Segunda-feira, 17 de Junho de 2013
por Pedro Correia

 

Vários colegas de blogue já comentaram a greve dos professores. Eu prefiro comentar estas declarações, para mim espantosas, da presidente da auto-intitulada Associação de Professores de Português (quantos professores representa esta associação?) que vem contestar o carácter "dúbio" do exame do 12º ano hoje realizado.

Dúbio, para a professora Edviges Antunes Ferreira, é algo que merece crítica. Como se a literatura pertencesse ao reino das matemáticas, em que dois mais dois serão sempre quatro.

Admira-se esta docente que houvesse "questões dúbias" sobre Ricardo Reis, por sinal um dos mais dúbios autores de sempre da literatura portuguesa, heterónimo de um poeta que ultrapassava os restantes naquela ambiguidade que por vezes molda o génio.

Dúbio, em literatura, não é defeito: é qualidade. Queria o quê, doutora Edviges? Um teste à americana, cheio de quadradinhos, como quem preenche um boletim do Euromilhões?

"Tem quatro questões e duas delas podiam ser mais objectivas", queixa-se a docente, esquecendo talvez que o enunciado em causa não se destinava a alunos do ensino básico mas a um exame do 12º ano de escolaridade, em que se pressupõe que qualquer estudante esteja apto a interpretar textos que ultrapassem a linearidade objectiva de uma notícia de jornal. "O poema, só por si, é subjectivo", pasma a doutora Edviges. E nós pasmamos com ela. Como se a subjectividade, inerente à melhor literatura, fosse defeito em vez de qualidade.

Queixa-se ainda a presidente da APP de, noutra parte do exame, estar incluído um texto de António Lobo Antunes, que exige - como qualquer texto deste escritor - "uma leitura muito atenta". E aponta o dedo acusador, segundo as declarações recolhidas pela Lusa: "Não chegaria uma vez. Os alunos teriam de encontrar as respostas ao longo de todo o texto". Até porque os alunos eram "obrigados a ter uma percepção global do texto" para conseguirem "responder a essas questões de uma forma correcta".

Eu é que pasmo cada vez mais. Mas qual é o problema de um exame requerer "leitura atenta" de quem o faz, doutora Edviges? A senhora prefere cultivar o facilitismo na escola em contraste com as crescentes dificuldades na vida extra-escolar? Algum dos seus alunos se sente capaz de interpretar um texto sem ter uma "percepção global" daquilo que lê? À luz de que patamares mínimos de exigência se deverá elaborar um enunciado destes que não implique uma "leitura atenta"?

E volto ao princípio: que critérios pedagógicos a senhora adopta, poupando "subjectividades" e "leituras atentas" aos seus alunos? Como sei de antemão que ficarei sem resposta, respondo eu próprio. Com estes versos - muito subjectivos - de Ricardo Reis: «Seja qual for o certo, / Mesmo para com esses / Que cremos serem deuses, não sejamos / Inteiros numa fé talvez sem causa.»

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Terça-feira, 23 de Abril de 2013
por Carlos Faria

 

Desde o Dia Mundial do Livro de 2012, até este de 2013, várias dezenas de livros de diversos géneros foram lidos por mim, não vou listar os melhores da cada tipo, mas para dar a conhecer o que é nosso, ao nível de literatura nacional atual, no género de ficção, ou não tanto assim, num texto onde a ironia, a poesia e a prosa dão as mãos com a imaginação e abraçam alguns factos históricos, destaco "A Boneca de Kokoschka", de Afonso Cruz.

Pequeno, de fácil leitura, com bom humor e frases para reflexão num livro a não perder. O Prémio Europeu pode ser importante para a promoção da obra, mas foi merecido pelas características do livro.


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Domingo, 2 de Setembro de 2012
por Carlos Faria

 

O prólogo do livro é a coincidência de a data de 3 de outubro de 1951 corresponder ao primeiro teste com uma bomba nuclear na União Soviética e uma das tacadas mais famosas da história do basebol, eventos causadores fortes emoções em muitos norteamericanos, incluindo no coração da Bronx de Nova Iorque.
Acabada a guerra fria, um conjunto de personagens norteamericanas, mais ou menos relacionadas com a Bronx, é o fruto desse passado de dois sistemas em confronto.
O romance relata episódios, por vezes soltos, que vão recuando no tempo, e abordam medos, aspirações e disfunções sociais com mistura de cidadãos históricos ou não e factos reais ou ficcionados, unidos pela Bronx e a guerra fria.
Uma obra grandiosa que forma um puzzle do que foi a vida nos Estados Unidos durante 40 anos e onde a bola da tacada, a Bronx, a guerra fria, a arte e o lixo formam o cimento que une estas peças e justifica o comportamento das suas muitas personagens nos anos 90.
Um livro pós-moderno de grande qualidade, nem sempre de fácil leitura, por vezes deprimente, outras irónico ou introspetivo e com uma linguagem realista que pontualmente toca no calão, mas provavelmente tornar-se-á numa referência da história da literatura dos Estados Unidos.


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Quinta-feira, 30 de Agosto de 2012
por Luís Naves

No início da década de 90, liguei o televisor de um quarto de hotel em Espanha. Não me lembro do ano exacto, mas os socialistas ainda estavam no poder e o PP preparava-se para ganhar eleições pela primeira vez. O desemprego andava nos 20%.
Nessa noite, vi um documentário sobre um pintor espanhol que na altura teria os seus 30 anos. Fiquei impressionado com a qualidade da obra. O pintor chamava-se Miquel Barceló e hoje é um dos grandes artistas mundiais.
A certo ponto, discutindo as influências, os entrevistadores perguntavam a Barceló as razões do seu interesse pelo neo-expressionismo alemão. E a resposta foi brilhante: "Cada pintor faz a sua própria História da Arte", disse Barceló. Interpreto a frase como o gosto desproporcionado por certos movimentos, em vez de outros, porventura mais importantes para os historiadores de arte.

 

Lembrei-me disto ao ver a lista do Expresso dos 50 livros de um cânone literário, que pode ser consultada no blogue de José Mário Silva, Bibliotecário de Babel, e deste texto de Vasco Graça Moura, no Diário de Notícias, baseado parcialmente no primeiro. Li apenas 30 livros da lista do Expresso, menos de metade da segunda lista.
Além de Camões, é interessante verificar a ausência de A Peregrinação nas escolhas do Expresso. Escrito alguns anos antes de D. Quixote, este livro sempre foi subestimado, por o considerarem crónica de viagens e biografia. Mas como é possível que um viajante não consiga acertar em nomes geográficos? E, para biografia, falta-lhe a verosimilhança. Biografia escondida, talvez, mas nenhuma vida tem uma estrutura tão limpinha: pecado, expiação, redenção. E se fosse uma espécie de romance baseado em experiências vividas? Alguém deixaria fora da sua lista este livro?

 


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Quinta-feira, 23 de Agosto de 2012
por Pedro Correia

Ironias do acaso: escassos dias depois da comemoração do centenário do nascimento de Jorge Amado, assinala-se hoje nova efeméride em torno de outra grande figura das letras brasileiras. Nelson Rodrigues, nascido a 23 de Agosto de 1912 no Recife e falecido no Rio de Janeiro 68 anos mais tarde, a 21 de Dezembro de 1980, é um extraordinário prosador do nosso idioma. O seu legado, durante mais de meio século de escrita torrencial, a um ritmo avassalador, não está ainda devidamente catalogado. "É provável que nenhum outro escritor brasileiro tenha produzido tanto", assinala o seu biógrafo e principal antologiador, Ruy Castro, sem esconder o fascínio por este jornalista que foi um polemista impenitente, um dramaturgo inconfundível e um transbordante produtor de pensamentos em fórmulas incisivas que não perdem actualidade.

"O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza", sublinhava este leitor compulsivo de Eça de Queirós. Nelson Rodrigues trouxe à língua portuguesa o fogo da paixão que punha em cada linha da sua lavra. Amava e odiava do mesmo modo desmesurado. Não renegava os adjectivos, antes pelo contrário, mas insuflava-os de um vigor semântico habitualmente reservado aos substantivos. Coerente com esta perspectiva era a sua peculiar visão do jornalismo. Em sentenças como esta: "A crónica policial piorou porque os repórteres de hoje não mentem." Ou esta: "Ai do repórter que for um reles e subserviente reprodutor do facto. A arte jornalística consiste em pentear ou desgrenhar o acontecimento e, de qualquer forma, negar a sua imagem autêntica e alvar." Poucos conheciam tão bem os jornais por dentro como este "génio da rotina", designação atribuída por O Globo, diário em que colaborou nos últimos 18 anos de vida, até ao próprio mês em que morreu.

 

Era assim em tudo. A sua própria biografia o confirma. Uma biografia que se lê como um romance porque a vida verdadeira de Nelson Falcão Rodrigues, nascido sob signo Virgem e adepto fanático do Fluminense, imitou muitas obras de ficção. Leiam O Anjo Pornográfico, de Ruy Castro: está lá o retrato, vivo e impressivo, de um homem multifacetado, intempestivo, por vezes terno, outras vezes colérico, demasiadas vezes incoerente, eterno romântico, marcado por uma sucessão de dramas familiares e quase sempre tocado pelo génio que lhe incendiava a escrita. Um homem a quem muitos acusavam de "tarado" ou "imoral", que reconhecia ser um "reaccionário" e dizia de si próprio: "Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino."

Foi um cronista excepcional, nado e criado num país que inventou e popularizou a crónica jornalística e a tornou uma insubstituível disciplina da literatura - com pares imensos neste género, como Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade e Millôr Fernandes. Tinha um estilo muito próprio, que forjou uma legião de imitadores, caracterizado pela constante repetição de ideias, metáforas e expressões como "grã-fina com narinas de cadáver", "padre de passeata" ou "tempestades do quinto acto do Rigoletto". E também pelo diálogo sincopado com o leitor, transformado em seu cúmplice involuntário e permanente.

 

Foi igualmente um inultrapassável produtor de frases que nos perduram na memória. Citando ainda Ruy Castro, com toda a justiça: "Ele é talvez o maior frasista da língua portuguesa."

Aqui ficam algumas:

«Deus está nas coincidências.»

«Todo amor é eterno e, se acaba, não era amor.»

«Todas as vaias são boas, inclusive as más.»

«Todo tímido é candidato a um crime sexual.»

«A cama é um móvel metafísico.»

«Dinheiro compra tudo. Até amor verdadeiro.»

«Só o inimigo não trai nunca.»

«Só os imbecis têm medo do ridículo.»

«Na vida, o importante é fracassar.»

«Invejo a burrice, porque é eterna.»

 

Idolatrado pelas gerações mais jovens, enfastiadas com o estilo entorpecente e a prosa insípida dos amanuenses da escrita, Nelson Rodrigues conseguiu ver incorporadas expressões da sua lavra na linguagem comum, tornando-as património universal da língua portuguesa. Expressões como "toda unanimidade é burra", "óbvio ululante" e "um calor de derreter catedrais".

Faleceu num domingo, vítima de uma trombose. Nesse preciso dia, horas depois, ganhou o totobola brasileiro: as suas previsões bateram certo. Se sobrevivesse, seria rico - algo que nunca lhe aconteceu em vida. Até na morte a sua figura ganhou contornos de personagem de ficção. Como as que ele criou para peças tão controversas como O Beijo no Asfalto e Toda Nudez Será Castigada.

A morte, tal como o amor, é tema omnipresente na sua obra. Dizia ele que "a morte natural é própria dos medíocres". E fornecia abundantes exemplos em abono da sua tese: Lincoln, Gandhi, John Fitzgerald Kennedy. "O grande homem sempre morre tragicamente."

Paradoxo suplementar num homem que soube cultivar contradições como ninguém: em dia de centenário, 32 anos após a sua morte, Nelson Rodrigues ainda é a cara do Brasil real. Que melhor homenagem pode haver a um escritor do que esta? 

 

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Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012
por Mr. Brown

À página 183 do mais recente romance de Murakami publicado em Portugal, pela Casa das Letras, que conta com a tradução de Maria João Lourenço e Maria João da Rocha Afonso, a personagem Aomame, após a descoberta de certas mudanças anormais no mundo tal como ela o conhecia e imaginava, decide apelidar o novo mundo de 1Q84, designação que dá o título à obra. Seis páginas passadas, sou eu que dou com as palavras «fatura» e «projetava». Abandonei 2012 e entrei em 2O12. O de ortográfico, aborto ortográfico. Questionei imediatamente que tipo de leitor sou eu, quando só numa fase tão avançada dei conta que estava a ler um livro sujeito às novas regras ortográficas. Folheei para trás à procura das palavras por que não tinha dado conta e lá estavam elas, como por exemplo «objetivo». «Não se deixe iludir pelas aparências», é o título do primeiro capítulo da obra. Curioso, pensei para comigo, no estilo algo apressado de leitura que tenho devo ter andado a corrigir mentalmente a grafia das palavras "estranhas" que fui encontrando pelo caminho. Iludi-me. Do mal o menos, soubesse eu fazer disto uma arte e o acordo ortográfico seria tão mais suportável.


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Terça-feira, 27 de Setembro de 2011
por Fernando Moreira de Sá

"A sorte abandona a maioria dos que tentam e o que verdadeiramente importa é saber que se fez caminho"

São dois textos. Dois grandes momentos para o Forte Apache e para a blogosfera portuguesa. Bem sei que muitos dos que nos visitam o fazem por múltiplos motivos. A política, as tricas, a bola, as citações de terceiros, por concordar, pela vontade de contrariar, de criticar, etc. Alguns, quero acreditar, pelo prazer de ler. Em especial, textos como os dois que citei.

 

O Luís Naves fez-me recordar o prazer que sinto com a música. O quadro da sua sala recorda-me os sons da minha:

Sigur Rós: Festival (Live) from Sigur Rós on Vimeo.


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Terça-feira, 6 de Setembro de 2011
por João Gomes de Almeida

Com tantos cowboys e muitos mais índios à espreita fora do forte, faz cá falta o xerife Jaime Ramos, só para pôr ordem nas coisas. O mar em Casablanca pode ser longe de Manaus, mas felizmente está aqui bem perto - mesmo sem o 1%.


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