Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2012
por José Meireles Graça

As pessoas têm de entender que, aos tiros e a meter gente na prisão, a única coisa que estamos a fazer é a oferecer um mercado de narcotráfico”, argumentou José Mujica.

 

Não sabia quem era José Mujica. Fui ver. Não fiquei exactamente encantado: Mesmo concordando - e concordo - com a declaração, e reconhecendo que o homem tem um aspecto simpático de avô bem-disposto, e um estilo de vida que não invejo mas se impõe à admiração, suponho que teria outro peso se proferida por quem não carregasse um passado tão sombrio.

 

Depois, a afirmação que fez de que "não se vota uma lei porque tenho maioria no Parlamento. A maioria tem de acontecer nas ruas” - gela o sangue: só se sabe o que pensa a rua em eleições livres. Sem eleições livres, não se sabe senão o que pensa a parte da rua barulhenta e festiva, que é uma pequena parte. E, sendo isto assim, a legitimidade do Parlamento não tem que pedir meças à da opinião que desfila aos gritos, espontânea ou não.

 

Mas noutra parte do texto diz-se que "uma sondagem recente apontava que 64 por cento da população discordava da legalização". E, a ser fidedigna a sondagem, também aqui tem razão o original Presidente: a bem da segurança jurídica e da estabilidade das instituições, não se pode ter um direito criminal yo-yo, que hoje é assim e amanhã é assado.

 

Quer dizer que, nos sítios mais inesperados, o edifício bem pensante da criminalização da produção, tráfico e consumo de droga, começa a ruir. E tempos virão em que o realismo e a impotência forçarão os poderes públicos a preocuparem-se menos com um consumo que não podem erradicar, e mais com a criminalidade que lhe está associada e que, essa sim, pode ser inteligentemente combatida.

 

Mas - curioso mundo, este! - do mesmo passo que aqui e ali o senso vai fazendo o seu caminho para se tornar comum, também aqui e ali se vão criando condições para o contrabando, a clandestinidade, o policiamento e a corrupção.

 

A Lei Seca finou-se há muito. A mentalidade que lhe subjazia está aí, pujante. Se fosse cínico, diria que quanto mais tudo muda mais parece na mesma.

 


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Sexta-feira, 20 de Abril de 2012
por José Meireles Graça

Gente ingénua acredita que as campanhas anti-tabágicas, as proibições, as coimas, têm que ver com a defesa do direito dos não-fumadores a não serem fumadores passivos.


E os próprios não-fumadores acreditam que, se por momentos sentirem nas narinas o horrível aroma inconfundível do tabaco, a palpitação que imediatamente os aflige é já o prenúncio do cancro no pulmão que, infalivelmente, os vai abater dali a uns anos.


Estas crenças nasceram nos Estados Unidos, acompanhadas dos devidos estudos "científicos" - a moda dos wacko studies é uma criação local, mais genuína aliás do que as aculturações, que consistem em pegar numa tradição qualquer estrangeira, retirar-lhe o gosto e o requinte, se o tiverem, e acrescentar-lhe a marca do rebotalho local. Daí que seja normal o Presidente deixar-se fotografar vestido de cow-boy e com os pés em cima da secretária - a grosseria fica automaticamente promovida a autenticidade. O Povo gosta, exactamente como gosta de junk-food e pelas mesmas razões porque ainda hoje não sabe usar em simultâneo o garfo e a faca.


Infelizmente, naquela terra onde se incrustou a moda dos bonés com a pala a proteger o pescoço - a ver se o cidadão, no caso de não ser negro, se tisna de modo a ficar com aspecto de garnizé - existe uma tradição puritana. E essa tradição, que a modernidade oficialmente nega, manifesta-se na obsessão com o sexo, o crime e o castigo, e a repressão dos vícios.


Daí que a defesa dos direitos dos não-fumadores nunca tivesse sido, nem seja, mais do que a desculpa bem-pensante para impôr a virtude do corpo são, a ver se a alma também fica - sã.


Não acreditam? Pois leiam. Fernando Leal da Costa, esse, já deve ter lido, e no original, que o homem é Americano avonde.

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Quinta-feira, 12 de Abril de 2012
por José Meireles Graça

Imagine que lhe entra pela porta dentro uma dupla de frades, brandindo ao alto o bastão de Esculápio, um com cara de quem acabou de cheirar merda e o outro sofrendo de alopecia e com o olho reluzente de indignação justiceira. Medieval, não?


Pois bem: esta dupla, aggiornata, quer vir dentro do meu carro certificar-se, sob pena de multa, de que trato bem as minhas netas.


O carro é meu, as netas são minhas, e se se abrir a porta a que o Estado meta o nariz dentro da propriedade das pessoas para ver como tratam a descendência, é lícito perguntar onde, exactamente onde, é que está o limite: porque se não se pode fumar dentro do carro, mesmo com o tecto aberto, também não se pode fumar em casa onde haja crianças - e vá de ir lá espreitar pela janela, se for um rés-do-chão, ou bater (arrombar?) à porta se for um andar; e vá de investigar denúncias de vizinhos maldosos e enxeridos; e vá de checar também a alimentação - muitos chocolatinhos, smarties e junk food, é?; e, já agora, a ginásticazinha, têm feito ginásticazinha os meninos?


Estamos no domínio do abuso, da iniquidade e dos pequenos passos insidiosos para a construção do novo homem, perfeito por prescrição médica e inspecção aleatória, sob a cominação de sanções. Isto só é diferente do totalitarismo comunista no grau e no objectivo: quer-se o homem sem vícios, educado de pequenino, num caso; e no outro a formiga obreira exactamente igual às outras. Agora a golpes de multas e censura social, dantes pelo método mais expedito dos gulags, sempre o mesmo essencial desprezo pela liberdade, que ou é a da diferença ou não é liberdade.


Frade Paulo, esquece: Já me puseste a tratar-te mal, entrando-me com suficiência, superioridade e ameaçadoramente em casa, para a qual não te convidei. Logo eu, que até simpatizava contigo por seres economicista, que é o que todos os ministros também deviam ser. Deixa lá as maluqueiras do teu adjunto, manda-o antes fazer obra útil e fechar a matraca do discurso santarrão. Se fores ver, às tantas tem vícios ocultos - acontece muito a quem anda por aí a verberar os dos outros.


E vê-me mas é essa coisa da sustentabilidade do SNS, onde já tens inimigos que chegue.


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Terça-feira, 10 de Abril de 2012
por José Meireles Graça

Confesso que a Constituição nunca chegou a fazer um estágio na minha estante de livros à espera de vez - sei que era um instrumento para fazer uma sociedade socialista, depois sofreu numerosos remendos para fazer uma sociedade sueca e actualmente coroa o edifício jurídico de um país falido. Se aquando da 30ª revisão o regime e eu ainda existirmos, hei-de ler: expurgada do programa de governo e tralha vária que lá não devia estar, deve dar um volumezinho não demasiado rebarbativo. É que tem coisas boas: Veja-se por exemplo o

Artigo 21.º
Direito de resistência

Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.


Suponho que o que estava na cabeça do legislador, na primeira parte do articulado, eram ordens ilegítimas de quem tem competência para as dar.


Mas se é o próprio Estado que se intromete na casa, na mesa, na cama, nos hábitos e e na vida dos cidadãos, sob pretexto de saber melhor do que os próprios o que lhes convém, o cidadão evidentemente não perde o direito de resistir. E conserva-o mesmo quando a intromissão recolhe a concordância da maioria dos cidadãos - a ditadura da maioria é tão abominável como outra qualquer.


Este até agora desconhecido cavalheiro quer proibir as máquinas de venda de tabaco, além de outras medidas para "criar condições para termos um maior número de fumadores que desiste de fumar".

 

Eu compro o meu tabaco sempre nos mesmos sítios, não tenciono deixar de fumar, e o que os meus concidadãos, incluindo este cruzado abusador e prepotente, pensam dos meus hábitos, não me interessa particularmente. Conheço-te de algum lado, ó iluminado que imaginas ter mandato para me reformar nos vícios? E quem te dá o direito de ires a estabelecimentos comerciais remover máquinas que não oferecem riscos senão a quem os quer correr?


Esta patetice, como algumas das anteriores, vai reforçar os incentivos para o contrabando de tabaco, diminuir a receita do Estado, criminalizar comportamentos e, em conjunto com a extensa lista de outras medidas higieno-fascistas, prolongar por algum tempo algumas vidas.


As daqueles que acabarão miseravelmente amontoados nos lares de terceira idade, com as autoridades e as famílias a rosnar por causa da despesa. Esquecidos deles próprios e cheios de saúde, que é como se acha que se deve morrer hoje em dia.


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Sábado, 3 de Dezembro de 2011
por João Gomes de Almeida

 

Sou fumador e adoro fumar de quando em vez o meu charuto. Sei que existe bastante preconceito quanto ao tabaco nacional, mas tenho-vos a dizer que aprecio bastante o tabaco açoriano (talvez por influência familiar). Os meus charutos portugueses favoritos são os Coroa, coronas feitos na Fábrica de Tabaco Estrela e aprecio também os Real Feytoria, produzidos na Fábrica de Tabaco Micaelense, aberta desde 1886.

 

Para quem acha que fumar charutos é uma coisa burguesa, fique sabendo que uma caixa de 5 charutos reserva Real Feytoria custa menos que dois maços de tabaco Marlboro. Querem melhor prenda de Natal para um fumador?


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