Quarta-feira, 29 de Maio de 2013
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Sábado, 25 de Agosto de 2012
por Sérgio Azevedo

Hollande, essa grande esperança do socialismo, entende que a Grécia deve "provar a credibilidade" dos seus compromissos internacionais pois, segundo Hollande, "vive-se um momento em que é preciso assumir compromissos" e que a "Europa tem de ter consciência que já tudo foi feito" em prol da Grécia. Nem Sarkozy teria dito melhor...


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Quarta-feira, 16 de Maio de 2012
por jfd

* ou: Terminou o reinado de Merkel


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Terça-feira, 15 de Maio de 2012
por Pedro Correia

Viagem a Berlim do recém-empossado Presidente francês começa mal: avião foi forçado a regressar a Paris após ter enfrentado uma fortíssima tempestade.


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por José Meireles Graça

Num episódio da série Oliver's Twist, Jamie vai para uma ilha italiana cozinhar marisco e dá a provar o resultado aos locais. Estes acham os pratos bons, mas queixam-se de que falta sal.


Jamie Oliver não percebeu nada: em vez de aprender o modo indígena, e cingir-se à tradição, inovou e, é claro, asneirou - asneirar é o que fazem quase sempre os chefs quando inovam. Chef que é chef faz cozinha de autor, senão não é chef, é cozinheiro, e cozinheiros não ganham estrelas Michelin, o grande prémio da patetice nos tachos e frigideiras.


Mas o país das estrelas Michelin, da cozinha de autor, do cinema de autor, das revoluções e das modernidades ocas tem realmente excelente culinária, resultado da terra úbere, variedade climática, Sol e tradição.


Já os filhos da Ilha disso têm apenas a tradição dos empadões intragáveis, e parar à beira da estrada para almoçar numa vilória inglesa só não deixa más recordações a um Português que, de portas afora, viva em permanente estado de adoração perante a superioridade do alheio, a real que é alguma e a imaginária que é muita.


Mas a recente vitória de Seguro nas eleições francesas está em vias de melhorar consideravelmente o passadio inglês, de resto já revolucionado de há muito pela influência das cozinhas italiana e chinesa, além da gaulesa.


É, estes Normandos que atravessam o Canal levam dinheiro, capacidade de criação de riqueza e também apetite. E este apetite talvez ajude, com tempo, a melhorar a qualidade dos menus locais.


Os Franceses, é claro, pagarão um preço pela eleição de Seguro - a vaga de exilados é só um appetizer. Mas sem problemas de maior: que Seguro já foi a correr receber instruções ao Bocuse alemão - a ver se o assado não queima.


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por Pedro Correia

 

«Como é que alguém consegue governar um país que tem duzentas e quarenta seis variedades de queijo?»

Charles de Gaulle

 

Dados macro-económicos da França que François Hollande herda de Nicolas Sarkozy:

- crescimento médio do PIB entre 2009 e 2011: 1,5%

- crescimento do PIB em 2012 (previsão): entre 0,4% e 0,7%

- desemprego: 10,1%

- défice público: 5,2% do PIB

- dívida pública: 83% do PIB

 

Promessas eleitorais de Hollande:

- renegociação do tratado orçamental

- redução em 30% dos salários do Presidente e dos ministros

- equilíbrio orçamental em 2017 (défice zero)

- introdução na Constituição do princípio da concertação social

- concessão do direito de voto aos cidadãos estrangeiros provenientes de países extra-comunitários

- actualização do salário mínimo, indexado ao crescimento do PIB

- criação de 150 mil empregos para jovens: "contratos de geração"

- incentivos fiscais às empresas que contratem pessoas com menos de 30 anos e mantenham nos seus quadros pessoas com mais de 55 anos

- criação de 60 mil postos de trabalho no sector da educação público da educação e cinco mil na justiça durante os próximos cinco anos

- diminuição da idade de reforma para 60 anos quando houver 41,5 anos de descontos

- reforma fiscal: novo escalão de 45% para rendimentos acima de 150 mil euros e de 75% sobre os rendimentos superiores a um milhão de euros por ano

- taxa de IRC de 35% para grandes empresas, 30% para as médias e 15% para as pequenas

- renegociação dos acordos com Bélgica, Suíça e Luxemburgo que permitam cobrar impostos aos exilados fiscais

- reforma bancária, criando um banco público de investimento separado da banca comercial

- maior regulação do sistema bancário

- proibição de envolvimento da banca francesa em paraísos fiscais

- aumento de 15% do imposto sobre os lucros bancários

- congelamento durante três meses dos preços dos combustíveis e do gás

- redução da componente nuclear da produção de energia eléctrica dos actuais 75% para 50%

- manutenção do Estado nos sectores postal, dos transportes e da energia

- redução do preço dos medicamentos e maior comparticipação de genéricos

- redução para metade da taxa do insucesso escolar

- casamento entre pessoas do mesmo sexo, com reconhecimento do direito à adopção

 

Fica o registo. Para dentro de um prazo razoável verificarmos quantas destas promessas foram cumpridas - e em que termos. Cada vez mais os políticos devem ser confrontados entre o que propõem aos eleitores e aquilo que são capazes de concretizar assim que ascendem ao poder.

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Segunda-feira, 14 de Maio de 2012
por Pedro Correia

 

Vinte e quatro anos depois, a França - o país da Europa que pensa mais à esquerda e vota mais à direita - voltou a eleger um presidente socialista. François Hollande derrotou um desgastado Nicolas Sarkozy por escassos três pontos percentuais, inferiores ao que prediziam todas as sondagens.

Sarkozy, que pela sua natureza e pelas suas atitudes tem pouco a ver com os conservadores clássicos, repetiu até à exaustão durante a campanha que durante o seu mandato de cinco anos nunca a França esteve um trimestre em recessão, apesar da crise generalizada na Europa. É verdade. Mas também é certo que o país tem um nível de desemprego preocupante e as taxas oficiais de crescimento não revelam - longe disso - uma economia dinâmica, o que ajuda a dar asas ao discurso demagógico e populista de Marine Le Pen, a dirigente da Frente Nacional que ambiciona liderar a direita francesa.

 

No digno discurso em que reconheceu a derrota, na noite de 6 de Maio, Sarkozy destacou a força das instituições democráticas que permitem uma alternância tranquila no poder. A vitória de Hollande projecta-se para fora das fronteiras da Europa com a força de um símbolo numa região do mundo onde a esquerda tem sido duramente penalizada nas urnas desde que eclodiu a crise dos mercados financeiros.

Para um democrata, nunca é de mais sublinhar a importância destas rotações de poder ditadas pela soberania do voto popular. Num continente onde crescem de modo alarmante as forças extremistas "anti-sistémicas", indiferentes às lições da História bem evidenciadas nas décadas de 20 e 30 do século passado, um democrata convicto tem o dever cívico de proclamar esta sua condição. Que implica a aceitação dos resultados eleitorais, sejam eles quais forem. O exercício do direito de voto torna as sociedades mais fortes contra as investidas de todos quantos pretendem suprimi-lo invocando para esse efeito palavras tão apelativas e tão manipuláveis como povo, pátria, nação ou classe.

 

A economia francesa não está bem. Mas a política mantém-se de boa saúde e recomenda-se. Prova disso foi a grande afluência eleitoral: mais de 80% dos franceses inscritos nos cadernos de recenseamento acorreram às assembleias de voto na segunda volta das presidenciais.

Uma boa notícia para a União Europeia, que está tão carente delas. E uma responsabilidade acrescida para o novo inquilino do Eliseu, que amanhã toma posse. O seu primeiro passo como Presidente é significativo: voa de imediato para Berlim, onde será recebido por Angela Merkel.

A política vive muito de símbolos. Este é tão forte que fala por si. De forma mais expressiva do que todas as torrentes de retórica em que a França sempre foi fértil. Como costumava dizer o general De Gaulle, "nada grandioso será alguma vez conseguido sem grandes homens - e os homens só se engrandecem quando estão determinados nisso".

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Sexta-feira, 11 de Maio de 2012
por Francisca Almeida

O mundo, tal qual o conhecíamos, mudou. O advento desta crise económica e financeira a par da incapacidade dos Estados e dos chamados “poderes instituídos” para compreenderem as suas causas e lidarem com as suas consequências, puseram a nu as alterações estruturais na ordem mundial e na dimensão histórica das relações internacionais. A globalização trouxe consigo uma certa ideia de enfraquecimento do poder estadual, do poder hegemónico do estado sobre o seu território e o seu povo. Paulo Rangel (Estado do Estado, Dom Quixote, 2009) fala numa “ordem política pautada pela fragmentação do poder, pela sua descolagem do Estado e por uma desvinculação da base territorial”.

Uma diferenciação que recorda “o mundo político medieval, a sua estrutural diversidade e a sua condição radicalmente interdependente”. Não se cura, todavia, do meu ponto de vista, de uma nova idade média na visão caótica de Alain Minc (A Nova Idade Média, Difel, 1994) mas antes, como sublinha Paulo Rangel, de um novo equilíbrio, de uma “multiplicidade avassaladora de poderes […] que tendem para um equilíbrio espontâneo, natural e dinâmico em constante mudança e modificação”.

 

Do ponto de um Estado como o nosso - uma pequena economia europeia, aberta, exposta às vantagens e às desvantagens da globalização e, para mais, sujeita à intervenção externa do FMI e das instituições europeias, não há como não esbarrar a cada passo com essa realidade da pulverização dos poderes estaduais por diversas organizações do espaço internacional, de índole diversa e, ainda que indirectamente, por outros estados soberanos, tal é a interdependência entre os vários actores internacionais.

Vem isto a propósito da forma como, este fim-de-semana, seguimos de perto as eleições gregas e francesas. Não por acaso. A periclitante situação grega, a crescente influência das franjas extremistas à esquerda e à direita e a patente incapacidade dos partidos do arco do poder formarem governo – para mais num cenário de minoria parlamentar – faz temer pelo equilíbrio delicado da Grécia no espaço europeu. E, como na teoria do caos, o bater de asas de uma borboleta em Atenas pode bem provocar um segundo terramoto em Lisboa e, já agora, em Madrid e em Roma. Desengane-se quem julga que – à semelhança da Bélgica – a Grécia pode aguentar-se uns tempos sem governo. Se alguma vez deixou de o ser, a Grécia volta a ser a principal preocupação da Europa. E é, não vale a pena escamoteá-lo, uma preocupação séria para Portugal.

 

Por outro lado, a chegada de François Hollande ao Eliseu virá, com elevada probabilidade, evidenciar a inexequibilidade de muitas daquelas que foram as suas bandeiras eleitorais e com isso esmorecer a euforia do Partido Socialista português e de históricos como Mário Soares que clamam agora um “rompimento com a troika”.

Não se julgue, porém, que a Europa sairá da lógica de directório que Cavaco Silva abundantemente critica, porquanto a actual crise europeia não encontra enquadramento adequado nos tratados nem na orgânica das próprias instituições. Contudo, a vitória de Hollande poderá dar um impulso decisivo numa agenda de crescimento que vinha já a desenhar-se mas que, encontra assim, novo pretexto.

Algures na forma como a Europa for capaz de desembaraçar o nó grego e compatibilizar o socialismo europeu com a direita alemã se desenhará também o futuro português. Numa clara demonstração do impacto decisivo que podem ter “cá dentro” acontecimentos que antes só aconteciam “lá fora”.

 

(artigo publicado no Jornal Notícias de Guimarães)


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Segunda-feira, 7 de Maio de 2012
por Rodrigo Saraiva

Seguro, em relação a Hollande, está a querer ser o que Paulo China era para o Luís Figo.

 

tweet de João Quadros.


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por Rodrigo Saraiva

Resultados do envolvimento do PS nas eleições francesas: franceses que votaram em Portugal deram vitória a Sarkozy.


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por Rodrigo Saraiva

Vejo o PS a encavalitar-se nas eleições francesas e só me lembro de umas personagens do "Allo Allo".


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Domingo, 6 de Maio de 2012
por Pedro Correia

 

Angela Merkel perdeu hoje em três frentes.

Na frente externa, o seu mais fiel parceiro europeu - Nicolas Sarkozy - foi derrotado por François Hollande nas presidenciais francesas. E a Grécia sai das urnas ainda mais fragmentada e ainda mais ingovernável, com um expressivo voto de protesto que penaliza as duas maiores forças políticas pró-europeias e rejeita novas medidas de austeridade impostas por Berlim.

Na frente interna, a chanceler alemã vê a União Democrata-Cristã recuar nas eleições estaduais de Schleswig-Holstein, onde o seu parceiro de coligação se afunda. Depois das derrotas na Renânia do Norte-Vestefália, Hamburgo, Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e Baden-Vutemberga.

São sinais reveladores. Que devem ser lidos com atenção. Em todas as capitais da União Europeia, onde as forças extremistas, nacionalistas e populistas vão ganhando terreno. Não só em Atenas, não só em Paris. Por uma espécie de lenta implosão das famílias políticas tradicionais, incapazes de escutar a voz da rua.

Sinais que devem fazer meditar seriamente os políticos com responsabilidades governativas. Para que a união não se transforme em desunião e o sonho europeu não naufrague. Só ele possibilitou a paz prolongada na Europa, de longe o continente com maiores cicatrizes de guerra. Como a História nos ensina.

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Quarta-feira, 2 de Maio de 2012
por Pedro Correia

 

Logo à noite os franceses - e milhões de europeus - assistirão ao debate televisivo entre o socialista François Hollande, que na primeira volta das presidenciais venceu por escassa margem (28,6% contra 27,2%), e o conservador Nicolas Sarkozy, inquilino do Palácio do Eliseu desde 2007.

Marine Le Pen já anunciou que não recomenda o voto em nenhum dos candidatos. É uma má notícia sobretudo para Sarkozy, que pretende cativar a esmagadora maioria dos 6,4 milhões de eleitores da Frente Nacional - a grande surpresa da primeira volta, na qual a filha de Jean-Marie Le Pen atingiu os 18%.

 

No escrutínio do próximo domingo está muito mais em jogo do que o próximo titular da presidência francesa: está também em jogo o destino da União Europeia, alicerçada no cimento franco-alemão.

O risco da desagregação da Europa é real. Como nunca o foi desde 1957.
Mas a verdade é que também nunca como agora o discurso anti-europeu foi tão popular em França. De tal maneira que cativou cerca de um terço do eleitorado que foi às urnas no dia 22.

Há muitos anti-europeístas, na esquerda radical e na direita radical - aliás com posições simétricas em diversos domínios.

Uns exigem que Paris rasgue o Tratado de Lisboa, como Jean-Luc Mélenchon, o candidato da Frente de Esquerda (agrupando comunistas e esquerdistas radicais) que, abandonando anteriores teses federalistas, passou a dizer nesta campanha que a União Europeia"deixou de ser a solução para passar a ser o problema".

Outros, como Marine Le Pen, advogam já sem peias o regresso ao franco. Sabendo que uma Europa sem euro deixará de ser Europa.
Mélenchon, de algum modo, já pertence ao passado: no dia 22 obteve um resultado muito aquém do que previam todas as sondagens. O melhor que conseguiu (17%) foi em Saint-Denis - na antiga 'cintura vermelha' de Paris. Nem o enorme desgaste do mandato de Sarkozy nem o facto de neste primeiro escrutínio não estar sequer em jogo o chamado 'voto útil' à esquerda o levaram a ultrapassar uns decepcionantes 11,1% a nível nacional - basta recordar que o comunista Georges Marchais, na primeira volta das presidenciais de 1981, conseguiu 15,35%.
Mas a maior derrota de Mélenchon ocorreu no plano simbólico, ao quedar-se no quarto lugar, muito atrás de Marine Le Pen - ela sim, congregadora do essencial do voto de protesto. E - espantosamente - também a maior beneficiária do voto dos operários franceses: 29% votaram nela (mais um ponto percentual do que Hollande, o segundo candidato preferido pela classe operária). Algo que devia motivar a reflexão de toda a esquerda europeia no momento em que se regista uma inédita taxa de 10,9% de desemprego na zona euro.


O problema maior em França está na direita extremista, que sob a insígnia da Frente Nacional capitaliza também o essencial do discurso anti-europeu, mobilizando os cidadãos "invisíveis" e "esquecidos" dos arrabaldes citadinos e das pequenas comunidades do interior que se sentem excluídos desta construção europeia enquanto contemplam, nostálgicos, as ruínas das fábricas - símbolos da França de outrora. Orgulhosa potência industrial e cultural até há poucos décadas, a velha pátria do general De Gaulle atravessa um período de inegável decadência.

Qualquer dos candidatos, para vencer no domingo, precisa dos votos que agora recaíram na Frente Nacional, cujas propostas merecem a aprovação de 37% dos franceses. Como acentuava há dias o insuspeito Le Monde, «é Marine Le Pen quem conduz esta campanha. São os temas da extrema-direita que estão no centro do debate».
Assim é. Já influenciaram o errático discurso de Sarkozy, que agora defende a suspensão do acordo de Schengen no espaço francês. E até o prudente Hollande começa a lançar sérias prevenções contra a imigração descontrolada.
A contaminação do centro político por franjas radicais é a consequência mais preocupante da crise europeia. Não tenhamos dúvidas: apesar das dificuldades actuais, a União Europeia - parafraseando Churchill - é a pior das configurações políticas excluindo todas as restantes. Mil anos de guerras sangrentas provocadas pela confrontação dos nacionalismos na Europa confirmam esta evidência.

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ADENDA: Excertos de alguns dos principais debates presidenciais em França


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Segunda-feira, 23 de Abril de 2012
por Pedro Correia

 

Outros dirão provavelmente que o resultado da primeira volta das presidenciais de ontem em França foi bom para a Europa. Não é o meu caso. Quase um terço dos eleitores, que acorreram em grande número às urnas, exprimiram com clareza um voto anti-europeu.

É certo que o peculiar sistema eleitoral francês potencia o voto de protesto na primeira volta. Mas se somarmos os 6,4 milhões de eleitores de Marine Le Pen (que conduziu a Frente Nacional ao seu melhor resultado de sempre) aos quatro milhões de Jean-Luc Mélenchon, representante da Frente de Esquerda (o equivalente gaulês do Bloco de Esquerda), verificamos que cerca de um em cada três franceses renega o essencial do projecto europeu tal como foi desenhado no último meio século. No todo ou em grande parte, estes eleitores querem que o país abandone o euro, renegue Schengen, rasgue o Tratado de Lisboa. Defendem o "patriotismo" monetário, o proteccionismo económico, o controlo estatal do aparelho produtivo. Renegam a disciplina financeira. Exigem a reforma aos 60 anos e a subida do salário mínimo para os 1700 euros como se vivessem numa ilha, separada do continente, numa irreprimível nostalgia daquelas três gloriosas décadas - entre 1945 e 1975 - em que a França, grande potência industrial e agrícola, era um dos motores da economia mundial, com índices anuais de crescimento do produto interno bruto que ultrapassavam os 5% (mantendo-se nos 5,8% entre 1959 e 1973).

Esses tempos passaram, provavelmente para sempre. Vista de outras parcelas do globo, observada por chineses ou brasileiros, a Europa é hoje um continente em irreprimível declínio. A França deixou de desempenhar o relevante papel cultural que durante séculos assumiu no mundo e não o retomará com bravatas retóricas. Nem François Hollande (28,3%), com o seu socialismo descafeinado, nem Nicolas Sarkozy (27,2%), o mais errático dos conservadores europeus, conseguirão alterar nada de essencial - suceda o que suceder na segunda volta, com os eleitores de Marine Le Pen a servirem de fiéis da balança.

"A extrema-direita, com quase 20% na França do século XXI, é o resultado da crise económica, política e moral", alertou o candidato centrista François Bayrou, que obteve uns decepcionantes 9,1%. É a voz da razão. Mas cada vez menos querem ouvi-la nos dias que vão correndo, em que tudo serve de pretexto - à esquerda e à direita, com a cumplicidade activa das candidaturas do "sistema" - para enterrar o projecto europeu. Todos teremos a perder com isso. E, como é de prever, só perceberemos tarde de mais.

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ADENDA de 26/4:

Jorge Nascimento Rodrigues, no Público: «A “questão da Europa”, sempre latente em França, volta a ser central. Note-se que, entre extrema-direita e extrema-esquerda, mais de um terço do eleitorado pôs directamente em causa a Europa.»


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por José Adelino Maltez

 

A crise portuguesa é muito como outras crises de outros europeus: esperamos que a onda cresça, vinda de fora, e nos arraste. Hoje, estão assim os nossos fascistas, sobretudo os fascistas cobardes ou encobertos, exactamente como estão os socialistas, com saudades do DSK, e os centristas, os efectivamente europeístas. Todos à espera da bela ordem importada e da morte da bezerra.

 

Luc Ferry já tinha comentado o confronto entre Hollande ("um social-democrata tranquilo") e Sarkozy ("um pragmático que desconfia das doutrinas"). Eleições presidenciais em França, ou de como até ao lavar dos cestos ainda é vindima...

 

Os franceses conseguiram saltar o eixo. Nada será como dantes, mesmo que Sarkozy passe pelo buraco da agulha e volte de camelo para o Eliseu.

 

O rotativismo da Eurolândia lá foi a votos, entre um "action man", com um estilo misto de Portas e Sócrates, que põe todas as ideologias na gaveta, por causa da hiper-amnésia, e um socialista de gabinete de planeamento, uma verdadeira estrela no tratamento dos dossiês, que, sem ser por acaso, constitui um galicismo. Infelizmente, a Europa está entalada entre uma espécie de socratismo de direita e um género de esquerda sob o comando de um Carlos Moedas mais crescido, enfrentando uma Joana d'Arc feita madama de água oxigenada e um Jerónimo de Sousa com retórica de Louçã.

 

Apesar de tudo, os interesses de Portugal precisavam de um abanão no eixo franco-alemão. Logo, seria interessante que o sucedâneo de DSK introduzisse uma pequena areia na engrenagem, para que "mais Europa" nos desse folga...

 

As "droites" e as "gauches" precisavam de transfiguração. E tudo passa por um novo objectivo da educação que não queira criar sumos-sacerdotes do cientismo, nem super-gestores da empregadagem dos eternos donos do poder, mas mais sensibilidade às solidariedades sociais e menos dependência face aos "rankings" do sucesso, às famas comunicacionais e ao dinheirinho. Estou a adaptar o que li do manifesto de Jacques Cheminade, contra o cancro especulativo e a oligarquia financeira da City e da Wall Street.

 

A França vai votando. A Itália e a Grécia hão-de votar. Tal como a Alemanha. Infelizmente, somos protectorado, até nas votações. E continuaremos a ter mudanças importadas. Dos eleitorados dos outros. Se a Europa não mudar por dentro, faltam-nos suficientes forças espirituais e materiais para mudarmos domesticamente. E é pena. Porque eu faço parte dos que gostavam de praticar a vontade de sermos independentes. Mesmo na gestão de dependências e na navegação através da interdependência.

 

Um país como o nosso, onde falta extrema-direita, gaullismo de contrapoder, ecologismo e adequado centrismo, tem de admirar a França, a inventora da esquerda e da direita, com os seus clubes de ideias, assentes numa variedade regional e autárquica que é incomparável com o deserto em que nos tornámos. De semelhante, apenas temos, na UMP de Sarkozy, uma réplica da nossa caricatural coligação PSD/CDS; em Mélenchon, um aliado de Louçã; e no PS, um socialismo sem Soares. Por outras palavras, continuamos em atraso.

 

Sarkozy ou Hollande. Serão dois irmãos siameses (Marine Le Pen), ou qualquer deles daria um bom-primeiro ministro do outro? Sarkozy diz que já não há risco de implosão do euro, embora reconheça que a Europa está em convalescença, enquanto Hollande ficou pelo "socialismo habitual" (Bayrou) e as margens do centrismo e do esquerdismo vão bailando, talvez para se transformarem nas novas regiões autónomas do eventual "hollandisme" que diz querer dar "crescimento" à mera "austeridade" da regra de ouro...Por outras palavras, andam todos em Passos Seguros, embora possa desencadear-se um contraciclo europeu...

 


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Quinta-feira, 1 de Março de 2012
por José Meireles Graça

As pessoas de esquerda têm crenças estranhas: não adianta fazerem doutoramentos em Economia, terem experiência de vida e conhecimentos de História, serem simpáticas e inteligentes, bem-sucedidas, e gerirem ou terem gerido empresas - acham sempre que os investimentos na mão do Estado e na mão de empresários têm a mesma probabilidade de sucesso.

 

Nos casos mais graves e difíceis de tratar, infelizmente pandémicos, o mecanismo da criação de riqueza escapa-lhes, e por isso acreditam que em tirando aos ricos para dar aos pobres ficam todos remediados.

 

A este senhor, por exemplo, não lhe falem de evasão fiscal, expatriação de capitais, retracção do investimento e tiros nos pés - ele não sabe nada disso. Sabe que se um tem 5 franguinhos e outro só um, em repartindo equitativamente apanham uma barrigada de cabidela. Agora quem criou os pitos, e se está disposto a criar mais, isso ele não tem vagar para pensar.


Senhores destes dá-se um pontapé numa pedra e aparecem vários. E chegam ao Poder, e fazem estragos, e não aprendem nada.


Mas isso é lá com os Franceses. Eles têm turismo, champanhe, perfumes, queijos e a Renault. Depois do devaneio e dos prejuízos caem na real e a terra é rica.


Mas à cabeça da "Europa" da política fiscal comum, dos orçamentos comuns e das tolices comuns pode chegar gente desta - já lá estão, à espera de vez.


Separados como estamos desde antes da queda do Império Romano do Ocidente, há sempre algum regime em algum lugar a fazer asneiras; e algum regime em algum lugar a adiantar-se no "concerto das Nações" - a existência do concerto das Nações é, ao contrário do que se diz,  a melhor garantia de não virmos a ter muitas nações sem conserto.


Quem avisa amigo é.


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