Quarta-feira, 1 de Maio de 2013
por Luís Naves

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Este post de Shyznogud, em Jugular, mostra como é fácil criar uma forte indignação, mesmo dispondo de escassa informação sobre o tema. A autora faz um esforço e cita três fontes que a orientam, mas infelizmente a pesada sentença não permite recurso, nomeadamente em alguns dos comentários.

Do post podemos tirar várias conclusões: o convite ao primeiro-ministro húngaro para falar nas conferências do Estoril é “uma vergonha”, portanto não vale a pena sequer ouvir a versão do próprio. Embora lidere um partido conservador, Orbán é comparado à Aurora Dourada  grega (a comparação é absurda, mas que importa?); no post admite-se até a expulsão da Hungria da UE, algo que não seria possível sem um lento processo que exigiria decisões complicadíssimas e pelo menos ouvir os próprios húngaros (o Parlamento Europeu não tem esses poderes, de facto nem sequer tem poderes para suspender direitos de voto).

 

As lendas húngaras deram origem a um género de personagem sinistra onde se concentra o mal puro. Na ópera de Bela Bartok ‘O Castelo do Barba Azul’, um conde tenebroso mata as suas mulheres, a quem avisa para que não espreitem pela sétima porta. Nenhuma resiste à curiosidade, que é fatal, mas julgo que neste caso temos de tentar ignorar os preconceitos e as proibições. Talvez atrás da sétima porta esteja apenas um mito.

 

 

 


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por Luís Naves

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A questão política parece bastante clara. O Fidesz, o partido no poder, tem maioria de dois terços que lhe permitiu escrever uma nova constituição, redigir leis cuja alteração exigirá maioria qualificada e ainda fazer emendas constitucionais para ultrapassar obstáculos colocados pelo Tribunal Constitucional. A maioria de dois terços resultou de um voto de protesto, em 2010, após oito anos de governos socialistas ruinosos. Essa votação foi democrática e livre, faltando um ano para as próximas legislativas, ou seja, a campanha está próxima e o Governo tem inegável legitimidade. Se não existe tentativa de interferir na política interna húngara, então o caso parece ser um conflito sobre a futura evolução da Europa e o poder dos pequenos, mas sobretudo sobre as “excentricidades” da identidade nacional e a respectiva impossibilidade.

 

 

 


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Nas notícias que tentam demonizar Viktor Orban, a confusão entre extrema-direita e direita é um clássico. Muitas reportagens são feitas de forma preguiçosa. Imagine-se um repórter húngaro que viesse a Portugal e só entrevistasse pessoas ligadas ao Bloco de Esquerda e ao PCP, sindicalistas da CGTP e sociólogos de Coimbra. O que tenho lido sobre a Hungria é deste género.

 

 

 


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Ao não compreender que Orban é de facto um dos primeiros-ministros mais fortes da Europa, o post de Shyznogud confunde a árvore com a floresta. Estamos sempre a ouvir que não há políticos à altura dos acontecimentos, mas quando surge um bom político, ele é autoritário e se falar no Estoril isso é uma vergonha.

 

Em Budapeste, a narrativa de spin é a seguinte: minámos o império austríaco, derrubámos o soviético e agora chegam estes comissários de Bruxelas e os seus aliados do FMI que nos dizem o que fazer. Mas quem manda na nossa democracia é o parlamento.

Conversa de surdos. O eurocepticismo versus a dificuldade em entender a diferença entre autoridade e autoritarismo.

Um pequeno país num contexto difícil considera que, para evitar a sua submissão, deve agir exibindo em todos os momentos firmeza e independência. E acaba a ser criticado por pessoas que estão sempre a reclamar contra a perda de soberania que resulta de posições subordinadas no seu país.

 

 

 


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Enfim, como explicar os ataques políticos no Parlamento Europeu e as críticas da comissão (que não retira o procedimento por défice excessivo e ameaça cortes nos fundos)? Budapeste insiste na ideia de que pisou muitos calos na alta finança e agora paga por isso. É quase credível. Entretanto, vai fazendo o seu caminho a ideia de que os pequenos países europeus têm de se portar bem. E esta opinião, que cresce, já faz pensar de outra maneira.

 

Um dos problemas fundamentais do futuro da Europa será a tensão crescente entre pequenos e grandes, os primeiros a terem de cumprir escrupulosamente regras que os segundos não precisam de cumprir com o mesmo rigor. Este duplo critério não passa de ilusão destinada ao fracasso. A União Europeia só sobreviverá se respeitar as nações com identidade forte.

 

 

 


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Sábado, 28 de Janeiro de 2012
por Luís Naves

 

Gabriel Silva, em Blasfémias, tem toda a razão neste post.

A Hungria vai sofrer um processo de défice excessivo, mesmo cumprindo o limite, embora com receitas extraordinárias. Vários países fizeram o mesmo, incluindo Portugal, sem conseguirem os 3%. Outros, mesmo do euro, têm défices maiores, sem serem incomodados. E, em 2012, a Hungria conseguirá 3% sem medidas extraordinárias. É tão absurdo que dá vontade de rir.

Alguns leitores podem achar estranha a minha insistência no tema, mas além de conhecer o país e de o admirar, julgo que há aqui elementos inéditos que revelam a profunda transformação em curso nos mecanismos europeus, mudança que é desfavorável a países da dimensão de Portugal. Temos de estar atentos à evolução deste caso e tentar fazer uma leitura capaz de se abstrair de manipulações que já conseguiram transformar-se em mitos jornalísticos. A desinformação deixa-me perplexo. E os líderes europeus parecem esquecidos de que a UE é uma organização de Estados soberanos e democráticos.

 

Na realidade, estamos a assistir a uma das mais estranhas operações políticas nos últimos anos na Europa. O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, penalizou empresas estrangeiras por duas vezes: em 2010, cobrou impostos sobre os lucros e, em 2011, forçou os bancos a reduzir o câmbio nas hipotecas em moeda estrangeira. Foi um golpe duríssimo para muitas companhias e para investidores mas, ao contrário das ameaças, não houve nenhuma debandada.

A interpretação do que se está a passar tem de levar em conta este pecado original. É a única explicação para as pressões políticas que surgem no seguinte contexto: confrontados com a desvalorização da sua moeda, o que fez crescer a dívida, os húngaros precisam de um empréstimo stand-by do FMI para estabilizar a moeda, mas a Comissão diz que só haverá dinheiro se o governo alterar leis aprovadas pelo partido maioritário, que venceu as eleições de 2010 com maioria constitucional. As leis dizem respeito ao banco central, aos juízes e ao provedor da república (não perguntem), havendo abertura para negociação. Alguns aspectos estão explicados aqui. Orbán já disse que a sua vitória eleitoral de 2010 não lhe saiu na lotaria, mas os líderes europeus estão a portar-se como se estes fossem votos da farinha amparo.

 

 


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