Domingo, 20 de Maio de 2012
por Pedro Correia

 

Começou por ser um pesadelo. Depois parecia um sonho inatingível. Mas tornou-se realidade: há precisamente dez anos Timor-Leste conquistou a independência. O jornal i fez uma excelente reportagem em Díli, assinada por Mónica Menezes, acompanhando o último dia de José Ramos-Horta como Presidente do mais jovem país de língua oficial portuguesa antes de ceder a chefia do Estado a Taur Matan Ruak. É uma reportagem cheia de pormenores deliciosos, com o próprio Ramos-Horta a servir de anfitrião em sua casa - na presença da mãe, D. Natalina - e de motorista, ao volante de um caddy azul, sem seguranças. O Nobel da Paz de 1996 age com a desenvoltura de um cidadão comum: o facto de ter convivido com os grande do mundo não lhe subiu à cabeça.

Ramos-Horta ri e faz rir. "Buzina a quem passa. Acena aos que ainda ficam incrédulos por verem o Presidente da República ali mesmo ao seu lado." E confidencia inesperadamente à jornalista: "Como sou meio preguiçoso a dobrar camisas, peço à minha irmã. Só quando estou para viajar é que penso que dava jeito ter uma mulher."

Leiam: tenho a certeza de que vão gostar. É um exemplo de bom jornalismo.

Foto: António Pedro Santos (jornal i)


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Domingo, 18 de Março de 2012
por José Adelino Maltez


 

Sou  mesmo um romântico, um daqueles que, como Hernâni Cidade disse, lhe sobe o coração à cabeça. Por isso, vou dar uma aula sobre teoria da lei e interpretação do direito, assim com Savigny pelos começos, sem seguir as preferências marxianas do Professor Barata Moura sobre a matéria. Como lhe confessei um dia, na barra do Kwanza, ainda acredito que, no mundo afro-asiático, o direito pode ser expressão directa da consciência jurídica popular, uma produção instintiva e quase inconsciente, onde há um espírito particular, e o mesmo é gerador da poesia, dos costumes, da língua e de outros segregados da história. Por isso, levei para as aulas Ruy Cinatti e Luís de Camões, que hoje é o primeiro de Dezembro e aqui não é feriado, porque o foi na passada sexta-feira, dia da declaração unilateral da independência pela Fretilin, em 1975, coisa parecida ao que tentou D. António, o Prior do Crato, em 1580, antes da chegada do invasor que também herdou, comprou e ocupou...

 
Mas os sessenta anos de "integração" no império dos habsburgos de Madrid fizeram com que se gerasse uma literatura autonomista que também criou essa comunidade imaginária que é a nação portuguesa, este fingir que é verdade aquilo que na verdade sentimos, pese embora os muitos da elite que continuam a preferir um qualquer Filipe II, em nome da  racionalidade importada e da possibilidade de ascensão ao tacho internacional, com que os multinacionais costumam premiar Cristóvão de Moura e Miguel de Vasconcelos. Timor Lorosae ainda tem muita poesia por cumprir, muitas Actas das Cortes de Lamego para falsificar, muito sebastianismo para subverter os instalados. Aqui ficam os últimos versos do Cancioneiro de Cinatti:
 
Praia presa, adiantada
no mar, no longe, no círculo
de coral que o mar represa.
Praia futura invocada.
 
Timor ressurge das águas,
praia futura invocada.
 
Molho o meu sangue na alma
da bandeira que mais prezo,
porque tenho nela a voz
da minha candeia acesa.
 
Sou transparente ao luar
da minha candeia acesa.
 
Senhor da terra, das águas,
do ar e dos milheirais.
Senhor Mãe e Senhor Pai,
dai-me um desejo profundo.
 
Que eu seja senhor de mim!
Dai-me um desejo profundo.
De monte a monte, o meu grito
soa, soa, como voz
de um eco infinito
ecoando em todos nós.
 
Timor cresce como um grito
ecoando em todos nós.
"A boca emudece, a voz apaga-se"

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