Sexta-feira, 28 de Junho de 2013
por Pedro Correia

Um homem mata a mulher, de quem estava separado, e uma amiga dela, suicidando-se a seguir. Escassas semanas depois, a tragédia repete-se - com outro assassino e outras vítimas.

Aconteceu recentemente em Portugal.

Como já previa, não tardaram os depoimentos televisivos a desresponsabilizar os actos criminosos. Há sempre teses socialmente correctas para justificar os actos mais repugnantes.

Um canal generalista abordou o assunto, com a seguinte legenda em letras maiúsculas: "Crise e problemas financeiros explicam depressão social". Enquanto a voz da jornalista procurava configurar a situação desta forma: "Um futuro sem esperança para um presente em crise".

Os crimes concretos, com vítimas concretas, diluem-se nesta amálgama de frases destinadas a "explicar" a inadmissível violência homicida por factores sociais e até políticos. E nestas ocasiões nunca faltam psiquiatras a conferir um atestado de respeitável validade à tese implícita de que o gatilho é premido pela "sociedade" e não pelos assassinos.

"Numa sociedade deprimida há uma grande falta de esperança, as pessoas não têm perspectiva de futuro. Esta desesperança pode levar algumas pessoas a atentar contra si e contra outros", explicava um psi.

"As situações de crise, com desemprego e endividamento, são fundamentais na saúde mental dos portugueses", justificava outro.

A voz da jornalista insistia: "O consumo de antidepressivos aumentou, os casos de depressão também."

Pasmo com tudo isto - incluindo a sugestão de relação directa entre o consumo de antidepressivos e a morte de mulheres às mãos de maridos e companheiros. Pasmo com a pseudo-modernidade a pretender "contextualizar" os mais bárbaros atavismos com palavras de compreensiva condescendência. Pasmo com este cíclico jogo de passa-culpas dotado de um pretenso aval científico.

Como se os algozes fossem vítimas e estas, para merecerem um mínimo de respeito público, tivessem de ser assassinadas segunda vez.

 

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Domingo, 24 de Fevereiro de 2013
por Joana Nave

Quantas vezes dou por mim a dizer: gosto disto, e disto, e mais isto, mas não gosto daquilo, e do outro, e mais outro. Parece simples definir os gostos de cada um, mas na verdade é uma tarefa muito difícil e da qual poucas vezes tomamos consciência. Há aquelas pessoas que são conhecidas por não gostarem de nada e outras que parece que gostam de tudo. O gosto de cada um varia vezes sem conta ao longo da vida e é bem mais fácil definir o que não se gosta do que o contrário. Os gostos definem a individualidade do ser humano, mas são ilimitados no alvo a que se referem. A importância de definir gostos facilita o relacionamento com os outros, pois pessoas semelhantes tendem a aproximar-se para partilhar o que têm em comum.

Quando penso na definição de gostos vem-me à memória o filme "Runaway Bride", em que Júlia Roberts é uma mulher que tem fobia ao casamento e por isso deixa sistematicamente os noivos no altar. Porém, a particularidade desta personagem está relacionada com o facto de não se conhecer a si mesma e por isso não saber o que quer. Claro que numa comédia romântica não pode faltar um homem interessante que desafia esta mulher a descobrir quem ela é, do que gosta e o que lhe dá prazer. Há uma cena caricata no filme em que ela resolve descobrir como gosta dos ovos, experimentando todas as formas em que podem ser confeccionados. A questão é que há coisas que temos de saber por nós mesmos como queremos e gostamos, pois a indefinição do gosto faz com que nos transformemos sempre na sombra de outra pessoa que não aquela que nós somos. Querer agradar aos outros é um gesto nobre se não nos anularmos a nós mesmos, se não deixarmos de ser quem somos. A identidade de cada indivíduo está assente num conjunto de gostos que o definem como fazendo parte de um determinado grupo. É difícil sermos totalmente diferentes uns dos outros até porque a vida em sociedade é mais fácil e enriquecedora. Se cada um de nós tiver de descobrir tudo sozinho, dificilmente poderá ir muito longe. No entanto, se soubermos o que realmente queremos e, de acordo com isso, nos aproximarmos dos nossos semelhantes, mais depressa atingiremos um bem-estar de equilíbrio e partilha no seio do grupo que nos define.

A vida que levamos é uma correria desenfreada assente em querer e ter. O tempo que dedicamos a conhecer-nos de verdade é limitado e, por isso, somos uma miscelânea de todos aqueles com quem nos cruzamos e que nos afectam de forma mais ou menos intensa. Costumo dizer que sei exactamente o que quero, mas quem me conhece bem diz que apenas sei o que não quero. Fico feliz, porque já é um princípio, agora resta-me abrandar o ritmo e entender realmente o que quero.


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Domingo, 27 de Janeiro de 2013
por Joana Nave

Quando éramos miúdos gostávamos de brincar às profissões. Os meninos queriam ser bombeiros, astronautas, mecânicos, jogadores de futebol; as meninas queriam ser cabeleireiras, professoras, secretárias, enfermeiras; entre muitas outras coisas. Estas brincadeiras deliciavam-nos, mas estavam quase sempre desenquadradas da realidade. Os nossos pais educavam-nos para que tirássemos boas notas e prosseguíssemos os estudos. A menos que não houvesse capacidade financeira, quase todos queriam que entrássemos na universidade e tirássemos um curso superior que nos permitisse autonomia e sustentabilidade futura. Muitos pais condicionaram as escolhas dos filhos, antevendo dificuldades de integração no mercado de trabalho, outros, porém, alimentaram os seus sonhos na tentativa de permitirem que os filhos pudessem alcançar a liberdade de escolha que lhes havia sido negada quando tinham a mesma idade.

Todos temos histórias distintas, o contexto sócio cultural, a educação e as escolhas, que se misturam com as nossas aptidões e o nosso carácter, conduziram-nos por diferentes caminhos. Hoje em dia, muitos de nós estão frustrados e queriam voltar atrás, mas tal não é possível, o caminho é sempre em frente, ou então estagnamos e morremos na teia das nossas amarguras e desilusões. Escolher uma profissão é um risco que nos pode trazer maior ou menor retorno consoante as possibilidades que nos surjam. No entanto, o principal é sermos versáteis, flexíveis e adaptarmo-nos constantemente à mudança. Mais do que as competências técnicas, aquilo que se valoriza é o carácter do ser humano e a sua capacidade de inter-relacionamento. A técnica é algo que se aprende e que, independentemente de haver alguma aptidão prévia, se desenvolve com maior ou menor esforço, mas as qualidades humanas são inatas e condicionam tudo o que fazemos no nosso dia a dia. Seremos sempre melhores profissionais, se tivermos qualidades humanas que atestem os nossos princípios e valores.

As profissões e o mercado de trabalho estiveram sempre desajustados das reais necessidades, o que tem provocado elevadas taxas de desemprego ao longo dos anos. Saber o que se gosta é importante, mas vale muito pouco se não houver oportunidade de exercer essa atividade no mercado de trabalho. Não chega fazer o que se gosta ou ter uma boa remuneração, é fundamental avaliar o que se precisa e trabalhar para colmatar essas necessidades. A verdade é que nada de grande se consegue sem esforço, ninguém tem o que quer sem lutar para o conseguir e, nessa luta, há muitos passos: uns para trás, outros para o lado, uns em falso, outros arrastados; mas a certeza que o caminho é sempre em frente.


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Quarta-feira, 3 de Outubro de 2012
por Rodrigo Saraiva

O Barcelona fez 770 passes e marcou dois golos. Eu tenho um passe e sofro 770 greves.

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Terça-feira, 2 de Outubro de 2012
por Joana Nave

Um pormenor tem, ou não tem importância? Existirá por certo muita divergência na resposta a esta pergunta. O pormenor é um detalhe, algo que pode ser acessório ou fulcral, dependendo do contexto em que se aplica. Por um lado, associa-se a característica do pormenor a uma pessoa que se perde em detalhes, por outro, a alguém que lhes dá valor. É tudo uma questão de perspectiva.

Estar atento a pormenores pode ser uma real perda de tempo, onde se deixa de ser objectivo para dar destaque ao que é supérfluo. Contudo, há momentos que se traduzem em pequenos pormenores, que fazem toda a diferença e que perpetuam lugares, palavras e gestos. Um pormenor pode não significar nada, pode ser banal, mas também pode ser um marco decisivo numa vida singular.

No indie Lisboa deste ano passou um filme – The Loneliest Planet – em que um pormenor muda radicalmente a vida de um casal, como descrevi num artigo que escrevi sobre o festival e que agora transcrevo: “O The Loneliest Planet de Julia Loktev é um filme surpreendente, que nos remete para as bonitas paisagens das montanhas do Cáucaso, na Geórgia, onde um jovem casal, alguns meses antes do casamento, resolve passar umas férias. A paixão que os envolve é notória desde o primeiro instante, mas há um momento no filme, um momento singular, que muda todo o rumo da história e coloca em causa tudo o que até então unia este casal. Neste enredo, a importância de certos gestos, aliada aos impulsos inerentes a qualquer ser humano, revela a complexidade e fragilidade das relações humanas e deixa-nos a pensar...”

Eu gosto de pormenores, tanto dos acessórios como dos fulcrais. Gosto de esmiuçar o sentido das coisas, de lhes captar o odor, a essência, de as sentir. Por vezes, perco-me no meio de tanto detalhe, torno-me subjectiva, redundante, mas é nos pormenores que encontro a beleza que liga tudo o que existe no universo, porque valorizo cada partícula como fazendo parte de um todo em que estamos inseridos.


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Domingo, 23 de Setembro de 2012
por Joana Nave

Gosto dos primeiros dias de Outono. As primeira chuvas que limpam o ar saturado da época estival. O odor a terra molhada e as folhas que começam a cair e se amontoam pelos passeios.

Nos últimos anos as estações do ano foram-se dissolvendo umas nas outras acabando por se resumir a Verão e Inverno. No entanto, sente-se a falta das estações intermédias Outono e Primavera. O ser humano, tal como a natureza, precisa de um período de transição para arrumar o que ficou para trás e preparar a chegada do que vem a seguir. De certa forma, todas as coisas da nossa vida devem obedecer a esta regra para mais facilmente obtermos equilíbrio entre os vários acontecimentos com que nos deparamos.

Claro que gosto do calor mas já não tenho vontade de ir à praia, apetece-me mudar de lugares, de programas, de cores e texturas. Tenho até vontade de caminhar à chuva e de me fundir com a natureza. Preciso inclusive de mudar de sabores, trocar as saladas pelos pratos mais condimentados, os sumos de fruta pelos chás fumegantes e o chocolate quente, onde invariavelmente aqueço as mãos frias.

O Outono é uma época maravilhosa que sempre me soube a regresso às aulas e o início de um novo período de aprendizagem. Em cada Outono sempre aprendi mais, conheci novas pessoas e aprofundei o meu desenvolvimento pessoal.

Estamos sempre a recomeçar mas é no Outono que o podemos fazer de forma mais concreta, mais até do que no início do ano. Após o período de férias há que reajustar os nossos objectivos de curto, médio e longo prazo. Eu sempre norteei os meus passos pelo ano lectivo, porque faz mais sentido para mim.

Com o Outono surge o cheiro a castanhas assadas pelas ruas, fazem-se planos para o novo ano e ajustam-se os últimos meses deste, para fazer aquelas coisas que não queremos adiar mais. Eu, por exemplo, costumo viajar para não perder a oportunidade de conhecer novos lugares ainda este ano.

Claro que todas as épocas têm vantagens e desvantagens mas, tal como na vida, devemos procurar apreciar o lado bom de tudo o que nos rodeia. A amargura dos dias só nos traz mais dor. Porque não iniciar este dia sendo gratos pela manhã cinzenta que nos permite um programa indoor mais tranquilo? É tudo uma questão de perspectiva e lutarmos contra o que é não nos vai permitir ver a beleza do que temos presente e que, tal como na natureza, faz parte do nosso equilíbrio.


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Sábado, 15 de Setembro de 2012
por Joana Nave

Estou nos preparativos finais para ir para um casamento e, como tal, lembrei-me de divagar um pouco sobre este tema. O casamento significa união entre duas pessoas e pressupõe uma relação de intimidade. Para a sociedade civil o casamento é visto como um simples contrato, para a Igreja uma união sagrada com o objectivo da procriação. Para mim o casamento é de facto uma união entre duas pessoas, que assumem um compromisso de se amarem e respeitarem incondicionalmente. Sou uma romântica? Talvez. Mas o que importa é o que faz sentido para cada um de nós.

Antigamente os casamentos eram combinados entre os pais, discutiam-se os dotes, as meninas tinham de casar muito jovens, por vezes com homens muito mais velhos, e a virgindade era uma condição obrigatória. Nalguns países subdesenvolvidos e com tradições muito fortes ainda subsistem estas práticas. O casamento fazia com que tanto homens como mulheres se entregassem a um contrato vitalício onde não existia amor. Quantos corações foram despedaçados por não poderem estar com a sua amada ou o seu amado.

Hoje em dia, na maioria dos países desenvolvidos, as pessoas são livres de casar, não casar e até de casar com pessoas do mesmo sexo. A liberalização dos divórcios conduziu à propagação dos mesmos, assente na premissa da sua fácil dissolução.

O que está aqui em causa é a motivação que cada um de nós tem para contrair matrimónio à luz da sociedade em que vivemos. Não sou casada e estou naquela idade em que as pessoas começam a olhar para mim com desconfiança, pensando se não serei uma dessas mulheres egoístas, focadas na carreira, que não querem ter um marido ou filhos atrelados. A verdade é que os tempos mudaram e aos meus pais nunca passaria pela cabeça arranjarem-me um noivo. Eu muito menos estaria disposta a uma relação de submissão e entrega sem amor.

A maioria dos jovens inicia a sua vida sexual muito cedo acabando por banalizá-la, são raras as pessoas que ainda sonham em perder a virgindade com o casamento. E afinal, que mal há nisso? Ninguém disse que há fórmulas perfeitas, que ter apenas um namorado ou namorada na faculdade e depois casar e ter filhos é o expoente máximo da felicidade. Quantas pessoas sentem ao fim de alguns anos que deviam ter aproveitado mais a juventude, para que o casamento surgisse naturalmente numa fase em que estavam mais tranquilas.

Eu norteio a minha vida por objectivos e sinto que o caminho que fiz até agora foi não só o que escolhi mas também o mais certo para mim. Aproveitei a juventude, terminei a minha licenciatura, comecei a trabalhar e tenho procurado encontrar realização nas coisas que fazem sentido para mim, na minha família, nos meus amigos e nos meus vários interesses. Sou quem sou por tudo o que vivi e orgulho-me de todos os dias, mesmo daqueles em que não gostei assim tanto de mim mesma. Então e o amor? O amor há-de surgir quando tiver de ser. Eu dou amor a todas as pessoas que se cruzam no meu caminho, um amor desinteressado e espiritual. Sei que as relações são complicadas, as pessoas nem sempre estão no mesmo nível de entendimento e nem sempre querem as mesmas coisas, por isso é importante não desistir, ir tentando encontrar o sapatinho que encaixa no nosso pé. Não tem mal nenhum namorar, viver junto ou ter intimidade, porque são essas coisas que revelam se a relação resulta ou não.

Eu, apesar de tudo, acredito no casamento, acredito que todos temos qualidades e defeitos, que uma relação a dois e depois com filhos é complexa mas ao mesmo tempo um enorme desafio, e se eu gosto de desafios. Por isso, um dia vou querer um anel de noivado, um casamento e uma lua-de-mel. E vou querer que o meu amor floresça e dê frutos mas, se assim não tiver de ser, aceitarei o meu destino, porque tudo está bem quando vivemos com amor.


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Sábado, 8 de Setembro de 2012
por Joana Nave

Ter um psicólogo está na moda. A grande enfermidade do século XXI é a chamada consciência ou inconsciência que nos andam a tramar a vida. Há uns anos atrás as pessoas sofriam de dores reumáticas, insuficiência cardíaca, problemas respiratórios, para citar apenas alguns exemplos. As receitas consistiam em comprimidos milagrosos, pomadas e umas férias numas termas. Hoje em dia tudo reside num factor psicológico que está associado a traumas ganhos na infância e que condicionam toda a nossa vida enquanto não forem libertados. A ideia não é acusar os pais de terem educado mal os filhos, mas de terem tido comportamentos que lhes transmitiram medo ou insegurança. A lista é grande e variada: pais que casaram cedo, pais que casaram tarde, pais que não casaram, pais que se divorciaram, pais que discutiam, pais que não demonstravam afecto, e por aí fora.

Os traumas são uma excelente desculpa para evitar encarar a realidade ou assumir um compromisso, porque todas as pessoas têm uma enorme compaixão por quem está preso aos fantasmas do passado. Sinceramente, não entendo como podemos ser mais seguros ou capazes estando dependentes de uma terceira pessoa que orienta os nossos passos. Interesso-me por psicologia na medida em que entendo a mente humana como uma teia complexa de estímulos racionais e irracionais, que podem ser programados. O papel do psicólogo é ajudar-nos a equilibrar estes estímulos para que os usemos de forma a melhorar o nosso bem-estar.

Antigamente os amigos assumiam o papel de psicólogos uns dos outros, mas a sociedade evoluiu permitindo-nos ser mais independentes e, consequentemente, mais egoístas. Ninguém tem paciência para ouvir o desabafo de um amigo quando a sua própria cabeça está numa turbulência contínua. Na minha opinião, quando queremos encontrar respostas para as nossas dúvidas internas o melhor mesmo é distanciarmo-nos e colocar o que nos preocupa em perspectiva. O psicólogo não nos vai dar as respostas que temos de encontrar dentro de nós mesmos, mas vai orientar-nos nesse sentido. Como seres humanos todos precisamos de expressar o que sentimos de forma mais ou menos racional, uns fazem-no através da expressão artística, outros através da escrita, outros através da expressão oral. Independentemente da forma que adoptamos, o mais importante é que faça sentido para nós.

Outro dia um amigo meu contava-me que no seu entender as relações não resultam porque as pessoas se envolvem pelo sexo e não fazem programas interessantes a dois. Ele gostou de uma pessoa com quem fez um programa cultural muito interessante e tem como referência que uma relação para resultar tem de passar por um programa assim. Claro que para muitos casais esta fórmula irá funcionar, mas outros hão-de achá-la verdadeiramente aborrecida. Cada pessoa é diferente e única e acho que a fórmula que funciona para todas as relações é sermos nós próprios, sentindo mais e fazendo menos.


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Sábado, 1 de Setembro de 2012
por Joana Nave

Há momentos nas nossas vidas que são verdadeiramente únicos. Nesses momentos gostávamos de poder parar o tempo para que as sensações que nos provocam durassem para sempre. Quando nos sentimos felizes estamos perante um desses momentos únicos e, naquele instante, a nossa mente é surpreendida por uma estranha clarividência em que tudo faz sentido e parece até que todos os caminhos percorridos e todos os acontecimentos do nosso passado serviram apenas para nos conduzir àquele momento. Temos de estar plenamente no presente para poder viver o momento e atribuir-lhe a devida importância.

Já vivi alguns momentos únicos de imensa felicidade que gostaria que tivessem durado para sempre, mas também vivi outros menos bons que não posso apagar com uma borracha porque também fazem parte da minha vida. Um dos momentos menos bons que vivi serviu também o propósito de me conferir um grande entendimento sobre a importância do tempo. Esforçamo-nos por viver da melhor forma, mas perdemos demasiado tempo com coisas e pessoas que não nos servem. Não é possível gostar de tudo e de todos, é preciso saber em primeiro lugar o que queremos e o que não queremos para podermos fazer escolhas conscientes de acordo com a nossa própria vontade.

Lembro-me de uma pessoa que uma vez me convidou para almoçar. Inicialmente pensei em recusar porque tinham-me dito que era muito aborrecido e interesseiro, mas resolvi dar o benefício da dúvida porque o que é mau para uns pode ser bom para outros, mesmo aborrecido e interesseiro não sendo características que possam favorecer alguém. O almoço decorreu com normalidade, embora se tenha tornado gradualmente mais aborrecido e interesseiro. A dada altura o meu interlocutor resolveu proferir uma frase muito importante para ele: “a vida é demasiado curta para perdermos tempo com quem não vale a pena”. Não imaginam como, naquele instante, a minha mente se iluminou de clarividência. Quem estava a perder tempo com quem não valia a pena era eu e apenas por educação fiquei sentada na mesa a contar os minutos que estava efectivamente a perder. No entanto, senti-me feliz por ter entendido a importância de viver o momento, mesmo que tenha sido para descobrir que os meus amigos estavam certos e que aquela pessoa era mesmo aborrecida e interesseira.


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Sábado, 25 de Agosto de 2012
por Joana Nave

A minha vida dava um filme do Woody Allen, uma verdadeira tragicomédia com todos os ingredientes do drama e da comédia. Sou uma grande fã do cineasta e tenho um ficheiro em excel com toda a filmografia, onde vou anotando todos os filmes que já vi, os que compro e os que me faltam ver. Gosto de todos, mas tenho os meus preferidos, aqueles que são de alguma forma mais Woody Allenescos. As dúvidas existencialistas, as peripécias do dia-a-dia, o medo da morte e as relações disfuncionais compõem os dramas mais comuns.

Muitas vezes penso que podia ser uma determinada personagem e identifico-me com a história, sofrendo ou regozijando-me com o desfecho. É tão fácil sentirmo-nos meio perdidos, meio tontos, umas vezes tristes, outras contentes, porque a vida é esta linha cheia de curvas e contracurvas que ocultam sempre o que vem a seguir. Numas alturas somos o inferno, noutras o céu, e é esta busca incessante pelo equilíbrio que nos faz acordar em cada manhã. Se tudo corresse de acordo com as nossas expectativas, se as relações humanas fossem simples, a vida não teria qualquer sentido e, de repente, os consultórios dos psicólogos encher-se-iam de pessoas terrivelmente desgostosas com a sua imensa felicidade.

O ser humano é complexo e é isso que o torna interessante. A vida é uma permanente caça ao tesouro. Atravessamos continentes, cruzamos oceanos, para um dia encontrarmos a paz e a serenidade, quase sempre e invariavelmente no leito da morte. Procura-se alcançar a tranquilidade de morrer porque se cumpriu o destino, ou simplesmente porque se aceita o que se viveu sem mágoa nem julgamentos.

Eu, uma personagem tipicamente Woddy Allenesca, gosto da complexidade da vida, interesso-me pelo estudo do comportamento humano, as contrariedades da psique e tudo o que diga respeito às relações sociais. Considero que entender quem somos é um desafio que nos manterá eternamente activos, porque ao longo de séculos de história fomos sempre surpreendidos pela evolução. O desenvolvimento é tão extenso para o mal como para o bem, e é por isso que é tão importante alcançar o ponto médio que nos equilibra e sustém no arame em que percorremos os nossos dias.


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Sábado, 28 de Julho de 2012
por Joana Nave

Distinguir a realidade da ficção pode ser uma odisseia bem complexa para o ser humano. Desde pequenos somos motivados a desenvolver a nossa criatividade e imaginação. Ao longo da vida a originalidade é premiada com louvor e glória. Se queremos ir mais longe, temos de ser mais ousados, mais afoitos, mais criativos. Criar é assim um acto de tornar em matéria um simples pensamento, que surge na nossa cabeça de forma mais ou menos espontânea. Parece pois absurdo que seja precisamente a imaginação desenfreada a causa de tantas doenças do foro psicológico. A panóplia de enfermidades é tão ou mais criativa que a própria imaginação: Esquizofrenia, Parkinson, Alzheimer, TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo), Hipocondria, Narcolepsia, Bipolaridade, Anorexia Nervosa, Bulimia, apenas para nomear algumas.

A questão que me perturba é a forma como estas doenças são muitas vezes usadas com elevada inteligência pelos seus portadores, influenciando a realidade em que vivem e induzindo aqueles que os rodeiam. Confesso que tenho alguma dúvida em relação à cura destas doenças, pois uma mente perturbada muito dificilmente encontrará forças para se libertar ou será permeável a ajuda externa.

Há um filme que ilustra na perfeição este tipo de patologias neurológicas – “À la folie... pas du tout” de Laetitia Colombani, com Audrey Tautou e Samuel Le Bihan. O filme conta a história de uma jovem mulher (Angélique), artista plástica, com uma carreira promissora pela frente, que se apaixona por um homem casado (Loïc). Na mente de Angélique, Loïc corresponde ao amor que ela lhe tem, trocam presentes, planeiam uma viagem, mas ele não deixa a mulher e ela sofre com isso e espera… Enquanto espera, a sua obsessão leva-a a atropelar a mulher de Loïc, que espera um filho deste, e que Angélique julga o verdadeiro entrave à separação do casal. Quando vemos a realidade através da mente de Loïc tudo se torna claro e é bem visível a doença que perturba Angélique e a faz confundir a imaginação com a realidade, tornando-a perigosa, mas irresponsável pelos seus actos…


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Quarta-feira, 21 de Março de 2012
por Francisca Prieto

N-A-D-A, era o que eu achava.

 

Há seis anos, poucos meses depois de eu ter tido uma filha com Síndrome de Down, a imprensa brasileira anunciava que o Romário tinha sido surpreendido, também ele, com um cromossoma a mais na descendência.

Mas como é que um futebolista com cara de analfabruto, ainda que deputado federal (só no Brasil, meu Deus), podia ter alguma coisa para me ensinar? Pfffff.

 

Hoje, no dia Mundial da Síndrome de Down, poucos dias depois de ter visto este vídeo, venho pespegar-me publicamente dois pares de estalos e penitenciar-me pelos meus preconceitos. Porque o Romário verbaliza num discurso claríssimo, usando todas as palavras nos lugares certos, todos os sentimentos que, nos últimos seis anos, têm saltitado da minha alma para o meu coração, sem que lhes tenha conseguido dar forma. Parece que afinal sou eu, que tenho tanto jeito para redacções, que sou a analfabruta. E deve ser por isso que, muito provavelmente, nunca chegarei a deputada federal.

 

(Romário a partir do minuto 1.50)

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Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012
por Francisca Prieto

 

Em 1974, Emily Kingsley, uma das argumentistas da famosa série televisiva Rua Sésamo, teve um filho a quem foi diagnosticado Síndrome de Down logo nas primeiras horas de vida.

 

Foi-lhe dito pelo médico assistente: “Your child will be mentally retarded. He’ll never sit or stand, walk or talk. He’ll never read or write or have a single meaningful thought or idea. The common practice for these children is to place them in an institution immediately”. O médico foi tão longe que chegou a aconselhá-la a ir para casa e dizer aos amigos e familiares que a criança tinha morrido à nascença.

 

Em 2012, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, convidou a actriz Lauren Potter, portadora de Síndrome de Down, para assessora do Comité para Portadores de Deficiência Intelectual.

 

A actriz, famosa pela sua participação na série televisiva Glee, partilhará com o líder mundial os seus pontos de vista sobre temas tão relevantes como a educação, a posse de habitação ou a profissionalização de pessoas com este tipo de deficiência.

 

Potter irá juntar-se a outros 33 oficiais do governo para trabalhar na mudança e Obama sente que se trata de um elemento com uma enorme mais valia. Afirma “Sinto-me grato por estas talentosas e dedicadas pessoas terem concordado em desempenhar este papel e dedicarem o seu talento para servir o povo americano. Estou desejoso de trabalhar com eles nos próximos meses e anos”.

 

Não sei quantos pais, mães, professores e técnicos foram precisos durante estes trinta e oito anos para passar de um extremo a outro. Mas sei que serão precisos outros tantos e mais trinta e oito anos para que um dia as Lauren Potters deste mundo já não sejam notícia.

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Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012
por Luís Naves

Peço desculpa aos leitores pelo abuso da vossa paciência, mas ocorreu-me esta reflexão sobre a hipocrisia. Enfim, é um pouco mais alargada, tem outros temas, tenciono proceder aos devidos desenvolvimentos, a ideia andava por aqui a bailar há uns dois anos e assumiu esta forma ainda precária. Não quero parecer um calimero, mas as visitas são escassas e temos de fazer pela vida...

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