Quarta-feira, 29 de Maio de 2013
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Segunda-feira, 26 de Novembro de 2012
por Fernando Moreira de Sá

 

 

No Chicago Tribune, podem ler um artigo bastante crítico a Hollande e aconselhando-o a seguir o exemplo do governo português. Não fiquei surpreendido. Como sabem aqueles que leram os meus últimos escritos sobre o governo e as medidas que estão a ser seguidas, continuo muito céptico das opções fiscais seguidas pelo ministro das finanças. Não tenho nem evitado nem escondido as minhas sérias dúvidas (ler os artigos "Matar o doente com a cura").

 

No último fim de semana, na TSF, tive a oportunidade de ouvir o discurso de Pedro Passos Coelho na Madeira. Salvo melhor opinião, esta foi a sua melhor intervenção dos últimos meses. Explicou com clareza e foi, finalmente, um discurso político. É raro ver um político assumir e defender um caminho que, obvimente, é impopular. O objectivo dos politiqueiros é ganhar sempre e a qualquer custo. Os políticos a sério e sérios preferem fazer o que ainda não foi feito e precisa de o ser, mesmo que seja impopular. A sua decisão terá, na minha opinião, consequências terríveis para o seu partido já nas autárquicas de 2013. A minha dúvida reside apenas num ponto e que ponto: será este o caminho correcto para endireitar o país? Será desta forma que vamos ter uma economia saudável? Não sei. Na minha opinião, a política fiscal seguida por Gaspar vai prejudicar toda a estratégia (o melhor exemplo é o IVA da restauração). Não acredito que com esta gigantesca carga fiscal se recupere as finanças e a economia. O IVA e o IRS podem representar a morte da já diminuta classe média. Vamos ver. Posso, espero, estar enganado. 

 

Contudo, os portugueses, demonstram a sua inteligência. A oposição, sobretudo o PS, não apresenta alternativas. O Partido Socialista está enredado numa pouco discreta luta interna de poder com Seguro a fazer verdadeiros "pactos internos com o Diabo" e Costa a somar apoios atrás de apoios, até nas hostes de Seguro. Hoje, para mal dos nossos pecados, temos um Secretário-geral do PS que sempre que faz uma intervenção política está a falar para dentro, a procurar retirar espaço aos seus opositores em vez de falar para o país e se constituir, a si e ao seu partido, como uma alternativa. Ironicamente, faz mais oposição ao governo o CDS (simulando estar fora quando está dentro, bem dentro) do que Seguro.

 

Neste ano e meio de governo PSD/CDS muito foi feito. Externamente somam-se elogios. Internamente pairam as dúvidas. A crise em Espanha é bem mais profunda do que se pensa. Os nacionalismos (Basco, Catalão e Galego) podem fazer implodir o nosso vizinho. O caminho que hollande está a trilhar em França é um prenúncio de desastre. E as eleições na Alemanha tardam...Numa Europa adiada é caso para concluir que nada ajuda. Nada. Fica a coragem de Pedro Passos Coelho.

 

Por estes dias, só espero que a teimosia fiscal de Gaspar não deite tudo a perder...

 


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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2012
por Alexandre Poço

 


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Quinta-feira, 19 de Julho de 2012
por jfd

A centralidade e autoridade de que Vítor Gaspar dispõe no Governo português e o “mantra neoliberal” que consistentemente é entoado pelo primeiro-ministro são ensinamentos que Espanha devia retirar do vizinho mais pequeno, que já leva um ano de intervenção externa.

A conclusão é da Reuters, que ontem divulgou um longo texto de análise intitulado “Líder de Espanha podia aprender algumas lições de Portugal”, depois de constatar que nem a promessa europeia de ajuda à banca, nem o novo pacote de austeridade, deram alento aos investidores, que continuam a cobrar prémios de risco crescentes para financiar o Estado espanhol. (...)

 

Mais uma notícia para ser comentada com desdém por quem não respeita o que nós portugueses estamos a passar e o que se está a fazer pelo futuro.

Vamos aguardar pela ruptura dos pensos rápidos franceses e pela queda das promessas populistas, para depois também os podermos chamar de fascistas.

Ó pobre e retórica esquerda, onde te esconderás? Como te justificarás?

Nunca, de facto, foi tão pertinente dizer que os cães ladram...


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Segunda-feira, 18 de Junho de 2012
por jfd




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Domingo, 17 de Junho de 2012
por Fernando Moreira de Sá

Se eu percebi bem: Ségolène Royal-0, Valérie Trierweiler-1. E o jogo ainda vai a meio. Cheira-me...


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Terça-feira, 12 de Junho de 2012
por Fernando Moreira de Sá

É por estas e por outras que adoro a França. O mundo pode estar a acabar, a crise financeira a arrebentar e a França preocupada com....:

A notícia caiu como uma bomba em França. Nas legislativas, Ségolène Royal é apoiada pelo Presidente François Hollande e ex-companheiro; mas a primeira-dama Valérie Trierweiler, que não gosta dela, decidiu apoiar o seu rival.
(Fonte: Expresso)

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Quarta-feira, 16 de Maio de 2012
por jfd
Le Portugal face au quotidien de l'austérité

LE MONDE

Restriction drastique des remboursements de médicaments, doublement du tarif des tickets modérateurs, difficulté d'accès aux centres hospitaliers : au Portugal, le secteur de la santé est en première ligne des restrictions budgétaires imposées en 2011 pour faire face à la crise. Le principe, inscrit dans la Constitution, du droit à la santé gratuite est désormais mis à mal. Autre exemple d'un secteur sacrifié sur l'autel de l'économie : la culture, et en particulier le cinéma. Les caisses sont vides ; aucun nouveau projet n'est soutenu. "Le cinéma portugais risque de s'effondrer", s'alarme le réalisateur Manoel de Oliveira

 (...) 

sinto-me:

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Terça-feira, 15 de Maio de 2012
por Pedro Correia

 

«Como é que alguém consegue governar um país que tem duzentas e quarenta seis variedades de queijo?»

Charles de Gaulle

 

Dados macro-económicos da França que François Hollande herda de Nicolas Sarkozy:

- crescimento médio do PIB entre 2009 e 2011: 1,5%

- crescimento do PIB em 2012 (previsão): entre 0,4% e 0,7%

- desemprego: 10,1%

- défice público: 5,2% do PIB

- dívida pública: 83% do PIB

 

Promessas eleitorais de Hollande:

- renegociação do tratado orçamental

- redução em 30% dos salários do Presidente e dos ministros

- equilíbrio orçamental em 2017 (défice zero)

- introdução na Constituição do princípio da concertação social

- concessão do direito de voto aos cidadãos estrangeiros provenientes de países extra-comunitários

- actualização do salário mínimo, indexado ao crescimento do PIB

- criação de 150 mil empregos para jovens: "contratos de geração"

- incentivos fiscais às empresas que contratem pessoas com menos de 30 anos e mantenham nos seus quadros pessoas com mais de 55 anos

- criação de 60 mil postos de trabalho no sector da educação público da educação e cinco mil na justiça durante os próximos cinco anos

- diminuição da idade de reforma para 60 anos quando houver 41,5 anos de descontos

- reforma fiscal: novo escalão de 45% para rendimentos acima de 150 mil euros e de 75% sobre os rendimentos superiores a um milhão de euros por ano

- taxa de IRC de 35% para grandes empresas, 30% para as médias e 15% para as pequenas

- renegociação dos acordos com Bélgica, Suíça e Luxemburgo que permitam cobrar impostos aos exilados fiscais

- reforma bancária, criando um banco público de investimento separado da banca comercial

- maior regulação do sistema bancário

- proibição de envolvimento da banca francesa em paraísos fiscais

- aumento de 15% do imposto sobre os lucros bancários

- congelamento durante três meses dos preços dos combustíveis e do gás

- redução da componente nuclear da produção de energia eléctrica dos actuais 75% para 50%

- manutenção do Estado nos sectores postal, dos transportes e da energia

- redução do preço dos medicamentos e maior comparticipação de genéricos

- redução para metade da taxa do insucesso escolar

- casamento entre pessoas do mesmo sexo, com reconhecimento do direito à adopção

 

Fica o registo. Para dentro de um prazo razoável verificarmos quantas destas promessas foram cumpridas - e em que termos. Cada vez mais os políticos devem ser confrontados entre o que propõem aos eleitores e aquilo que são capazes de concretizar assim que ascendem ao poder.

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Segunda-feira, 14 de Maio de 2012
por Pedro Correia

 

Vinte e quatro anos depois, a França - o país da Europa que pensa mais à esquerda e vota mais à direita - voltou a eleger um presidente socialista. François Hollande derrotou um desgastado Nicolas Sarkozy por escassos três pontos percentuais, inferiores ao que prediziam todas as sondagens.

Sarkozy, que pela sua natureza e pelas suas atitudes tem pouco a ver com os conservadores clássicos, repetiu até à exaustão durante a campanha que durante o seu mandato de cinco anos nunca a França esteve um trimestre em recessão, apesar da crise generalizada na Europa. É verdade. Mas também é certo que o país tem um nível de desemprego preocupante e as taxas oficiais de crescimento não revelam - longe disso - uma economia dinâmica, o que ajuda a dar asas ao discurso demagógico e populista de Marine Le Pen, a dirigente da Frente Nacional que ambiciona liderar a direita francesa.

 

No digno discurso em que reconheceu a derrota, na noite de 6 de Maio, Sarkozy destacou a força das instituições democráticas que permitem uma alternância tranquila no poder. A vitória de Hollande projecta-se para fora das fronteiras da Europa com a força de um símbolo numa região do mundo onde a esquerda tem sido duramente penalizada nas urnas desde que eclodiu a crise dos mercados financeiros.

Para um democrata, nunca é de mais sublinhar a importância destas rotações de poder ditadas pela soberania do voto popular. Num continente onde crescem de modo alarmante as forças extremistas "anti-sistémicas", indiferentes às lições da História bem evidenciadas nas décadas de 20 e 30 do século passado, um democrata convicto tem o dever cívico de proclamar esta sua condição. Que implica a aceitação dos resultados eleitorais, sejam eles quais forem. O exercício do direito de voto torna as sociedades mais fortes contra as investidas de todos quantos pretendem suprimi-lo invocando para esse efeito palavras tão apelativas e tão manipuláveis como povo, pátria, nação ou classe.

 

A economia francesa não está bem. Mas a política mantém-se de boa saúde e recomenda-se. Prova disso foi a grande afluência eleitoral: mais de 80% dos franceses inscritos nos cadernos de recenseamento acorreram às assembleias de voto na segunda volta das presidenciais.

Uma boa notícia para a União Europeia, que está tão carente delas. E uma responsabilidade acrescida para o novo inquilino do Eliseu, que amanhã toma posse. O seu primeiro passo como Presidente é significativo: voa de imediato para Berlim, onde será recebido por Angela Merkel.

A política vive muito de símbolos. Este é tão forte que fala por si. De forma mais expressiva do que todas as torrentes de retórica em que a França sempre foi fértil. Como costumava dizer o general De Gaulle, "nada grandioso será alguma vez conseguido sem grandes homens - e os homens só se engrandecem quando estão determinados nisso".

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Sexta-feira, 11 de Maio de 2012
por Francisca Almeida

O mundo, tal qual o conhecíamos, mudou. O advento desta crise económica e financeira a par da incapacidade dos Estados e dos chamados “poderes instituídos” para compreenderem as suas causas e lidarem com as suas consequências, puseram a nu as alterações estruturais na ordem mundial e na dimensão histórica das relações internacionais. A globalização trouxe consigo uma certa ideia de enfraquecimento do poder estadual, do poder hegemónico do estado sobre o seu território e o seu povo. Paulo Rangel (Estado do Estado, Dom Quixote, 2009) fala numa “ordem política pautada pela fragmentação do poder, pela sua descolagem do Estado e por uma desvinculação da base territorial”.

Uma diferenciação que recorda “o mundo político medieval, a sua estrutural diversidade e a sua condição radicalmente interdependente”. Não se cura, todavia, do meu ponto de vista, de uma nova idade média na visão caótica de Alain Minc (A Nova Idade Média, Difel, 1994) mas antes, como sublinha Paulo Rangel, de um novo equilíbrio, de uma “multiplicidade avassaladora de poderes […] que tendem para um equilíbrio espontâneo, natural e dinâmico em constante mudança e modificação”.

 

Do ponto de um Estado como o nosso - uma pequena economia europeia, aberta, exposta às vantagens e às desvantagens da globalização e, para mais, sujeita à intervenção externa do FMI e das instituições europeias, não há como não esbarrar a cada passo com essa realidade da pulverização dos poderes estaduais por diversas organizações do espaço internacional, de índole diversa e, ainda que indirectamente, por outros estados soberanos, tal é a interdependência entre os vários actores internacionais.

Vem isto a propósito da forma como, este fim-de-semana, seguimos de perto as eleições gregas e francesas. Não por acaso. A periclitante situação grega, a crescente influência das franjas extremistas à esquerda e à direita e a patente incapacidade dos partidos do arco do poder formarem governo – para mais num cenário de minoria parlamentar – faz temer pelo equilíbrio delicado da Grécia no espaço europeu. E, como na teoria do caos, o bater de asas de uma borboleta em Atenas pode bem provocar um segundo terramoto em Lisboa e, já agora, em Madrid e em Roma. Desengane-se quem julga que – à semelhança da Bélgica – a Grécia pode aguentar-se uns tempos sem governo. Se alguma vez deixou de o ser, a Grécia volta a ser a principal preocupação da Europa. E é, não vale a pena escamoteá-lo, uma preocupação séria para Portugal.

 

Por outro lado, a chegada de François Hollande ao Eliseu virá, com elevada probabilidade, evidenciar a inexequibilidade de muitas daquelas que foram as suas bandeiras eleitorais e com isso esmorecer a euforia do Partido Socialista português e de históricos como Mário Soares que clamam agora um “rompimento com a troika”.

Não se julgue, porém, que a Europa sairá da lógica de directório que Cavaco Silva abundantemente critica, porquanto a actual crise europeia não encontra enquadramento adequado nos tratados nem na orgânica das próprias instituições. Contudo, a vitória de Hollande poderá dar um impulso decisivo numa agenda de crescimento que vinha já a desenhar-se mas que, encontra assim, novo pretexto.

Algures na forma como a Europa for capaz de desembaraçar o nó grego e compatibilizar o socialismo europeu com a direita alemã se desenhará também o futuro português. Numa clara demonstração do impacto decisivo que podem ter “cá dentro” acontecimentos que antes só aconteciam “lá fora”.

 

(artigo publicado no Jornal Notícias de Guimarães)


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Domingo, 6 de Maio de 2012
por Pedro Correia

 

Angela Merkel perdeu hoje em três frentes.

Na frente externa, o seu mais fiel parceiro europeu - Nicolas Sarkozy - foi derrotado por François Hollande nas presidenciais francesas. E a Grécia sai das urnas ainda mais fragmentada e ainda mais ingovernável, com um expressivo voto de protesto que penaliza as duas maiores forças políticas pró-europeias e rejeita novas medidas de austeridade impostas por Berlim.

Na frente interna, a chanceler alemã vê a União Democrata-Cristã recuar nas eleições estaduais de Schleswig-Holstein, onde o seu parceiro de coligação se afunda. Depois das derrotas na Renânia do Norte-Vestefália, Hamburgo, Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e Baden-Vutemberga.

São sinais reveladores. Que devem ser lidos com atenção. Em todas as capitais da União Europeia, onde as forças extremistas, nacionalistas e populistas vão ganhando terreno. Não só em Atenas, não só em Paris. Por uma espécie de lenta implosão das famílias políticas tradicionais, incapazes de escutar a voz da rua.

Sinais que devem fazer meditar seriamente os políticos com responsabilidades governativas. Para que a união não se transforme em desunião e o sonho europeu não naufrague. Só ele possibilitou a paz prolongada na Europa, de longe o continente com maiores cicatrizes de guerra. Como a História nos ensina.

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Sábado, 5 de Maio de 2012
por Pedro Correia

As eleições legislativas gregas de amanhã estão a ser de algum modo ofuscadas por se realizarem no mesmo dia do escrutínio presidencial francês. Mas trarão muito mais problemas à Europa do que a disputa Hollande-Sarkozy, em que se joga apenas o acessório e nada do essencial.


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Quinta-feira, 3 de Maio de 2012
por Luís Naves

Julgo que muitos comentários sobre debates políticos pecam por um erro de análise: o comentador leva em consideração sobretudo as suas opiniões e não avalia o ponto de vista do eleitor que conta para as eleições em causa.
Ontem, assisti ao debate entre Nicolas Sarkozy e François Hollande e, pelo que conheço da sociedade francesa, estivemos longe do empate. O presidente entrou com desvantagem assinalável, mas julgo que saiu com possibilidades de vencer as eleições de domingo.

Nenhum candidato fala para o eleitorado que já fixou. Ou seja, Hollande não falou para os 40 a 45% que já tem no bolso; Sarkozy ignorou os 35% a 40% que votariam nele em qualquer circunstância. Os candidatos falaram para os 15% a 25% que ainda não decidiram e que, provavelmente, só vão decidir à boca das urnas.


Quem são estes eleitores? Hollande fixou a esquerda e Sarkozy a direita gaulista, pelo que os indecisos da eleição votaram na primeira volta em François Bayrou (liberal e centrista) ou em Marine Le Pen (extrema-direita e direita descontente com Sarkozy).
A desvantagem de Hollande neste debate era a circunstância de não ser muito conhecida a sua personalidade sob tensão. Pois, ao relevar-se nervoso, hesitante e arrogante, surgiu um nítido contraste (a meu ver negativo para o candidato socialista) com a figura hiperactiva de Sarkozy. O presidente tem uma personalidade profundamente irritante, mas é conhecida e ninguém o pode criticar por não decidir.

Sarkozy esforçou-se em todo o debate por demonstrar que Hollande corresponde à caricatura do pudin flan. O presidente foi interrompido mais de vinte vezes e nunca o impediu, o que obviamente era a sua táctica, exibir a impaciência do adversário. Hollande transmitiu uma imagem quezilenta, de um presidente que não vai saber ouvir os franceses.

Ora, saber ouvir era a questão que estava em debate. Saber ouvir as inquietações dos eleitores que convivem com os problemas da imigração islâmica nos bairros sociais da França suburbana. São sobretudo trabalhadores e até operários que, há uma geração, votavam no PCF e agora na FN. Quando foi discutida a imigração e o voto dos estrangeiros, Sarkozy não podia ter sido mais claro e Hollande não podia ter sido mais ambíguo.
O presidente não esqueceu o voto centrista, ao afirmar que as medidas de Hollande vão agravar a situação das contas públicas. Sarkozy conseguiu sacudir a água do capote das suas responsabilidades e foi mais eficaz na resposta à questão da retirada do Afeganistão (sempre do ponto de vista do eleitorado que interessava, usando a palavra "honra" por várias vezes). No nuclear, Hollande tinha medidas incoerentes: então, se é perigoso, acabe com o nuclear.

 

Até nos truques retóricos julgo que o candidato socialista esteve mal. Por exemplo, repetindo duas dezenas de vezes a frase "Se eu for presidente da República", algo que se deve fazer cinco ou seis vezes, no máximo. Assim, foi apenas repetitivo e chato.
Hollande falava demasiado depressa e não articulava bem algumas frases, tendo dado demasiados detalhes em alguns dos seus planos, transmitindo a ideia de burocrata. Bom para primeiro-ministro, mas deixando muitas dúvidas no cargo presidencial.
As farpas foram todas de Sarkozy, as principais sem resposta "o senhor é um pequeno caluniador" ou a devastadora "a sua normalidade não está à altura dos desafios", que foi uma brilhante improvisação. Nas questões europeias, Hollande foi menorizado, quando Sarkozy disse que ele nunca tinha assistido a um conselho europeu e não fazia ideia do que se passava nessas reuniões.
Posso estar enganado, mas Sarkozy transformou uma desvantagem que se previa de oito pontos num empate ou até talvez numa vitória pela margem mínima.


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Quarta-feira, 2 de Maio de 2012
por Pedro Correia

 

Logo à noite os franceses - e milhões de europeus - assistirão ao debate televisivo entre o socialista François Hollande, que na primeira volta das presidenciais venceu por escassa margem (28,6% contra 27,2%), e o conservador Nicolas Sarkozy, inquilino do Palácio do Eliseu desde 2007.

Marine Le Pen já anunciou que não recomenda o voto em nenhum dos candidatos. É uma má notícia sobretudo para Sarkozy, que pretende cativar a esmagadora maioria dos 6,4 milhões de eleitores da Frente Nacional - a grande surpresa da primeira volta, na qual a filha de Jean-Marie Le Pen atingiu os 18%.

 

No escrutínio do próximo domingo está muito mais em jogo do que o próximo titular da presidência francesa: está também em jogo o destino da União Europeia, alicerçada no cimento franco-alemão.

O risco da desagregação da Europa é real. Como nunca o foi desde 1957.
Mas a verdade é que também nunca como agora o discurso anti-europeu foi tão popular em França. De tal maneira que cativou cerca de um terço do eleitorado que foi às urnas no dia 22.

Há muitos anti-europeístas, na esquerda radical e na direita radical - aliás com posições simétricas em diversos domínios.

Uns exigem que Paris rasgue o Tratado de Lisboa, como Jean-Luc Mélenchon, o candidato da Frente de Esquerda (agrupando comunistas e esquerdistas radicais) que, abandonando anteriores teses federalistas, passou a dizer nesta campanha que a União Europeia"deixou de ser a solução para passar a ser o problema".

Outros, como Marine Le Pen, advogam já sem peias o regresso ao franco. Sabendo que uma Europa sem euro deixará de ser Europa.
Mélenchon, de algum modo, já pertence ao passado: no dia 22 obteve um resultado muito aquém do que previam todas as sondagens. O melhor que conseguiu (17%) foi em Saint-Denis - na antiga 'cintura vermelha' de Paris. Nem o enorme desgaste do mandato de Sarkozy nem o facto de neste primeiro escrutínio não estar sequer em jogo o chamado 'voto útil' à esquerda o levaram a ultrapassar uns decepcionantes 11,1% a nível nacional - basta recordar que o comunista Georges Marchais, na primeira volta das presidenciais de 1981, conseguiu 15,35%.
Mas a maior derrota de Mélenchon ocorreu no plano simbólico, ao quedar-se no quarto lugar, muito atrás de Marine Le Pen - ela sim, congregadora do essencial do voto de protesto. E - espantosamente - também a maior beneficiária do voto dos operários franceses: 29% votaram nela (mais um ponto percentual do que Hollande, o segundo candidato preferido pela classe operária). Algo que devia motivar a reflexão de toda a esquerda europeia no momento em que se regista uma inédita taxa de 10,9% de desemprego na zona euro.


O problema maior em França está na direita extremista, que sob a insígnia da Frente Nacional capitaliza também o essencial do discurso anti-europeu, mobilizando os cidadãos "invisíveis" e "esquecidos" dos arrabaldes citadinos e das pequenas comunidades do interior que se sentem excluídos desta construção europeia enquanto contemplam, nostálgicos, as ruínas das fábricas - símbolos da França de outrora. Orgulhosa potência industrial e cultural até há poucos décadas, a velha pátria do general De Gaulle atravessa um período de inegável decadência.

Qualquer dos candidatos, para vencer no domingo, precisa dos votos que agora recaíram na Frente Nacional, cujas propostas merecem a aprovação de 37% dos franceses. Como acentuava há dias o insuspeito Le Monde, «é Marine Le Pen quem conduz esta campanha. São os temas da extrema-direita que estão no centro do debate».
Assim é. Já influenciaram o errático discurso de Sarkozy, que agora defende a suspensão do acordo de Schengen no espaço francês. E até o prudente Hollande começa a lançar sérias prevenções contra a imigração descontrolada.
A contaminação do centro político por franjas radicais é a consequência mais preocupante da crise europeia. Não tenhamos dúvidas: apesar das dificuldades actuais, a União Europeia - parafraseando Churchill - é a pior das configurações políticas excluindo todas as restantes. Mil anos de guerras sangrentas provocadas pela confrontação dos nacionalismos na Europa confirmam esta evidência.

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ADENDA: Excertos de alguns dos principais debates presidenciais em França


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Segunda-feira, 23 de Abril de 2012
por Pedro Correia

 

Outros dirão provavelmente que o resultado da primeira volta das presidenciais de ontem em França foi bom para a Europa. Não é o meu caso. Quase um terço dos eleitores, que acorreram em grande número às urnas, exprimiram com clareza um voto anti-europeu.

É certo que o peculiar sistema eleitoral francês potencia o voto de protesto na primeira volta. Mas se somarmos os 6,4 milhões de eleitores de Marine Le Pen (que conduziu a Frente Nacional ao seu melhor resultado de sempre) aos quatro milhões de Jean-Luc Mélenchon, representante da Frente de Esquerda (o equivalente gaulês do Bloco de Esquerda), verificamos que cerca de um em cada três franceses renega o essencial do projecto europeu tal como foi desenhado no último meio século. No todo ou em grande parte, estes eleitores querem que o país abandone o euro, renegue Schengen, rasgue o Tratado de Lisboa. Defendem o "patriotismo" monetário, o proteccionismo económico, o controlo estatal do aparelho produtivo. Renegam a disciplina financeira. Exigem a reforma aos 60 anos e a subida do salário mínimo para os 1700 euros como se vivessem numa ilha, separada do continente, numa irreprimível nostalgia daquelas três gloriosas décadas - entre 1945 e 1975 - em que a França, grande potência industrial e agrícola, era um dos motores da economia mundial, com índices anuais de crescimento do produto interno bruto que ultrapassavam os 5% (mantendo-se nos 5,8% entre 1959 e 1973).

Esses tempos passaram, provavelmente para sempre. Vista de outras parcelas do globo, observada por chineses ou brasileiros, a Europa é hoje um continente em irreprimível declínio. A França deixou de desempenhar o relevante papel cultural que durante séculos assumiu no mundo e não o retomará com bravatas retóricas. Nem François Hollande (28,3%), com o seu socialismo descafeinado, nem Nicolas Sarkozy (27,2%), o mais errático dos conservadores europeus, conseguirão alterar nada de essencial - suceda o que suceder na segunda volta, com os eleitores de Marine Le Pen a servirem de fiéis da balança.

"A extrema-direita, com quase 20% na França do século XXI, é o resultado da crise económica, política e moral", alertou o candidato centrista François Bayrou, que obteve uns decepcionantes 9,1%. É a voz da razão. Mas cada vez menos querem ouvi-la nos dias que vão correndo, em que tudo serve de pretexto - à esquerda e à direita, com a cumplicidade activa das candidaturas do "sistema" - para enterrar o projecto europeu. Todos teremos a perder com isso. E, como é de prever, só perceberemos tarde de mais.

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ADENDA de 26/4:

Jorge Nascimento Rodrigues, no Público: «A “questão da Europa”, sempre latente em França, volta a ser central. Note-se que, entre extrema-direita e extrema-esquerda, mais de um terço do eleitorado pôs directamente em causa a Europa.»


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por José Adelino Maltez

 

A crise portuguesa é muito como outras crises de outros europeus: esperamos que a onda cresça, vinda de fora, e nos arraste. Hoje, estão assim os nossos fascistas, sobretudo os fascistas cobardes ou encobertos, exactamente como estão os socialistas, com saudades do DSK, e os centristas, os efectivamente europeístas. Todos à espera da bela ordem importada e da morte da bezerra.

 

Luc Ferry já tinha comentado o confronto entre Hollande ("um social-democrata tranquilo") e Sarkozy ("um pragmático que desconfia das doutrinas"). Eleições presidenciais em França, ou de como até ao lavar dos cestos ainda é vindima...

 

Os franceses conseguiram saltar o eixo. Nada será como dantes, mesmo que Sarkozy passe pelo buraco da agulha e volte de camelo para o Eliseu.

 

O rotativismo da Eurolândia lá foi a votos, entre um "action man", com um estilo misto de Portas e Sócrates, que põe todas as ideologias na gaveta, por causa da hiper-amnésia, e um socialista de gabinete de planeamento, uma verdadeira estrela no tratamento dos dossiês, que, sem ser por acaso, constitui um galicismo. Infelizmente, a Europa está entalada entre uma espécie de socratismo de direita e um género de esquerda sob o comando de um Carlos Moedas mais crescido, enfrentando uma Joana d'Arc feita madama de água oxigenada e um Jerónimo de Sousa com retórica de Louçã.

 

Apesar de tudo, os interesses de Portugal precisavam de um abanão no eixo franco-alemão. Logo, seria interessante que o sucedâneo de DSK introduzisse uma pequena areia na engrenagem, para que "mais Europa" nos desse folga...

 

As "droites" e as "gauches" precisavam de transfiguração. E tudo passa por um novo objectivo da educação que não queira criar sumos-sacerdotes do cientismo, nem super-gestores da empregadagem dos eternos donos do poder, mas mais sensibilidade às solidariedades sociais e menos dependência face aos "rankings" do sucesso, às famas comunicacionais e ao dinheirinho. Estou a adaptar o que li do manifesto de Jacques Cheminade, contra o cancro especulativo e a oligarquia financeira da City e da Wall Street.

 

A França vai votando. A Itália e a Grécia hão-de votar. Tal como a Alemanha. Infelizmente, somos protectorado, até nas votações. E continuaremos a ter mudanças importadas. Dos eleitorados dos outros. Se a Europa não mudar por dentro, faltam-nos suficientes forças espirituais e materiais para mudarmos domesticamente. E é pena. Porque eu faço parte dos que gostavam de praticar a vontade de sermos independentes. Mesmo na gestão de dependências e na navegação através da interdependência.

 

Um país como o nosso, onde falta extrema-direita, gaullismo de contrapoder, ecologismo e adequado centrismo, tem de admirar a França, a inventora da esquerda e da direita, com os seus clubes de ideias, assentes numa variedade regional e autárquica que é incomparável com o deserto em que nos tornámos. De semelhante, apenas temos, na UMP de Sarkozy, uma réplica da nossa caricatural coligação PSD/CDS; em Mélenchon, um aliado de Louçã; e no PS, um socialismo sem Soares. Por outras palavras, continuamos em atraso.

 

Sarkozy ou Hollande. Serão dois irmãos siameses (Marine Le Pen), ou qualquer deles daria um bom-primeiro ministro do outro? Sarkozy diz que já não há risco de implosão do euro, embora reconheça que a Europa está em convalescença, enquanto Hollande ficou pelo "socialismo habitual" (Bayrou) e as margens do centrismo e do esquerdismo vão bailando, talvez para se transformarem nas novas regiões autónomas do eventual "hollandisme" que diz querer dar "crescimento" à mera "austeridade" da regra de ouro...Por outras palavras, andam todos em Passos Seguros, embora possa desencadear-se um contraciclo europeu...

 


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Domingo, 22 de Abril de 2012
por Fernando Moreira de Sá

1. A Instituição F.C. Porto e aquilo que representa para mim, bem mais do que um clube (utilizando a célebre máxima do Barcelona), está para além dos homens, por muito importantes que eles sejam (e são) na vida dessas instituições, que a ela se dedicam. Podem chamar-se António Nicolau de Almeida, José Monteiro da Costa ou Jorge nuno Pinto da Costa - os três mais importantes presidentes que o F.C. Porto conheceu. Eles foram (e no caso de Pinto da Costa é) importantes e decisivos mas, a Instituição está e estará sempre acima deles.

Contudo, Jorge Nuno Pinto da Costa, como AQUI explica PML, é um caso verdadeiramente excepcional.

 

2. As eleições francesas não ficam decididas hoje. Se eu votasse em França, nem precisaria de cinismo eleitoral, usando a expressão de Maurício Barra mais abaixo no Forte. Nunca gostei de Sarkozy. Em Setembro de 2009, escrevi ISTO e, se fosse hoje, voltava a escrever o mesmo.


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Segunda-feira, 26 de Março de 2012
por Rodrigo Saraiva

Para quem gosta de comunicação política e não se importa de ler francês, fica uma análise à comunicação nas presidenciais francesas, com imagens comparativas muito interessantes. Para abrir o apetite, deixo a minha preferida. A comparação, claro.

 


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Terça-feira, 13 de Março de 2012
por Rodrigo Saraiva

... Sarkozy já lidera sondagens. Mas não vou lançar foguetes antes da festa.

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Domingo, 22 de Janeiro de 2012
por Ricardo Vicente

A 13 de Julho de 2010 colocava no Albergue Espanhol a seguinte perguntazinha ao nosso amigo Wolfgang Münchau:

 

A minha perguntazinha é esta: mas quem é que garante que os eurobonds terão rating triple A??? É a senhora Viviane Reding que irá encostar uma arma à cabeça da Moody's e obrigá-la a dizer que os eurobonds são excelentes e credíveis e valem a pena? Pois...

 

A 14 de Julho de 2010 repetia a pergunta e previa que a crise das dívidas soberanas chegaria à França, como acabou por acontecer com o downgrading há pouco mais de uma semana.

 

Como o Münchau não me respondesse, a realidade veio a dar-me razão mais uma vez: na Segunda-feira passada as obrigações do Fundo Europeu de Estabilização Financeira sofreram um downgrade às mãos da Standard & Poor's.

 

Aquelas obrigações não são exactamente a mesma coisa que os eurobonds mas as suas garantias de solvência são aproximadamente as mesmas: os países da zona euro partilham responsabilidades em função do seu capital junto do Banco Central Europeu.

 

Ora se na sequência do downgrade francês, o FEEF também perde o triple A é pois evidente que os eurobonds nunca poderiam ter necessariamente tal rating. Os triple As não dependem de wishful thinking e os eurobonds, tal como quase tudo na União Europeia, gozavam de um excesso de optimismo por parte dos seus defensores - tal como escrevi:

 

Os eurobonds têm toda a aparência de serem um plano pelo menos tão bom como as alternativas para levar a cabo um default parcial e selectivo (...). Mas isso só por si não garante credibilidade nem triple A, talvez garanta que o rating dos eurobonds seja superior ao das dívidas nacionais, o que já não é mau; e

 

se os problemas chegarem à Espanha e/ou à Itália (...) nem em sonhos azuis com estrelinhas amarelas irão os eurobonds ter triple A.

 

Como em muitos outros aspectos da construção europeia, existe já um excesso de optimismo em relação aos eurobonds. Parece-me, apesar de tudo, que os eurobonds são um paliativo pelo menos tão bom como outro qualquer, o que já não é nada mau (aqui).


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Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011
por Ricardo Vicente

Não concordo com leis que tornem ilegal ou mesmo crime ter esta ou aquela opinião. Isto quando as opiniões podem ser discutidas, refutadas e, até, testadas com métodos científicos. E discordo ainda mais nos casos em que as opiniões não são falsificáveis (por exemplo, a religião). Dito isto, Erdogan e muitos turcos têm dificuldades em aceitar a sua própria História e isso é muito mau. E tendo dito isto, também me parece que o momento escolhido para esta iniciativa francesa é tudo menos inocente.

 

É interessante observar que à medida que a Turquia vai ganhando preponderância geográfica, política e militar alguns países da Europa vão tomando um maior número de medidas cuja consequência é alienar ainda mais a Turquia do convívio com a Europa. Esses países europeus parecem ter optado por fabricar um inimigo, quando poderiam há já muito tempo ter ganho um aliado fortíssimo. Triste velha Europa.

 

Também é triste comparar as políticas francesas (e alemãs) de apaziguamento em relação à Rússia com a atitude de humilhação e, quase, de acossamento dirigida à Turquia. Mais uma vez, países há que parecem demonstrar uma confusão muito grande na distribuição das simpatias internacionais. E, mais uma vez, é evidente que na União Europeia não existe qualquer homogeneidade quanto às amizades e inimizades com países de fora da União. Aí está o que já escrevi da outra vez: a economia não chega para uma união política.


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Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011
por Ricardo Vicente

Já escrevi que o pior do pacto de estabilidade orçamental é não responder aos problemas actuais e presentes da zona euro. A parte relativa aos impostos (ainda que duvide e espere que acabe por não avançar) é também bera (o mesmo que "lixado" segundo a Porto Editora). O objectivo é reduzir a competição fiscal, isto é, forçar os países que felizmente ainda têm algumas taxas de impostos baixas a subi-las. Tudo com o fito em aumentar a competitividade relativa de uma Alemanha, França e Itália face, por exemplo, a uma Holanda, Irlanda ou Estónia.

 

O imposto sobre as transacções financeiras é um erro muito grande: em tempos em que a predominância relativa da Europa decresce, não se percebe mais este passo no sentido da menor competitividade. No mundo globalizado (desculpem lá o cliché), as regiões mundiais que mais proíbem e tributam são as que mais perdem (como já tinha escrito aqui a propósito de uma outra destas várias cimeiras).

 

P.S.: A soberania fiscal está em risco. Sobre isso, ler estes três textos.


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Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011
por Ricardo Vicente

Eis um tabu que tem de ser destruído: é proibido mudar e, sequer, pensar em mudar a lei da greve. A lei da greve não é uma religião, o direito à greve não é um dogma. É preciso iniciar esse debate. Portugal, Itália, França e Espanha têm muito a ganhar se realizarem as mudanças necessárias.


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Terça-feira, 29 de Novembro de 2011
por Ricardo Vicente

A integração política da zona euro ou da União Europeia, se for forçada (como alguns prevêem, por exemplo aqui no Forte, e outros parecem desejar) tem de deixar de fora países que são "monetariamente sustentáveis", isto é, que não contribuem para a desestabilização da zona, antes pelo contrário. Isto porque uma economia partilhada não é suficiente para uma união polítca. Aliás, tirando a questão da moeda comum, a união económica não precisa de união política e até pede menos união, menos bruxelas, menos regulamentos, menos PAC, menos burocracia e menos Estado supra-estadual. A economia não é pois condição suficiente para uma união política e esta, por sua vez, não é condição necessária para aquela (como também se afirma amiúde). Declarando o óbvio: também há a política. Vamos a um exemplo: a Polónia.

A Polónia pode ser uma economia extremamente robusta e promissora e a chancelerina teutónica pode andar em pulgas para que aquele país adira ao euro, assim facilitando ainda mais as exportações alemãs. Mas enquanto a França e a Alemanha venderem armamento e treino militar à Rússia, a Polónia nunca aceitará uma união política que inclua aqueles dois países e, ainda por cima, tendo-os à cabeça. Nunca. Por muito economicamente desejável que possa ser a inclusão da Polónia numa nova zona euro mais restrita. E o mesmo vale para uma República Checa ou uma Estónia.

Forçar uma união política coincidente com uma zona euro mais reestrita levará ao estalar de fracturas profundas da geografia política europeia. E essas fracturas têm consequências económicas: se a Polónia fica de fora da união política liderada pela França e pela Alemanha, também ficará de fora da nova e mais restritiva zona euro. E se fica de fora desta, quanto tempo restará dentro da união económica? É por isso que, a bem da continuidade e abrangência da zona euro e da própria União Europeia, eu defendo que não se deve avançar para nenhuma união política. Caso contrário, vamos ter quatro ou cinco blocos políticos na Europa que estarão também separados economicamente. A fragmentação económica na Europa equivale à destruição daquilo que manteve a Europa em paz: uma economia comum. Não é preciso dizer mais nada.

Por tudo isto, alguns conselhos: não avançar com nenhuma união política; implementar as medidas institucionais necessárias e só as necessárias para que o euro seja um projecto credível; não deixar cair para fora da zona euro nenhum dos actuais membros, o que implica reestruturar as dívidas da Grécia, Irlanda e Portugal o mais rápidamente possível, o que por sua vez recomenda a utilização de eurobonds mas apenas com o objectivo da reestruturação ordenada e nunca com o propósito federalista.


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Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011
por Ricardo Vicente

 

As duas primeiras mijinhas são o Sarkozy e a Merkel: duas fraquezas europeias em qualidade humana, política e eleitoral. Valem pouco mais do que um Berlusconi. Esse, ao menos, para o bem e para o mal lá consegue mijar tudo.

As outras duas mijinhas são o quase irrelevante default parcial da Grécia e o insuficiente aumento do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF).

O objectivo de reduzir a dívida pública grega para 120% do PIB até 2020 é pouco, quase irrelevante, deixando o problema essencialmente intocado. Em 2020, uma dívida de 120% do PIB continua a ser insustentável e impagável. A Grécia continuará insolvente e precisará de mais um (terceiro? quarto?) plano de resgate. Enquanto isso, até 2020 e para lá desse ano, a sociedade grega continuará a sofrer lentamente a asfixia económica.

Aumentar o FEEF de 440 mil milhões para um bilião (um milhão de milhões) já é qualquer coisa mas é notoriamente insuficiente tendo em conta (1) os efeitos do default português (lá para 2014), (2) a catástrofe que se vai avizinhando devido à incapacidade italiana para gerar crescimento económico (e, com isso, tornar as suas finanças públicas solventes) e (3) os efeitos que a bancarrota belga terá na sobre-endividada França. E estou a deixar de fora desta análise a Irlanda e a Espanha, que me parecem os dois casos onde a esperança tem maior justificação.

 

Lembram-se da última cimeira franco-alemã há pouco mais de dois meses? Na altura a dupla de mijadorzinhos do costume também estava convencida de que a dimensão do fundo de resgate era suficiente. Ao fim de dois meses lá perceberam agora que aquela mijadela não chegava para nada. Daqui até ao mínimo de dois biliões ainda veremos muitas mais mijinhas para acalmar os mercados os quais, obviamente, não se sentem atingidos nem se querem molhar...

 

Daí que, exceptuando o plano de recapitalização dos bancos, não vejo grandes razões para Pedro Passos Coelho se sentir muito mais aliviado depois desta... cimeira. De mijinha em mijinha ainda estamos longe do tempo em que o euro e a Europa estará a salvo de tanta mal-mijação.


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Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011
por Ricardo Vicente

Já tinha sido inapropriado que, depois da desgraça Strauss-Kahn, a direcção-executiva do Fundo Monetário Internacional voltasse a ser entregue a uma personalidade francesa, Christine Lagarde. A França já havia liderado aquela instituição por várias décadas e o seu último mandato acabara nas peripécias por todos conhecidas. Inapropriadas foram também as palavras de Sarkozy, celebrando aquela nomeação como uma "vitória para a França".

 

Após a sua candidatura ter recebido apoio da parte do Brasil, Rússia, Índia e China, Lagarde vem agora dizer que o fundo não precisa de ter os seus recursos aumentados, contradizendo assim a intenção de algumas economias emergentes (o poder relativo dentro do FMI depende do valor com que cada país contribui).

 

Sem qualquer fundamento que não a sobranceria da velha Europa e a arrogância francesa, a nova directora do FMI bloqueia assim uma redistribuição de poder cada vez mais merecida, sendo também verdade que, na actual crise europeia e considerando as dificuldades económicas nos EUA, tudo aponta para a necessidade de um acréscimo dos meios do FMI, como aliás a própria Lagarde já havia reconhecido.

 

Contradições de um mundo velho e em relativa decadência...


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