seria federalista, se uns Estados Unidos Europeus pudessem ser comunistas? Não é património da Esquerda nem será, a meu ver, a melhor luz à qual devem ser vistas quaisquer mudanças.

 

A luz necessária é a do realismo: o Euro falhou; os mesmos que o engendraram dizem agora que, para o corrigir, são necessárias mais instituições "comunitárias", designem-se ou não por federais; e países diferentes têm interesses diferentes, que podem ser convergentes, embora não sempre. Pode-se acreditar que é possível o governo de uma manta de retalhos feita de povos diferentes, com línguas diferentes, economias diferentes  e diferentes percursos históricos, sem nenhum cimento que não seja uma ideia abstracta de engenharia de pátrias e um interesse comum que todos os dias é desmentido. Mas isso requer um tal esforço de fé que só a mesmerização de toda uma geração e o medo do desconhecido, agora que desfazer a feira parece imensamente mais difícil que a ter levantado - pode explicar.

 

As razões não serão as mesmas, e os objectivos menos ainda, mas, hoje por hoje, um abraço, camarada Agostinho.

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Sábado, 6 de Outubro de 2012
por José Meireles Graça

Já quase toda a gente percebeu que os cortes na despesa pública são necessários, que a orgia da despesa a crédito arruinou famílias, o país e os bancos (estes sem desculpa, nem perdão, nem castigo), que alguma coisa se tem que fazer para que as mulheres tenham filhos, que é preciso produzir mais bens, ou bens mais caros, e vendê-los ao exterior, e que talvez não tenha sido grande ideia importar o peixe, e a carne, e o mais que temos, além do que não temos.

 

A montanha da dívida pública e da privada só é grande porque somos poucos e produzimos pouco. Just imagine: se todos os Europeus resolvessem meter a mão ao bolso para reduzir o nosso endividamento total a zero, nem precisavam de gastar 1000 Euros cada um, num ano - peanuts.

 

Mas também é líquido que ninguém nos vai dar nada, como é certo que até mesmo emprestado é a refilar, caro e com condições de bancário arrogante. E é aqui que bate o ponto: se a importância da dívida se mede em relação ao produto, este podia fazer o favor de parar quieto, para fazermos contas. Mas não: ao cortarmos a despesa o produto encolhe porque o consumo diminui. E assim deveríamos saber quando é que, tendo cortado o suficiente, poderemos recomeçar a crescer.

 

Para já, não estamos a falar de superavits orçamentais. E, sem eles, a dívida pública continuará a crescer, ao menos nominalmente. E como ninguém sabe onde está, se está, o ponto de equilíbrio, a dívida pública também continuará a crescer em percentagem do produto, até onde a vista alcança.

 

Acreditar assim que o que estamos a fazer vai resultar é um artigo de fé. Como é pacífico, desde parte do PS para a direita, que o Estado tem que se reformar, e como não há alternativa credível ao Governo do dia, toleramos a brutalidade do ajustamento em nome da impotência e na esperança de que, qualquer que seja o desenlace, alguma coisa de bom fique.

 

Magro consolo e triste falta de ambição. Porque os comunistas e a esquerda florida têm em parte razão: a troika precisava de um murro na mesa, não em nome da Cuba europeia que desejam, nem da autarcia económica que defendem, nem da manutenção dos níveis de despesa pública, que não são possíveis - isso foi o que nos trouxe onde estamos e de toda a maneira o crédito acabou - mas do crescimento.

 

Fé por fé, a minha está na saída do Euro - empobrecemos todos de uma vez, nos mesmos 30 ou 40%, corte que não terá naturalmente a a mesma importância para todos, porque uns sofrerão o corte na riqueza e no supérfluo e outros no necessário - mas isso já sucede, e sem esperança. Rilhamos cacos, mas recomeçamos a crescer - do fundo. E se o PS for o herdeiro da convulsão, suspender a reforma do Estado e embarcar nas fantasias despesistas que lhe são congénitas, lá estará a moeda vigilante para sinalizar e corrigir, tant bien que mal, via desvalorização, o disparate.

 

Mas há um estranho bloqueio no espaço público português: a Europa não se discute, apenas se discutem os meios delirantes pelos quais uma minoria de cidadãos, que são no conjunto os dos países em crise mais aguda, há-de dizer à maioria quanto têm que pagar, e quando, e como. Isto enquanto toda a independência, toda a autonomia de decisão, já se evaporaram, ao mesmo tempo que todo o aparelho democrático se tornou numa concha vazia, por uns colégios de uns merdas desconhecidos terem na ponta das esferográficas mais poder que os deputados, e o Governo, e o Presidente que nos demos ao trabalho de eleger.

 

Não discutam, não. Talvez seja melhor: no fim, como sempre, o que tem que ser tem muita força. 

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Terça-feira, 18 de Setembro de 2012
por José Meireles Graça

Camilo Lourenço encolhe os ombros, suspira, e diz: "Portugal não tem nem políticos nem cidadãos preparados para estar no Euro. É melhor assumir isso e negociar uma saída ordenada."


Bem-vindo, Camilo, a barca anti-Euro tem muitos lugares disponíveis - a quase totalidade dos seus colegas está no paquete pró-Euro.


Mas as suas razões, sabe, não são muito boas. É que, logo a seguir, afirma que "pode ser que, entretanto, tenhamos dado uma vassourada na miserável classe política que levou o país à falência três vezes em 34 anos". Ora, duas das falências foram com moeda própria, e delas se saiu com relativa facilidade. A terceira foi com o Euro e, como se vê, é seguro que dela não vamos sair com facilidade, se é que alguma vez sairemos em nossas vidas.


Sucede que, sendo relativamente fácil mudar de políticos, não se pode mudar de Povo. E ao povo foi prometido por toda a gente, com exclusão dos comunistas, um CDS hesitante e dois ou três colegas seus, que uma moeda de ricos era o caminho mais seguro para ficar ... rico. Agora, parece que era preciso fazer também uma data de outras coisas, de que ninguém se lembrou na altura. No intervalo, os cidadãos endividaram-se entusiasticamente, com a benção do Estado, da Banca, das instituições europeias e da sua classe. Críticas às políticas seguidas houve, mas avulsas - e disso há sempre.


Sem Euro, teríamos falido pela terceira vez à mesma. Mas nem a dívida pública seria tão grande, nem muito menos a privada - os credores teriam aberto os olhos mais cedo.


Os políticos têm grandes culpas, mas boa parte deles é genuinamente europeísta e não se tem culpa por ter opiniões, mesmo que condenadas. E não é razoável querer que os políticos ponham nas prateleiras do supermercado das ideias teses que não vendem. O europeísmo vendia (a "Europa connosco", ou lá o que era) e vendia também porque os economistas, sacerdotes das crenças do nosso tempo, acreditavam no milagre da engenharia da moeda e na "Europa" do leite e do mel.


Ainda acreditam, pela maior parte, com a condição de sermos governados por gente loira - o Povo não presta, não é verdade?


O Senhor perdoa se houver arrependimento, dizem os católicos. Eu, que não sou católico, entendo que, sejam quais forem os motivos, não é preciso fazer mea-culpa, mesmo que ela seja mais do que recomendável.


Bem-vindo, Camilo.


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Sábado, 25 de Agosto de 2012
por Sérgio Azevedo

Hollande, essa grande esperança do socialismo, entende que a Grécia deve "provar a credibilidade" dos seus compromissos internacionais pois, segundo Hollande, "vive-se um momento em que é preciso assumir compromissos" e que a "Europa tem de ter consciência que já tudo foi feito" em prol da Grécia. Nem Sarkozy teria dito melhor...


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Sexta-feira, 24 de Agosto de 2012
por Luís Naves

O Governo faz mal em concessionar a RTP, pois isso equivale a acabar com o serviço público. Como disse? Não venha com essa de que o Tony Carreira não é serviço público!
Aliás, o Governo faz mal em mexer na RTP e na TAP e em todas as empresas estratégicas. E também está errado reduzir o número de fundações, que são todas importantes. O governo não devia privatizar, nem tentar reduzir os organismos de Estado ou fazer a reforma das freguesias, nem sequer tentar reduzir o número de funcionários, muito menos cortar nos subsídios, pois isso é claramente inconstitucional e, como sabe, quase tudo é inconstitucional no nosso País. O governo não devia mexer na educação nem cortar nas despesas de saúde ou mudar a lei das rendas e as regras da segurança social, não devia aumentar o IVA, sobretudo o IVA na restauração, pois o país está cheio de turistas e o imposto reduz os seus almoços e jantares. O governo não devia ter aplicado políticas que fazem cair o consumo, pois travam a compra de automóveis importados. Isso é mau sob qualquer perspectiva.
Não é a única coisa má, aliás. O governo não devia impor portagens nas ex-scuts, nem alterar leis laborais, nem exigir à Madeira que pague as suas dívidas e aperte o cinto. O governo devia fazer como a Madeira: investir em projectos úteis, como marinas e heliportos. Devia ordenar aos bancos que facilitem crédito às pequenas e médias empresas e devia criar novos empregos para os jovens. Hem? Que o Governo não devia, ainda deve? Engraçadinho! E não me venha com essa de que é preciso pagar as políticas de crescimento. Elas pagam-se a si mesmas, gerando ciclos virtuosos, em vez da espiral recessiva a que nos levam estas políticas austeritárias.
É preciso dizer à troika que não pagamos. É preciso mudar. Os ricos que paguem a crise. É preciso acabar com a falácia da austeridade, travar as ditas reformas estruturais, suspender todas estas alterações. O País precisa é de mudança, ou seja, manter o sector público e a despesa pública, manter os serviços públicos, o investimento público e o crescimento público, além do sistema produtivo público. Como já lhe disse, os ricos que paguem.
E o senhor faça o favor de dizer à senhora Merkel (essa loura burra)  que para resolver a crise do euro é preciso introduzir eurobonds que possam ser emitidos em conjunto por Portugal e a Alemanha. Com a garantia dos alemães, teremos financiamento. E não queremos isso da 'regra de ouro', pois obriga a cortar nas despesas do Estado. E não me venha dizer que a Alemanha não aceitará jamais eurobonds com países que não cumprem a 'regra de ouro'. Eles podem ter o livro de cheques na mão, mas não são mais espertos do que nós. A Alemanha ainda vai implorar: "Por favor, não saiam do euro!"

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Terça-feira, 31 de Julho de 2012
por Carlos Faria

A crise por que Portugal atravessa teve causas múltiplas, resultou de um acumular de erros que foram cometidos pela classe política e pelos agentes económicos e financeiros, mas também foi ampliada pelo comportamento de muitos cidadãos do povo.

Um agricultor conhecido meu - que abandonou a atividade há mais de uma década, quando tinha cerca de 50 anos de idade e ao abrigo da política da UE de subsidiar em Portugal a retirada de mão de obra de gente ainda válida na agricultura e nas pescas e cujos resultados igualmente contribuíram para a situação em que nos encontramos - teve nos últimos dias um diálogo do género:

- Não compensa mesmo trabalhar, estive num supermercado e encontrei um saco de 5kg de feijão por 7€.
- E então?...
- Está barato, não vale o trabalho.
- Pois!... e se fosse 1400 escudos?
- Ah, pensando assim já vale alguma coisa, mas eu penso em euros.

 

Dá que pensar este diálogo real...


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Quarta-feira, 18 de Julho de 2012
por Luís Naves

Qualquer observação superficial feita de fora conclui com facilidade que os portugueses passam sem transição de estados eufóricos a profundas melancolias. A nossa política sofre do mesmo mal e o sistema mediático amplifica o fenómeno com a tese, porventura falsa, de que uma má notícia vende sempre mais papel.
Isto justifica a circunstância das análises políticas que vejo na TV ou leio na imprensa parecerem crescentemente desfasadas da realidade. O fenómeno é mais visível nas observações sobre Europa, mas começa a sê-lo também na situação nacional. Alguns autores, por exemplo, da blogosfera, deviam meditar sobre o que escreviam há um ano.

 

Num desenho animado dos anos 60, baseado nas Viagens de Gulliver, havia um grupo de liliputianos e, entre estas personagens, surgia um tal Glum, um pessimista crónico que nos momentos de maior perigo dizia invariavelmente "we're doomed" ou "it's hopeless", com uma voz arrastada de quem se sentia mesmo condenado ou de quem afirmava que qualquer esforço era simplesmente inútil.
Os pessimistas crónicos como Glum nunca são lúcidos. As suas previsões falham e os liliputianos salvam-se sempre, mas Glum fica na sua. Quando as outras personagens criam um mecanismo que pode resultar, lá aparece Glum, impávido, a dizer que não vai funcionar, "it'll never work". Glum é de longe a figura mais cómica do desenho animado.


 

 


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Quarta-feira, 27 de Junho de 2012
por José Meireles Graça

O mantra dos políticos de eleição que dantes havia (Kohl, Mitterrand, Mário Soares, Delors e tutti quanti, para não irmos aos monstros sagrados Monnet, Schuman, de Gasperi, Adenauer ou Spaak) e agora não há é daqueles discursos do "dantes é que era" - não podem ser contraditados porque as circunstâncias eram diferentes e as comparações históricas, precisamente, devem levar em conta as circunstâncias.

 

Há porém um critério seguro para medir a "grandeza" dos estadistas históricos, e esse é o do grau de influência exercido na vida dos contemporâneos e vindouros. Afonso Henriques fundou uma independência sobre a qual, em devido tempo, se construiu uma nacionalidade, César lançou as bases para o Império, Washington foi e Mandela provavelmente é Pai de Pátria, Lenine e sobretudo Estaline, tal como Hitler, são epítomes de tragédias multi-nacionais que, tantos anos volvidos, ainda projectam as suas sombras. Estes homens, e muitos outros, encontraram o Mundo assim e deixaram-no assado.

 

Não podemos ter a certeza de que os tempos que vivemos serão grávidos de consequências de monta. E todavia faz falta alguém como Churchill, para dizer o óbvio para ele, mas original para os contemporâneos, como fez em 5 de Março de 1946: From Stettin in the Baltic to Trieste in the Adriatic an iron curtain has descended across the Continent. Behind that line lie all the capitals of the ancient states of Central and Eastern Europe. Warsaw, Berlin, Prague, Vienna, Budapest, Belgrade, Bucharest and Sofia; all these famous cities and the populations around them lie in what I must call the Soviet sphere, and all are subject, in one form or another, not only to Soviet influence but to a very high and in some cases increasing measure of control from Moscow…


Ele via a cortina e com ela cunhou a expressão "cortina de ferro". E permito-me pensar que hoje, deparando-se com mais um aflorar deste projecto, não veria uma cortina mas um manto que lentamente se estende sobre boa parte da Europa, com a intenção delirante de, para salvar um equívoco e adiar estas consequências, abafar as independências nacionais.

 

Não duvido que quem ache, como eu acho, que as contas públicas devem ser equilibradas, talvez possa aplaudir a iniciativa; que quem acalentou o sonho de ficar rico, desenvolvido e moderno por efeito de pertencer a um clube rico, desenvolvido e moderno, não queira despertar; que quem entende que a moeda faz os países, em vez de os reflectir, não queira abrir mão da ambição de forçar o desenvolvimento com a engenharia da moeda; e que a quem pareça que o princípio nacional é uma velharia historicamente ultrapassada, o passo em frente dos desnacionalismos pareça lógico.

 

E sobretudo não duvido que os meus concidadãos, aos quais foi prometido o terceiro D (o do desenvolvimento, para quem não se lembra) não queiram acreditar que a classe dirigente que elegeram e reelegeram os meteu numa enrascada; e que as outras classes dirigentes dos países com os quais partilhamos o Euro se tenham igualmente enganado.

 

Não se enganaram, dizem os responsáveis - apenas calcularam mal alguns detalhes. E para os corrigir basta que o Poder, todo o Poder, passe para quem não fala a mesma língua, não tem os mesmos interesses, nem peso demográfico semelhante, nem o mesmo sentimento de pertença nem as mesmas circunstâncias. Antes acreditavam que o Euro seria o abre-te Sésamo do Progresso; e agora reclamam que os cidadãos que neles confiaram nem sequer os julguem por se terem enganado.

 

Não vai acabar bem: se o Euro não se finar vítima do seu insucesso, acabará mais tarde vítima do seu sucesso, porque este nunca será, nem pode ser, igualmente distribuído. E mesmo que uns porque de tão aflitos queiram apenas ser salvos, e outros os queiram salvar porque deles precisam para manter a ficção e os interesses do barco comum, tarde ou cedo se verá que este não tem condições de navegabilidade.

 

Creio que Churchill diria, mil vezes melhor, isto mesmo. O que me leva a concordar afinal com o mantra do início: dantes é que era - mas temos que ir um pouco mais atrás do que costumamos.

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Sábado, 23 de Junho de 2012
por jfd

sinto-me:

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Segunda-feira, 18 de Junho de 2012
por Luís Naves

As eleições gregas de ontem e a segunda volta das legislativas francesas deram origem a mais dois resultados favoráveis à resolução da crise na zona euro. Após o referendo irlandês ao Tratado Constitucional, os eleitorados confirmaram o poder do presidente em França e permitiram uma solução de governo minimamente estável na Grécia. A menos de duas semanas do Conselho Europeu que discutirá mecanismos de estabilização da moeda única, completa-se um ciclo de três eleições cruciais para a União Europeia.
Os próximos dez dias serão dedicados a uma actividade frenética de negociação de um pacote de medidas para o euro, com as tradicionais pressões, nomeadamente declarações que anunciam dificuldades na discussão e até rupturas iminentes. A questão na mesa é sobretudo política e está centrada na coluna vertebral do projecto, a ligação Paris-Berlim. Os alemães querem garantias sobre as soluções, os franceses tentam evitar avanços na integração que consideram demasiado ambiciosos.


Os mercados estão nervosos e temem uma perturbação devastadora que possa levar ao fim da moeda única europeia. As eleições gregas não resolveram o problema do país, apenas adiaram a sua resolução, que dependerá da inteligência do novo governo. O país continua numa espiral de queda, sob o peso de uma dívida insustentável. De alguma forma, o memorando terá de ser suavizado.
Por outro lado, muitos analistas portugueses continuam a repetir a ideia de que a crise do euro resulta da existência da própria moeda única, cujo fim é de alguma forma desejável. Um conhecido comentador dizia ontem na TVI que o euro seria fonte de incontáveis problemas no futuro da Europa, que podiam levar até a guerras e outros papões semelhantes. Esta visão é infelizmente comum numa certa blogosfera, onde se repetem até à náusea ideias pouco esclarecidas sobre a natureza da União Europeia.
O fim do euro seria uma catástrofe inimaginável. A moeda única está condenada a sobreviver, pois a sua eventual morte teria consequências devastadoras na economia de cada um dos países. A Alemanha não vai arriscar a perda de 20% ou 25% do seu PIB. Neste momento, as economias estão todas ligadas e as complicações jurídicas do regresso às moedas nacionais levariam à paragem dos negócios, a falências em série e à destruições de milhões de empregos. Isso não vai acontecer.

 


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por Maurício Barra

Todos os que apostavam no caos, no fim do euro, no fim da Europa, os que já preconizavam a  reformulação da democracia, foram derrotados... pela democracia.

O tempo das Cassandras que, aqui em Portugal, foi um massacre contínuo de meses e meses à custa das agendas simpatizantes que os partidos não democráticos têm nas redacções da nossa imprensa, esboroou-se. Tudo o que escreveram caiu por terra.

Não temos de aturar mais as sinopses esquerdistas do jornal "delas" (segundo uma feliz definição do nosso mais estimado embaixador), as "viagens" de Clara Ferreira Alves que, armada em jornalista, fez a incensão apologética do Syriza com a irrelevância histérica que a define, nem as profecias de "professores" que colocam as suas obsessões ideológicas à frente da honestidade intelectual (claro que agora vamos ter para aí duas semanas de programas televisivos com os mesmos do costume a tentarem "ler" o contrário da realidade que têm em frente dos olhos, mas, o que é que querem, alguns dos principais proprietários da comunicação social portuguesa esquecem que o compromisso essencial das suas políticas editoriais deveria ser com a democracia).

O PC sai derrotado na sua estratégia de provocar um crescendo de agitação social que culminaria numa moção para derrubar o governo, o BE perde a única esperança de reanimação existencial que o Syriza lhe poderia dar. Os dois juntos nunca passarão dos 15%. Nem agora que atingimos o momento mais depressivo da austeridade em que fomos colocados pelo anterior governo.

A Grécia vai acomodar-se numa renegociação que lhe facilite o cumprimento do acordo com a União Europeia, Portugal está bem colocado para começar a recuperar a sua economia com estabilidade financeira e coesão social.

Ambos vão "ganhar" o euro.

Como ontem fizeram, no outro Euro. 


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Terça-feira, 5 de Junho de 2012
por José Meireles Graça

A União Europeia é hoje o conjunto de egoísmos nacionais que durante o tempo de um espirro histórico pareceu que não era.


Entendamo-nos: enquanto o espaço europeu foi um de aprofundamento sucessivo do comércio livre, fosse com seis, nove, dez ou doze países, os cidadãos e empresas prejudicados pelo estabelecimento da comunidade foram sempre largamente suplantados pelos muitos mais que benefíciaram. E outro tanto sucedeu com a passagem a quinze membros, não obstante já então estar em vigor o Tratado de Maastricht, de 1992, que incorporava matérias que só indirectamente tinham a ver com as quatro liberdades (circulação de mercadorias, de serviços, de pessoas e de capitais).


Em 2004, mais dez países de uma assentada; e três anos depois os dois restantes, para os actuais vinte e sete.


Houve outros tratados, claro, para lidar com uma estrutura decisória crescentemente complexa, levados a bom termo; e falhanços (do ponto de vista europeísta), como a reiterada recusa da Noruega em aderir, a falta de unanimidade em torno de Schengen, o falhanço da Constituição do assanhado Giscard d'Estaing, etc.


Em 1999 veio o Euro. E houve quem, já então, achasse a construção bizarra, por falta de políticas orçamentais e fiscais comuns e por dúvidas sobre a razoabilidade de impôr a mesma moeda a espaços com diferenças abismais de competitividade e desenvolvimento.


A história de sucesso da CEE; o horror às guerras intestinas que sempre fizeram parte da paisagem europeia; a memória recente das duas guerras mundiais e o problema alemão; o medo do urso Russo; a corrente de fundo europeísta que desde o início distante na década de 50 subjazia às instituições comunitárias: tudo facilitou a vida aos engenheiros de pátrias que por aquele então acharam boa ideia ignorar umas quantas objecções de guarda-livros e nacionalistas retrógrados, e dar um passo irreversível no sentido da federalização. Se o Euro tinha os defeitos que alguns diziam que tinha, a correcção só se poderia fazer aprofundando a integração da qual as opiniões públicas desconfiavam e que, aqui e além, já claramente rejeitavam, em referendos de resultado politicamente incorrecto.


Que sabem os Povos, afinal, do que lhes convém? Não sabem evidentemente nada - quem sabe são as élites e todo o burro come palha, em havendo quem a saiba dar.


Entretanto, veio 2008 e a crise fez descobrir que o Euro foi o manto por trás do qual muitos Estados se endividaram muito para além do razoável. Isto, que já seria muito, não é ainda concludente, porque outro tanto sucedeu com Estados que não estão no Euro, a começar pelos EUA que todavia têm uma moeda de refúgio, mas também com o Reino Unido, que não tem.


As élites são ainda bastantemente as mesmas. E sendo as coisas confusas, como sempre acontece a quem vive no meio de processos históricos conturbados, fogem para a frente para não se suicidarem politicamente. E que podemos nós ler em prosa curta e leve, aqui à mão, que nos ajude a ver no meio do nevoeiro?


Bem, talvez isto, e isto e isto e isto e isto e isto. Ainda é pouco? Leia também isto.

 

Cada um verá porventura coisas diferentes. Eu vejo a sombra de Carlos Magno, sem a espada longa, chata e mortífera, e com um ar contrafeito, por lhe cair no colo o Império que desta vez não queria. Os Franceses acham que Carlos Magno era um deles. Mas tinha a capital em Aachen.


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Sexta-feira, 1 de Junho de 2012
por Luís Naves

O profeta teve uma visão do fim de mundo para dia 4 de Maio e convenceu uma multidão de fiéis que se preparou para o fim iminente. Chegado o dia 4 de Maio, o mundo não acabou e os fiéis ficaram genuinamente surpreendidos. Pensaram então os seguidores que estavam perante uma falsa profecia? Não, pelo contrário: acreditaram no profeta quando este disse que se tinha enganado nos cálculos. Afinal, o fim do mundo era a 4 de Outubro. E começaram a fazer os preparativos para aquele importante acontecimento, esquecendo todas as dúvidas de que a ideia podia ser uma ilusão.
Vem esta história a propósito do fim iminente do euro, que é profetizado por muitos analistas pelo menos há ano e meio. A Irlanda votou a favor do Tratado Orçamental (TO), na primeira de três votações decisivas para a zona euro num espaço de semanas, seguindo-se a ratificação do documento em pelo menos mais três países, isto nos próximos dias. A ratificação está conseguida, salvo erro, em oito Estados, bastando 12 para entrar em vigor. Claro que o processo depende da assinatura alemã e da francesa (se um destes dois não ratificar, acabou), mas tudo indica que o TO pode perfeitamente ser incorporado nas previsões, mesmo acompanhado de um pacto de crescimento que está a ser negociado. Onde estão os críticos da pressa portuguesa em ratificar?
 

 

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Quarta-feira, 30 de Maio de 2012
por José Meireles Graça

Sempre tive, depois de casar, o privilégio de ter empregada doméstica - digo-o sem orgulho nem acanhamento. A última está connosco há mais de 15 anos, foi o seu primeiro emprego, como se vê até agora único.


Fez o 9º ano, sempre ao serviço, arrendou um T3 numa boa casa em banda, com a ajuda de um subsídio de renda, tirou carta de condução e casou. O marido, excelente moço, ganhava bem a pilotar por conta de outrem máquinas de construção civil. Aos 25 anos de idade o subsídio acabou e adquiriram a casa, mediante o competente empréstimo.


Votou sempre à esquerda. Como não? Foram os Governos dela que lhe permitiram ter o grau escolar que de outro modo não teria; arrendar a casa que lhe seria, sem subsídio, inacessível, e finalmente comprá-la com um empréstimo a um prazo e juro que, sem Euro, seria inatingível; chegar todos os dias ao trabalho num automóvel que não é um utilitário, e que é um dos dois da família; ter uma assistência na doença que excedeu sempre em muito o que para aquela assistência descontou, por ter uma saúde frágil, que implicou já duas operações; e educar as duas filhas entretanto nascidas com hábitos e práticas que excedem em muito o passadio vulgar para uma família da classe média de há apenas uma geração.


Esta ascensão social e este progresso do bem-estar são desejáveis? Claro, e só um  ultramontano ou um egoísta empedernido pretenderá o contrário.


Porém: a empresa do marido deixou de lhe poder pagar o que pagava, e este emigrou para o Luxemburgo; dos dois automóveis um foi já vendido; e o estatuto que conquistaram poderá talvez renascer, mas lá longe, a custo de grandes sacrifícios, e segregando as meninas do País e da escola que conhecem.


Se tivesse talento literário faria o que fazem os Portugueses que julgam ter essa qualidade: escrevia um romance. E neste apareceria uma personagem com um percurso semelhante ao da minha empregada, destino a efabular.


A personagem, vítima da vigarice infame de lhe terem comprado o voto com miragens insustentáveis, sendo que quem contraiu o empréstimo para o efeito não é quem agora tem que o pagar, faria dizer talvez aos críticos literários que o romance era verista.


Ou curto de imaginação e miserabilista. Talvez mesmo, se o talento não fosse suficiente para disfarçar o parti-pris político, me chamassem - economicista.

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Terça-feira, 15 de Maio de 2012
por Pedro Correia

A Grécia abandonará a zona euro no próximo mês. Um vaticínio de Paul Krugman.


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Quinta-feira, 10 de Maio de 2012
por José Meireles Graça

Seguro defende eleição de um 'presidente da Europa'

 

Com o aprofundar da crise do Euro, cresce a pressão para que a solução venha do estado federal que imponha a disciplina dos países do Norte com contas sãs, na versão federalista de Direita, ou o estado federal que apenas eurobondize a dívida, na versão federalista da Esquerda. O simpático e patético Seguro não se limita a querer que os ricos paguem a crise - constata que há "Estados que mandam mais do que outros", pelo que espera confiantemente que, logo que comecem a assumir as dívidas, fiquem mais iguaizinhos - não é mal visto, realmente.

Tudo isto quer dizer que o mesmo fato delirante vestido a corpos diferentes ameaça esgarçar de vez. Alguns dos grandes, enormes estadistas que engendraram esta estranha peça de vestuário one-size-fits-all não ignoravam isto; e o terem levado a iniciativa a bom porto foi uma engenharia de contrabando quase-continental para impôr aos povos europeus a federalização que eles não escolheram, à boleia de uma calculista irreversibilidade.

 

Temos assim, com crescente nitidez, dois campos, a saber:

 

I

 

O dos que acham que big is beautiful - no séc. XXI é preciso falar a uma só voz, para que essa voz seja ouvida pela América, pelos BRICs, pela ONU e tutti quanti; a história da Europa, que é uma de guerras, perseguições e rivalidades, passará doravante a ser, como a dos E.U.A. depois da Guerra Civil, de unidade de propósitos, paz entre os estados federados e representação externa comum; a economia, essa, terá o rigor e a eficiência do Norte, com a alegria, a imaginação e as estâncias de férias do Sul; e o Euro será sólido como uma rocha, tal como o dólar o é, não obstante a falência da Califórnia e a dívida estratosférica. E

 

II

 

O dos que entendem que: a competição entre estados, modelos de sociedade, fiscalidades, modos de organizar a representação política e o resto da coisa pública, é a melhor garantia de progresso e da detecção de erros de políticas sociais e outras; está por provar que os grandes países sejam mais eficientes, mais "justos", mais felizes do que os pequenos; as superpotências falam a uma só voz, mas a defesa dos seus interesses implica que periodicamente alguns dos seus cidadãos regressem a casa em sacos de plástico preto; as guerras do passado foram por conquista de terra, domínio, esbulho, religião e ideologia. A história não acabou e elas não se tornaram impossíveis, mas não se vêem no horizonte guerras intestinas na Europa - vêem-se porém no resto do Mundo; os pequenos estados gerem as suas dependências - se diluídos em grandes não gerem coisa alguma; a riqueza não funciona pelo princípio dos vasos comunicantes - há estados e regiões pobres e estados e regiões ricas dentro das federações e dos países unificados. E, finalmente, que há, nos estados europeus antigos, culturas, tradições, línguas e sentimentos de pertença - as instâncias centrais europeias, como quaisquer outras burocracias, tendem fatalmente a tentar anular tudo isso, a benefício da unicidade e da camada de apparatchicks de Bruxelas e dos seus delegados nos 26 Terreiros do Paço.

Depois, o nacionalismo, que foi, e ainda é (lembremo-nos dos Curdos e dos Bascos), o fundamento ou o adjuvante de muitas guerras; e que funcionou como cimento e legitimação de regimes detestáveis (lembremo-nos do Salazarismo) - não está em odor de santidade. E é também objecto de desvalorização por correntes de pensamento internacionalistas e fantasiosas: diz-se ser uma construção do romantismo, confundindo-se o ideal de fazer coincidir geograficamente as Nações com os Estados (que é uma ideia do séc. XIX) com o sentimento de pertença, que é a base do nacionalismo e uma pulsão antiga e natural. Este sentimento faz com que, ainda que tenhamos, e temos, muitas, boas, antigas e modernas, razões para detestar o nosso País, não deixemos de ser estrangeiros...no estrangeiro.


Em resumo: O Euro foi um erro caro - e a maior parte do preço estará ainda em revertê-lo. As élites querem corrigir o erro com outro maior, ignorando tradições, nacionalidades, idiossincrasias, fugindo para a frente para fazer um Mundo Novo.

Já vimos disto com outras vestes. É como diz uma amiga minha: as reformas são para políticos aborrecidos. As grandes engenharias de pátrias e revoluções, digo eu, são para políticos visionários - daqueles que engendram grandes desastres.


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Sexta-feira, 4 de Maio de 2012
por José Meireles Graça

Aprecio o equilíbrio orçamental (e até o superavit, quando seja necessário, como é, reduzir a dívida pública), não sou adepto da desvalorização artificial da moeda (como não sou, aliás, da valorização artificial) e reconheço os males da inflação.

Não ignoro que a indústria exportadora tem dado sucessivas lições ao país oficial e economês de como sobreviver, e até prosperar, com o Euro, um Estado gordo e incapaz de se reformar, uma fiscalidade predatória e penalizadora dos criadores de riqueza, uma opinião pública educada nos princípios da economia vudu, outrossim cainesianismo tuga, e uma opinião publicada geralmente sobranceira, quando não hostil, em relação aos empresários que temos, se não estiverem albardados de diplomas e tretas, e que fazem o seu caminho com algum sucesso sem precisar do Estado que trazem dependurado ao pescoço. Uf.

Fui contra a adesão ao SME, primeiro, e o Euro, depois. Acho mesmo que essa adesão foi o maior erro perpetrado contra a Economia depois do 25 de Abril, mais grávido ainda de consequências negativas do que as nacionalizações e os outros delírios do PREC. Porque o Euro retirou a válvula de segurança contra tolices de política económica que a moeda própria é, e fez-nos bater na parede com um nível de dívida pública e privada sem precedentes. Tivéssemos o cansado e desvalorizado Escudo, em vez de estarmos protegidos por uma moeda alemã (Euro foi o nome que o Marco tomou) e os emprestadores teriam fechado a torneira muito mais cedo.

Meridiano bom senso, a mim modestamente me parece o meu discurso - o óbvio é muitas vezes o mais difícil de ver.


Mas há mais: o Euro foi uma opção política deliberada para tornar a Europa federal inevitável - não é preciso ter uma visão conspiratória do mundo para o supôr. E ainda que a maior parte dos meus concidadãos estivesse, ou esteja, disposta a trocar a pertença a uma casa arruinada por um clube de ricos (cada vez menos ricos, aliás) é uma evidente ilusão imaginar que esses ricos estariam dispostos a sustentar os consócios caloteiros.

Não vamos, é claro, sair do Euro. Será antes o Euro a sair de nós ou, pior, a, por milagre, sobreviver. E, se for o caso, deixaremos em herança à geração seguinte um patrão exigente, irascível, autoritário e distante. Já sucedeu antes, há muito tempo, quando a Europa estava semeada de tribos celtas. Agora não, que as tribos diferenciaram-se, as línguas separaram-se, as fidelidades ganharam fronteiras definidas e o sentimento de pertença ganhou raízes dentro delas. Não atiraremos a canga ao ar talvez - outros o farão por nós.


E a que vem este arrazoado? Ora, foi despoletado por isto. Comme quoi, com tanta análise divergente, pressupostos diferentes, e propósitos tão distantes, se pode chegar à mesma conclusão - deve ser verdade que o Euro une.

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Quinta-feira, 26 de Abril de 2012
por Sérgio Azevedo

O presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, deu hoje Portugal como exemplo de um país que tem “agarrado o touro pelos cornos”, referindo-se ao combate à crise e à implementação de reformas estruturais. É caso para dizer, Olé!


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Terça-feira, 6 de Março de 2012
por José Meireles Graça

"Ser comunista em 2012 não é uma escolha política, mas uma questão existencial. Os níveis globais de desigualdades políticas, económicas e sociais, que vamos atingir este ano por causa das lógicas de produção do capitalismo, não são apenas alarmantes mas ameaçam a nossa própria existência."

 

"O comunismo enfraquecido que temos em 2012 não aspira a construir uma outra União Soviética, mas propõe modelos democráticos de resistência social fora dos paradigmas intelectuais que dominaram o marxismo clássico".

 

homem tem um résumé de respeito - se eu fosse impressionável imaginava que os textos aspados acima não querem dizer o que neles leio, e passava ao lado. Felizmente, o palavreado pretensioso anula-me o respeito pela Academia e por isso estou à vontade para interpretar.

 

Vejamos: os governos nos nossos países (Portugal, Espanha, Itália...) são eleitos pela maioria dos eleitores; dificilmente os comunistas, mesmo cavalgando a crise, ultrapassarão os 10%. Se se lhes somarem os compagnons de route, os primos, os radicais e alguns ingénuos, dificilmente se chegará aos 20%; com descontentes e indignados genuínos, não contemplados nos grupos anteriores, triturados pelo desemprego e misérias várias, um pouco mais. Logo, o que o ilustre Professor chama "modelos democráticos de resistência social" são na realidade manifestações e happenings mais ou menos impotentes.

 

A situação é explosiva? É. Pode o edifício que conhecemos da UE, do Euro, das prestações sociais, desmoronar? Pode.

 

E, em caso de explosão, os comunistas moderninhos, que acreditam ou fingem acreditar no comunismo de rosto humano, podem ser os herdeiros dos cacos? Não, não podem - já foi tempo. Para achar que não é assim é preciso ter Fé.

 

A Fé é que os guia. E isso não se discute.


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Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012
por José Meireles Graça

Ninguém, nesta história da austeridade versus crescimento, é inteiramente honesto.


A austeridade diminui o consumo e a diminuição do consumo diminui o PIB e as receitas fiscais, mesmo que com agravamento da carga fiscal nominal.


Diminuindo as receitas fiscais, a dívida pública percentual aumenta, tornando-se insuficientes os cortes na despesa pública; novos cortes, por sua vez, diminuem o consumo, que diminui etc. etc.


Toda a gente entende isto. E face ao espectáculo deprimente da Grécia que se afunda a cada mês, com "apoios" e cortes que alimentam esta máquina infernal, boa parte dos apoiantes do Governo (este escriba incluído) tem este pesadelo por trás das declarações convictas da justeza do nosso caminho.


Esta a primeira desonestidade: fingimos que não temos dúvidas.


No reajustamento em curso, muitos dos apoiantes do Governo (este escriba incluído) dizem para si que, mesmo que a estratégia não resulte, a reforma do Estado ficará sempre como adquirida, sendo ela necessária, como é, qualquer que seja a solução. Mas isto não é claramente assumido - e esta é a segunda desonestidade.


A esquerda comunista (incluindo a menchevique que o BE julga não ser) esfrega as mãos: nos tempos negros da miséria e depressão pode nascer a flor da Revolução no entulho. Essa flor nunca nasceu, nem pode, num ambiente económico estável e sob um regime democrático.

A receita do "não pagamos" (Islândia nihil obstat, os nossos bancos endividaram-se para além do razoável com crédito ao Estado, à habitação e ao consumo, não principalmente com especulação) não é uma alternativa inteligente para a gestão do capitalismo, é a criação de condições permanentes de autarcia económica nas quais soluções autoritárias e radicais anti-capitalistas poderiam ver a luz do dia. Mas isto os Jerónimos e Louçãs não dizem: queremos melhorar a UE, a economia e o sistema capitalista a pontos de, quando estiverem perfeitos, terem desaparecido. E esta é a terceira desonestidade.


A esquerda social-democrata não ousa renegar o MoU, mas finge acreditar (ou, nos casos mais graves, acredita mesmo) que é possível cumprir o Programa que assinou e ao mesmo tempo garantir um módico de crescimento, via despesa pública. E esta é a quarta desonestidade. A mais patética, de tão transparente, mas nem sempre o ridículo tira votos.


Não tenho nem terei responsabilidades políticas, a opinião dos meus concidadãos não condiciona a minha, o que escrevo não atrasa nem adianta a vida de ninguém, se estiver enganado não é a primeira vez, mas honesto gosto de ser: e por isso não escondo que acho que, sem o fim do Euro, pelo menos para os países do Sul, nada se resolverá de permanente.


Chamem-me, se quiserem, o Bruxo de Fafe.

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Domingo, 26 de Fevereiro de 2012
por Mr. Brown


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Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012
por José Meireles Graça

Hans-Werner Sinn tem um impressionante currículo. Porém, economistas com currículos impressionantes, a dizer tudo e o contrário de tudo, é o que não falta - mais vale louvarmo-nos num discurso simples (que nem sempre é a mesma coisa que simplista), desde que nos pareça lógico e sensato.


E se isso ofender a opinião maioritária na academia doméstica, paciência: não será por falta de ginástica que um destes meses, ou anos, assistiremos a uma considerável quantidade de cambalhotas.


Ah, antes que esqueça: o assunto é a Grécia, o Euro, a teimosia e os interesses.

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Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012
por José Meireles Graça

No Jornal das Nove da Sic-N, Mário Crespo fez passar um excerto de um discurso de Nigel Farage, de Novembro do ano passado, que está aqui (não encontrei cópia legendada em Português, deve andar por aí).

O entrevistado, o Prof. Cantiga Esteves, questionado a propósito do vídeo, falou de Hayek e do Estado Social, e lançou-se numa longa dissertação sobre o assunto, em termos que pela maior parte subscrevo.

Isto é um grande progresso: confrontados com o patente falhanço do Euro, os seus académicos defensores, que são em Portugal a esmagadora maioria, falam de assuntos conexos.

Já foi tempo em que sorriam com superioridade.

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por Mr. Brown

Alguns partidos gregos assinarão, outros não. Em Abril teremos eleições na Grécia, pelo que, à semelhança do que aconteceu no caso português, o plano acordado entre a troika e Atenas irá de certa forma a referendo. Qualquer que seja o resultado dessas eleições, deve ser respeitado, independentemente das consequências que daí possam advir (saída da Grécia do Euro incluída). Depois disso veremos quem são os verdadeiros democratas.


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Domingo, 12 de Fevereiro de 2012
por José Meireles Graça

Ainda não votaram, os parlamentares gregos.


José Gomes Ferreira fala na SicN: e diz que na América do Sul, para atravessar riachos infestados de piranhas, se considera razoável sacrificar uma rês; que os "Americanos" e os "Ingleses", se a Grécia não aceitar o programa da troika, apostarão na queda da peça seguinte do dominó (nós) porque aos Americanos não interessa um euro forte; e que as instâncias europeias já "descontaram" a saída da Grécia.

Isto diz ele, de improviso. Eu digo, igualmente de improviso, que a Grécia (e nós) nunca teria chegado à situação a que chegou se não tivesse aderido ao euro, porque a moeda própria ajuda a corrigir, com o sinal de alarme da desvalorização, os erros de política económica; que a Europa Federal (a meu ver impossível e, se fosse possível, indesejável) sem a Grécia seria (será) uma construção ainda mais descaradamente imperial e burocrática do que já é.


Os sacrifícios valem a pena para nós na medida em que de toda a maneira o Estado precisa de ser reformado, quer haja quer não haja reescalonamento da dívida.

O Estado grego precisa igualmente de reforma, mas muitos Gregos (a maioria?) assim não o entendem.

Por mim, Portugal é Portugal e a Grécia é a Grécia. Dois povos muito diferentes entre si e dos outros, partilhando embora a condição de Europeus que são e de nórdicos que não são.


Como se verá, quer no Parlamento em Atenas se vote assim como assado.


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Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2012
por José Meireles Graça

Quem estiver interessado em preparar-se para reparar uma máquina enguiçada, ainda antes de ela dar o triste pio, faz bem em estudar manuais.


Começam a aparecer no mercado: cheguei a este via Joaquim, e pareceu-me um tanto sumário. Mas eu não sou mecânico, apenas não quero ser comido por lorpa numa oficina qualquer, daí o interesse no modus operandi.


Fizéssemos a reparação a tempo, por nossa iniciativa, e ultrapassaríamos a excursão encalhada à borda da estrada, os excursionistas com as bandeiras do EURO enroladas a acenar descoroçoados.


Não vai ser assim, claro, que a nossa tradição é reagir, não agir. Mas ler não custa, ainda que a leitura nos estrague a digestão da merenda e a alegria do piquenique das ilusões.


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Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012
por Mr. Brown

 

Pergunto: não era melhor deixar os gregos seguirem o seu caminho fora do Euro? Eu compreendo os riscos - sobretudo para a própria Grécia: «The country might well wind up a failed state, a political and economic wreck.» -, mas quando vejo a bandeira da Alemanha a ser queimada na rua grega acho que estamos a chegar àquele ponto em que o divórcio realmente parece melhor opção do que a manutenção do casamento à força.


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