Sexta-feira, 4 de Maio de 2012
por José Adelino Maltez

 

As promoções do Pingo Doce foram uma festa, como diria uma qualquer ministra de Sócrates. As massas continuam a ir a toque de caixa. Não para a revolução, mas para o rancho. Depois das velhas catedrais da fé e das entusiásticas catedrais da bola, as catedrais do consumo...Eis os sinais dos tempos. Por mim, sou cada vez mais adepto da mercearia do nepalês...tenho o carro gripado, sou adepto da pluralidade dos divinos e gosto mais de ver a bola no sofá.

 

O movimento Pingo Doce gerou uma profunda divisão entre os que se assumem como liberais. Porque alguns deles querem o vazio de regras e outros lamentam que o Estado tenha, por um lado, falta de regras e, por outro, confusão de regras e impotência dos respectivos aparelhos de controlo. O Estado e o mercado são irmãos-gémeos. Eu prefiro menos quantidade de intervencionismos estadistas, para que o Estado possa ser mais forte, isto é, que o poder político seja eficaz na sua superioridade face ao poder económico. Julgo que o D. Sebastião das coimas é ridículo. Preferia voltar a dar dignidade penal às infracções à concorrência leal.

 

Não há liberdade económica com monopólios, monopsónios, oligopólios e oligopsónios, bem como com abusos de posição dominante. Cabe ao Estado regular e coordenar a economia, para os punir. Fala um antigo perito estadual no sector, alguém que até foi, na carreira, subdirector-geral da concorrência. Com o orgulho de ter participado tanto na liquidação dos preços tabelados, como no processo de não condicionamento da vida da grandes superfícies. Mas que não deixou de defender o Estado supletivo e de praticar a punição de prevaricadores públicos e privados, em matérias de oligopsónio, açambarcamento e especulação, com legislação equivalente à dos grandes Estados capitalistas do mundo. A falta que nos faz o velho ministério da coordenação económica...não é um problema de ministro, é um problema de peritos e de estruturas. E dos incompetentes, públicos e privados, que os decapitaram!

 

Tanto falta um adequado normativo interno, incluindo o europeu no contexto, como até há um vazio de uma regulação universal do comércio global. Fala um antigo vice-presidente do comité de práticas comerciais restritivas da UNCTAD. Que, sem ser por acaso, também participou no "julgamento" europeu de várias multinacionais abusadoras. Por cá, apenas temos vagas traduções em calão que estão a experimentar o laxismo do mostrengo, o que tem muita banha, pouco músculo, ossos descalcificados e falta de cérebro. Aquilo a que chamamos Estado...

 

Enquanto a economia, a ciência que trata dos assuntos do homem enquanto membro da casa, pode e deve ser regulada pelo lucro, mas não passa de coisa doméstica, já a política tem a ver com a justiça e começa quando passamos para o espaço público. Seria ofender o clássico princípio da subsidiariedade que o político quisesse ser empresário, ou que o empresário quisesse ditar a moral, a ciência dos actos do homem enquanto indivíduo e restrita à esfera da sua autonomia. De qualquer maneira, seria estúpido e suicida, que o político deixasse de ser a coisa arquitectónica destas sucessivas esferas da cultura, isto é, daquilo que a actividade humana acrescentou ao naturalístico. Isto não é liberal nem socialista, é greco-romano.

 

Peço desculpa, mas não sou neoliberal nem neoconservador. Sou velho liberal. Fiel à tradição da justiça, comutativa, social e distributiva, a que, pelo político procura dar a cada um segundo as suas necessidades, exigindo, de cada um, conforme as suas possibilidades. Esta frase é de Marx, plagiando São Tomás de Aquino e Aristóteles.

 

Não há liberdade sem normas. Não há igualdade sem igualdade de oportunidades. Não há fraternidade sem um espaço público de justiça.

 



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Quinta-feira, 3 de Maio de 2012
por José Adelino Maltez

 

Ontem, devorando, ao segundo, o debate das presidenciais francesas, compreendi como o meu quotidiano está tão dependente das questiúnculas do politiqueirismo francês, quanto do alemão, do italiano ou do grego. Por cá, até Passos Coelho deve estar a torcer pela vitória de Hollande. Com a mesma convicção PPE que Sarkozy demonstrou, ao tentar esquivar-se da camaradagem com Berlusconi. Malhas que a hipocrisia da política europeia tece. "Espelho de enganos, theatro de verdades, mostrador de horas minguadas, gazua geral dos reynos de Portugal"...

 

Daqui a uns anos, os historiadores, ao analisarem as parangonas dos dias que passam na política interna portuguesa, criarão uma nova categoria de sexo dos anjos, a nomeação dos representantes da partidocracia para o Tribunal Constitucional. Ficará para a categoria do riso aquele desabafo de uma ilustre nomeadora da Corte, a que ficou danada quando descobriu que o respectivo indigitado não lhe confessou as respectivas filiações filosóficas, de acordo com a terminologia oficial da comissão europeia. Assim se demonstrou como a nomeação para a vigilância da constitucionalidade assenta em bases mentais materialmente inconstitucionais. Porque é destes meandros e pormenores que se faz o todo. Por isso é que os analistas costumes, que reportam a matéria para o resto do mundo polido e civilizado, apenas nos continuam a incluir na zona das mercearias entrevadas.

 

Poucos terão reparado no pressuposto politicamente correcto em que radica a escolha dos juízes do tribunal constitucional. Se os partidos, em nome do parlamento, escolhem políticos, a escolha é partidária, mas se são condenados a escolher entre magistrados de carreira, ninguém diz que ainda são mais partidários, ao partidarizarem a própria magistratura, ou, pelo menos, a optarem pelos partidos internos que fragmentam a magistratura. A hipocrisia da quota apenas deixa o periscópio de fora.

 

Essa de haver juízes eleitos pelo povo está de acordo com as próprias raízes da democracia, a grega. O problema está nas canalizações enferrujadas dos que os dizem candidatar. Para resolver a questão, poderia haver um verdadeiro concurso público, aberto a quem estivesse disposto a levar o respectivo currículo a escrutínio, mas desde que os avaliadores não tivessem descido da cunha e da golpada.

 

Outra das hipocrisias do sistema está no processo oculto dos avaliadores que não são avaliados. Veja-se, por exemplo, o concurso público internacional na escolha dos reitores e directores das universidades públicas, e outros. Poucos reparam que, previamente, o colégio eleitoral, o dos famosos conselhos gerais, já foi objecto de restrições, desviacionistas das presentes oligarquia e aristocracia. Neste momento, é dos sítios de Portugal onde há maior concentração dos notáveis da banca e dos empresários de regime, com intelectuais oficiosos e ex-partidocratas enfeitando.

 

Este ciclo de regime é bem representado pelo estilo e pela linguagem gestual do seu máximo magistrado, bem como pelas cacafonias discursivas dos partidocratas do centrão e da respectiva teatrocracia. Todos eles são crepúsculo, mas sabendo que a decadência pode levar anos e anos, dado que se refinou o modelo de servidão voluntária. Como a honra continua a não querer consumar o matrimónio com a inteligência, toda a mudança, imprevisível, virá de fora para dentro e pode ocorrer a qualquer momento. No dia seguinte, haverá inúmeros treinadores de bancada, adeptos de La Palisse, que dirão: eu bem tinha avisado, até pus no "site"!

 

Infelizmente, no Portugal Contemporâneo, isto é, pós-vintista, os períodos de liberdade e democracia imperfeita que tivemos, foram sempre produzidos por ditaduras revolucionárias de governos provisórios. Foi assim com a regência, do rei soldado, com o governo dos republicanos, 1910-1911, e com os provisórios de Abril, 1974-1976, quando as comunidades foram agitadas por minorias de serviço, obtendo o consenso comunitário "a posteriori". Surgiram, então, novos regimes que passaram a ser contratos sociais estabelecidos entre os aparelhos de poder e um determinado sistema de valores, o implantado num determinado dia fundador. Infelizmente, já não somos o que fomos, nem podemos voltar a ser o que éramos, como diria Garrett. A não ser que o deus queira, o homem sonhe e a obra nasça.


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Segunda-feira, 23 de Abril de 2012
por José Adelino Maltez

 

A crise portuguesa é muito como outras crises de outros europeus: esperamos que a onda cresça, vinda de fora, e nos arraste. Hoje, estão assim os nossos fascistas, sobretudo os fascistas cobardes ou encobertos, exactamente como estão os socialistas, com saudades do DSK, e os centristas, os efectivamente europeístas. Todos à espera da bela ordem importada e da morte da bezerra.

 

Luc Ferry já tinha comentado o confronto entre Hollande ("um social-democrata tranquilo") e Sarkozy ("um pragmático que desconfia das doutrinas"). Eleições presidenciais em França, ou de como até ao lavar dos cestos ainda é vindima...

 

Os franceses conseguiram saltar o eixo. Nada será como dantes, mesmo que Sarkozy passe pelo buraco da agulha e volte de camelo para o Eliseu.

 

O rotativismo da Eurolândia lá foi a votos, entre um "action man", com um estilo misto de Portas e Sócrates, que põe todas as ideologias na gaveta, por causa da hiper-amnésia, e um socialista de gabinete de planeamento, uma verdadeira estrela no tratamento dos dossiês, que, sem ser por acaso, constitui um galicismo. Infelizmente, a Europa está entalada entre uma espécie de socratismo de direita e um género de esquerda sob o comando de um Carlos Moedas mais crescido, enfrentando uma Joana d'Arc feita madama de água oxigenada e um Jerónimo de Sousa com retórica de Louçã.

 

Apesar de tudo, os interesses de Portugal precisavam de um abanão no eixo franco-alemão. Logo, seria interessante que o sucedâneo de DSK introduzisse uma pequena areia na engrenagem, para que "mais Europa" nos desse folga...

 

As "droites" e as "gauches" precisavam de transfiguração. E tudo passa por um novo objectivo da educação que não queira criar sumos-sacerdotes do cientismo, nem super-gestores da empregadagem dos eternos donos do poder, mas mais sensibilidade às solidariedades sociais e menos dependência face aos "rankings" do sucesso, às famas comunicacionais e ao dinheirinho. Estou a adaptar o que li do manifesto de Jacques Cheminade, contra o cancro especulativo e a oligarquia financeira da City e da Wall Street.

 

A França vai votando. A Itália e a Grécia hão-de votar. Tal como a Alemanha. Infelizmente, somos protectorado, até nas votações. E continuaremos a ter mudanças importadas. Dos eleitorados dos outros. Se a Europa não mudar por dentro, faltam-nos suficientes forças espirituais e materiais para mudarmos domesticamente. E é pena. Porque eu faço parte dos que gostavam de praticar a vontade de sermos independentes. Mesmo na gestão de dependências e na navegação através da interdependência.

 

Um país como o nosso, onde falta extrema-direita, gaullismo de contrapoder, ecologismo e adequado centrismo, tem de admirar a França, a inventora da esquerda e da direita, com os seus clubes de ideias, assentes numa variedade regional e autárquica que é incomparável com o deserto em que nos tornámos. De semelhante, apenas temos, na UMP de Sarkozy, uma réplica da nossa caricatural coligação PSD/CDS; em Mélenchon, um aliado de Louçã; e no PS, um socialismo sem Soares. Por outras palavras, continuamos em atraso.

 

Sarkozy ou Hollande. Serão dois irmãos siameses (Marine Le Pen), ou qualquer deles daria um bom-primeiro ministro do outro? Sarkozy diz que já não há risco de implosão do euro, embora reconheça que a Europa está em convalescença, enquanto Hollande ficou pelo "socialismo habitual" (Bayrou) e as margens do centrismo e do esquerdismo vão bailando, talvez para se transformarem nas novas regiões autónomas do eventual "hollandisme" que diz querer dar "crescimento" à mera "austeridade" da regra de ouro...Por outras palavras, andam todos em Passos Seguros, embora possa desencadear-se um contraciclo europeu...

 


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Sábado, 21 de Abril de 2012
por José Adelino Maltez

 

Sempre que me submeto ao chamado dever cívico de preencher os papéis, mesmo electrónicos, da impostagem, sinto a antiquíssima revolta de rurícolas origens. Sou um simples indivíduo, feito solidão de número fiscal, diante da máquina violentista desse aparelho abstracto que se chama Estado e vai usurpando a República. Sinto saudades da vizinhança, a falta de concelho e o vazio de solidariedades institucionais, como as dos sindicatos, dos partidos e da própria universidade. E confirmo que a revolta pode ser mais enérgica que a revolução. É preciso evitar a Maria da Fonte, saltando já para uma Patuleia que não seja controlada pela Convenção do Gramido.

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Quarta-feira, 18 de Abril de 2012
por José Adelino Maltez

 

O problema não está no enriquecimento ilícito, está no enriquecimento desonesto, o que costuma ser lícito e que o será sempre, se as leis forem feitas por quem lhes quer pôr vírgulas. Embora apetecesse dizer, como Proudhon, que toda a propriedade é um roubo, sempre reconheço que poderemos evitar que essa violência apenas prescreva. Basta evitarmos a emergência e consolidação de novos piratas, incluindo os dos "boys" do "spoil system", mesmo que as almas de corsário já não usem chapéu de coco, mas apenas colarinho branco e banco.

 

*Porque fomos todos corsários, até nós, que fomos vítimas do corso holandês, deixo imagem holandesa de uma fusta portuguesa do Malabar, identificada como corsária. E mesmo assim não enriquecemos.


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Terça-feira, 17 de Abril de 2012
por José Adelino Maltez

 

Li, hoje, dois editoriais da imprensa económica. Sobre coisas menos más. Num, fala-se no aumento dos depósitos na banca. Noutro, num acordo de concertação informal que o mundo dos trabalhadores e dos empresários está a executar. Por outras palavras, tem sido o esforço do homem comum. Para completar a mobilização, basta o velho recurso aos emigrantes. Quando é que o Portugal à solta recupera e faz com que o país seja administrado pelo país? Através de um novo contrato social que ponha o país político a ser governado com pilotagem de futuro. Através de quem acredita e faz.

Porque antes da roda livre, era ditadura. Logo, vale mais fazer com que a roda gire em torno do eixo. E que ponha a cruz a rodar em círculo. Não a quadratura do dito. Mas a circulatura do quadrado. É mesmo alquimia. Dantes, chamavam-lhe rosa dos ventos.

Há, tradicionalmente, dois partidos em Portugal. Um é o castelhanista, de D. Quixote, contra os moinhos de vento e pela utopia, no sem tempo, pensando ter lugar. Outro é o armilar de Sancho Pancha, em cima do burrico, dizendo que há paraíso na terra, porque Deus quer, o homem sonha e a obra nasce. Portugal é do segundo, o da aventura e do pragmatismo. Com lugar no tempo. Aprendi com Jaime Cortesão esta metáfora. Acrescentei-lhe Sérgio Buarque de Hollanda. E umas pitadinhas da Mensagem.

E se eu misturar Sancho Pança com o Zé Povinho dá Lula da Silva. É pena não o termos nacionalizado. Como a Kirchner fez agora com a EDP. A que não foi comprada pelos chineses. E sempre há as Malvinas. Em casa onde não há pão, há o 1º de Dezembro, o 22 de Agosto, o 5 de Outubro, o 25 de Abril e o milagre da multiplicação dos pães. Os que movem montanhas. De entulho.

Basta dar um quadrado aos ventres ao sol e beijar o chão antes de cada batalha. Vem no Fernão Lopes. Esqueci-me de dizer que Aljubarrota já era uma questão europeia. Como episódio da Guerra dos Cem Anos. Nessa altura, pátria e Europa rimavam. E hão-de voltar a rimar. Se houver rumo.

Agora e ontem, junta-se plano da pólvora sem fumo, molha-se em decretino seminarista, com cavalariça a apoiá-lo, e põe-se um qualquer vendedor da banha da cobra a emitir em "excel". Dá barraca de feira, mas com distribuição de farturas no evento inaugurativo rende, em votos. Pios. E consequentes nomeações como administrador por parte do Estado. Estrangeiro, evidentemente. Até o mar territorial se vende em lotes.

Quando o Portugal Velho rodopia em viradeiras, há sempre quem entre em desespero e chame bela ordem exógena ao ocupante, em nome da eficácia tecnocrática da con-Gestão. O falso D. Sebastião da tecnocracia, agora em nome do memorando, tem sempre uma fila enorme de colaboracionistas à espera. Uma receita velha, estafada, mas que vai ter muitas palmas dos habituais gambozinos e emplastros. Eu vos garanto que estou a falar da realidade. Confirmarei a coisa depois do "day after".

Não sou profeta, mas apenas bem informado.Convinha informar os incautos que o mais saint-simonista dos líderes lusitanos, o do macadame e do "tramway", foi quem transformou a liberdade em bancarrota. Chamava-se Fontes...Falo de factos e sem metáfora. Factos da inginhoca...

E não há nenhuma criancinha que berre, em pleno largo da praça, diante da procissão, que o rei vai nú, apesar de montado, no elefante, sem memória, só porque o resguardam sob o pálio dos diáfanos mantos dessa fantasia de não haver alternativa? Qualquer tipo sem palas repara nas vergonhas naturais deste estadão...Convinha acordarmos do pesadelo antes de ficarmos ocupados de vez pelo narcopensamento dos psicopatas sentenciadores que nos vão drogando.

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Segunda-feira, 2 de Abril de 2012
por José Adelino Maltez

 

Segundo Weber, a moral da convicção (Gesinnungsethik) incita cada um a agir segundo os seus sentimentos, sem referência à s consequências, diz, por exemplo, para vivermos como pensamos, sem termos de pensar como depois vamos viver. Difere da moral da responsabilidade (Verantwortungsethik). A segunda apenas interpreta a acção em termos de meios–fins e é marcada pelo supra-individualismo, defendendo a eficácia de um finalismo que escolhe os meios necessários, apenas os valorando instrumentalmente, dizendo, por exemplo, como em Maquiavel, que a salvação da cidade é mais importante que a salvação da alma.

A intelectualice que emiti tem a ver com duas conversas que me chegaram. A primeira, de um velho patriarca da esquerda, sobre a instrumentalização de um velho direitista, dizendo que o deviam usar porque ele era inofensivo, vaidoso e até dava jeito. A segunda de um novo direitista no poder, dizendo exactamente o mesmo de um esquerdista. Ambos têm razão enquanto a não perderem. Com o factor mais criativo da história da humanidade: o imprevisto que produz mudanças.

Uma conclusão: em Portugal, o de hoje, e o de ontem, não há espaço para teorias da conspiração, para lutas de ideias ou para combates políticos. É tudo mais de amiguismos de jantarada e de troca de favores. No toma lá, dá cá, que nem feudalismo chega a ser. Porque este tinha lógica. De cavalaria, vergonha e dominação dos outros. Um colonizado está uns degraus abaixo do feudalizado. É mais barato.

Até quando andava meio mundo ao serviço do outro sempre havia direito à rebelião. No moluscular, jamais.

Sempre acreditei nos acasos procurados. Movem montanhas.  A libertação é apenas a liberdade que se conquista. Não é uma concessão do ministerialismo a deslumbrados.

 

Quem se assume como mera consequência de dois lados da tirania, não passa de mera conquência de um paralelograma de forças. Usam-no e deitam-no fora.

A palavra sempre foi um saber que a experiência fez. Basta ver, ouvir e ler. Sem ignorar.

Daí que partilhe uma emoção. De Anna Marly, a exilada russa que desencadeou a coisa em Londres, 1943. Há quem pense que a canção tem a ver com um partido ou com uma revolução, o que não corresponde à conspiração de todos quantos criaram a libertação. 

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Quarta-feira, 28 de Março de 2012
por José Adelino Maltez

 

A decadência não é uma causa, é um sintoma, onde a quantidade não rima com a qualidade, não porque a massificação seja pior que o elitismo da sociedade fechada, mas porque a meritocracia não consegue furar o esquema salazarento que esmaga a democracia. Logo, fragmentados por conflitualismos sectários, passámos a ser dominados por lutas de poder pelo poder, onde os jogadores pensam que ganham tanto quanto os adversários perdem e onde a unidade se transforma em unicidade centralista e concentracionária e a diferença, em dissidência a abater pelos vigilantes que estão ao serviço do verticalismo.

 

Há momentos de apetecer desistir, são exactamente aqueles onde importa lutar ainda mais. Sobretudo quando vendem produtos políticos falsificados, de total ausência de autenticidade, dos que proferem teorias e nós sabemos vivencialmente que, na prática, a teoria sempre foi outra. A do habitual taxímetro e a do sistema clássico de compra e venda do poder. Com música celestial. Basta medirmos os efeitos. Sem os salamaleques de quem quer abocanhar, nem que seja o croquete do evento.

 

Um situacionista de sucesso é aquele que apostou em todos os cavalos, que traiu todos os cavaleiros, que retirou o cavalinho da chuva, quando estavam a molhar a respectiva capela. E que, na altura certa, se passou para o cavalo do novo poder, quando este precisava de mostrar que até se dava com alimárias que fingiam ser da outra cavalariça. Só que cavalo em cima de cavalo apenas dá cavalgadura e o lombo, com molho, nem com condimentos se safa. Sabe sempre a palha.

 

Por seu frutos os conhecereis. Mesmo uma árvore que se diga de causas mede-se sempre pelas consequências. Pelos espinhos que gera e pelas consequências que ela própria escolhe. Antecipando os maus frutos.

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Domingo, 25 de Março de 2012
por José Adelino Maltez

 

O sistema hierárquico dos nossos donos do poder, com níveis de concentracionarismo sucessivamente crescentes, revela o essencial do que se vai manifestando na designação dos órgãos dirigentes do PSD. Este filme sobre os meandros do efectivo poder da "Wall Street", onde as justificações ideológicas não não obsessivas e os jogos do acaso predominam, é o melhor explicador comparativo sobre os nossos níveis de decisão suprema. Who rules? Why? How? As três perguntas básicas na análise de um poder que actua nos bastidores da hierarquia e nunca aparece na montra. Para quem viu o filme, o problema principal está em sabermos onde vai ser enterrada a cadela.

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Sábado, 24 de Março de 2012
por José Adelino Maltez

 

Quando nos resignamos, isto é, não subvertemos pela ironia, subscrevemos a anomia. A tal situação onde não existem cada vez mais leis e regras, mesmo que existam muitas e muitas, para serem confusas, contraditórias ou ineficazes. Isto é, se o grupo ainda permanece, até pela discussão dos feriados, corremos o risco de não haver mais solidariedade entre os indivíduos, que perdem os sistemas de apoio e os pontos de referência, isto é a memória e a identidade. Era Durkheim que ensinava isto. Na "belle époque". Outro sinal da anomia é a presente hiper-informação. Embebedam-nos de propaganda que não parece propaganda, tentam controlar-nos pela "agenda setting" e lançam notícias históricas, hora a hora, meia em meia hora, para que as árvores e os ramos de árvore não nos deixem ver a floresta. A greve geral ficou reduzida a um "cartoon". E a mudança do congresso do PSD, a mais um cargo de nomeação estatal para a PT. Por isso deixo mais um relato de uma televisão universal, perto de nós.


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Sexta-feira, 23 de Março de 2012
por José Adelino Maltez


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Quinta-feira, 22 de Março de 2012
por José Adelino Maltez

Neste momento há um casamento 
Porque hoje é sábado 
Hoje há um divórcio e um violamento 
Porque hoje é sábado 
Há um rico que se mata 
Porque hoje é sábado 
Há um incesto e uma regata 
Porque hoje é sábado 
Há um espetáculo de gala 
Porque hoje é sábado 
Há uma mulher que apanha e cala 
Porque hoje é sábado 
Há um renovar-se de esperanças 
Porque hoje é sábado 
Há uma profunda discordância 
Porque hoje é sábado 
Há um sedutor que tomba morto 
Porque hoje é sábado 
Há um grande espírito-de-porco 
Porque hoje é sábado 
Há uma mulher que vira homem 
Porque hoje é sábado 
Há criançinhas que não comem 
Porque hoje é sábado 
Há um piquenique de políticos 
Porque hoje é sábado 
Há um grande acréscimo de sífilis 
Porque hoje é sábado 
Há um ariano e uma mulata 
Porque hoje é sábado 
Há uma tensão inusitada 
Porque hoje é sábado 
Há adolescências seminuas 
Porque hoje é sábado 
Há um vampiro pelas ruas 
Porque hoje é sábado 
Há um grande aumento no consumo 
Porque hoje é sábado 
Há um noivo louco de ciúmes 
Porque hoje é sábado 
Há um garden-party na cadeia 
Porque hoje é sábado 
Há uma impassível lua cheia 
Porque hoje é sábado 
Há damas de todas as classes 
Porque hoje é sábado 
Umas difíceis, outras fáceis 
Porque hoje é sábado 
Há um beber e um dar sem conta 
Porque hoje é sábado 
Há uma infeliz que vai de tonta 
Porque hoje é sábado 
Há um padre passeando à paisana 
Porque hoje é sábado 
Há um frenesi de dar banana 
Porque hoje é sábado 
Há a sensação angustiante 
Porque hoje é sábado 
De uma mulher dentro de um homem 
Porque hoje é sábado 
Há uma comemoração fantástica 
Porque hoje é sábado 
Da primeira cirurgia plástica 
Porque hoje é sábado 
E dando os trâmites por findos 
Porque hoje é sábado 
Há a perspectiva do domingo 
Porque hoje é sábado 


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Quarta-feira, 21 de Março de 2012
por José Adelino Maltez

 

Sérgio chamava a esta coisa moluscular, cuja cobardia permitia o salazarismo, reino cadaveroso. Não vale a pena replicar, dizendo república cadaverosa. Já não somos reino nem república, mas estadão prenhe em venerandos, exigindo respeitinho. Mas continuamos o cadaveroso, do adiadamente, sempre enjoado, com medo de ficar à solta e com grandeza. Só com homens revoltados poderemos refundar-nos. Não com ministerialismo sentenciador, de ministros e ex-ministros, fingindo que são alternativa.

 

Os governantes que temos, isto é, que vamos tendo e tivemos recentemente, todos ele têm medo. Não do povo, que importa construir, mas da liberdade de cada um dos indivíduos. A única realidade que nos separa dos aparelhos que nos tramam em solidão, para esmagarem na nossa intimidade e a nossa criatividade. As que passam pela libertação face ao estado de necessidade com que nos continuam a escravizar. Enquanto nos enredarem nesta manipulação discursiva, continuaremos a ser mandados. Libertação, precisa-se! Para crescermos por dentro!

 

Glosando Pessoa, podemos dizer que o prestígio de actuais ministros também “nasceu vagamente da sugestão do seu prestígio universitário e particular, mas firmou-se junto do público, logo desde as suas primeiras frases como ministro, e as suas primeiras acções como administrador, por um fenómeno psíquico simples de compreender. Todo prestígio consiste na posse, pelo prestigiado, de qualidades que o prestigiador não tem e se sente incapaz de ter”.

 

Não é de estranhar que discursem sobre a meritocracia os seus exactos contrários, da mesma forma como não falta ocupação de tempos de antena de luta contra a corrupção por parte de quem, pelo menos, deveria envergonhar-se de falar no tópico. Politologicamente falando, a usurpação ainda resulta. Aqui e agora.

 

Os controladores do tráfego político, do “agenda setting” e da gestão da empregomania e da subsidiocracia ainda não perceberam que o respectivo GPS avariou, por mais palmas que recebam dos auditórios e por mais palmadinhas nas costas com que sejam mimoseados nos corredores da cunha. Um quarto de hora antes de morrerem ainda parecem vivos. E ainda despacham.

 

Nada mais clarificador do que ver juntinhos, numa só fotografia, um situacionista de agora, um situacionista de ontem e um situacionista de anteontem. São todos o mesmo. Está no registo do sindicato das nomeações mútuas.

 

Sou mais libertário, do anarquismo místico, que do embrulho populista com que se costuma disfarçar o jacobino, ou o seu irmão-inimigo reaccionário. Desculpem a revolta, mas os meus queridos Camus e Arendt, que pensaram o essencial no ano em que nasci, ainda me continuam a referenciar neste caminho.

 

Porque hoje é o dia mundial da poesia, ontem foi o mais do mesmo e amanhã, greve geral.  Vi esteprograma e li este artigo.


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Terça-feira, 20 de Março de 2012
por José Adelino Maltez

 

Nem todos os agrupamentos humanos são políticos. Isto é, nem todos assentem na relação horizontal de homens livres e iguais, num espaço público. Não o foram os impérios nem as monarquias universais, muito menos as relações de colonização ou de invasão, os que assentem em comunidades internacionais étnicas ou os que derivam de meros tratados comerciais ou de segurança. Estou a citar Aristóteles.

 

Nunca o poderia ser um mero governo mundial, mesmo o que assente fragmentariamente na geofinança ou na geo-economia. Repito Hayek ou Hannah Arendt, na senda do cosmopolitismo de Kant. Não o será uma Europa assente na confederação de dois restos de império, o apátrida dos economeiros e financistas que gritam que não há alternativa; ou o dos securitários que aqui traduzem em calões estratégias de outras potências.

 

Não repararam certos pulhíticos que, até em Portugal, desde a teorização do Infante D. Pedro, a república não passa de um concelho em ponto grande? Algo que se situa entre a aldeia e a república universal, sempre à procura da república maior...Não há nenhum repúblico que não subscreva a tese clássica que nos diz que a política é sinónimo de democracia, até contra os usurpadores.

 

Estou farto dos terraplanadores, dos vendepátrias e dos niilistas. Houve regentes da república que foram mais fiéis ao reino do que pretensos reis que apenas serviram seus validos e as forças vivas que nos traíram.

 

Os municípios, as freguesias e as regiões foram das mais autênticas restaurações que se produziram com a libertação de Abril. As freguesias e os concelhos precedem o Estado, em Portugal. Não quero que a Patuleia o recorde. Até no Brasil, ao contrário dos USA, os municípios fazem parte da "federação"...

 

O reino não é para os ministros, porque até os reis o foram para a república (regnum non est propter rex, sed rex propter regnum).

Há muita gente que não entende que o "regnum" apenas emergiu nos séculos XII e XIII quando as autonomias dos povos se libertaram das teias do patrimonialismo feudal, do império e do papado. Só então se voltou a conjugar a "polis", a "respublica" e os foros e costumes dos homens livres, tanto nas nossas comunas sem carta, como eram as freguesias, como nos concelhos, burgueses e rurais, escapados aos senhorios. Foi desta gesta que nasceu Portugal. Não o matem com o ministerialismo e as suas "revoluções vindas de cima", decretinas e cretinas.

 

Infelizmente, à esquerda, domina o jacobinismo pombalista que esqueceu o federalismo republicano e o socialismo centralista que nunca estudou Proudhon, porque veio do estalinismo reciclado. Infelizmente, à direita, ficou tudo salazarentado e nem sequer chegam ao princípio da subsidiariedade. Encantam-se com os teóricos de gabinete dos vários ministérios do interior e nem sabem quem é o autor da frase "comunas sem carta". Preferem os sucessivos marchuetas que os empalmam em visitas à província e grandiosos discursos de palanque.

 

O Rodrigo da Fonseca, o raposa da partidocracia, chega sempre no "day after", liquida a reforma do Mouzinho da Silveira e junta situacionistas e pretensos oposicionistas, como "alegres convivas", à "volta da mesa do orçamento". A maior parte deles satisfaz-se com restos. A caricatura continua. Espero que não se repita como tragédia. Ou tragicomédia.

 

Claro em pensar, e claro no sentir,
é claro no querer;
indifferente ao que há em conseguir
que seja só obter;
duplice dono, sem me dividir,
de dever e de ser-

não me podia a Sorte dar guarida
por não ser eu dos seus.
Assim vivi, assim morri, a vida,
calmo sob mudos céus,
fiel à palavra dada e à ideia tida.
Tudo o mais é com Deus!

 

Na imagem, armas do chefe do meu partido. O que foi vencido em Alfarrobeira. Mas venceu depois. O autor do primeiro tratado de política em português. Dito "O Livro da Virtuosa Benfeitoria".

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Segunda-feira, 19 de Março de 2012
por José Adelino Maltez

Grande parte da classe política, sobretudo a do PS, vive sitiada, há décadas, pelo processo de cenarização estabelecido pelo “Expresso” e por Marcelo Rebelo se Sousa. Hoje apenas discutem, em pânico, a hipótese de um candidato a presidente da república, aliado ao governo de direita, que "entre bem à esquerda". Isto é, ele, o cenarista, vendo-se ao espelho, contra Santana Lopes e Durão Barroso. Como se o povo fosse barro, mas sem ser das Caldas. O problema é saber se até lá vai persistir republica, haver presidente ou, pior do que tudo, gente que possa continuar a dizer-se da direita e da esquerda. Ainda não repararam que a democracia está a ser quotidianamente ocupada pelos inimigos da política? Que até são bem piores do que os meros adversários da democracia.

 

Bem tento dizer a amigos socialistas que o capitalismo é mero subproduto do liberalismo e que eles, e elas, os e as socialistas assumem o essencial da herança do liberalismo político e individual, dito das causas sociais. Muitos não percebem que capitalismo não é liberalismo e, muito menos, as degenerescências do negocismo, da geofinança dos mercados comandada por partidos únicos e Estados autoritários, totalitários, mafiosos, confessionais, bandocráticos, fundamentalistas ou castíferos. Por cá, nem isso! É apenas o salve-se quem puder, com homilias dominicais e cunhas corporativas e de seita.

 

Quando o PS acorda nas segundas-feiras do costume e se sente encurralado com os pais todos ausentes-presentes, costuma cair na tentação dos velhos partidos republicanos, a do populismo jacobino inconsequente, restaurando fantasmas e agravando preconceitos sem saber “o que fazer?”. É fácil: reciclem a esquerda revolucionária pelo reformismo, federem a extrema-esquerda pelo socialismo autogestionário e libertário e tratem de dialogar com o centro excêntrico que já descobriu que a maioria dos votantes não se sente de esquerda nem de direita. Mas façam tudo isto com crenças, doutrinas e valores e sem o “catch all” da geometria variável da demagogia de visitas à província…

 

Detesto o pensamento único. Sobretudo quando o calmante é marca “pensar baixinho”. Entro em revolta. Mas a maioria gosta da droga.

E bate muitas palmas quando os venerandos se deslocam em visitas capitaleiras à paisagem da província. Aliás, a palha está cada vez mais cara.

Entretanto, Gaspar marcha para os States. Como bom chefe de departamento de relações públicas. Não consta que Álvaro seja despachado, com a mesma função, a caminho do Canadá. Apenas pode notar-se que o governo socialista de Sócrates, sob a presidência social-democrata de Cavaco, nos meteu, de corpo e alma, no cepo da troika. Com o acordo do PSD e do CDS. E com a posterior ratificação do eleitorado, assente em meias verdades e muita propaganda, a que continua com prefácios que são pós-fácios.

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Domingo, 18 de Março de 2012
por José Adelino Maltez


 

Sou  mesmo um romântico, um daqueles que, como Hernâni Cidade disse, lhe sobe o coração à cabeça. Por isso, vou dar uma aula sobre teoria da lei e interpretação do direito, assim com Savigny pelos começos, sem seguir as preferências marxianas do Professor Barata Moura sobre a matéria. Como lhe confessei um dia, na barra do Kwanza, ainda acredito que, no mundo afro-asiático, o direito pode ser expressão directa da consciência jurídica popular, uma produção instintiva e quase inconsciente, onde há um espírito particular, e o mesmo é gerador da poesia, dos costumes, da língua e de outros segregados da história. Por isso, levei para as aulas Ruy Cinatti e Luís de Camões, que hoje é o primeiro de Dezembro e aqui não é feriado, porque o foi na passada sexta-feira, dia da declaração unilateral da independência pela Fretilin, em 1975, coisa parecida ao que tentou D. António, o Prior do Crato, em 1580, antes da chegada do invasor que também herdou, comprou e ocupou...

 
Mas os sessenta anos de "integração" no império dos habsburgos de Madrid fizeram com que se gerasse uma literatura autonomista que também criou essa comunidade imaginária que é a nação portuguesa, este fingir que é verdade aquilo que na verdade sentimos, pese embora os muitos da elite que continuam a preferir um qualquer Filipe II, em nome da  racionalidade importada e da possibilidade de ascensão ao tacho internacional, com que os multinacionais costumam premiar Cristóvão de Moura e Miguel de Vasconcelos. Timor Lorosae ainda tem muita poesia por cumprir, muitas Actas das Cortes de Lamego para falsificar, muito sebastianismo para subverter os instalados. Aqui ficam os últimos versos do Cancioneiro de Cinatti:
 
Praia presa, adiantada
no mar, no longe, no círculo
de coral que o mar represa.
Praia futura invocada.
 
Timor ressurge das águas,
praia futura invocada.
 
Molho o meu sangue na alma
da bandeira que mais prezo,
porque tenho nela a voz
da minha candeia acesa.
 
Sou transparente ao luar
da minha candeia acesa.
 
Senhor da terra, das águas,
do ar e dos milheirais.
Senhor Mãe e Senhor Pai,
dai-me um desejo profundo.
 
Que eu seja senhor de mim!
Dai-me um desejo profundo.
De monte a monte, o meu grito
soa, soa, como voz
de um eco infinito
ecoando em todos nós.
 
Timor cresce como um grito
ecoando em todos nós.
"A boca emudece, a voz apaga-se"

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Terça-feira, 6 de Março de 2012
por José Adelino Maltez

Ao ler o amplificador de voz que transformou um amigo meu, de há muitos anos, na caricatura deste e de anteriores situacionismos, do passismo ao socratismo, eu apenas posso dizer que me tenho cruzado em vários órgãos de comunicação com esse jornalista desde o guterrismo, no tempo do "Euronotícias", quando ele entrava na sua maturidade de carreira de quase duas décadas. Raramente estivemos em campos comuns de apoio aos sucessivos situacionismos, incluindo aquele que um anterior situacionista do cavaquismo e do maneleirismo, agora, zurze. Por acaso, até colaborámos, ao mesmo tempo, num blogue que a máquina de propaganda socrática qualificava como passista, onde eu dei mostras, por escrito, de não alinhamento com aquele que é, no presente, o nosso primeiro. Posso testemunhar que nunca notei qualquer sinal de estar perante um agente da máquina de propaganda encoberta, apesar de não disfarçadas convicções e simpatias. Julgo que a utilização das habituais teorias da conspiração não é boa conselheira para todas as formas pretéritas e futuras do multiforme situacionismo, incluindo as do neodogmatismo pretensamente antidogmático. E como os amigos são para as ocasiões, até me lembro de, em certa ocasião, esse meu amigo jornalista ter sido atacado por um ilustre hierarca do antecedente situacionismo em nota oficiosa, só porque o permanecente poder instalado o considerou passível do crime de ser meu amigo. Por isso, daqui vai um grande abraço para o Francisco Almeida Leite e uma farpazinha ideológica: foi pena que Karl Marx não escrevesse um volume especial do "Das Kapital" sobre a principal força da história, principalmente a lusitana, até nos dias que correm, isto é, para a última palavra d' "Os Lusíadas": a "enveja". Porque as ideologias passam, os situacionismos sucedem-se e as metodologias do ocultismo permanecem. O Francisco é um excelente jornalista!


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Sexta-feira, 2 de Março de 2012
por José Adelino Maltez

O ministro da província e os deputados da província, muitos com pronúncia do norte, são exactamente aqueles a quem os donos do poder encomendam as falsas reformas locais, típicas do capitaleirismo dominante. A única reforma que permitiria superar a retórica passa pela extinção do estadão, isto é, do conceito de centro da sociedade de corte, pela efectiva regionalização e pelo reforço das renovadas autonomias locais, através de forais contratualizados e de novas comunas sem carta, para que o Estado volte a ser um concelho em ponto grande, como dizia o Infante D. Pedro.

O programa da regeneração resume-se a uma frase de Alexandre Herculano: para que o País possa ser administrado pelo País. Acrescento eu: e para que o Povo não continue a ser governado da partidocracia, para a partidocracia e pela partidocracia. Temos de impedir a emergência de uma democracia sem povo, com uma eventual democratura, mesmo que seja em nome da Santa Aliança da troika.


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Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012
por José Adelino Maltez

O conluio de patos bravos, banca e partidocracia, explorando o desejo de cada português ser proprietário de uma casinha, não só nos endividou, como agravou a hipótese de um mercado mínimo de arrendamentos prediais. O congelamento dura há mais de cem anos, uma herança da I República que o salazarismo manteve e o abrilismo, do PREC e da pós-revolução, reforçou. Logo, não há hipótese de qualquer regresso a um mercado que nunca houve, sem a instauração de condições que o permitam. Entre os remediados, vítimas da gleba hipotecária e os pobres, ameaçados pela fome, há todos os sinais de potenciais revoltas do desespero que pode tornar-se no calcanhar do presente Aquiles.

 

O socialismo de consumo não foi socialista. O liberalismo a retalho, e a toque de troika, não é liberal.

 

Basta dar uma volta pelo talho e pela mercearia aqui da rua de Lisboa central. Uma jovem pede um pedaço de frango que possa ser vendido por um euro para dar ao filho. Uma velhota vai ao nepalês e mostra meio euro e pede bananas que caibam na moeda. São ambas arrendatárias de rendas antigas. O desequilíbrio pode ser fatal.

 

Não me parece que tenham feitos suficientes estudos para a determinação quantitativa da necessidade. O que seria possível. Brincámos aos jogos dos habituais grupos de pressão. Da direcção dos proprietários, com magníficas prestações de Menezes Leitão, e da direcção dos inquilinos, com a habitual linguagem CDU. Cumpriram o respectivo dever. Mas não consta que as autarquias mais interessadas tenham feito a urgente pesquisa micro. Foi tudo tratado como um número. Deve ser porque querem reforçar o comando sindicalista. Porque foi nas manifestações contra os gaioleiros que o velho anarco-sindicalismo se fundacionou. Não será assim, pela "tabula rasa" que se repõe justiça e se dinamiza o necessário mercado.

 

A emergência social não passa apenas pelas estatísticas, passa principalmente pelo levantamento de problemas reais. Aldeia a aldeia. Rua a rua. Condomínio a condomínio. Onde possamos encontrar pessoas. Para darmos voz aos que não têm voz. Nem partido. Nem sindicato. Nem igreja. A multidão solitária que é a esmagadora maioria social.

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Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012
por José Adelino Maltez

 

As regras do jogo do ensino, incluindo do superior, estão totalmente viciadas pelos frustrados da educacionologia, da avaliologia e do planeamentismo. Educativamente falando, somos todos bastardos da síntese de uma vérmica “newspeak” que o colectivo de educacionólogos, ditos de Veiga Simão, lançou no concentracionismo da Cinco de outubro, semeando o capitaleirismo da “révolution d’en haut” pela paisagem da província. Por isso, ficámos entalados entre o Professor Pardal, do positivismo do século XIX, e o Professor Manitu, da falsa metafísica do pós-guerra, tudo com traduções em calão!

 

O caldo de cultura positivista que nos enreda, de tanto ser anticatólico, até acabou por volver-se também em antimaçónico, isto é, continuou a secar o essencial das raízes do humanismo cristão e do humanismo laico, perdendo tempo em proibir a metafísica, Deus e os deuses, em nome da falsidade das revoluções, das utopias e do sucedâneo dos esquemas construtivistas dos pós-revolucionários frustrados...

 

Ora, o principal aliado do positivismo é sempre o egoísmo dos que perdem a humildade do mistério, julgando que atingiram o promontório dos séculos, na ideologia, na ciência ou no bem--estar...

 

Acabou de sair, pela editorial Estampa, com coordenação de João Carlos Alvim, o "Reinventar Portugal", "uma viagem aprazível pelos caminhos da reinvenção de Portugal. Várias personalidades foram convidadas a reflectir sobre Portugal como um mundo essencialmente dúplice, preso por um lado nas malhas de uma pretensa e férrea necessidade, votado por a reinventar-se a caminho do seu futuro". Sou um dos colaboradores, com "Educação, entre fantasmas de direita e preconceitos de esquerda" e nos três primeiros parágrafos deixo pedaços do texto.


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Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012
por José Adelino Maltez

 

 

O destino de um "whig" é como o de um "girondin". Os "tories" consideram-nos jacobinos e estes utilizam contra eles a guilhotina, acusando-os de "contra-revolucionários". Eles, como liberais, contra o construtivismo das revoluções, apenas querem uma revolução evitada, isto é, querem conservar o que deve ser, com metodologias reformistas e objectivos revolucionários. Apenas são velhos liberais, contra "neocons", "neolibs" e revolucionários frustrados, incluindo os que se transformaram em situacionistas. Detestam as "révolutions d'en haut", incluindo as dos déspotas esclarecidos, a partir do ministerialismo.

 

Alguns ainda vão dizer que isto é maçónico. Quando é apenas paleio do Friedrich Augustus e do Karl Raimund. Isto é, liberal e iluminista. E muito austríaco. Apesar de só a partir de Londres, o terem dissertado. Meras marcas identitárias de uma concepção do mundo e da vida. Friedrich Augustus von Hayek. Karl Raimund Popper. Ou a sociedade aberta e os seus inimigos, os do caminho para a servidão.

 

O Estado e o Mercado são irmãos-gémeos, criados a partir de Thomas Hobbes. Prefiro a libertação do indivíduo e o pluralismo, da sociedade aberta e da poliarquia. Até para evitar que, através da democracia, regresse o totalitarismo. Mesmo que seja sob a forma doce de autoritarismo de viradeira.

 

Aguentem jotas e jotinhas. Não estou a falar em Passos Coelho. Estou a falar em ideias. Logo, que me importa a outra face da mesma moeda que já virou sob a forma de José Sócrates. A má moeda faz fraca a gente forte. Também não estou a citar Cavaco Silva quando teorizou Santana Lopes no "Expresso", apoiando Jorge Sampaio. Estou apenas a dizer que todas as revoluções apenas se medem pelos efeitos pós-revolucionários e que que as melhores revoluções são as que não fingiram que eram revoluções, mas que mudaram efectivamente.

 

A história é o género literário mais próximo da ficção, pelo que as teorias da conspiração são como os prognósticos depois do apito final, são sempre confirmáveis, mas "a posteriori". Até ao epílogo, há sempre uma série de acasos, alguns deles cómicos, funcionando apenas os acasos procurados pela vontade de quem tem princípios expressos através da mistura de entusiasmo mais pensamento. Mesmo que se perca. Aliás, a razão da força raramente é derrotada pela força da razão, mas, às vezes, acontece, desde que se saiba dar força à esperança.


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Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012
por José Adelino Maltez

 

Πανελλήνιο Σοσιαλιστικό Κίνημα, Νέα Δημοκρατία, Κομμουνιστικό Κόμμα Ελλάδας, Συνασπισμός της Ριζοσπαστικής Αριστεράς, Δημοκρατική Αριστερά, Δημοκρατική Συμμαχία, Πανελλήνιο Άρμα Πολιτών, Ελεύθεροι Πολίτες, Οικολόγοι Πράσινοι...são a Δημοκρατία.

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Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2012
por José Adelino Maltez

 

A Europa é uma senhora da minha idade. Com muitos saltos em frente, para disfarçar os achaques e só conseguiu progredir quando sofreu a pressão de um inimigo comum, através de uma grande coligação negativa. Foi assim com o sovietismo. Mas quando lhe disseram que venceu, atingiu o presente estado de quase ficar vencida.

 

Se a Europa continuar a ser uma coisa de eurocratas e não de cidadania do homem comum, ela não será.

 

A Europa, para ser uma instituição, precisa de uma ideia de obra, de manifestações de comunhão entre os seus membros e de regras que se façam em conjunto e se cumpram efectivamente. É o que não havido: a ideia, a comunhão e a regra praticada com boa fé.

 

A Europa, para ser uma nação de nações e uma democracia de muitas democracias, não pode continuar presa aos directórios da hierarquia das potências. Seja dos eurocratas, da Comissão e do Parlamento, seja da locomotiva franco-alemã, seja das multinacionais partidocráticas e supranacionais, tendencialmente apátridas.

 

Não falta apenas institucionalismo à Europa sessentona. Faltam símbolos mobilizadores e política mundial. Não basta o euro, não chega a governação económica, impõe-se a politização do processo, para além do eixo.

 

O grave daquilo que disse Martin Schulz tem a ver com a cedência da esquerda social-democrata alemão ao populismo merkeliano, revelando uma certa mania do velho fardo civilizacional do extinto homem do Euromundo, que as guerras civis europeias de 1914-1918 e 1939-1945 transformaram em guerras mundiais. Nem sequer repara que os totalitarismos do século XX tiveram origem europeia, muitas vezes alemã. O pior da China foi a importação do marxismo-leninismo e o pior da África foi o colonialismo, por causa da partilha de Berlim, bem pior que o afro-estalinismo. Seria melhor termos um pouco mais de humildade, tanto à direita como à esquerda.

 

Dizia-me uma vez um desses velhos africanos: os europeus fabricam os relógios, mas o africanos inventaram o tempo. Acrescento: tal como os chineses demonstram civilizadamente que as ideologias passam, mas as culturas ficam. Por isso é que a memória do universalismo português e da nossa desimperialização, poderiam servir para alguma destribalização franco-germânica. Temos mais pensamento de meio-dia que de meia noite. Isto é, mais luz.

 

Portugal será diferente da Grécia? Como europeu e português, apenas quero declarar que, hoje, e amanhã, quero ser grego.

 

Não é apenas Passos Coelho que é o mais africanista dos chefes do governo portugueses. E ainda bem. Os portugueses para serem verdadeiramente europeus têm de ser os mais africanistas dos europeus e os únicos que foram para a China sem ser através da guerra. Se isto não é valor acrescentado, pobre Europa!

 

Se tivermos uma ideia, comungada, temos mais força.

 

 

Somos a mais antiga e estável nacionalidade da Europa. E nunca invadimos nenhum vizinho desde Toro. Salvo como reacção às invasões alheias.

 

Qual o europeu que pode dizer que a última invasão de um vizinho foi em 1801, quando Godoy era agente de Napoleão?

 

Que diz um francês a um alemão antes da construção do projecto europeu? O filho andou na Guerra de 1939-1945. O pai da Grande Guerra de 1914-1918. E o avô na guerra franco-prussiana. Nós, só guerras civis, impulsionadas do exterior, e guerrazinhas de homenzinhos...

 

É necessário que a Europa adira à visão atlântica de Portugal. A do Atlântico Norte, a do Atlântico crioulo e a que deu à Europa a viagem para o Oriente, a China e o Pacífico. Uma coisa mais universal do que as angústias renanas da pequena Europa.

 

(na imagem, o primeiro mapa de um Estado cartografado, sem ser por acaso, o nosso, 1565, para que os europeus não comecem a queimar bandeiras, uns dos outros; perdoem-me o exagero de patriotismo, mas senti-me ofendido na minha honra; e quem não se sente não é filho de boa gente)

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Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012
por José Adelino Maltez

 

Detesto o politicamente correcto que até se diz contra o politicamente correcto, para ver se acerta na corrente do pensamento único que diz não o ser. É por isso que sou contra o situacionismo politiqueiro que, da esquerda menos à direita menos, não consegue compreender que só há verdadeira política que antes seja metapolítica. Isto é, que seja crença, ideologia, doutrina ou valores. Porque, no princípio, estão os princípios. Nada há de mais reaccionário do que um pretenso modernizador que proclame a tradição como o olhar para trás, quando só a partir das raízes pode haver progresso. Só as coisas verdadeiramente antigas é que não são antiquadas. As outras são modas que passam de moda.

 

A esquerda tem tradição. A direita tem tradição. O pretenso meio-termo do centrão, isto é, o discurso dominante nos últimos governos que se dizem de esquerda e que dizem de direita, não é fiel ao essencial daquele ponto fixo do centro excêntrico a partir do qual se pode mudar Portugal e a Europa. Basta que a tradição de esquerda se federe com a tradição de direita num acordo regenerador e refundacional, mesmo que se estabeleçam os campos do desacordo. Costumo chamar liberal a essa atitude. O liberal não é o liberalóide. Detesta contrafacções e não gosta de sucedâneos

 

Estamos à beira de uma alteração radical das circunstâncias, por causa da crise grega. Porque mesmo que não aconteça nada, continuaremos entre o tudo e o seu nada. Com a seriedade da abolição do feriado do Carnaval. O tal que nunca existiu, mas que simplesmente era tolerado, quando ainda se picava o ponto e se gozava a ponte.

 

Os homens de acção, quando destituídos de fé, jamais acreditaram noutra coisa que não fosse o dinamismo da acção. A frase é de Albert Camus. Pode aplicar-se à cultura organizacional do situacionismo jota e jeans.

 

A pior coisa da esquerda dominante de outrora foi gerar esta direita que lhe convinha. E entre pilares desta ponte do tédio, lá continuamos imbecilizados. Os canhotos e endireitas lá continuam em hemiplegia moral, não se apercebendo que são meros fantoches dos bonzos de sempre.

 

É por isso que recordo uma mulher, 60 anos de trono, 16 países. Uma rainha. Um contrato de gerações, para além dos Estados. Um problema para quem não compreende a tradição. Nem a macropolítica. Não cabe numa folha Excel. Nem num regulamento de manga de alpaca feito notável da treta.


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Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012
por José Adelino Maltez

 

Não me mudem o dia de anos. A nossa Avenida da Liberdade começa nos Restauradores e pode voltar a descer a partir da Rotunda de Machado Santos, com heróis do mar pelos egrégios avós, assim nos mobilizem as brumas da memória!

 

Entre o 1 de Dezembro e o 5 de Outubro, o nosso eixo simbólico que até passa pelos Combatentes. Não apaguem a memória por causa dos trocos.

 

Este nosso passeio público é bem mais do que o discurso enlatado de qualquer ministerialismo, líder patronal ou sindicalista concertado. A rua é do povo.

 

Encham as caixas de mensagens dos senhores deputados com defesas do 1 de Dezembro e do 5 de Outubro!

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Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012
por José Adelino Maltez

 

Depois de Luís de Camões, Aníbal Cavaco Silva. Consta que o dr. Mário Soares já emitiu sonoro protesto contra esta ultrapassagem cénica e de museu. Mas a verdade é só uma: a soma de uma década de chefe do governo com mais uma, ainda em curso, de chefia de Estado. Portugal, visto de fora e em cera, é Aníbal, mesmo sem Barca, mas com muita memória de elefantes. Nem Saramago o destrona, na Espanha da bonecada. Todas as revoluções são sempre pós-revolucionárias.

 

Imagem picada aqui


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Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012
por José Adelino Maltez

Cavaco quer compromisso de regime (não citou a senhora D. Maria II que está farta destas cerimónias e até recorda que morreu a dar à luz). Paula da Cruz reconhece que não precisamos de fazer revoluções (devia estar a pensar no seu antecessor Costa Cabral). Marinho observa que, na política, há mentira, demagogia e irresponsabilidade (o bastonário não tem espelho). Pinto Monteiro diz que é preciso dar à política o que é da política e aos tribunais o que é dos tribunais (resta saber se a alguém pertencerá tudo, se a césar, se ao Deus dará). Era melhor não haver mais aberturas no que não tem começo nem fim.

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Domingo, 29 de Janeiro de 2012
por José Adelino Maltez

A falta de organização do trabalho nacional gerou uma rede de sucessivas ditaduras da incompetência, por falta de vocações e preparações, que transformaram o que deviam ser lugares de trabalho em postos de vencimento, com livros de ponto registando corpos presentes.

 

Acontece que a unidade do Estado, em vez de federar a diversidade, fragmenta-se em neofeudalismos e neocorporativismos, directamente proporcionais à própria despolitização do Estado de uma democracia sem povo e de um direito sem justiça. Fica a pirâmide verticalista da máquina do poder pelo poder, a que não respeita os espaços de autonomia das sociedades imperfeitas que perdem a plenitude das matérias que dizem respeito à respectiva natureza, da família à universidade, passando pelos espaços associativos daquilo que se designa por sociedade civil.

 

Mais do que isso, os vários grupos se, pelo lado superior, caem nas teias do concentracionarismo, também se deixam enredar, pelo lado das bases, no antipolítico do regresso ao doméstico. Logo, é inevitável que se confunda autoridade com autoritarismo e superioridade hierárquica com centralismo arrogante, assim se liquidando as necessárias autonomias das sociedades complexas.

 

Veja-se esta multiplicação de políticas (policies), sem que assentem numa pensada macropolítica, geradoras de uma desconexão fragmentadora, impossível de ser curada por celestiais planos construtivistas de um livro único de reforma estadual.

 

Porque não pode reformar-se o Estado sem uma ideia de Estado. Porque não pode pensar-se o Estado sem uma ideia de sociedade. A mera aritmética quantitativista do menos ou mais Estado, ou do menos ou mais Sociedade, com que confundem liberalismos e socialismos, é péssima conselheira. Nenhuma destas caricaturas se compadece com a necessidade de, em primeiro lugar, se repolitizar o Estado, retirando-o da inércia moluscular em que se encontra.

 

Somos provisoriamente definitivos em regime de governo dos espertos, coisa que acontece sempre que uma determinada situação política passa a ser objecto do domínio perpétuo do acaso, onde o burocrata começa a ter a ilusão da acção permanente, para utilizarmos terminologia aprendida em Hannah Arendt.

 

Chega-se assim à despolitização típica do governo da burocracia, com uma administração que apenas aplica decretos, como acontecia com o czarismo russo, a monarquia austro-húngara e certos impérios coloniais. Porque os burocratas destes regimes, que administravam territórios extensos com populações heterogéneas, apenas pretendiam suprimir as autonomias locais e centralizar o poder. Contudo, nestes modelos, os donos do poder exercem uma opressão externa, deixando intacta a vida interior de cada um, ao contrário dos totalitarismos contemporâneos.

 

(Pedaços conclusivos de uma conferência que amanhã proferirei no Instituto Superior Técnico, "Entre Gomes Freire e o patriotismo Científico. 

Ou o partido dos funcionários contra o partido dos fidalgos. Um projecto por cumprir")

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Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012
por José Adelino Maltez

A questão dita dos feriados é tão absurda quanto isto: em cada uma das cinquenta e tal semanas do ano, além de um feriado não religioso, o sábado, há um feriado religioso, o domingo. Pior do que isso, cada um dos dias da semana na nossa língua tem o nome de "feriado", isto é, feira, derivado do latim "feria", isto é, festa religiosa. Por outras palavras, se incluirmos o sábado judeu, todos os dias do ano em Portugal são de feriado. Somos, de facto, uma feira. Amen!

 

Os laicistas quando estiveram no poder nem sequer tiveram a coragem de fazer retornar o nome dos dias da semana às designações pagãs, anteriores à determinação papal de Silvestre, julgo que no ano 200.

 

Hoje, no poder, não estão laicistas nem antilaicistas, estão quem somos, os medricas.

 

Logo, apenas apelo a uma adequada revolta dos senhores deputados, em nome da comunidade das coisas que se amam. É uma matéria de não-disciplina partidária e de fidelidade a valores maiores, em nome de uma lealdade básica. Há algemas que libertam.

 

Consta que a bandeira nacional e o hino nacional serão objecto da próxima reunião do Conselho de Alvarização Nacional. A bandeira pode ser uma marca. E o hino até convém que seja em inglês pimba.

 

Hoje sinto uma íntima derrota dentro de mim. Mas nunca esquecerei e nunca pactuarei com quem subscrever este acto de frontal violação de símbolos nacionais. Há uma fronteira de sagrado que se marca a fogo na memória.

 

Subscrevo inteiramente o grito de revolta de Manuel Alegre: "É um acto contra a História e contra a cultura. É um acto anti-história e anti-cultura". Nem cito o ministro que veio a microfone dizer que, depois, se reforçará o 10 de Junho. Também sou radicalmente intransigente nessas matérias de mínimos de identidade patriótica. Lamento os ditos monárquicos que vieram fazer campanha contra o 5 de Outubro e os ditos republicanos que subscreveram o preconceito de o 1º de Dezembro ser dos monárquicos. Acabaram ambos alvarizados.


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Sábado, 21 de Janeiro de 2012
por José Adelino Maltez

No passado dia 14, o nosso Presidente emitiu a seguinte mensagem no Facebook: “São muitos os funcionários ou agentes do Estado que se têm dirigido à Presidência da República, expondo as suas incompreensões e incertezas. Apesar de todas as dificuldades, em relação a algumas das quais já tive ocasião de me expressar publicamente, estou certo de que todos têm plena consciência da importância das suas funções de serviço público, que devem ser dignificadas e prestigiadas.” Seis dias depois, numa intervenção pública, decidiu encabeçar a revolta social do bom povo português. Tudo visto e ponderado, incluindo a lamentação que, na campanha eleitoral fez há cerca de um ano, sobre os 800 euros por mês da pensão da nossa primeira-dama, não posso alinhar com os críticos que imediatamente o satirizaram de forma elitista. O Presidente é previsível demais para cometer erros de comunicação. Apenas exprimiu a sede de justiça do homem comum, tanto contra as chamadas reformas douradas de certos gerontes, como contra a campanha de desinstitucionalização que alguns têm feito contra os funcionários públicos, os empregados da banca, os professores e os investigadores científicos. Também reconheceu que a soma de 1300 mais 800 euros não dá para um casal da classe remediada pagar as respectivas despesas, apesar de tanto ter poupado e investido. E assim se patenteou, de forma tão descamisadamente superior, o erro troikista, subscrito pelo PS, PSD e CDS. Não acredito que o Presidente tenha padecido de hipocrisia, dado que, sendo sua suprema especialidade a ligação directa ao eleitorado, apenas quis encabeçar aquilo que vai ser a vaga de fundo de uma geometria social que a aritmética da partidocracia e do poder bancoburocrático parecem não querer compreender. O detentor do Palácio de Belém sabe, sem poder absoluto, mas com ciência certa, que um seu antecessor, em 1917, assistiu, a partir de Maio a uma mistura de revoltas da fome e de aparições do transcendente, até à sua terráquea deposição em Dezembro, depois de um sangrento golpe de Estado. Em 2012 não haverá guerra, fome e peste mas a injustiça continua para o “bonus paterfamilias”.


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