Quarta-feira, 31 de Julho de 2013
por Luís Naves

Série de textos sobre a decadência da Europa, que também publico aqui.

 

1

Um historiador do futuro talvez considere que 1989 foi o ano em que a civilização europeia se tornou verdadeiramente global, mas para os europeus que viveram a transição, o colapso dos regimes comunistas é geralmente interpretado como o culminar da reunificação do continente.
Esse ponto de vista é estreito e pode tornar-se rapidamente anacrónico. A nova ordem que se desenha é acima de tudo financeira e planetária. Ela inclui democracias, oligarquias e ditaduras. Ela caracteriza-se por uma vasta e crescente circulação de produtos e capitais, mas também pela globalização dos media.


 

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Segunda-feira, 15 de Julho de 2013
por Luís Naves

Após uma crise financeira profunda, no início dos anos 90, o Japão viveu mais de uma década de impotência política e estagnação económica. A Europa parece estar a cair numa armadilha semelhante. Os indícios da fadiga europeia estão por todo o lado: o Estado social resiste a mudanças, a população envelhece e o continente continua a perder importância, no meio de uma crise cujas soluções parecem ser incompatíveis com a vontade da população. É neste contexto que se acentuam os problemas individuais dos diferentes países.

 

A Alemanha tem eleições dentro de dois meses e as sondagens indicam tendência para uma grande coligação liderada pela actual chanceler. A economia está equilibrada e é competitiva, mas Berlim hesita sobre a melhor forma de liderar a Europa. O eleitorado é muito hostil à ideia de abrir os cordões à bolsa para resolver os problemas dos outros parceiros.

Em França, fracassou a estratégia do presidente Hollande de sair da crise através de uma política orçamental expansionista acompanhada de aumento de impostos. O défice ficará muito acima dos prometidos 3% (mais de 4% do PIB). O crescimento de 0,8% que os socialistas prometiam em 2013 será efectivamente negativo, da ordem de 0,3%. Perante isto, Hollande recusa a redução do generoso Estado social francês e já prometeu aumentar de novo impostos em 2014, tendo o país perdido o seu rating privilegiado.


 

Também aqui

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Quarta-feira, 19 de Junho de 2013
por Luís Naves

O Governo francês reagiu com indignação a um comentário do presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, que acusou de “reaccionária” a posição francesa sobre a excepção cultural, no âmbito das negociações de liberalização comercial entre europeus e americanos.
Compreendo que não gostar de Durão Barroso seja um útil passatempo nacional (Santos da casa...) mas muitas das críticas apressadas revelam desconhecimento sobre os mecanismos da Europa.

Os termos usados pelo Presidente da Comissão são inteiramente justos e a França teve uma posição intransigente, contrariando os seus parceiros. Paris optou por uma linha proteccionista e reaccionária, que poderá comprometer o acordo comercial. Este tinha vantagens imediatas, pois permitia relançar a economia numa altura de dificuldades. Os franceses ficaram isolados e exerceram o direito de veto, para irritação dos outros governos.


O mais certo é que as negociações já estejam comprometidas, pois do mandato dos negociadores ficou excluído o sector audiovisual e os americanos dificilmente aceitarão esse resultado. Na melhor das hipóteses, por causa do cinema francês, que ninguém na Europa vê, os europeus terão de fazer cedências em outras áreas.
O Presidente da Comissão limitou-se a repetir em voz alta a frustração de vários Estados membros. Achar que se tratou de um delírio ou que os franceses vão conseguir a cabeça de Barroso ilude a questão essencial: alguns países, com a Alemanha na vanguarda, estão a perder a paciência com as contradições e a lentidão reformista de François Hollande.

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Segunda-feira, 17 de Junho de 2013
por Alexandre Poço

“Proponho que a UE estabeleça como objetivo para o ano 2020 que nenhum país possa ter uma taxa de desemprego superior à média europeia.”


António José Seguro


PS: A prova aqui


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Quarta-feira, 1 de Maio de 2013
por Luís Naves

1

Este post de Shyznogud, em Jugular, mostra como é fácil criar uma forte indignação, mesmo dispondo de escassa informação sobre o tema. A autora faz um esforço e cita três fontes que a orientam, mas infelizmente a pesada sentença não permite recurso, nomeadamente em alguns dos comentários.

Do post podemos tirar várias conclusões: o convite ao primeiro-ministro húngaro para falar nas conferências do Estoril é “uma vergonha”, portanto não vale a pena sequer ouvir a versão do próprio. Embora lidere um partido conservador, Orbán é comparado à Aurora Dourada  grega (a comparação é absurda, mas que importa?); no post admite-se até a expulsão da Hungria da UE, algo que não seria possível sem um lento processo que exigiria decisões complicadíssimas e pelo menos ouvir os próprios húngaros (o Parlamento Europeu não tem esses poderes, de facto nem sequer tem poderes para suspender direitos de voto).

 

As lendas húngaras deram origem a um género de personagem sinistra onde se concentra o mal puro. Na ópera de Bela Bartok ‘O Castelo do Barba Azul’, um conde tenebroso mata as suas mulheres, a quem avisa para que não espreitem pela sétima porta. Nenhuma resiste à curiosidade, que é fatal, mas julgo que neste caso temos de tentar ignorar os preconceitos e as proibições. Talvez atrás da sétima porta esteja apenas um mito.

 

 

 


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por Luís Naves

2

A questão política parece bastante clara. O Fidesz, o partido no poder, tem maioria de dois terços que lhe permitiu escrever uma nova constituição, redigir leis cuja alteração exigirá maioria qualificada e ainda fazer emendas constitucionais para ultrapassar obstáculos colocados pelo Tribunal Constitucional. A maioria de dois terços resultou de um voto de protesto, em 2010, após oito anos de governos socialistas ruinosos. Essa votação foi democrática e livre, faltando um ano para as próximas legislativas, ou seja, a campanha está próxima e o Governo tem inegável legitimidade. Se não existe tentativa de interferir na política interna húngara, então o caso parece ser um conflito sobre a futura evolução da Europa e o poder dos pequenos, mas sobretudo sobre as “excentricidades” da identidade nacional e a respectiva impossibilidade.

 

 

 


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por Luís Naves

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Nas notícias que tentam demonizar Viktor Orban, a confusão entre extrema-direita e direita é um clássico. Muitas reportagens são feitas de forma preguiçosa. Imagine-se um repórter húngaro que viesse a Portugal e só entrevistasse pessoas ligadas ao Bloco de Esquerda e ao PCP, sindicalistas da CGTP e sociólogos de Coimbra. O que tenho lido sobre a Hungria é deste género.

 

 

 


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por Luís Naves

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Ao não compreender que Orban é de facto um dos primeiros-ministros mais fortes da Europa, o post de Shyznogud confunde a árvore com a floresta. Estamos sempre a ouvir que não há políticos à altura dos acontecimentos, mas quando surge um bom político, ele é autoritário e se falar no Estoril isso é uma vergonha.

 

Em Budapeste, a narrativa de spin é a seguinte: minámos o império austríaco, derrubámos o soviético e agora chegam estes comissários de Bruxelas e os seus aliados do FMI que nos dizem o que fazer. Mas quem manda na nossa democracia é o parlamento.

Conversa de surdos. O eurocepticismo versus a dificuldade em entender a diferença entre autoridade e autoritarismo.

Um pequeno país num contexto difícil considera que, para evitar a sua submissão, deve agir exibindo em todos os momentos firmeza e independência. E acaba a ser criticado por pessoas que estão sempre a reclamar contra a perda de soberania que resulta de posições subordinadas no seu país.

 

 

 


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por Luís Naves

5

Enfim, como explicar os ataques políticos no Parlamento Europeu e as críticas da comissão (que não retira o procedimento por défice excessivo e ameaça cortes nos fundos)? Budapeste insiste na ideia de que pisou muitos calos na alta finança e agora paga por isso. É quase credível. Entretanto, vai fazendo o seu caminho a ideia de que os pequenos países europeus têm de se portar bem. E esta opinião, que cresce, já faz pensar de outra maneira.

 

Um dos problemas fundamentais do futuro da Europa será a tensão crescente entre pequenos e grandes, os primeiros a terem de cumprir escrupulosamente regras que os segundos não precisam de cumprir com o mesmo rigor. Este duplo critério não passa de ilusão destinada ao fracasso. A União Europeia só sobreviverá se respeitar as nações com identidade forte.

 

 

 


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Domingo, 17 de Março de 2013
por Fernando Moreira de Sá

 

Quando li a notícia não acreditei. Por breves instantes pensei que era uma brincadeira do dia 1 de abril:

 

"Resgate no Chipre, aprovado no Eurogrupo, apresenta uma medida inédita, um imposto extraordinário sobre depósitos bancários. Para as contas de valor inferior a 100 mil euros, serão retirados 6,7%; para valor superior a 100 mil euros, serão retirados 9,9%; nas contas das empresas, 12,5%".

 

Estamos perante um crime, como ontem lembrava, num programa de televisão, um comentador. Sim, um verdadeiro crime punido pela lei criminal de qualquer país civilizado. Um crime de roubo. Agravado, digo eu, pela forma como foi decidido. Além de um crime de roubo, estamos perante algo ainda mais grave, o fim da confiança dos europeus no seu sistema bancário. Quando qualquer um de nós vai a um banco e nele deposita o seu dinheiro, as suas poupanças, não o faz apenas por desejar uma determinada remuneração dos seus depósitos. Nos tempos que correm, o nosso dinheiro vai para o banco por uma questão de confiança e segurança - o receio é tal que já nem se discute muito a remuneração dos mesmos.

 

Obviamente, alguns vão lembrar que o a banca cipriota se tinha tornado numa espécie de "lavandaria". É verdade. Contudo, curiosamente, esta medida não visa atacar esse outro crime, o da lavagem de dinheiro. Não. Uma vez mais, a UE aplica a velha máxima de ser forte com os fracos e fraca com os fortes. É que esta medida não ataca as contas "russas" ou de outras paragens do género. Ataca, sobretudo, a população cipriota e as suas empresas. Pagando o justo pelo pecador. Tornando esta medida do Eurogrupo, para além de um crime, uma vergonha.

 

O que está a acontecer no Chipre é um desastre. O sinal que o Eurogrupo acabou de nos dar (a todos, sem excepção) é de uma clareza assustadora: os nossos depósitos bancários não estão a salvo de nada nem de ninguém. Mais, qualquer pessoa, minimamente consciente, percebe que não pode confiar nos bancos europeus, que o sistema bancário europeu está morto. E com ele, a União Europeia.

 

Hoje foi no Chipre. Amanhã pode ser em Espanha ou em Portugal ou noutro qualquer país europeu, basta ver a forma como a crise se está a alastrar pelo continente. Não vale a pena acreditar nas palavras de Olli Renh, já todos percebemos que estamos entregues à bicharada... E já agora, reparem na medida tomada pelo governo inglês: salvaguardou os seus.

 

A Europa está perigosa. Por muito menos, no passado, entrou em guerra. Em suma, estamos tramados...

 

 

Actualização: Por mão amiga, chegou ao meu mail ESTA notícia, uma declaração, a 1 de março do ministro das finanças do Chipre. Assustador... Por isso, se o V. Gaspar declarar que tal medida será impossível de ser tomada em Portugal, vou imediatamente ao banco...


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Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2013
por Carlos Faria

Alguns gostam de interrupções da democracia para pôr os países em ordem e depois retomá-la já de casa arrumada à sua maneira, nem que para isso tenham de manter  a fachada de democracia e impôr Primeiros-ministros não eleitos que sejam da sua confiança estratégica. Fantoches manobrados de políticas impostas.

Por vezes esses mesmos amantes da democracia condicionada têm a sorte de um Estado eleger democraticamente um Primeiro-ministro da sua confiança  e então corre-se o risco de até esse Governo pensar que tem legitimidade para governar apenas pela cartilha desses amantes de  democracia com interruptores, que ora ligam, ora desligam.

Em democracia pode-se governar com medidas impopulares bem fundamentadas e com uma equipa técnica e moralmente credível, pois estas por vezes são até necessárias, mas não se pode governar sempre contra o povo apenas em benefício de uma credibilidade externa. Tanto num caso, como no outro, a curto ou médio-prazo a democracia tende a rejeitar aqueles amados só pelos que não os elegeram e, por norma, com grande ruído apostam no oposto da via que se seguia. O Cinco estrelas na Itália de hoje e o Syriza na Grécia de ontem são exemplos disto e deixam esta Europa atordoada, só espero que esta perceba antes que seja demasiado tarde.

A democracia regressou à Itália e como em democracia a política é o espelho do povo, os italianos votaram romaticamente no caos, contra uns sisudos e rijamente arrumados que lhe interromperam a democracia, só espero que estes sejam capazes de se adaptar à realidade e diversidade da Europa e permitam soluções equilibradas para todos, para bem de toda uma União Europeia e de todo o Velho Continente.


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Sexta-feira, 23 de Novembro de 2012
por Alexandre Poço

Foi hoje aprovado o Orçamento Rectificativo para 2012 com os votos a favor da maioria e os votos contra de toda a oposição. Sim, o PS também votou contra. Apesar de se ter abstido na generalidade, hoje, na votação final, o PS votou contra. E um dos motivos apresentados foi: o aval concedido à Madeira no valor de 1,1 milhões de euros, resultante de uma alteração na Comissão Parlamentar do Orçamento e Finanças. Ora, isto dito assim, não indica nada de estranho. Cada partido toma as decisões que decide tomar e vota em consonância com essas decisões. Porém, na concepção que tenho das coisas em política, os actos devem ser coerentes e é aqui que o PS falha. Senão vejamos - já há muito tempo que o PS e os socialistas na imprensa e redes sociais criticam transferências de fundos para a região autónoma da Madeira. Aquando do caso das dívidas ocultas, rasgaram as vestes e afirmavam que não tinham de pagar as dívidas do governo de Alberto João Jardim, pois não devíamos ser solidários com um governo despesista.


Ora, esta celeuma sobre as dívidas e os dinheiros transferidos para a Madeira desaparece quando se trata de financiamento para a política do Partido Socialista no continente. Desde que foi eleito líder do PS, António José Seguro e por arrasto, o seu partido, sugerem que a solução para esta crise é "europeia", já sendo célebre a expressão de Seguro que pede "mais tempo e mais dinheiro", embora ultimamente, talvez por sugestão de um assessor de comunicação que lhe deve ter dito que soava mal pedir "mais dinheiro", a fórmula seja "mais tempo e menos juros" (cai melhor no ouvido). E é isto que é incoerente, para não dizer mais, no Partido Socialista: dizem que nem mais um cêntimo deve ser transferido para as megalomanias de Alberto João Jardim, ao mesmo tempo, que dizem que a Europa tem a obrigação de nos dar mais dinheiro. Ou seja, o PS não quer financiar as marinas vazias e os estádios de futebol de Jardim, mas quer dinheiro (dos outros, de preferência) para prosseguir com o "desenvolvimento de sectores estratégios", provavelmente acentes em Aeroportos como o de Beja, auto-estradas para corridas de Fórmula 1 de aves de rapina ou para colocar candeeiros, que poderiam muito bem estar no Guggenheim em escolas secundárias.


Mais, o Partido Socialista fala da necessidade de uma "Europa solidária", onde os contribuintes dos países mais ricos têm o dever moral de contribuir para o despesismo que reina a sul, mas ofende-se como uma virgem por cada cêntimo que é transferido para a também despesista Madeira. A despesa feita às mãos do PS é virtuosa, às mãos do PSD é sacanice e aldrabice, só pode ser isso. Talvez seja a cor partidária do governo regional, talvez seja apenas cavalgar a onda do sentimento que reina no continente contra aquela região autónoma. Justificações à parte, o que esta questão revela é uma grande incoerência: A Europa, a Merkel e o BCE têm de ser solidária connosco, nós não temos de ser solidários com a Madeira. 


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Quarta-feira, 31 de Outubro de 2012
por Judite França

Depois disto, será que a malta «europeia» já percebe o que se passa agora em Portugal?


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Sábado, 6 de Outubro de 2012
por José Meireles Graça

Já quase toda a gente percebeu que os cortes na despesa pública são necessários, que a orgia da despesa a crédito arruinou famílias, o país e os bancos (estes sem desculpa, nem perdão, nem castigo), que alguma coisa se tem que fazer para que as mulheres tenham filhos, que é preciso produzir mais bens, ou bens mais caros, e vendê-los ao exterior, e que talvez não tenha sido grande ideia importar o peixe, e a carne, e o mais que temos, além do que não temos.

 

A montanha da dívida pública e da privada só é grande porque somos poucos e produzimos pouco. Just imagine: se todos os Europeus resolvessem meter a mão ao bolso para reduzir o nosso endividamento total a zero, nem precisavam de gastar 1000 Euros cada um, num ano - peanuts.

 

Mas também é líquido que ninguém nos vai dar nada, como é certo que até mesmo emprestado é a refilar, caro e com condições de bancário arrogante. E é aqui que bate o ponto: se a importância da dívida se mede em relação ao produto, este podia fazer o favor de parar quieto, para fazermos contas. Mas não: ao cortarmos a despesa o produto encolhe porque o consumo diminui. E assim deveríamos saber quando é que, tendo cortado o suficiente, poderemos recomeçar a crescer.

 

Para já, não estamos a falar de superavits orçamentais. E, sem eles, a dívida pública continuará a crescer, ao menos nominalmente. E como ninguém sabe onde está, se está, o ponto de equilíbrio, a dívida pública também continuará a crescer em percentagem do produto, até onde a vista alcança.

 

Acreditar assim que o que estamos a fazer vai resultar é um artigo de fé. Como é pacífico, desde parte do PS para a direita, que o Estado tem que se reformar, e como não há alternativa credível ao Governo do dia, toleramos a brutalidade do ajustamento em nome da impotência e na esperança de que, qualquer que seja o desenlace, alguma coisa de bom fique.

 

Magro consolo e triste falta de ambição. Porque os comunistas e a esquerda florida têm em parte razão: a troika precisava de um murro na mesa, não em nome da Cuba europeia que desejam, nem da autarcia económica que defendem, nem da manutenção dos níveis de despesa pública, que não são possíveis - isso foi o que nos trouxe onde estamos e de toda a maneira o crédito acabou - mas do crescimento.

 

Fé por fé, a minha está na saída do Euro - empobrecemos todos de uma vez, nos mesmos 30 ou 40%, corte que não terá naturalmente a a mesma importância para todos, porque uns sofrerão o corte na riqueza e no supérfluo e outros no necessário - mas isso já sucede, e sem esperança. Rilhamos cacos, mas recomeçamos a crescer - do fundo. E se o PS for o herdeiro da convulsão, suspender a reforma do Estado e embarcar nas fantasias despesistas que lhe são congénitas, lá estará a moeda vigilante para sinalizar e corrigir, tant bien que mal, via desvalorização, o disparate.

 

Mas há um estranho bloqueio no espaço público português: a Europa não se discute, apenas se discutem os meios delirantes pelos quais uma minoria de cidadãos, que são no conjunto os dos países em crise mais aguda, há-de dizer à maioria quanto têm que pagar, e quando, e como. Isto enquanto toda a independência, toda a autonomia de decisão, já se evaporaram, ao mesmo tempo que todo o aparelho democrático se tornou numa concha vazia, por uns colégios de uns merdas desconhecidos terem na ponta das esferográficas mais poder que os deputados, e o Governo, e o Presidente que nos demos ao trabalho de eleger.

 

Não discutam, não. Talvez seja melhor: no fim, como sempre, o que tem que ser tem muita força. 

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Quinta-feira, 27 de Setembro de 2012
por Carlos Faria

Muitos defendem que a ultrapassagem da crise das dívidas soberanas na zona euro passaria pelos eurobonds, onde na prática haveria uma compartilha das dívidas soberanas entre os Estados pobres e o ricos. Reconheço que isto seria de facto uma forma de solidariedade interestadual na eurozona. Todavia, goste-se ou não, seja justo ou não, esta ideia esbarra sempre com preconceitos em confronto:

- a desconfiança dos mais ricos de que os mais pobres perante a solidariedade não se sabem conter e assim continuam a gastar mais do que podem; e

- a ideia de que a crise não é da responsabilidade dos mais pobres, pelo que é justo que os ricos a paguem e sejam solidários, até porque precisam dos mais pobres.

Penso que nas ideias extremadas nunca está a verdade e no que toca à solidariedade entre povos em nada distingo o facto da Finlândia e a Alemanha não quererem eurobonds para não pagarem os “excessos” sulistas; do reacender da ideia independentista da Catalunha mais rica que não quer contribuir solidariamente para outras províncias mais pobres do reino de Espanha, apesar de não ter sido capaz de não se endividar com dinheiro que lhe coube nesta repartição solidária das riquezas pelo domínio de Madrid; e das regiões Autónomas Portuguesas serem muito rápidas a pedir solidariedade nacional ou protestarem sempre que Lisboa não lhes cobre as dívidas e lhes exige austeridade ou ainda, quando beneficiária dessa solidariedade, não se endivida a curto-prazo e se recusa a sacrificar-se em favor do todo Nacional.

Na política real europeia e independentemente da escala, todos apelam à solidariedade e fogem de cumprir os encargos assumidos quando em dificuldades, mas recusam-se a ser solidários quando a crise bate à porta do vizinho, isto porque se criou um modelo de democracia que promete apenas uma melhoria continua da qualidade de vida associada ao poder de compra de forma ilimitada num planeta limitado e num Continente que durante milénios sacrificou povos e continentes para que países e impérios seus enriquecessem.


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Terça-feira, 4 de Setembro de 2012
por Luís Naves

A blogosfera de esquerda espera uma catástrofe iminente e aposta em descrever a realidade como sendo um filme de terror a acelerar. A tese, que li em múltiplos locais, é a seguinte: a Grécia vai ser expulsa do euro (esse facto está ao virar da esquina) e Portugal cai logo a seguir. Sendo todos os sacrifícios inúteis, as reformas devem parar o mais depressa possível, cumprindo-se assim a profecia. Os portugueses não devem fazer mais sacrifícios, pois a estratégia do Governo está a falhar. A tese é apresentada com várias nuances (rasgar o memorando, fintar o memorando, renegociar o memorando, mas nunca se fala em cumprir o memorando).
A ideia não nasceu na blogosfera, mas também está na imprensa, onde o executivo tem servido como saco de pancada. A troika diz que o programa de ajustamento é do Governo? Conclusão imediata, em título de notícia: “Troika culpa Governo pelo falhanço”. Seria quase divertido, se não estivesse em causa o País.

 

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Sábado, 25 de Agosto de 2012
por Sérgio Azevedo

Hollande, essa grande esperança do socialismo, entende que a Grécia deve "provar a credibilidade" dos seus compromissos internacionais pois, segundo Hollande, "vive-se um momento em que é preciso assumir compromissos" e que a "Europa tem de ter consciência que já tudo foi feito" em prol da Grécia. Nem Sarkozy teria dito melhor...


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Terça-feira, 24 de Julho de 2012
por Luís Naves

Por vezes, ao lermos as notícias, elas parecem sustentar a narrativa habitual de que estamos perante uma espécie de Cabo das Tormentas, guardado pelo gigante Adamastor, e de que mais valia voltarmos para trás.

 

Lembram-se do que ouviram há um mês sobre a execução orçamental até Maio? Que o défice ia para 7,9%, que já estava seis vezes acima do de 2011, que a recessão aumentava, que era preciso parar imediatamente com a austeridade e apostar em políticas de crescimento? Afinal, passadas umas semanas, o que ocorreu no primeiro semestre não anda longe das previsões: o País consegue cortar na despesa pública e as receitas nem são assim tão más, considerando que a economia está a cair 3% este ano (como é que o programa de ajustamento tinha um aumento tão grande de receitas)? Não há volta a dar, a notícia é positiva e na medida em que o PIB está a cair menos depressa, a receita é susceptível de melhorar um pouco nos próximos meses. Mesmo que o défice fique um ponto acima do objectivo ou algumas décimas, o País deverá conseguir um ajustamento nas contas públicas superior a dois pontos percentuais de PIB. É isto que os credores vão constatar, o que explica a abertura para a suavização das metas, desde que o Governo acelere o ritmo das reformas estruturais.

Portugal e Irlanda estão a cumprir os programas de ajustamento, isto ao contrário da Grécia, que há dois anos falha sistematicamente. O novo governo grego queria propor um conjunto de cortes menos ambicioso do que aquele que era pedido e o FMI ameaçou não fazer mais pagamentos. Esta notícia foi interpretada por muitos analistas nacionais como o fim iminente do euro e prova adicional de que a Europa perdeu toda a solidariedade entre parceiros. O mais que provável resgate espanhol produziu a mesma reacção: segundo esta tese, os líderes europeus estão a afundar a zona euro por não ajudarem os parceiros em risco, para mais num contexto de silêncio que consideram cobarde. A ideia é aqui defendida por Viriato Soromenho Marques, uma das vozes lúcidas deste debate e um dos melhores cronistas da Imprensa.


 

 


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Terça-feira, 10 de Julho de 2012
por Pedro Correia

A economia, à escala europeia, conhece as monumentais dificuldades que todos sabemos. Apesar disso, ou talvez por causa disso, não tropeçamos numa pedra na rua sem vermos sair de lá meia dúzia de improvisados economistas carregados de soluções mágicas para solucionar todos os problemas. Que esses economistas de circunstância não tenham o menor conhecimento da ciência que dizem dominar é um pormenor de somenos: basta-lhes dois pós de retórica e três citações dos mestres da moda (Krugman, Roubini e Stiglitz) para debitarem as suas teses capazes de ressuscitar a prosperidade nesta Europa com a corda na garganta.

Faltam de repente dois mil milhões de euros para cumprirmos os compromissos acordados com os nossos credores internacionais? Não tem importância: proceda-se de imediato a cortes nos "cerimoniais do estado", proclama um destes improvisados génios da economia. Certamente convicto de que a poupança em amendoins e tremoços garante o passaporte automático ao pagamento de salários, pensões e prestações sociais à margem das estritas regras de disciplina orçamental impostas pelo acordo de assistência financeira negociado in extremis com as instituições internacionais que concedem crédito ao Estado português.

 

Andamos a brincar com coisas demasiado sérias, entretidos em oratória de salão, como se não víssemos as chamas a arder nas casas em redor.

Numa altura em que o sistema financeiro espanhol está em risco de derrocada.

Numa altura em que o Executivo de coligação entre socialistas e comunistas que governa a Andaluzia - a mais populosa região de Espanha - aprova a subida de impostos e a redução dos salários dos trabalhadores da administração pública.

Numa altura em que Chipre - único país da Europa com um Presidente comunista - solicita um auxílio internacional de emergência que deverá totalizar dez mil milhões de euros.

Numa altura em que o Governo italiano anuncia o despedimento de 10% dos funcionários públicos e a eliminação de mais de metade das províncias - numa reforma administrativa sem precedentes motivada pelo astronómico montante da dívida pública.

Numa altura em que até a França necessita urgentemente de cortar 43 mil milhões da sua despesa, admitindo-se já a redução de benefícios sociais e do número de funcionários, o que terá contribuído para a rápida queda de sete pontos percentuais da popularidade do novo inquilino do Eliseu, François Hollande.

Numa altura em que da Finlândia vem um aviso que deve ser levado em conta: Helsínquia recusa continuar a pagar as dívidas dos outros países que integram a zona euro. Outros países poderão em breve ameaçar fazer o mesmo.

 

Em Portugal, indiferentes à realidade circundante, os mais diversos protagonistas ocupam a todo o momento os púlpitos mediáticos em pose e tom de salvadores da pátria: propõem medidas populistas destinadas por um lado a colher aplausos fáceis enquanto por outro agravam os riscos da execução orçamental e condicionam ainda mais o que resta da nossa soberania.

Como se permanecêssemos mergulhados nos anos de ilusória prosperidade que conduziram à situação actual e a Europa, enquanto projecto de unidade económica e política, não estivesse hoje em sério risco.

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Sexta-feira, 6 de Julho de 2012
por Luís Naves

Muito interessante a reacção ao meu post mais abaixo, sobre o caso Relvas. Escrevi o texto para concordar com outros autores e com a consciência de que o assunto é um fait divers. O meu comentário revela a pouca importância que dou ao caso, na linha das opiniões que, nas horas seguintes, vários políticos manifestaram. Mas os leitores não entendem que eu possa desvalorizar um assunto destes.
A forma como muitos portugueses se prendem a questões minúsculas em tempos de crise não é nova. Nos meses anteriores à proclamação da República, os meios jornalístico-tertulianos (no fundo, era o equivalente à actual blogosfera) fervilhavam com discussões eternas sobre coisas laterais. O país tinha imensos problemas, mas casos irrelevantes eram transformados em causas patrióticas.
A Rainha D. Amélia era o Relvas daquele tempo. Tudo o que fizesse servia para uma corrente de notícias indignadas que se somavam ao caso dos chapéus comprados em Paris a preços insultuosos para o povo português.

O ambiente geral de insurreição foi criado com paciência e deu origem a uma revolta mal organizada, ou meio espontânea, que podia ter resultado em desastre para os republicanos. Os revoltosos estiveram a minutos da derrota, mas resistiram nas primeiras horas e organizaram as barricadas com muita sorte à mistura, já que os militares monárquicos cometeram erros de avaliação e podiam ter desbaratado o golpe antes do pequeno-almoço. Os verdadeiros heróis do dia, alguns oficiais que arriscaram a sua vida na Rotunda, acabariam mais tarde por ser assassinados como traidores pelas franjas lunáticas que tinham dado de frosques nas primeiras acções.
Com o andar dos anos, a euforia revolucionária deu origem ao caos e depois ao desalento. O país continuou pobre, pouco democrático e distante do resto da Europa.

 

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Terça-feira, 26 de Junho de 2012
por Luís Naves

Em posts anteriores, procurei explicar o que está em causa no Conselho Europeu de quinta e sexta-feira. A opinião pública continua a ser exposta a mitos que dificultam a compreensão dos factos e não há entendimento entre os dois maiores partidos sobre a declaração parlamentar que é suposto reflectir a “posição portuguesa”. A primeira circunstância é nociva e permite que um partido com altas responsabilidades na crise nacional se dedique a joguinhos de pequena política.
Em Portugal, continua a falar-se de eurobonds como se estes fossem uma panaceia muito fácil e que se encontra ao virar da esquina. Os eurobonds já estão fora da negociação. Por outro lado, a posição alemã continua a ser descrita como uma aberração, autêntico capricho de uma mulher teimosa que nem sequer tem o direito de ser identificada pelo título. Isto não é inocente: ouço sempre a “senhora Merkel”, nunca a “chanceler” ou a “líder” alemã. Nestes termos, a posição da Alemanha nas negociações não pode ser compreendida.

 

A discussão europeia dura há ano e meio e foi acumulando uma série de temas inseparáveis: os resgates, em particular, o da Grécia; o Tratado Orçamental; o Mecanismo de Estabilidade; as dívidas soberanas da Espanha e Itália; a ligação entre bancos e dívidas soberanas; a crise financeira e a contracção do crédito às empresas; o aumento dos poderes do BCE; o abrandamento económico; o aumento do desemprego; a insatisfação dos eleitores; a mutualização da dívida europeia.
Julgo ser pacífico que os líderes europeus querem salvar o euro e continuarão a financiar os resgates dos países que perderam acesso aos mercados financeiros. Em troca, exigem reformas estruturais e o cumprimento dos programas de ajustamento. O tratado e o mecanismo são elementos fundamentais para que a zona euro ganhe credibilidade, mas faltam elementos, sobretudo definir os poderes e legitimidade do futuro ministro europeu das finanças (governo económico, no jargão europeu). A questão financeira é a mais atrasada, pois passa pelo reforço da influência do BCE, havendo elementos em discussão, a saber: até que ponto irão os novos poderes de supervisão do banco central? Até que ponto irá a federalização da instituição? Ela poderá emprestar dinheiro a Estados? E há a questão inversa no Mecanismo Europeu de Estabilidade, pode este órgão emprestar dinheiro a bancos?

 


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Terça-feira, 19 de Junho de 2012
por Luís Naves
 
No debate sobre a crise europeia, instalou-se um poderoso mito segundo o qual os problemas dos países endividados têm origem na austeridade e de que há uma saída mágica, de políticas de crescimento, para resolver tudo numa única jogada. A narrativa distorce a realidade, é politicamente motivada e não permite compreender o que se está a passar. Trata-se, no fundo, de uma forma de desviar para canto, típica das discussões onde o lugar-comum dá vantagem aos discursos superficiais. 
Repetindo simplificações (geralmente americanas), muitos autores da blogosfera continuam a pensar que a Europa não tem liderança ou que o euro é uma monstruosidade. Outros, à esquerda e à direita, repetem a ideia de que a crise se explica pela incrível estupidez da chanceler Angela Merkel, sempre designada 'senhora Merkel', para sublinhar que se trata de uma mulher (e alemã, ainda por cima). Nunca lhe é dado qualquer desconto, nem sequer a legitimidade de defender os interesses do país que a elegeu.
Poucos explicam que, a nível europeu, as negociações estão avançadas na ideia de lançar uma união bancária, projecto que exigirá vários anos. Quando isso estiver concluído, os países não terão os mesmos poderes sobre a sua banca. Imaginem um supervisor europeu a exigir o desmantelamento de um banco português. E, no entanto, para estabilizar a moeda única, isto será necessário, pelo menos o compromisso de que existirá um tal mecanismo. O eleitorado está preparado? É óbvio que não. Por isso, as verdadeiras soluções serão lentas.

 

 


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Segunda-feira, 18 de Junho de 2012
por Luís Naves

As eleições gregas de ontem e a segunda volta das legislativas francesas deram origem a mais dois resultados favoráveis à resolução da crise na zona euro. Após o referendo irlandês ao Tratado Constitucional, os eleitorados confirmaram o poder do presidente em França e permitiram uma solução de governo minimamente estável na Grécia. A menos de duas semanas do Conselho Europeu que discutirá mecanismos de estabilização da moeda única, completa-se um ciclo de três eleições cruciais para a União Europeia.
Os próximos dez dias serão dedicados a uma actividade frenética de negociação de um pacote de medidas para o euro, com as tradicionais pressões, nomeadamente declarações que anunciam dificuldades na discussão e até rupturas iminentes. A questão na mesa é sobretudo política e está centrada na coluna vertebral do projecto, a ligação Paris-Berlim. Os alemães querem garantias sobre as soluções, os franceses tentam evitar avanços na integração que consideram demasiado ambiciosos.


Os mercados estão nervosos e temem uma perturbação devastadora que possa levar ao fim da moeda única europeia. As eleições gregas não resolveram o problema do país, apenas adiaram a sua resolução, que dependerá da inteligência do novo governo. O país continua numa espiral de queda, sob o peso de uma dívida insustentável. De alguma forma, o memorando terá de ser suavizado.
Por outro lado, muitos analistas portugueses continuam a repetir a ideia de que a crise do euro resulta da existência da própria moeda única, cujo fim é de alguma forma desejável. Um conhecido comentador dizia ontem na TVI que o euro seria fonte de incontáveis problemas no futuro da Europa, que podiam levar até a guerras e outros papões semelhantes. Esta visão é infelizmente comum numa certa blogosfera, onde se repetem até à náusea ideias pouco esclarecidas sobre a natureza da União Europeia.
O fim do euro seria uma catástrofe inimaginável. A moeda única está condenada a sobreviver, pois a sua eventual morte teria consequências devastadoras na economia de cada um dos países. A Alemanha não vai arriscar a perda de 20% ou 25% do seu PIB. Neste momento, as economias estão todas ligadas e as complicações jurídicas do regresso às moedas nacionais levariam à paragem dos negócios, a falências em série e à destruições de milhões de empregos. Isso não vai acontecer.

 


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por Pedro Correia

Os gregos falaram. Da única forma aceitável em democracia: através do voto. Na hora da decisão crucial, prevaleceu a resposta à pergunta que ontem aqui resumi desta forma: "Votar para quê? Para produzir novo impasse destinado a tornar ainda mais profundo o atoleiro ou procurar que o voto se torne parte da solução e não parte do problema?"

Após as legislativas de 6 de Maio, as forças políticas gregas, confundindo cálculo partidário com interesse nacional, foram incapazes de formar um governo de coligação. Julgo que agora não sucederá assim. Por um motivo muito simples: a Grécia precisa de 2 mil milhões de dólares para evitar a bancarrota, que tem já data marcada: 20 de Julho.

Não há nada como o inevitável para inspirar os políticos. A Grécia europeísta é hoje mais frágil do que ontem, mas continua europeísta. Também neste aspecto os gregos foram claros: esta eleição funcionou como referendo ao euro num país que tem registado por estes dias uma corrida dramática aos depósitos bancários.

Permanecer no euro é um direito da Grécia, que precisa como nunca da solidariedade europeia. Ora não há direitos sem deveres. O primeiro dever dos gregos é saberem ajudar-se a si próprios. O povo já cumpriu a sua parte. Falta agora os políticos cumprirem a sua.

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por Sérgio Azevedo

A vitória da Nova Democracia na Grécia foi a vitória da construção europeia e do projecto europeu. São momentos como este que nos fazem acreditar na democracia e no imperativo da razão dos cidadãos que, em alturas como esta, sempre prevalece. Hoje, a razão imperou na Grécia. Os gregos ganharam mas a Europa também.


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Domingo, 17 de Junho de 2012
por Pedro Correia

 

E SE NÓS, PORTUGUESES, TAMBÉM VOTÁSSEMOS HOJE NA GRÉCIA?

 

Imaginem agora, por um momento, que éramos todos gregos. Íamos hoje votar pela segunda vez em seis semanas. A primeira, em 6 de Maio, não serviu para nada: as forças políticas eleitas por voto popular, confundindo cálculo partidário com interesse nacional, foram incapazes de formar um governo de unidade - primeiro passo, aliás fundamental, para tentar tirar o país do atoleiro em que se encontra.

Imaginem que éramos gregos. Íamos votar. Para quê? Para produzir novo impasse destinado a tornar ainda mais fundo o atoleiro ou procuraríamos que o nosso voto se tornasse parte da solução e não parte do problema?

 

É verdade que a Europa, em grande parte por incapacidade dos seus dirigentes, se tornou um problema dentro do problema dentro do problema. Como naqueles jogos de caixinhas chinesas da nossa infância. Mas é um facto que a Grécia nunca fez parte de solução alguma. Pelo contrário. Um país que contribui apenas com cerca de 2% do PIB da União Europeia tem ocupado, mais do que nenhum outro, as manchetes da imprensa mundial sempre por maus motivos.

Mentiu sobre o défice das contas públicas. Quando o socialista Georgios Papandreu venceu as legislativas de Outubro de 2009 verificou que o défice real, herdado do governo conservador da Nova Democracia, ascendia aos 12,7%: nada tinha a ver com os 6% comunicados oficialmente a Bruxelas.

Houve dois empréstimos de emergência negociados por Atenas em condições muito precárias com a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional. Em Maio de 2010 e em Outubro de 2011. Para o envio de 240 mil milhões de euros aos gregos, a troco de um brutal plano de austeridade.

O país passou a fazer parte da solução? Não. Continuou a ser parte do problema.

 

De então para cá, houve sucessivas greves gerais (oito só em 2010).

Houve uma tentativa fracassada de Papandreu para fazer preceder o segundo resgate financeiro de um referendo aos gregos. E logo caiu o Governo do PASOK, minado por insanáveis divergências internas.

Formou-se um Executivo de "unidade nacional" (que nada tinha de unitário e muito pouco de nacional) liderado por um tecnocrata, Lukas Papademos.

Realizaram-se há seis semanas as tais eleições que não serviram para nada.

 

Balanço?

Não podia ser mais negativo.

- Dívida pública grega: 163% do PIB.

- Défice externo: 7,3%.

- Défice orçamental: 7,5%.

- A actividade turística - que gera cerca de um quinto dos empregos directos na Grécia - caiu 15% no primeiro trimestre de 2012.

- 40% das reservas turísticas para o Verão foram anuladas desde o fracassado escrutínio de 6 de Maio.

- A produção industrial caiu 8,5% em 2011.

- A receita do Estado caiu 10,2% em 2011.

- Taxa oficial de desemprego: 21,7%. Em certas regiões ronda os 70%.

- Cerca de 400 mil famílias gregas não possuem rendimentos de qualquer espécie.

- Pelo menos um terço dos gregos, segundo estimativas credíveis, vivem na chamada "economia informal". O país detém o recorde europeu de evasão fiscal.

- A Bolsa de Atenas caiu 56% no último ano.

- Tem-se registado uma corrida aos depósitos bancários. Em média, os gregos retiram dos bancos entre 500 milhões e 800 milhões de euros por semana, convertendo-os em libras ou francos suíços. Quarta e quinta-feira, o ritmo aumentou: um milhão levantado em cada dia.

- Desde 2010, os bancos gregos terão perdido já 72 mil milhões de euros em depósitos, o equivalente a cerca de 30% do total.

 

Há culpas próprias, claro. Mas também culpas alheias. Georgios Prevelakis, professor de Geopolítica na Sorbonne, adverte em entrevista ao El Mundo: «A Alemanha tem repetido na Grécia os erros cometidos pelos aliados após a I Guerra Mundial.»

 

Como sair do impasse? Atirar mais dinheiro sobre o problema? Já se viu: a solução não passa por aí. Mas há necessidades urgentes que requerem paliativos urgentes. E caros. Um exemplo: se não receber até 20 de Julho a próxima fatia do empréstimo internacional, no montante de 2 mil milhões de euros, o Estado grego não conseguirá cumprir as suas obrigações mais elementares. A começar pelo pagamento de salários e pensões (uns módicos 600 milhões de euros).

 

Duas evidências:

- O Estado grego desagrega-se de dia para dia.

- Há uma forte tradição de intervenção militar na politica grega, como ficou amargamente demonstrado na ditadura dos coronéis (entre 1967 e 1974). E o Egipto, onde o processo democrático acaba de ser travado por uma conspiração conjunta entre militares e juízes, não fica muito distante de Atenas. Mais perto ainda fica Itália, onde não falta hoje quem se orgulhe de ter "um governo sem políticos".

Nada de ilusões: no limite, é a própria democracia que começa a estar em causa.

 

O seleccionador nacional da Grécia é português. E acaba de produzir um quase milagre, qualificando a débil selecção grega para os quartos-de-final do Campeonato da Europa.

Conseguirão os gregos qualificar-se para as etapas seguintes da construção europeia, muito mais exigentes e que nada têm a ver com futebol?

 

E nós, portugueses, se fôssemos gregos, como votávamos?

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Segunda-feira, 11 de Junho de 2012
por Luís Naves

Tenho dificuldade em perceber a lógica da esquerda na crítica à situação política. Parece que apostou definitivamente no 'quanto pior, melhor', interpretando todas as informações no ângulo catastrofista. No filme de Capra 'Do Céu Caiu uma Estrela' um desesperado Jimmy Stewart vê como seria o mundo após o seu suicídio. Na vida real não há anjos para mostrarem como seria o mundo sem nós, mas neste caso existe uma aproximação: se não cumprirmos as nossas obrigações, estaremos como a Grécia e, incrivelmente, há quem sonhe com essa hipótese.
O resgate espanhol, que é objectivamente uma boa notícia para Portugal, serve aos olhos da esquerda para demonstrar que a Europa se afunda numa crise que culminará no fim do euro, numa guerra mundial e no encerramento do País para obras. No meio, aparecem apelos à insurreição, como se assinala em post mais abaixo.

Há ano e meio que se ouve a mantra de que a Europa não tem soluções para a crise na zona euro. Muitos observadores e políticos têm dado a táctica segura para resolver o problema em três dias, mas poucos admitem a dificuldade do empreendimento. A questão é sobretudo política e tem a ver com o facto da opinião pública dos países do norte não aceitar a ideia de pagar as dívidas contraídas nos países do sul. Aqui entra sempre o discurso de que a Europa devia ser solidária, mas a Europa é o que é e não o que as pessoas gostariam que fosse. Cada líder responde perante o seu eleitorado, não perante um idealismo teórico que não se encontra em nenhum tratado.


 


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Terça-feira, 5 de Junho de 2012
por Luís Naves

A complexidade da União Europeia e os aspectos bizantinos da sua realidade dão origem em Portugal a muitas interpretações exageradas e visões românticas. Ou é o fim do mundo ou o topo do mundo. Frequentemente, ambos.

Como julgo estarmos num momento de definição, é importante que os leitores compreendam que a UE não passa de uma organização de 27 países e que tem poderes muito limitados. As decisões estão concentradas nos Estados e estes prosseguem naturalmente os seus interesses nacionais, o que se reflecte nos debates do Conselho Europeu, o órgão máximo.
Bruxelas (já o escrevi aqui) é uma espécie de gigantesca fábrica de salsichas, mas em vez de alimento produz legislação. As leis que adoptamos (mais de dois terços delas) são cada vez mais fabricadas pela burocracia comunitária. Daí a convergência: se os países têm legislação muito parecida, então as suas sociedades e as economias tendem a tornar-se semelhantes. Um mercado tão gigantesco não podia funcionar com regras demasiado distintas. Para mais, este é um processo de longo prazo. Claro que as salsichas não são consumidas da mesma maneira em todo o lado, há com chucrute e com batatas, com arroz e sem mostarda, em pão e acompanhada de cerveja ou vinho, com natas ou com iogurte. As variantes nacionais não desaparecem, mas é sempre salsicha. Não confundir as leis com a cultura dos países, a sua língua ou opções educacionais, áreas que não estão abrangidas pelos poderes comunitários, mas apenas pela cooperação voluntária dos países.
A União é hoje uma entidade esquisita, a várias velocidades, que funciona em rede e onde tudo se negoceia longamente. Há vários eixos: o mais importante é Paris-Berlim, que a crise financeira tornou mais forte; mas existe também Londres-Berlim, hoje enfraquecido. A Alemanha conta quase sempre com a Itália, a França com a Espanha e o Reino Unido com a Polónia. No entanto, por vezes, as coisas podem ser um bocadinho diferentes. Surgiu entretanto uma fractura entre norte e sul, devido a diferenças de competitividade provocadas por choques assimétricos, pois a globalização beneficiou o norte e prejudicou o sul.
Uma lei demora tipicamente dois ou três anos a ser negociada. Ou seja, e ao contrário do mito, o esquema que está a ser montado para salvar a moeda única foi executado praticamente à velocidade da luz.
A política também tende a ser europeia. Umas eleições gregas nos anos 80 mereciam 20 linhas numa página do DN da época. Agora, fazem correr rios de tinta, directos na TV e tornam-se tópico de conversa de café.

 

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Sexta-feira, 1 de Junho de 2012
por Luís Naves

O profeta teve uma visão do fim de mundo para dia 4 de Maio e convenceu uma multidão de fiéis que se preparou para o fim iminente. Chegado o dia 4 de Maio, o mundo não acabou e os fiéis ficaram genuinamente surpreendidos. Pensaram então os seguidores que estavam perante uma falsa profecia? Não, pelo contrário: acreditaram no profeta quando este disse que se tinha enganado nos cálculos. Afinal, o fim do mundo era a 4 de Outubro. E começaram a fazer os preparativos para aquele importante acontecimento, esquecendo todas as dúvidas de que a ideia podia ser uma ilusão.
Vem esta história a propósito do fim iminente do euro, que é profetizado por muitos analistas pelo menos há ano e meio. A Irlanda votou a favor do Tratado Orçamental (TO), na primeira de três votações decisivas para a zona euro num espaço de semanas, seguindo-se a ratificação do documento em pelo menos mais três países, isto nos próximos dias. A ratificação está conseguida, salvo erro, em oito Estados, bastando 12 para entrar em vigor. Claro que o processo depende da assinatura alemã e da francesa (se um destes dois não ratificar, acabou), mas tudo indica que o TO pode perfeitamente ser incorporado nas previsões, mesmo acompanhado de um pacto de crescimento que está a ser negociado. Onde estão os críticos da pressa portuguesa em ratificar?
 

 

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Quarta-feira, 30 de Maio de 2012
por Luís Naves

Os leitores que seguem os meus posts sabem que discordo do comentário político dominante sobre questões europeias. Parece haver um desejo escondido de que tudo corra mal, à mistura com previsões catastrofistas que nunca se confirmam. Aliás, é nítida a forma como muitos comentadores em Portugal dispensam avaliação e, inclusivamente, são até libertados pelos seus leitores da necessidade de acertarem de vez em quando na interpretação da realidade. A blogosfera está cheia destes sucessos de audiência, cassandras que não acertam uma.
O clima em relação à actualidade revela tendência para pensamento único na ideia de que a estratégia alemã para salvar o euro é uma desgraça e de que a “senhora Merkel” (nunca é chanceler, mas mulher, loura, burra e de leste) tem cerca de três neurónios e só consegue usar dois de cada vez. Portugal, claro, está a afundar-se numa depressão sem saída: as boas notícias são sempre relegadas para um cantinho da página ou convenientemente esquecidas. Afirmar que já fizemos o mais difícil e há sinais de que a situação económica pode dar a volta no próximo ano é equiparado a propaganda. Quem tem razão é o PS, cuja estratégia política aposta em que tudo corra pelo pior dos mundos (como é que eles vão descalçar a bota se a conjuntura melhorar, esse é o mistério). A diabolização dos políticos é outro elemento da discussão, este a meu ver perigoso, pois vai ferir os partidos tradicionais e alimentar a emergência de correntes radicais, dos populismos que podem fazer parte da paisagem futura da nossa política. Podia aqui acrescentar ‘depois, não se queixem’, mas é inútil, os gurus vão dizer que tinham razão e que o aparecimento de franjas indigestas não tem nada a ver com a mantra demagógica que repetiram durante anos.

 


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