"A Câmara de Cascais, por acaso PSD, ofereceu um jantar de 13 mil euros aos 250 participantes de um encontro da Internacional Socialista (IS), por acaso socialistas. Este gesto de generosidade e ecumenismo foi mal visto pela típica mesquinhez pátria e deu origem às indignações do costume, aflitíssimas com um repasto de 52 euros por estômago e convencidas de que a esquerda, só porque é esquerda, se alimenta a bifanas.
O curioso é que quase ninguém pareceu indignar-se com o encontro da IS propriamente dito. Arriscando acusações de parcialidade, acho esquisito que os principais obreiros da crise europeia passeiem nos países onde a crise é mais flagrante a fim de debatê-la e, não se riam, resolvê-la. Não seria muito diferente se um bando de pirómanos regressasse ao local do incêndio para discutir protecção florestal. Aliás, salvo a provável comparência da polícia no segundo caso e a incompreensível ausência da política no primeiro caso, não é nada diferente.
Mas o cúmulo do descaramento passou pela destacada presença do presidente da IS, Georgios Papandreou de sua graça. O seu papel na desgraça grega, que contemplou e, a bem da "agenda" pessoal, agravou enquanto primeiro-ministro chegaria, num mundo justo, para manter a criatura na prisão durante longos e pedagógicos anos. No mundo que temos, a criatura ciranda por aí a oferecer palpites e alertas. Os nossos media, que deram ao sr. Papandreou a antena que não dariam à comparativamente credível Leopoldina dos hipermercados, divulgaram-lhe as declarações na abertura do convívio cascalense: "A crise não acabou. Ainda hoje, se a Europa não tomar mais medidas, os sacrifícios dos portugueses, gregos, espanhóis e italianos poderão perder-se e mais nos será exigido."
Nem uma admissão de culpas, nem um pio sobre responsabilidade: o importante, note-se, é a Europa "tomar medidas". Não importa que os socialistas tomem juízo ou vergonha na cara. No máximo, tomaram café após o jantar pago pelo contribuinte, uma despesa minúscula face à factura que essa gente já nos legou."
Alberto Gonçalves no DN
Equidade fiscal, por João Duque
"Era uma vez dez amigos que se reuniam todos os dias numa cervejaria para beber e a factura era sempre de 100 euros. Solidários, e aplicando a teoria da equidade fiscal, resolveram o seguinte:
- os quatro amigos mais pobres não pagariam nada;
- o quinto pagaria 1 euro;
- o sexto pagaria 3;
- o sétimo pagaria 7;
Ouvi num noticiário o melhor exemplo do que foi e ainda é a estratégia socialista para Portugal, através da crítica de um autarca socialista à suspensão da autoestrada do Baixo Alentejo com a seguinte fundamentação:
A autoestrada do Baixo Alentejo é estruturante por fazer a ligação ao aeroporto de Beja.
Em resumo: depois de um elefante branco, há que lhe fazer um pedestal.
Mesmo assim, muitos ficam felizes com a esta estratégia suicida.
Os mercados foram malvados. "Foram": no passado. A maldade dos mercados foi não terem estabelecido diferenças entre as taxas de juro da dívida alemã e as da dívida portuguesa (e grega e irlandesa e... e tantos "e"s) há muito mais tempo. Os mercados foram demasiado permissivos durante muitos anos e isso foi mau. Agora que estão pela primeira vez a funcionar com um módico de discernimento, impondo disciplina mínima aos países é que as pessoas começaram a queixar-se deles e a dizer que são maus! As gentes não poderiam ser mais injustas para com os mercados. Estes permitiram o financiamento de Estados sociais e socialistas sobredimensionados, suportaram todos os populismos eleitoralistas e todos os mega-projectos que visavam exclusivamente os cofres das empresas amigalhaças (nomeadamente as da construção civil) e pagaram ainda todos os "direitos sociais" exigidos e imagináveis. E agora quando a farra social-socialista-populista chega ao fim é que as pessoas se queixam!
Quanto menos um país tem, mais se faz com esforço e mérito. Atente-se no exemplo de Cabo Verde. Portugal é um caso estranho, porque embora uma boa parte dos seus recursos não sejam próprios (os fundos da Europa, o endividamento internacional, as remessas dos emigrantes, "o ouro do Brasil"), comportou-se sempre como se fosse rico. Não é e esta triste verdade só agora está a ser revelada - pela força e à bruta.
Mas ainda há muitos que não querem ver e nem à bruta aceitam a realidade. Chamam-se "socialistas".
É interessante que o partido português mais à direita do parlamento nacional consiga um dos seus melhores resultados (segundo lugar) precisamente na região portuguesa mais influenciada pelo "socialismo" enquanto multiplicação dos factores despesismo, endividamento e favoritismo aos amigalhaços.
Será caso para o cliché "os extremos atraem-se"? É possível.
Nos primeiros dois dias de congresso, virados para o partido, o PS tinha o palco dominado pelo vermelho vivo. Hoje, dia em que António José Seguro promete "falar para o País", o vermelho deu lugar ao verde. É uma simbologia muito reveladora: os socialistas, quando saem dos círculos concêntricos do debate interno, são forçados a pôr de lado a retórica "antiliberalismo" e "antimercados", adoptando as receitas de governação da direita liberal neste tempo em que o nosso destino está intimamente ligado ao do conjunto da Europa. Repare-se no que tem sucedido além-fronteiras: todos os maiores países europeus são hoje governados por partidos do centro ou da direita. A excepção, até agora, tem sido a Espanha. Mas é uma excepção já com fim anunciado: 20 de Novembro, data em que o Partido Popular, de Mariano Rajoy, sairá como vencedor mais que provável das legislativas.
Manuel Alegre fez neste congresso de Braga a mais estimulante intervenção de todas quantas pude escutar, questionando por que motivo, em tempos de grave crise económica, os eleitores europeus preferem dar o poder à direita. Para obter uma resposta a esta pergunta basta analisar o que foi dito pelos congressistas em Braga contra o Governo PSD/CDS: na esmagadora maioria dos casos essas críticas poderiam ter sido dirigidas com razão acrescida ao anterior Executivo, liderado por José Sócrates, que conduziu o País a uma situação de emergência financeira. Acontece que no anterior congresso socialista, realizado apenas há cinco meses, quase ninguém proferiu o menor reparo, como se vivêssemos no melhor dos mundos - o que retira autoridade moral às actuais vozes críticas.
Comparemos com Espanha: quase tudo quando os socialistas criticam agora em Portugal tem vindo a ser aplicado no país vizinho, começando pela eventual imposição de limites ao défice na Constituição: esta medida, que o PS contesta, foi já adoptada entre os espanhóis por iniciativa de Zapatero. E já nem falo do caso grego, onde o Executivo socialista aplica hoje as mais draconianas medidas de contenção orçamental de que há memória - aliás sem evidentes resultados práticos.
Isto, de algum modo, responde à perplexidade de Alegre: entre o original e a cópia, os eleitores europeus preferem o original. Os socialistas precisarão de novas receitas governativas para liderarem futuros ciclos de poder. O problema é que nenhum deles as inventou ainda.
Imagem: cartaz do Partido Socialista Italiano (1890)