Sexta-feira, 19 de Julho de 2013
por Pedro Correia

Cisão? Que cisão? Em mais de 30 anos de democracia, tenho visto muitos membros do PCP engrossar as fileiras do PS mas não me lembro de um só movimento na direcção contrária. Alguém até hoje rasgou o cartão de filiado no PS para se tornar militante comunista ou bloquista?

Não vale a pena mencionar nomes: poderia indicar aqui largas dezenas de ex-militantes do Comité Central do PCP, de antigos autarcas, sindicalistas ou deputados do partido da foice e do martelo que passaram a rever-se no conteúdo programático do PS. O próprio Mário Soares, que agora acena com esse tigre de papel, fez esse percurso: trocou o comunismo pelo socialismo democrático. E até este, no momento próprio, foi remetido para o fundo de uma gaveta.

Quando certas frases são proferidas, convém enquadrá-las com o mais elementar conhecimento histórico. E o natural sentido das proporções.

 

ADENDA: Também Felipe González lança farpas ao actual líder do PSOE, Rubalcaba: o mundo gira, imparável, mas nem todos se apercebem disso.


tiro de Pedro Correia
tiro único | comentar | gosto pois!

Quinta-feira, 18 de Julho de 2013
por Pedro Correia

Mário Soares governou duas vezes aliado com partidos à direita do PS. Enquanto foi primeiro-ministro, viu Portugal sob intervenção do Fundo Monetário Internacional nessas duas vezes: a primeira originou aliás um célebre disco de José Mário Branco, intitulado FMI. Em 2011, segundo ele próprio admitiu, teve uma intervenção decisiva junto de José Sócrates para que o Governo socialista solicitasse uma intervenção externa de emergência destinada a salvar as malogradas finanças nacionais. Lá veio o FMI pela terceira vez a Lisboa, desta vez partilhando a tutela do resgate com a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu.

Este extenso currículo, espantosamente, não inibe agora o fundador do PS de alertar António José Seguro contra o risco de "uma cisão" no partido caso o secretário-geral socialista estabeleça um acordo com o PSD e o CDS. Com uma sobranceria que nenhum notável do PS lhe transmitiu quando ele se entendeu em 1977 com o CDS de Diogo Freitas do Amaral e em 1983 com o PSD de Carlos Mota Pinto.

Soares nunca resistiu à tentação de condicionar as lideranças de todos os secretários-gerais que lhe sucederam no Largo do Rato - de Vítor Constâncio a Sócrates. A deselegante ameaça que hoje deixou no ar constitui um excelente teste para Seguro. Este só pode agradecer-lhe a oportunidade que o fundador do partido acaba de lhe proporcionar para demonstrar a sua efectiva capacidade de liderança.


tiro de Pedro Correia
tiro único | comentar | ver comentários (10) | gosto pois!

Segunda-feira, 3 de Junho de 2013
por José Meireles Graça

Se, no google maps, se procurar "rua Mário Soares", encontram-se resultados na Póvoa de Lanhoso, em Pias (Lousada), Vila Pouca de Aguiar e Vagos; se a procura for por "avenida", a colheita é Abrantes, Oeiras e Chaves. De praças ou pracetas, nada, e nada também para travessas.

 

Isto é estranho: que eu em 1975 já trabalhava e era atento, e se não estive na Fonte Luminosa estive nas Antas e tenho bem presente quem liderou o movimento de resistência anti-comunista. E mesmo que seja verdade, se for, que o PCP recuou na 24ª hora para evitar uma guerra civil; ainda que, se Soares não existisse, outro desempenhasse o papel; mesmo que a nossa localização geográfica, a importância da Igreja, a existência de numerosos pequenos proprietários e empresários, e uma já razoável classe média, tudo se conjugasse para inviabilizar uma revolução tão obsoleta como o partido e satélites que a impulsionavam, nem por isso Marocas deixará de ter o seu lugar na História - uma meia-página se a História for concisa, que é mais do que está reservado às outras personagens que nos povoam a memória da época.

 

Se Soares, cuja marca está tão presente no Portugal desde então, se vê escassamente representado na toponímia, isso é porque, depois do seu papel de herói civil no Verão Quente de 1975, nunca foi mais do que um chefe partidário como os outros, e como os outros votado à experimentada desconfiança e desprezo que os Portugueses reservam aos seus líderes. Ah!, tivesse ele morrido providencialmente, e o País inteiro estaria coberto com urbanizações e pontes e pavilhões multi-usos com o seu nome. E dir-se-ia hoje, com um encolher de ombros desalentado e soturno: se Soares fosse vivo, nada disto teria acontecido.

 

Sucede porém que, com diferenças de grau e de estilo em relação aos colegas da arena política, o Portugal que Soares quis e para o qual trabalhou, é o Portugal que temos: europeu do Sul nos costumes, atento, venerador e obrigado a internacionalismos vários, bem-pensante, com uma diplomacia ágil e competente na chupice de fundos, abrigado debaixo de uma Constituição surreal que garante os direitos económicos de todos desde que os nossos parceiros e os ricos paguem.

 

No Portugal de Soares, a chuva e o bom tempo vêm do Euro, da UE, do Estado patrão e do Estado investidor; e como, subitamente, o Euro se revelou um fato apertado a uns e solto a outros, curto ou comprido nas mangas, e de forma geral de mau corte, por ser a moeda de uma raça de trabalhadores disciplinados nos dias úteis, e borrachões de fim-de-semana; como a UE é um conjunto suspeito de instituições desacreditadas, recheadas de funcionários parasitas e metediços, afogados em privilégios e tretas; como o Estado patrão alargou o número de dependentes até ao infinito, para garantir votos para os eleitos do dia; e como, na pele de investidor, cobriu os montes de ventoinhas, as esquinas de abastecedores para carrinhos eléctricos, e as escolas maternais de computadores para ver as aventuras do Noddy - a bonanza durou o tempo que durou o crédito.

 

É aqui que estamos. O Governo que temos, desastradamente embora, quis pôr ordem na tourada. Pôr ordem na tourada quer dizer fazer marcha-atrás. E fazer marcha-atrás é o nosso caminho inelutável, o da UE e o do papel dos Estados - tudo aquilo em que Mário Soares acredita, e a que dedicou a vida.

 

É a esta luz que se deve interpretar o que se passou na Aula Magna: todos os que lá estiveram querem evitar o inevitável, embora nem todos pelas mesmas razões. E, se me é permitido, mil vezes o velho discurso republicano, jacobino e socialista do homem que, mais do que outro qualquer, é responsável pela abjecção a que o nosso País chegou, do que os arroubos líricos do Professor Sampaio da Nóvoa, que não tem a desculpa de ter uma obra a defender nem uma vida de fé que as consequências abalam todos os dias, mas é reincidente nestas lides.

 

O homem está xéxé, dizem-me próximos. Não está não, digo eu: tem o mesmo síndroma de Cunhal, que manteve a fé no céu terreno mesmo depois da queda do muro de Berlim.


tiro de José Meireles Graça
tiro único | comentar | gosto pois!

Quinta-feira, 30 de Maio de 2013
por Alexandre Poço

O encontro promovido pelo Pai Fundador entre as esquerdas (aos 88 anos podia ter-lhe dado para outras coisas que não a tarefa de cupido) tem já algumas conclusões antecipadas:

 

- Precisamos de mais despesa, menos impostos, mais défice e menos dívida.

 

- O governo é mau porque é neoliberal (elaborar isto é complicado, pois teríamos de começar por explicar o que é o adjectivo que se imputa ao sujeito, o que é capaz de demorar). 

 

- O BCE, Hollande e o SPD vão ajudar-nos (esta passa com abstenções de braço no ar de elementos estalinistas e trotskistas. Miguel Tiago e Ana Drago saem da sala antes de se votar). 

 

- Vítor Gaspar é fanático. 

 

- O PSD não está com o governo, basta ouvir a Manuela Ferreira Leite para se perceber isto.

 

- O CDS não aguenta o barco por muito tempo. 

 

- Precisamos (as esquerdas individualmente) de fazer qualquer coisa, talvez um congresso ou outro encontro. 

 

- Jorge Jesus deve continuar porque o Benfica passou a disputar os títulos até Maio. 


tiro de Alexandre Poço
tiro único | comentar | ver comentários (4) | gosto pois!

Sábado, 11 de Maio de 2013
por Pedro Correia

Mário Soares, Maio de 2010.

Sobre medidas impopulares do Governo PS: «São absolutamente necessárias, porque sem elas Portugal poderia ficar numa situação difícil e, até pior, sem meios para poder pagar aos seus funcionários.»

Sobre a austeridade: «Não sou só eu que acho que estas medidas de austeridade eram imprescindíveis. Também acha isso toda a Europa e todo o Portugal culto, que está informado das coisas.»

Sobre Pedro Passos Coelho: «Conheço Pedro Passos Coelho e considero-o um homem muito sensato, lúcido e com um grande sentido de Estado. E o que os políticos precisam de ter nesta altura é um grande sentido de Estado.»

 

Mário Soares, Maio de 2013.

Sobre medidas impopulares do Governo PSD-CDS: «É de loucos. E há quem pense que este Governo, anticonstitucional, está a destruir o país, o Estado social e a democracia, como é evidente, é legítimo porque foi eleito. Esquecerá, essa luminária, que Hitler e Mussolini também foram eleitos e isso não os impediu de produzir os estragos que são conhecidos?»

Sobre a austeridade: «Que pensam o primeiro-ministro e os ministros e secretários de Estado quanto ao futuro? Certamente julgam que vão poder fugir para o estrangeiro, porventura bem providos com o dinheiro que amealharam, enquanto o tiraram ao povo?»

Sobre Pedro Passos Coelho: «Grande demagogo, que cada vez que fala diz coisas diferentes e que tem prometido tudo e o seu contrário, ignorando os milhares de portugueses.»

 


tiro de Pedro Correia
tiro único | comentar | ver comentários (1) | gosto pois!

Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2013
por Alexandre Poço

Sobre o internamento de Mário Soares, Daniel Oliveira diz que "quem aproveita a hospitalização de um homem para o combate político, quem aproveita a fragilidade física de um adversário para o atacar, tem apenas um nome: é um cobarde". Não sei onde é que Daniel Oliveira criou este filme, provavelmente deve ter escrito o texto à hora dos Globos de Ouro e sentiu-se inspirado pela ficção que lhe chegava pela televisão. Ninguém se "aproveitou" da ida de Mário Soares a um hospital para fazer política, nem mesmo José Manuel Fernandes que também é citado no artigo de Daniel Oliveira. O que muita gente constatou é que Mário Soares, que tanto louva as virtudes dos serviços públicos e do Estado Social, na hora de escolher um sítio para recorrer a serviços de saúde, foi aos privados. Talvez o Estado Social seja melhor para os outros. É claro que o Pai do regime está no seu livre direito de ser tratado onde quer. E honestamente, desejo-lhe as melhoras e recuperação rápida. Não há "combate político", nem Mário Soares - já na reforma - é um "adversário". Não entendo, portanto, o moralismo com que Daniel Oliveira quer incensar o tema, acusando de "cobarde" quem se limitou a apontar um facto evidente: na hora de problemas com a saúde, todo o socialista passa a gostar da saúde privada. Apenas isto, não há espaço para drama, caro Daniel Oliveira. 


tiro de Alexandre Poço
tiro único | comentar | ver comentários (8) | gosto pois!

Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2013
por José Meireles Graça

Houve há dias uma conferência em Lisboa, sob a modesta epígrafe "Portugal no Mundo", estrelada com personalidades que não se coibiram de dizer coisas a benefício da ilustração das elites mundiais, incluindo Mr. Barroso, o qual no entanto tinha ademais o prosaico propósito de tratar da futura candidatura a Presidente da República.

 

É discutível se o Mundo estaria com grande atenção; e mesmo àquela parte do Mundo, à qual pertencemos, que está em crise, talvez tenha escapado o altíssimo nível das intervenções e o acerto de algumas previsões e diagnósticos.

 

Mário Soares, por exemplo, avisou sem rebuço que "se não se colocarem os mercados no lugar, se pode caminhar para uma terceira guerra mundial". Isto porque "são os mercados que governam e os governos não têm margem, porque não querem ter".

 

Isto é de gelar o sangue: Mário Soares não estará a referir-se apenas àqueles governos que substituíram os socialistas, caso em que bastaria que os eleitorados caíssem em si para tudo se compor, evitando-se a hecatombe da III Guerra Mundial. Não: inclui certamente aqueles que, como o Sr. Hollande, têm impecáveis credenciais democráticas mas esqueceram os ensinamentos da velha guarda socialista, da qual ele próprio e o Sr. Gonzalez, que estava ali mesmo ao lado, fazem parte.

 

O Sr. Gonzalez, aliás, salientou a pouca margem que os governos têm, referindo que "quem manda é Wall Street e a City”. Que se desenganem os ingénuos que imaginam que os desequilíbrios começaram com o Euro, e aqueles que se queixam amargamente da Chanceler, e do BCE, e da evolução demográfica, e da deriva despesista, e do catano: "A crise começou nos EUA", diz Mário Soares. "Fomos vítimas da bolha especulativa”, afirmou o socialista espanhol.

 

Ora cá está: A Senhora Merkel nunca foi um Diabo muito convincente - pode desempenhar um papel abominável mas por trás tem os mercados, a City e Wall Street.

 

Se formos ver a questão de perto, e sem preconceitos, como estes dois lúcidos estadistas, o verdadeiro culpado é a América. Por sorte, para amenizar, está ao leme por aqueles lados um socialista. Mas ai! - também não é da Velha Guarda.

 

Resignemo-nos: a III Guerra vem a caminho.

 


tiro de José Meireles Graça
tiro único | comentar | gosto pois!

Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2012
por Pedro Correia

 

«Os manifestantes agitavam bandeiras negras, símbolos da fome, e gritavam "gatuno!", "ladrão!". Mário Soares não ficou parado a ouvi-lo. No dia 30 de Novembro de 1983, quando ouviu esses insultos contra a austeridade imposta pelo programa do FMI, o primeiro-ministro e líder do Bloco Central (coligação PS-PSD) visitava Coimbra acompanhado do ministro socialista Almeida Santos. Semanas antes, o governo anunciara um imposto extraordinário de 2,6% sobre os rendimentos dos portugueses (em 2013, a sobretaxa será de 3,5%). Soares aproximou-se dos manifestantes comunistas que o perseguiam com as bandeiras pretas e agiu. "Passei muito perto deles, aí a uma distância de um metro do local onde se encontravam, a vociferar", contou Soares no segundo livro de entrevistas biográficas à jornalista Maria João Avillez. "Ao lado estava um polícia muito aprumado na sua farda, impassível. Interroguei-o: 'Senhor guarda, o que está aqui a fazer? Não ouve estes insultos? O polícia ficou atrapalhado, mas agarrou no homem cujos insultos eram mais vernáculos e audíveis e prendeu-o."

Na sequência da ordem do primeiro-ministro, três homens e uma mulher foram detidos e presentes a tribunal. (...) Segundo Mário Soares, as bandeiras negras da fome eram uma construção do PCP. "Havia uma equipa de cerca de 200 manifestantes - sempre os mesmos - que andava de um lado para o outro, com bandeiras pretas, para me consultar e insultar. Eram profissionais." No tribunal de Coimbra, o juiz Herculano Namora absolveu os manifestantes. Para os julgar, segundo o Código Penal, era preciso uma queixa (inexistente) do ofendido. Indignado, o primeiro-ministro reagiu assim à decisão judicial, de acordo com o Correio da Manhã da época: "Se o juiz entendeu que não foi um crime público, o problema é dele. Ficamos a saber que esse juiz não se importa que lhe chamem gatuno."

Revoltado com o comentário do chefe do governo sobre a sua decisão judicial, o juiz apresentou queixa no Conselho Superior da Magistratura: "Parece-me que o dr. Mário Soares se precipitou ao comentar a decisão de um órgão de soberania, pondo em causa a independência dos tribunais e da própria magistratura."

Mário Soares não hesitou: se a lei não servia, mudava-se a lei. Na semana seguinte, o Conselho de Ministros alterava o Código Penal, explicando em comunicado que se tornavam públicos, sem depender de queixa, "crimes de difamação, injúria e outras ofensas contra órgãos de soberania e respectivos membros." Se repetissem a graça, aqueles comunistas não seriam absolvidos.

Há uma semana, quase 30 anos depois de liderar o governo de maior austeridade antes do de Pedro Passos Coelho, Mário Soares escreveu no Diário de Notícias: "O povo não existe para o primeiro-ministro e para o seu Governo. Tenha, pois, cuidado com o que lhe possa acontecer. Com o povo desesperado e em grande parte na miséria, corre imensos riscos." Soares também encabeçou uma carta aberta de 70 personalidades a pedir para Passos Coelho se demitir.

Mas quando liderou o Bloco Central coligado com Carlos da Mota Pinto, do PSD, o primeiro-ministro socialista também correu riscos e não era uma figura que agisse de acordo com as regras de comunicação política hoje consideradas normais.

No dia 1 de Novembro de 1983, à porta da fábrica da Renault, em Setúbal, cercada por trabalhadores, Soares gritou-lhes: "Diálogo convosco, só com a polícia!" Segundo a agência noticiosa Anop, o primeiro-ministro justificou-se assim: "Não pode haver tolerância nem diálogo com pessoas que nos dirigem slogans injuriosos." São Bento emitiria um comunicado a dizer que "o díálogo tem regras e perante as injúrias a resposta só pode vir das autoridades policiais".»

 

Excertos de um extenso artigo de Sara Capelo e Vítor Matos, intitulado "As cargas policiais de Soares", publicado hoje na revista Sábado.

 

Imagem: Mário Soares na Marinha Grande (Janeiro de 1986)


tiro de Pedro Correia
tiro único | comentar | ver comentários (8) | gosto pois!

Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2012
por jfd


tiro de jfd
tiro único | comentar | ver comentários (1) | gosto pois!

Segunda-feira, 3 de Dezembro de 2012
por Pedro Correia

 

A esquerda radical nunca perdoou o reformismo de Mário Soares. O fundador do PS descolou o partido da órbita comunista, integrando-o ainda antes do 25 de Abril como força autónoma da oposição à ditadura. Após a Revolução dos Cravos, Soares liderou o PS no combate ao extremismo esquerdista - e foi mil vezes atacado por isso. Enfrentou com sucesso as tentativas do PCP de hegemonizar a esquerda portuguesa, fez alinhar os socialistas com a social-democracia europeia, opôs-se aos militares radicais que após 1976 pretenderam manter a tutela sobre o poder civil, decretou políticas de contenção financeira quando esse era um imperativo patriótico destinado a evitar a bancarrota, encaminhou o País para a integração europeia e nunca hesitou em separar águas na defesa permanente da democracia representativa.

Este é o Soares que todos conhecemos. Já o Soares dos últimos anos, que parece querer transformar o PS numa espécie de partido irmão do Bloco de Esquerda, está irreconhecível. Porque desmente a todo o passo a sua própria biografia política - uma biografia que sempre se opôs ao "frentismo" de esquerda, ao aventureirismo extremista e a todas as tentativas de cortar o passo à democracia representativa, nomeadamente através da diminuição do papel do Parlamento no conjunto das instituições políticas portuguesas.

 

O Soares de 2012 diz coisas semelhantes às que o PCP disse dele quando foi Governo, entre 1976 e 1978, primeiro, e de 1983 a 1985, depois - dois mandatos que decorreram sob o signo da crise financeira e da intervenção de emergência do FMI para sanear as contas nacionais. Também os comunistas disseram então que Soares queria "destruir a democracia". Também os comunistas se apressaram a passar certidões de óbito aos governos que liderou. Também os frentistas de esquerda chegaram a propor Executivos "de iniciativa presidencial" sem o recurso a eleições, como mandam as boas regras democráticas. Também a esquerda radical lhe apontou por diversas vezes a porta da rua, para "mudar de política".

Bem fez António José Seguro, através do seu líder parlamentar, ao lembrar ao fundador do PS que os governos não caem por pressão das ruas ou de cartas abertas: a democracia tem regras próprias que devem ser respeitadas. Era isso, aliás, que o Soares das décadas de 70, 80 e 90 defendia - por vezes contra fortíssima pressão partidária e mediática. É isso que, estranhamente, o Soares de 2012 parece ter deixado de defender.

 

Tudo isto sucede quando outra figura de referência do socialismo europeu, Felipe González, recomenda aos socialistas espanhóis um percurso inverso ao que Soares hoje defende: em vez de um partido a caminhar cada vez mais para a esquerda, o homem que há 30 anos levou o PSOE a um triunfo esmagador nas urnas aconselha os seus pares a retomar a "vocação de maioria" para recuperar o centro.

"O PSOE [Partido Socialista Operário Espanhol] perdeu a vocação de maioria e tem de recuperá-la. Tem de conseguir isto encarando a sociedade e auscultando as suas necessidades. Não de forma sectária, mas com espírito de consenso." Palavras de González que Seguro deve escutar com atenção. Por estarem em linha com as teses do Mário Soares que venceu eleições em 1976, 1983, 1986 e 1991. Não com o Soares que saiu derrotado das presidenciais de 2006 e desde então parece caminhar em colisão com a rota que sempre traçou.

 

Imagem: Felipe González e Mário Soares (2010). Um quer hoje os socialistas a virar ao centro, outro defende um PS ainda mais à esquerda

 

Também aqui


tiro de Pedro Correia
tiro único | comentar | ver comentários (7) | gosto pois!

Quinta-feira, 29 de Novembro de 2012
por Sérgio Azevedo

Ao que parece Mário Soares lidera um movimento que assinou uma carta aberta ao Primeiro Ministro para que o Governo mude de política ou então se demita. A contestação, em democracia é normal e até saudável. Até ai tudo bem. Mas quando é o "bem posto" da vida democrática, Mário Soares, a liderar um movimento contra seja o que for, é sinal que está tudo explicado. Se houve personalidade que sempre se aproveitou e tirou partido de qualquer regime foi este senhor. Agora, é só tirar as ilações...

 


tiro de Sérgio Azevedo
tiro único | comentar | ver comentários (1) | gosto pois!

Sábado, 20 de Outubro de 2012
por Dita Dura

Se os miúdos adoram dinossauros, porque é que o Mário Soares não apresenta um programa infantil?


tiro de Dita Dura
tiro único | comentar | gosto pois!

Quarta-feira, 19 de Setembro de 2012
por Pedro Correia

Tenho felizmente boa memória. Lembro-me portanto da revisão constitucional de 1982 que na prática retirou o semipresidencialismo da nossa lei fundamental. Foi uma alteração ad hominem, que transformou uma ocasional maioria parlamentar em arma de arremesso contra o Presidente Ramalho Eanes. Recordo-me também que o principal mentor desta iniciativa foi o então líder do Partido Socialista, Mário Soares. Como retaliação contra o facto de Eanes ter demitido o seu Executivo e dado posse a três sucessivos governos de iniciativa presidencial.

A partir da revisão de 1982, o Presidente deixou de poder exonerar discricionariamente o Governo e este passou a ser politicamente responsável apenas perante a Assembleia da República. Foi a maior alteração introduzida à letra e ao espírito da Constituição de 1976 por decisão conjunta do PS de Soares e do PSD, na altura liderado por Francisco Pinto Balsemão. Ambos invocavam, para o efeito, a necessidade de parlamentarização do sistema político português. Não deixa, por isso, de ser irónico que Soares venha agora fazer um apelo público ao Presidente da República para mudar o Governo sem recurso a eleições e formar um novo Executivo.

Exige hoje precisamente o que Eanes fez com ele em 1978. Esquecendo-se já da forma como respondeu a Eanes ao alterar as regras constitucionais, reduzindo drasticamente os poderes do Chefe do Estado. Razão tinha Marx: a História costuma repetir-se, mas como farsa.

 

Também aqui


tiro de Pedro Correia
tiro único | comentar | ver comentários (4) | gosto pois!

Quarta-feira, 12 de Setembro de 2012
por jfd

"Se não tivesse de ir ao Algarve iria à manifestação"

DN



tiro de jfd
tiro único | comentar | gosto pois!

Quarta-feira, 5 de Setembro de 2012
por José Meireles Graça

Mário Soares tem uma longa história de consistência na defesa do PS, no interesse do qual já defendeu nacionalizações e privatizações, o socialismo à luz do dia e na gaveta, o marxismo como instrumento de análise da realidade social e o anti-marxismo nos factos e nas decisões políticas, a independência no exercício da Presidência da Republica e a utilização daquela magistratura como instrumento de guerrilha ao Governo - tudo, e ainda o contrário de tudo, desde que o PS ganhe.

 

Está bem, a gente dá um desconto e automaticamente interpreta o que ele diz a esta luz.

 

Por baixo desta forma de coerência, digamos assim, partidária, há porém uma outra: e essa é a da defesa da Democracia e da Europa Federal, ideais ao serviço dos quais prestou relevantes serviços, no primeiro caso em 75 e no segundo desde antes da adesão à CEE.

 

Sucede que ninguém discute a Democracia há muito tempo: a maioria da população não conheceu outro regime, não havendo nenhuma corrente organizada que a ponha em causa (salvo o PCP e ocasionalmente o BE, mas sem deixarem de lhe aceitar as regras). E da Europa Federal não se sabe o que pensa o eleitorado, porque nunca foi perguntado.

 

Mas não é um passo arriscado imaginar que o eleitorado estará  receptivo a qualquer doutrina - qualquer - que lhe permita acreditar que a austeridade vai acabar e o País recomeçar a crescer; e só não compra o discurso da extrema-esquerda porque existe a válvula da emigração e a ambição difusa de ser a Suécia, ou a Dinamarca, ou uma pequena França ibérica - mas não uma Cuba temperada. Nem compra, para já, o discurso do PS porque a memória está fresca da rebaldaria despesista de Sócrates.

 

A Europa Federal poderia ser engolida, e creio que seria sem hesitações, se fosse a garantia de não haver troikas, nem desemprego galopante, nem falências, o que evidentemente não é nem será. Nada porém que aflija o genuíno federalista que Soares é.

 

Quando porém desaparecesse a aflição, outra geração quereria fazer marcha-atrás - os engenheiros de pátrias nunca, a prazo, têm razão.

 

E é por isso que estas declarações de Soares ("faz apelo patriótico contra privatizações") são chocantes. Apelos patrióticos?! Na boca de Soares?!

 

Não há desconto que chegue.


tiro de José Meireles Graça
tiro único | comentar | ver comentários (5) | gosto pois!

Terça-feira, 8 de Maio de 2012
por Pedro Correia

Expliquem-me, por favor. O Mário Soares que, fez agora um ano, teve uma "discussão gravíssima" com José Sócrates ao ponto de levar o ex-primeiro-ministro a ceder "à evidência" de que Portugal necessitava de urgente ajuda externa será o mesmo que hoje instiga o PS a "romper com a troika" porque "entrou aqui como se Portugal fosse um protectorado"?

Razão tinha Jorge Coelho naquela frase que a SIC Notícias gosta tanto de exibir: "Há muita falta de memória na política e nos políticos".


tiro de Pedro Correia
tiro único | comentar | ver comentários (4) | gosto pois!

Terça-feira, 24 de Abril de 2012
por José Meireles Graça

Excepto se aproveitados para uma ponte, os feriados civis provocam-me um indizível tédio - são ainda mais chatos que o Domingo. E dos religiosos gosto apenas por respeito difuso à tradição que a comunidade a que pertenço santificou há séculos, e ainda, em havendo crianças por perto, porque elas neles vêem encanto.

Dos discursos é melhor nem falar: o dia das Comunidades costuma ser um longo desfiar de inanidades, e nos feriados das mudanças de regime aproveita-se para "mensagens" e "recados", que diligentemente o Chefe de Estado, os representantes dos Partidos e um ou outro Senador propinam com generosidade.

A comunicação social excita-se com umas e outros, uma semana após o rumor esmorece - para o ano há mais.

De tanto discurso e tanta intenção benévola ou venenosa não resta, que me ocorra, uma linha memorável.

 

O 25 de Abril, porém, é diferente porque está ainda viva muita gente que o viveu. E isso faz com que não haja, na realidade, um único mas vários 25 de Abris. Lembro alguns: o dos militares que o fizeram, ou a ele aderiram, com maior ou menor risco pessoal; o daqueles que foram presos, exilados, prejudicados nas suas carreiras profissionais ou de alguma forma ofendidos pelo regime deposto; o dos que nutriam silenciosa antipatia pela Velha Senhora, mas, no interesse próprio e no das suas famílias, se abstiveram de a manifestar publicamente; o dos que o viveram como uma festa, mas eram demasiado novos para ter sentido a opressão sufocante do Salazarismo; e os outros, isto é, a maioria que tratava da sua vidinha e à política dizia nada, como a política nada lhes dizia, e que descobriu que, se berrasse o suficiente, se faria ouvir.

O primeiro grupo não era unívoco: irmanados na aversão a um regime que os condenava a uma guerra sem fim à vista, tinham que inventar à pressa uma doutrina que desse cobertura ideológica ao propósito do golpe de Estado, cujo motivo principal (carreiras sem futuro, exílio para longínquos teatros de guerra de guerrilha, intuição de que os ventos da História não sopravam para onde os responsáveis diziam que eles sopravam) não era fundamento bastante para um regime novo.

Daí o manicómio em autogestão a que se chamou o PREC: os militares não escolheram todos, no pronto-a-vestir ideológico, o mesmo figurino, e os pais da malta do 5Dias pescaram abundantemente naquelas águas revoltas, a ver se pariam uma democracia autêntica, com Trotzkys, Ches, Fideis e outros barbudos. Cunhal, a Raposa Branca, à espreita, que seria ele o herdeiro da bagunça e em devido tempo limparia o sebo aos desvios de esquerda, logo a seguir a tê-lo limpo à direita fascista e reaccionária.

 

O resto é conhecido: ganhou a facção "moderada", Soares e outros cavalgaram a imensa mole da população que não queria comunistadas, e Eanes ajudou a recolher os militares aos quartéis.

Os militares ganhadores, que ficaram pela maior parte na Associação 25 de Abril, e os civis que lançaram as bases do regime que temos, ficaram donos dele, e por conseguinte da comemoração deles, à qual ficaram românticamente associados os comunistas de todos os bordos porque foi linda a festa, pá, e ainda temos a Constituição.

Depois escolheram o Euro e a UE, enquanto vinha a globalização. E os ganhadores do regime não perceberam nada disso, e continuaram a festa como se não houvesse amanhã. Mas havia - é hoje.

E por isso não querem celebrar o 25 de Abril oficial. E têm razão - o 25 de Abril deles acabou.

Oxalá o outro, onde cabem todos e que não tem donos, subsista. 


tiro de José Meireles Graça
tiro único | comentar | ver comentários (4) | gosto pois!

Terça-feira, 13 de Março de 2012
por José Meireles Graça

Mário Soares terá, daqui a uns cem anos, direito a uma nota de rodapé, uma página ou um capítulo, consoante a espessura e o número de volumes da História de Portugal. Esta condição não partilha no mesmo plano com ninguém vivo, e por assim se intuir é que é lido com atenção, mesmo por quem não tem ilusões sobre as suas pesadas responsabilidades na situação de província distante e miserável do Império, em que nos encontramos.

Porque dos três Dês que encarnou, mais completamente que qualquer outro político, um foi um monumento de ignomínia fujona (é verdade que com muito maiores culpas de oficiais comunistas e de um povo farto da guerra colonial), outro está em regressão porque foi feito com crédito, e até mesmo a democracia, para imaginar que está sólida e não é reversível, requer alguma dose de fé no futuro.

A história de Mário Soares é a história de um falhanço parcial, e pode vir a ser a de um falhanço total; e todas as decisões que criaram o pano de fundo do estado a que chegamos (aposta acéfala e total na UE e no Euro, aprofundamento do Estado Social sem economia para o suportar, atribuição ao Estado de um papel central como motor do desenvolvimento) contaram com a bênção e o entusiasmo militante do hoje velho Senador.

Infelizmente, dar incessantemente com a mesma cabeça na mesma parede faz parte da condição humana - é pouco provável que Estaline, Hitler ou Mao, três dos maiores criminosos sociais do séc. XX, se tivessem arrependido, ainda que no último minuto. Com perdão da comparação forçada, que o nosso Mário Soares é genuinamente um Democrata tolerante e civilizado.

Tolerante, civilizado e incapaz de aprender: Portugal, depois dos Cravos, pediu por duas vezes a intervenção do FMI; e de ambas se reequilibrou, e em ambas teve recaídas, a segunda das quais não foi reconhecida como tal porque entretanto se tinha arranjado um analgésico para não curar a doença, que entretanto se agravou.

À cura Mário Soares chama neoliberalismo. E como para o crescimento, anémico embora, da última década, se encontrou quem emprestasse, e isso não é mais possível, ou reconhecia que o caminho não podia ser o seguido até ali, ou inventava um caminho novo, pavimentado a leite e mel.

O caminho parece novo mas é velhíssimo: "...sem um Governo europeu, financeiro e económico (e mais tarde político), não há austeridade que, por si só, valha à União, à beira do abismo".

Eu traduzo: os outros que paguem - entrega-se a nacionalidade, como já se deu de penhor a independência.

Grande, enorme Mário Soares. Mas, como dizia Eça, Sancho Pança - era maior.


tiro de José Meireles Graça
tiro único | comentar | gosto pois!

Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012
por José Meireles Graça

Um grupo de ciclistas de várias gerações, encabeçado por um antigo camisola-amarela, vem propôr-nos a solidariedade com o povo Grego porque "se sabe que a crise não é só grega mas europeia".


Também sou solidário com o povo Grego. Mas estes desportistas sabem coisas que ignoro. Porque a crise grega é grega, a nossa é nossa, e as da Finlândia ou Holanda seriam, respectivamente, finlandesa ou holandesa - se existissem.


Mas não existem. E nós, os Finlandeses, os Holandeses e os Gregos, todos somos Europeus. Logo, a crise grega só pode ser descrita como europeia porque estes senhores promoveram a ideia de que a Europa é uma bicicleta que não pode parar, mesmo quando à pedaleira faltam dentes, a cremalheira encravou e o pinhão está podre.


São, caracteristicamente, socialistas: o problema que criaram há-de ser resolvido pelos outros e a realidade não tem razão - a engenharia social e de pátrias sim.


Mas não, o problema não vai ser resolvido pelos outros, será quando muito adiado. E os apelos de velhas e novas glórias do ciclismo doméstico estão desacreditados.


Querem um atleta moderno com as ideias no lugar? Está aqui, mas não é ciclista.


tiro de José Meireles Graça
tiro único | comentar | ver comentários (1) | gosto pois!


Regimento
outras cavalarias
tiros recentes
tiros mais comentados
cofre
tags
Arregimentados
Subscrever feeds