Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2013
por Alexandre Poço

O polémico relatório do FMI veio provar, mais uma vez, que as elites políticas, económicas, sociais e culturais do nosso país não querem fazer reformas profundas no Estado e na sociedade portuguesa. As reacções de todos os lados e quadrantes provam cabalmente o amor despegado ao status quo por parte de todos os que têm (salvo raras excepções) palanque residente na comunicação social. Os mesmos que passam a vida a carpir sobre a ineficiência do Estado, a decadência das instituições e a forma abusiva, por vezes mesquinha, com que a máquina estatal trata e se relaciona com os portugueses são também os mesmos que se apressam a afirmar que propostas como estas vão contra os pilares mais essenciais da nossa sociedade.

 

Para demonstrar a sua incapacidade de pensar fora do quadrado em que se aprisionaram e em que querem amarrar toda a população, lançam anátemas sobre as medidas, atiram lama para quem as ouse defender (veja-se o tratamento dado a Carlos Moedas). Outros tipos de argumentos baseiam-se no momento e na forma como o processo é gerido. Afirmam que é tarde demais, que tudo devia ter começado no início da legislatura, que o governo devia chamar os outros partidos para um consenso, etc, etc.

 

Mas convenhamos, o problema, na verdade, não é este. Isto é a poeira com que querem entreter os jornalistas e justificar os prolongados debates televisivos sem se discutir nada de concreto. O problema é outro e poucos o dizem desta forma: as reformas que o governo promete realizar. Este é o problema, ou seja, existir um governo que procura e dá sinais de querer mudar algo de relevante. Nada mais nem menos que isto. E o objectivo de tanto alarido é não discutir as propostas, forçando o governo a meter na gaveta quaisquer outras do género, ainda antes de uma possível apresentação.

 

Em Portugal, a opinião pública e publicada adora não discutir o essencial em detrimento do folclórico. Isto é decorrente do funcionamento das nossas sociedades, porém, é necessário saber distinguir o essencial, isto é, separar o joio do trigo quando se debatem temas desta importância. Não podemos querer discutir um novo Estado e uma relação diferente entre o Estado e os cidadãos como se discute um jogo de futebol ou um reality show.

 

Ligado a este problema está a óbvia incapacidade de muito boa gente reconhecer ou admitir a realidade. Vejamos um caso: é do conhecimento de todos que há professores a mais no sistema público de educação, cerca de 13 mil, segundo a Direcção Geral da Administração Escolar, aos quais é atribuído o estatuto de “professor com horário zero”. O relatório do FMI veio afirmar o mesmo: há professores a mais. Havendo esta sintonia entre a realidade e aquilo que o Fundo diz é difícil compreender as reacções que o tema suscitou. 

 

E a quantas mais áreas formos fazer esta análise, mais estranheza nos causará este "debate". Um "debate" que só não é esquizofrénico, porque aqui não há visões com realidades possíveis como sofrem os doentes dessa patologia, mas sim, uma negação constante da própria realidade.

 

Enfim, como o país está tão bom e recomendável, talvez seja só o alucinado governo que ainda não percebeu isso e teime em querer reformar o Estado.


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Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2013
por Pedro Correia

O Aventar prepara a tradução integral para português do relatório do FMI de que muitos falam e quase ninguém leu. Chama-se a isto serviço público.

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por Francisco Castelo Branco

O país ficou chocado e perplexo com o pacote de corte na despesa apresentado pelo FMI durante esta semana. Este pacote não é mais do que medidas de austeridade adicionais disfarçadas sobre cortes na despesa que vão afectar sobretudo os funcionários públicos, no entanto convêm perguntar onde é que se coloca estas pessoas que vão para o desemprego...mais despesa por causa dos subsídios?

 

O governo foi o unico que reagiu bem às recomendações. Como era de esperar a oposição saiu a terreno pedir eleições, o CDS está contra mas só o diz pelos jornais e enquanto isto o PR continua em silêncio, mas isso não é novidade para quem leu a última entrevista de Cavaco ao Expresso. O FMI sugeriu, o Presidente do Parlamento Europeu contra atacou a instituição internacional. Schulz é social democrata e alemão pelo que sabe do que está a falar. Estas dúvidas de alguém que está bem documentado sobre a situação económica portuguesa e não só mostra o desnorte em que se encontram os líderes mundiais que não sabem o que estão a fazer em relação à Grécia e Portugal. Ora isto não é admissível quando todos os dias vão pessoas para o desemprego e empresas estão à beira da falência.

 

Já por diversas vezes mostrei a minha relutância sobre a receita a aplicar, o problema é que por cada novo pacote apresentado (quando será o ultimo?), há sempre contradições em relação ao discurso optimista que as próprias instituições internacionais fazem do esforço português.


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Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2013
por José Meireles Graça

O Relatório está aqui. Mas não o vou ler: tem 76 páginas e o palavreado é o de um paper de economia, uma coisa intensamente fastidiosa. Não faz mal: na minha lista de favoritos, os blogues com economistas são mais de uma dúzia; e como os blogueiros que não são economistas falam com frequência de assuntos económicos, e a minha lista tem uma divisão equânime esquerda/direita, acabarei por saber mais do Relatório do que se o tivesse lido. Ademais, era o que faltava se para me pronunciar sobre qualquer assunto tivesse que o estudar - do que ouço e leio dos especialistas felicito-me com frequência pela minha abençoada ignorância: os porcos, quando estão com o focinho enfiado na gamela, não veem nada do que rodeia o curral; e é facílimo tresler quando se estudam ciências que se declinam em esquerda e direita.

 

Acresce que haverá gente que vê detalhes dos quais nunca me aperceberia. Por exemplo, a coisa chegou hoje ao espaço público e já houve quem topasse que o Ministro Relvas não esteve para maçadas. Um pormenor irrelevante, decerto; mas outros hão-de aparecer.

 

Gostaria de pensar que a parte reformista da Esquerda se vai convencer de que o Estado dos direitos económicos e sociais de valor crescente acabou; e que, a bem ou a mal, o nível de despesa pública terá que baixar, dado que a carga fiscal pode ainda subir no papel mas a receita não.

 

Gostaria de pensar que a parte da Direita que tem uma receita ideológica pronto-a-vestir percebesse que a espiral recessiva não é uma possibilidade apenas teórica; e que, mesmo que o fosse, há um limite para o sofrimento sem esperança, pelo menos se não quisermos que a Democracia vá pelo ralo.

 

Precisamos de crescimento. Tão ou mais importante do que a discussão em torno dos cortes é a descoberta da pedra filosofal do crescimento.

 

Esta receita não dá - foi testada no consulado do autor, quando a Europa ainda acreditava que mini-Planos Marshall haveriam de pôr os países relativamente atrasados a crescer muito mais do que os outros, e deu como resultado a obesidade do Estado, um himalaia de desperdício, um karakorum de corrupção e um crescimento abaixo da ambição e da necessidade. De toda a maneira, quando se pedem esmolas pode-se talvez sobreviver; mas não se pode enriquecer - e esmolas seria do que a agora UE estaria disposta, na melhor das hipóteses, a abrir mão.

 

O investimento público, mesmo para quem acredite, contra toda a evidência, que pode ser a solução, está-nos vedado por falta de crédito.

 

A descoberta de petróleo, gás ou de metais preciosos é improvável; e o mar, essa grande riqueza, continuará teimosamente a ser refractário ao papel que empresários de proclamações lhe destinam.

 

Vou gostar da discussão. Ou talvez não: não é impossível que se veja mais do mesmo.


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Terça-feira, 4 de Dezembro de 2012
por José Meireles Graça

Este colunista diz que "research suggests fiscal consolidation plans should be more like $5 to $1 spending cuts over tax hikes, not $1 to $1". Diz mais, muito mais, mas são americanices, Deus nos livre de agora nos termos que inteirar das trapalhadas deles e do que vai e não vai fazer o Presidente que acabaram de reeleger. Mesmo que, infelizmente, nos conviesse uma economia americana sólida - a constipação deles tem uma tendência excessivamente marcada para chegar a estes lados sob a forma de pneumonia.

 

Mas é curioso: Um conhecido preopinante de economia da nossa praça acha, num post que é um autêntico brinco, que "a  ideia de que os cortes na despesa são menos penalizadores para a economia do que os aumentos de impostos não tem qualquer sustentação empírica", baseado na tese de "uma insuspeita equipa de investigadores do FMI".

 

As teses do FMI não costumam estar envoltas em odor de santidade para os lados do PS. Possivelmente com algum conhecimento de causa, dado que aquele partido tem uma relação muito chegada com o organismo em questão, que está de visita pela terceira vez em trinta e poucos anos. Mas esta tese, so to speak, comes in handy - se me perdoam o Francês.

 

Depois, o Americano não é de modas - é que nem põe a hipótese, que tem sido seguida entre nós, de privilegiar o aumento de impostos - meio por meio já lhe parece um exagero. Mas como não indica fontes, ficamos aqui dilacerados numa dúvida excruciante: Quem tem razão - Galamba que fala de "falta de sustentação empírica" ou Pethoukakis que fala do que a investigação sugere?

 

Por mim, ligo pouco ao que dizem os entendidos, sobretudo quando dizem o contrário uns dos outros. Mas sei o que pensaria um empresário ou uma dona de casa. Claro que um país não é uma empresa nem uma domus. Mas quand même, se me perdoam o Alemão.


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Terça-feira, 22 de Maio de 2012
por Judite França

O líder do Syriza, Alexis Tsipras, veio avisar que não negoceia com o inferno, mas o inferno já mandou dizer que negoceia com qualquer partido eleito na Grécia. Mesmo que seja contra o programa de assistência.

 

Ou seja, o devedor falido recusa-se a negociar com o «inferno». O credor, o tipo que emprestou o guito e que tem os salários dos funcionários públicos gregos nas mãos [desde polícias a enfermeiros], está disposto a sentar-se às mesas das negociações, mesmo se o governo eleito quiser rasgar de alto a baixo o contrato assinado.

Parece que alguma coisa está do avesso. Deve ser o mundo.


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Sexta-feira, 20 de Abril de 2012
por jfd

O Brasil, depois de se reunir com os BRICA, informou que vai continuar com políticas de desvalorização da sua moeda. Ignorou de alto as declarações da alta representante do FMI.

É uma nova ordem mundial. E a história apenas vai no prefácio!

sinto-me:

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Sábado, 12 de Novembro de 2011
por Ricardo Vicente

 

Da Itália, só boas notícias.

 

As boas: a Itália tomou a iniciativa de pedir ao Fundo Monetário Internacional para proceder a uma supervisão próxima e regular das suas contas públicas. Desde que a crise chegou à Europa que os diversos líderes políticos têm tomado decisões sempre no último momento e a reboque dos acontecimentos. Desespero, mijinhas, atrasos e perdas de tempo têm sido o cardápio costumeiro dos políticos perante a crise. Agora, a Itália toma uma atitude antes de as coisas piorarem para lá de um ponto de não-retorno (isto é, qualquer coisa como taxas de juro nos dez por cento).

 

As outras boas: Berlusconi nunca deveria ter atingido o posto de Presidente do Conselho de Ministros da Itália. O seu poder económico e mediático desaconselhava-o. Os seus negócios mais que suspeitos, o seu comportamento público, os escândalos e os crimes desaconselhavam-no ainda mais. Só que a democracia é mesmo como Winston Churchill a descreveu (e poucos o compreenderam...) e Berlusconi lá conseguiu ser o priministro ministro italiano a estar mais tempo consecutivo no poder desde a Segunda Guerra Mundial e a trazer um mínimo de estabilidade governativa ao país. No entanto, tendo tido tantas "oportunidades" para se demitir, escolheu precisamente um dos momentos de maior fragilidade social e económica na Itália para se afastar (para longe ou para perto?) do poder. Tal gesto mostra bem o quanto a política tem sido entendida por Berlusconi não como um serviço prestado à república mas apenas como mais um assunto dos seus negócios privados. É uma excelente notícia que Berlusconi vá, é pena que seja tão tardia.

 

P.S.: Evidentemente, o maior problema da Itália (ou de qualquer outro país democrático) não é a "classe política": em última e primeira instância, os políticos são escolhidos pelo povo e os políticos não se atrevem a fazer aquilo que o povo não quer. Já lá dizia Winston Churchill que...


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Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011
por Ricardo Vicente

Já tinha sido inapropriado que, depois da desgraça Strauss-Kahn, a direcção-executiva do Fundo Monetário Internacional voltasse a ser entregue a uma personalidade francesa, Christine Lagarde. A França já havia liderado aquela instituição por várias décadas e o seu último mandato acabara nas peripécias por todos conhecidas. Inapropriadas foram também as palavras de Sarkozy, celebrando aquela nomeação como uma "vitória para a França".

 

Após a sua candidatura ter recebido apoio da parte do Brasil, Rússia, Índia e China, Lagarde vem agora dizer que o fundo não precisa de ter os seus recursos aumentados, contradizendo assim a intenção de algumas economias emergentes (o poder relativo dentro do FMI depende do valor com que cada país contribui).

 

Sem qualquer fundamento que não a sobranceria da velha Europa e a arrogância francesa, a nova directora do FMI bloqueia assim uma redistribuição de poder cada vez mais merecida, sendo também verdade que, na actual crise europeia e considerando as dificuldades económicas nos EUA, tudo aponta para a necessidade de um acréscimo dos meios do FMI, como aliás a própria Lagarde já havia reconhecido.

 

Contradições de um mundo velho e em relativa decadência...


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