Sexta-feira, 2 de Agosto de 2013
por Alexandre Guerra
"Freeride" e "downhill" num vídeo totalmente "made in" Portugal", o primeiro do género filmado por Federico Ramalho.
 

A televisão por cabo e a Internet, enquanto plataformas de comunicação de massas ou de nichos, estão cada vez melhores e com mais qualidade. No fundo, está a verificar-se uma adaptação aos novos paradigmas do mercado, em que se começam a delinear estratégias de comunicação e de marketing com o objectivo de direccionar determinados “produtos” para determinados públicos.

Esta segmentação de “produto” e de público é a principal virtude da “cabo” e dos vários canais na Internet. Aquilo que cada um quer ver é aquilo que cada um vê. É verdade que há plataformas com mais e menos qualidade, mas é inegável que a oferta é variada e contínua.

Para quem é entusiasta de desportos “extreme”, como é o caso do autor destas linhas, tem hoje à sua disposição uma variedade de canais e plataformas on line internacionais, nas quais encontrará todo o tipo de vídeos e filmes profissionais, abordando modalidades como BTT (cross country, enduro, downhill), BMX, surf, skate, snowboard, entre muitas outras. É todo um mundo que faz as delícias de quem gosta de praticar e ver modalidades que vão para além dos desportos “mainstream”.  

Infelizmente, neste campo, a produção nacional ainda é escassa, quando comparada com aquilo que se faz nos Estados Unidos e nalguns países europeus. É assim de salutar a estreia de Frederico Ramalho, um “rider” de “freeride” e de “downhill”, nas lides da realização de filmes dedicados àquelas modalidades “extreme”. Trata-se de um pequeno vídeo, filmado quase todo na Serra de Sintra, que tem como protagonista um outro “rider”, Francisco Rocha, e que já apresenta uma qualidade muito interessante.

Frederico Ramalho, estudante de marketing e publicidade no IADE, desde há algum tempo que se tem dedicado ao aprofundamento da técnica de filmagem e realização, concretizando agora esse processo, dando o primeiro passo numa área que tem margem para crescer em Portugal, até porque começam a surgir algumas plataformas nacionais a necessitarem de conteúdos mais “extreme”.

 

Texto publicado originalmente no PiaR.


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Sexta-feira, 19 de Julho de 2013
por Alexandre Guerra

Linha de chegada da 19ª etapa do Tour em Le Grand-Bornand, 19 de Julho de 2013/Foto: Le Tour

 

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Quarta-feira, 17 de Julho de 2013
por Alexandre Guerra

 Foto AFP

 

A absolvição de George Zimmerman pela morte do jovem negro de 17 anos, Trayvon Martin, veio reacender um debate nos Estados Unidos que, em bom rigor, nunca desapareceu da sociedade, mas que há muito estava adormecido e que agora ressurge com outros contornos. E são esses novos contornos que este arregimentado julga estarem a passar despercebidos na acesa discussão que, entretanto, se gerou. 

As manifestações e vigílias que se têm verificado nalgumas cidades americanas contra a decisão do tribunal de Sanford têm expressado a crença histórica inabalável de que os negros na América vivem numa sociedade racista. Um sentimento que voltou a estar à flor da pele perante uma decisão judicial que é toda ela toldado por preconceitos de raça (mas não só) há muito enraizados na sociedade americana.

Infelizmente, aqui, não há nada de novo. Se, por um lado, os Estados Unidos, desde a sua "Fundação", têm sido um farol dos direitos humanos, por outro, contêm na sua natureza uma noção muito estratificada de raça e de condição social.  

Não há volta a dar, a cor da pele foi determinante no desfecho do julgamento da morte de Trayvon Martin, sobretudo quando o sistema judicial americano coloca nas mãos dos jurados, simples cidadãos, a aplicação da Justiça.

Ora, neste caso em concreto, não houve qualquer Justiça e quanto à aplicação da Lei, muito haveria para dizer, como se pode ver por estas cinco questões que o USA Today suscita. Além de que esta decisão parece abrir um precedente grave, porque a partir deste momento qualquer negro de "hoodie" na cabeça pode ser abatido em "legítima defesa".

Seja com for, o júri considerou que Zimmerman agiu em legítima defesa, por acreditar que corria perigo de vida, apesar de Trayvon Martin ter feito o que de mais banal qualquer jovem urbano pode fazer: na noite de 26 de Fevereiro de 2012 dirigiu-se a uma loja de conveniência, tendo comprado "ice tea" e um pacote de Skittles.  

À saída da loja, Martin colocou na cabeça o capuz do seu "hoodie" e a partir desse momento Zimmerman, um segurança voluntário de um condomínio privado daquela zona, viu ali um indivíduo suspeito. Os acontecimentos precipitaram-se e Zimmerman acabou por alvejar mortalmente o jovem no peito.

É aqui que está o pecado original desta história e que reflecte aquilo que é uma conjugação de preconceitos históricos de raça com o que este autor chamaria de novos preconceitos urbanos.

Uma simples "sweat com capuz" que escondia o rosto do Martin foi o tónico que faltava para tornar um inocente num potencial criminoso. O Forte Apache recorda que na altura gerou-se um debate interessante nalguns círculos sobre os novos preconceitos urbanos que vão muito além das discriminações de raça, de género ou de condição social. 

Obama, aliás, veio prontamente afirmar que ele próprio usava "hoodies", uma indumentária que muitos jovens (e adultos) vestem sem qualquer conotação criminosa. Neste sentido foi também o protesto original do congressista democrata Bobby Rush, que em plena Câmara dos Representantes se insurgiu na altura contra uma nova forma de preconceito.

São correctas as leituras de Obama e de Rush, só possíveis através de uma consciencialização das novas tendências e realidades urbanas, que não obedecem a qualquer condição racial, social ou de género. E é precisamente esta realidade que o autor destas linhas considera que está ausente do actual debate, muito centrado na importantíssima questão racial, mas que não esgota o problema.


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Terça-feira, 16 de Julho de 2013
por Alexandre Guerra

O Brigadeiro General, Sultani Makenga, comandante militar do M23 a dar instruções aos seus homens a 30 de Novembro de 2012, junto à cidade de Sake, Kivu Norte

 

Goma tem sido por estes dias (leia-se longos meses) o epicentro de um dos mais anárquicos cenários de conflito a nível mundial. É um palco onde todos lutam contra todos, não se sabendo bem por qual objectivo, apanhando pelo meio a população indefesa.

Goma é a capital da província de Kivu Norte, no nordeste da República Democrática do Congo (RDC), fazendo fronteira com o Uganda e Ruanda, e desde há uns tempos a esta parte que concentra na sua região várias forças militares, suportadas por diferentes etnias e países vizinhos. Hutus, tutsis, ugandeses, ruandeses, capacetes azuis, forças congolesas, milícias de criminosos, todos estão metidos ao barulho.

Cada grupo ou organização luta pelos seus interesses. Por exemplo, os capacetes azuis da ONU, com a ajuda de soldados congoleses, tentam pacificar a região de Kivu Norte, sobretudo perante o avanço dos rebeldes do M23, maioritariamente tutsis, alegadamente apoiados pelo Ruanda. Por sua vez, o Governo de Kigali conta com a oposição da Frente Democrática para a Libertação do Ruanda (FDLR), movimento composto por hutus e baseado no Kivu Norte.

Agora, repare-se, além do M23 lutar contra os soldados congoleses e capacetes azuis, enfrenta ainda em território congolês os hutus da FDLR, que por sua vez estão ocupados a fazer incursões no Ruanda.

Ao mesmo tempo, no Kivu Norte juntam-se ainda as Forças Democráticas Aliadas, cujo inimigo é o Governo do Uganda. Diz a BBC News que "aquele grupo não faz parte da discussão". Seja como for, sempre são mais umas metralhadoras a afugentar as populações.

Populações essas que têm ainda pela frente várias milícias Mai Mai que, basicamente, têm uma agenda criminosa.

É caso para dizer que o Kivu Norte é um autêntico caldeirão, onde tudo vai lá para dentro.


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Sexta-feira, 12 de Julho de 2013
por Alexandre Guerra

A Ciência Política deve ser tratada como uma disciplina nobre e ter uma abordagem científica, contemplando sempre o "ambiente" com bom senso e inteligência. Tendo este arregimentado uma relação íntima com a Ciência Política, torna-se confrangedor ver a forma estridente e medíocre como suposto(a)s cientistas político(a)s comentam a actual crise do sistema político nos canais de televisão. 


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Quinta-feira, 27 de Junho de 2013
por Alexandre Guerra

Sobre o novo orçamento plurianual da União Europeia para os anos 2014-2020, acordado esta madrugada entre o Parlamento Europeu e a Comissão, o correspondente da BBC News em Bruxelas chamava a atenção para uma nota interessante. Embora se trate do primeiro orçamento da história da UE a sofrer cortes em relação ao anterior, isto não quer dizer que no próximo quadro orçamental seja investido menos dinheiro nos Estados-membro.

 

Até pode acontecer o contrário. Esta possibilidade fica-se a dever a uma imposição do Parlamento Europeu na última noite, que permitirá introduzir maior flexibilidade na gestão do orçamento comunitário, mais concretamente, na forma como os fundos são atribuídos. Ou seja, os eurodeputados quiseram assegurar que toda a verba contemplada no orçamento para 2014-2020 seja investida (ou, pelo menos, o mais possível) e evitar assim que partes significativas do orçamento voltem aos cofres nacionais.

 

Uma situação que se verifica no actual quadro comunitário, com muitos milhões a regressarem aos países de origem. Doravante, os eurodeputados esperam evitar esta situação, porque o dinheiro dos fundos vai poder ser transferido de um ano para o outro ou de uma área para outra. Em teoria, isto poderá significar efectivamente mais dinheiro investido nos Estados-membros do que aquele que foi usado no período que agora está prestes a terminar.

 

Aqui está um exercício imaginativo que permitirá optimizar um orçamento, teoricamente mais curto, mas que na prática poderá significar mais dinheiro para os Estados-membro. E nunca é demais lembrar que tal solução só foi possível com o reforço dos poderes do Parlamento Europeu em matéria de co-aprovação do orçamento comunitário contemplado no Tratado de Lisboa. 


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Quarta-feira, 26 de Junho de 2013
por Alexandre Guerra

Michelle Brito festeja a vitória sobre Maria Sharapova em Wimbledon/Foto:STEFAN WERMUTH/REUTERS

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Quarta-feira, 19 de Junho de 2013
por Alexandre Guerra

 

Nicolás Maduro na conferência de imprensa com Passos Coelho

 

Foi de apenas seis horas a duração da visita do recentemente eleito Presidente da Venezuela a Portugal. Mas foram seis horas que valeram cerca de 6 mil milhões de euros em perspectivas de contratos em várias áreas entre os dois países, cimentando-se, assim, uma relação que começou a ser delineada em 2008 pelo falecido Presidente Hugo Chávez e pelo ex-primeiro-ministro português, José Sócrates.

Hoje, é Nicolás Maduro quem ocupa o Palácio de Miraflores e, na linha de pensamento do seu antecessor e mentor, fez questão de manifestar, ainda nos primeiros meses do seu mandato, o compromisso no estreitamente das relações entre a Venezuela e Portugal. De louvar igualmente a posição do Governo português, agora de centro-direita, liderado por Passos Coelho, que não caiu na tentação ideológica de "deitar por terra" todo o trabalho diplomático já feito.

Aliás, nesse espírito construtivo, já o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, tinha estado recentemente na Venezuela com uma delegação considerável de empresários.

Este é um bom exemplo do cumprimento de políticas estratégicas transversais a diferentes governos, reflectindo-se positivamente nos resultados económicos, com Portugal a inverter a balança comercial com a Venezuela em poucos anos, a intensificar negócios em curso e a perspectivar outros tantos.


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Terça-feira, 11 de Junho de 2013
por Alexandre Guerra
Alguém que percebe destas coisas de cinema e que acompanhou a construção do documentário Suspended Warehouse dizia a este arregimentado que todo o trabalho feito pelo realizador André Matos Cardoso é extraordinário e de "excelência". Trata-se de um documentário de hora e meia, filmado integralmente no Armazém 13, com um nível de qualidade que o coloca entre os melhores do género em Portugal.
É um projecto desenvolvido há mais de um ano e que o realizador concretizou sem ajudas financeiras, incluindo filmagens e edição. Nesta altura está em fase de pré-produção, no entanto, para aceder a festivais internacionais de referência como o Sundance tem de ter, obrigatoriamente, financiamento.
Para tal, André Matos Cardoso procurou o apoio natural de algumas produtoras nacionais, que até se disponibilizaram a financiar este parte final do projecto, mas sob condições que tornavam inviável a concretização do mesmo dentro das expectativas técnicas e artísticas que o realizador tinha para o documentário.
Perante este cenário, André Matos Cardoso optou por recorrer ao crowdfunding, através do qual qualquer pessoa poderá contribuir, materializando, assim, um projecto empreendedor e exportável.

Texto publicado originalmente no PiaR


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Quarta-feira, 5 de Junho de 2013
por Alexandre Guerra

Sinais preocupantes, aqueles que uma sondagem Gallup Europe revela sobre as eleições europeias do próximo ano. De acordo com os resultados divulgados hoje, o sufrágio de Maio de 2014 para o Parlamento Europeu poderá ter uma fraca participação do eleitorado e registar uma votação mais acentuada em movimentos nacionalistas e anti-europeus.

Caso se concretize esta tendência, o Parlamento Europeu arrisca-se ficar com uma composição inédita, estando mesmo em causa a hegemonia das principais famílias políticas europeias.

Esta sondagem foi feita em seis países (França, Alemanha, Reino Unido, Dinamarca, Polónia), alguns dos quais com a presença de movimentos emergentes com uma retórica nacionalista, xenófoba e anti-europeia.

Um dos resultados preocupantes desta sondagem tem a ver com a percepção que os cidadãos europeus têm da União Europeia, vendo-a cada vez mais como uma ameaça externa à sua qualidade de vida e não como um factor agregador e dinamizador das sociedades. Esta realidade é ainda mais preocupante se se tiver em consideração que a sondagem foi realizada nalguns dos países mais desenvovidos dos 27. De fora, ficaram os Estados do Sul e os "intervencionados", onde o descontentamento com a UE atinge actualmente níveis muitos elevados. 

Apesar disto, se os europeus fossem a referendo na próxima semana para votar uma possível saída do seu país da UE, apenas no Reino Unido haveria uma maioria para concretizar esse cenário. 


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Quarta-feira, 29 de Maio de 2013
por Alexandre Guerra

Forças leais a Bashar al-Assad treinam em local incerto, 22 de Maio de 2013/Foto: Reuters

 

decisão do último Conselho Europeu dos Ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia, reunido durante 12 horas, abriu formalmente as portas à internacionalização e à escalada do conflito na Síria, ao deixar, na prática, a cada Estado-membro o critério de enviar armas para os rebeldes sírios.

Apesar dos 27 se terem comprometido a não enviar qualquer material bélico para aquele país até ao dia 1 de Agosto, altura em que será revista esta posição, este gesto não é mais do que uma declaração de princípios, já que formalmente o embargo de exportação de armas que tinha sido imposto pela UE à Síria não foi renovado. 

Mais do que internamente -- porque é bastante provável que nenhum dos 27 vá enviar armas para a Síria até Agosto --, esta decisão do Conselho Europeu tem implicações na percepção que algumas potências terceiras com interesses na Síria possam ter. O caso mais imediato é o da Rússia que já reagiu com desagrado à posição da UE.

Para o Kremlin, a diplomacia europeia está a enviar sinais claros de que pretende, a curto prazo, começar a fornecer armamento à oposição síria. Uma interpretação que o autor destas linhas considera ser pertinente, atendendo à deterioração que se vai sentido no terreno, com mais de 80 mil mortos e 1,5 milhões de refugiados.

Na verdade, a situação está a tornar-se insustentável para as chancelarias ocidentais mais poderosas, que começam a ter muitas dificuldades para explicar a passividade em relação ao que se passa na Síria, ao mesmo tempo que prestam apoio militar noutros cenários de guerra, provavelmente nesta altura bem menos dramáticos e sangrentos.

Neste sentido, o chefe da diplomacia britânica, William Hague, fez questão de sublinhar que o dia 1 de Agosto não representa qualquer "deadline", porque o Reino Unido poderá começar a partir de agora a armar os rebeldes sírios, no entanto, não existem planos para tal. Pelo menos até à ronda de negociações de Genebra agendada para meados de Junho.

Quem não vai esperar pela próxima ronda de negociações é a Rússia, que reagiu de imediato à decisão do Conselho Europeu com o anúncio do envio do poderoso sistema de míssil terra-ar S-300 comparável ao famoso sistema americano Patriot.

A decisão do Kremlin veio dar uma nova dimensão ao conflito sírio, uma vez que Israel já avisou, através do seu ministro da Defesa, Moshe Yaloon, que não tolerará a instalação dos S-300 na Síria. Para já, o Governo hebraico informa que os sistemas S-300 ainda não saíram da Rússia. Por outro lado, surgem notícias de que o Kremlin poderá aproveitar esta situação para negociar com Israel. Ou seja, recua na questão dos S-300 em troca do compromisso israelita de não efectuar raides aéreos sobre território sírio. 

Por esta altura em Israel as forças armadas hebraicas (IDF) devem estar em alerta máximo, perante a volatilidade na Síria e o crescente envolvimento de mais actores. Como escrevia o Haaretz, Israel está entre os guerrilheiros do Hezbollah e os mísseis russos, jogando cada vez mais os seus interesses em território sírio.

Neste momento, existe a ideia em Israel que uma derrota massiva do Hezbollah na Síria poderia representar um golpe fatal para aquela organização terrorista no Irão e no Líbano. E nesta lógica, Telavive pretendia aproveitar o apoio europeu aos rebeldes sírios para ajudar a combater os  homens do Hezbollah, porém, a movimentação mais recente da Rússia veio alterar esse cenário.

Em Washington, bem longe, a administração do Presidente Barack Obama critica a atitude da Rússia ao mesmo tempo que se congratula com a decisão do Conselho Europeu. Mas para já, a Casa Branca não parece muito disposta a enviar armamento para os rebeldes, apesar das pressões de muitos republicanos nesse sentido. 

Caso esta escalada se acentue, a Síria poderá tornar-se no palco de um potencial conflito regional. As perspectivas não são animadoras, até porque não se esperam grandes resultados da conferência de Genebra.


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Segunda-feira, 6 de Maio de 2013
por Alexandre Guerra

Forças da oposição síria/Foto:Reuters

 

A comunidade internacional, através dos seus líderes, tem uma tendência para polarizar guerras civis, identificando de imediato os “bons” e os “maus” de acordo com formatações político-ideológicas e conveniências geoestratégicas, mesmo que essa catalogação seja redutora e ignore a “grande área cinzenta” em que se movimentam forças contrárias.

A Síria, mergulhada numa guerra civil sangrenta, é o mais recente exemplo dessa abordagem maniqueísta que quase nunca corresponde à verdadeira realidade dos factos no terreno.

Com a eclosão do conflito sírio, há pouco mais de dois anos, a comunidade internacional ocidental não hesitou em classificar o Presidente Bashar al-Assad como o mais recente déspota opressor dos povos indefesos.

Em parte, esta assunção é correcta, já que o líder sírio não pensou duas vezes antes de avançar contra a sua própria população, por modo a manter o status quo que sustenta a minoria alauita no poder.  

Mas esta é apenas uma perspectiva da realidade. O problema é que as principais chancelarias ocidentais têm ignorado a outra parte do problema trágico que afecta a Síria: o comportamento errante e criminoso dos rebeldes (que noutras alturas davam pelo nome de “freedom fighters”).

Já não é de agora que surgem relatos menos dignos do comportamento dos revoltosos na Síria. Além da sua desunião e incapacidade de forjar uma frente política comum, têm vindo a público relatos de abusos inqualificáveis por parte daqueles sobre a população.  

Carla del Ponte, alta funcionária da ONU e antiga procuradora-geral do ICTY, vem agora corroborar esses mesmos relatos, sublinhando que há “fortes” indícios e “suspeitas concretas” da utilização de gás sarin por parte dos rebeldes. Del Ponte não exclui também o uso daquela arma química por parte de forças do Governo.

Embora a comissão internacional de inquérito, criada em Agosto de 2011, ainda não tenha provas conclusivas, del Ponte ficou “estupefacta” pelo facto das primeiras indicações apontarem para a culpabilidade dos rebeldes na utilização de gás sarin.

Um golpe brutal na credibilidade da oposição síria e nos esforços de criar uma alternativa política séria ao regime de Bashar al-Assad, até porque poucos terão coragem para colocar em causa o relatório da comissão liderada pela conceituada e respeitada Carla del Ponte.

Como escrevia Bridget Kendall, correspondente diplomática da BBC News, uma coisa são as suspeitas que têm vindo a público de fontes pouco credíveis, outra coisa são indícios levantados por uma alta funcionária da ONU.

Outro ponto a favor da credibilização dos resultados da comissão independente tem a ver com o método utilizado, baseado na recolha de testemunhos directos no terreno.

Este cenário levanta o que restava do véu que ainda cobria parte da crueldade de um conflito interno entre duas forças que não hesitam em sacrificar a população inocente para avançar nas suas posições.

Com o regime de Damasco condenado (e com razão) pela opinião pública internacional e com a oposição síria cada vez mais descredibilizada, é improvável que Washington tenha algum interesse em envolver-se na Síria.

Sem um interlocutor viável e sério para apoiar na Síria, o Presidente Barack Obama, de forma mais ou menos directa, já deixou bem claro a sua mensagem de que não tem intenção de se “meter” nos assuntos internos da Síria. Moscovo e Pequim não parecem também muito interessados em alterar qualquer relação de forças naquele país do Médio Oriente.

Perante esta acomodação de interesses geopolíticos, a Síria tende a médio prazo tornar-se palco de um conflito crónico que poderá baixar de intensidade com o passar do tempo, mas nem por isso menos trágico para a sua população.   


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Sábado, 20 de Abril de 2013
por Alexandre Guerra

The Dark Side of The Moon (1973)


A iconografia é uma forma elevada de comunicação, onde a arte materializada numa imagem é o meio escolhido para passar uma determinada mensagem. Pode ser num quadro, num poster, num cartaz, numa fotografia, até mesmo num rótulo de uma garrafa ou numa embalagem de bolachas. Tudo depende da mensagem e do designer gráfico que a concretize artisticamente. 

Algumas das imagens mais emblemáticas e sofisticadas podem ser encontradas em capas de álbuns de música. Basta recordar o Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band dos Beatles, o The Velvet Underground & Nico dos Velvet Underground, o Sticky Fingers dos Rolling Stones, ou o Born to Run de Bruce Springsteen

Mas, nenhuma imagem será tão icónica como a célebre capa do Dark Side of The Moon dos Pink Floyd. A imagem de fundo negro com um prisma a reflectir um feixe de cores foi criada pelo designer gráfico britânico Storm Thorgerson, que esta Quinta-feira morreu aos 69 anos.

Em comunicado, os Pink Floyd lamentaram a perda de um "amigo", "colaborador" e "génio gráfico" da banda.

Thorgerson, que em 1960 fundou a Hipgnosis, foi o principal responsável pelas famosas capas dos álbuns dos Pink Floyd (e também de outras bandas como Led Zeppelin, Muse ou do músico Peter Gabriel). Além do The Dark Side of The Moon, outros álbuns tiveram capas míticas, como o Atom Mother Heart, o Wish You Were Here ou a espectacular imagem do The Animals com o famoso porco voador. 

Numa entrevista à BBC, em 2009, Thorgerson explicou o conceito simples que esteve por detrás da capa do The Dark Side of The Moon:"It's a nice but simple idea. Refracting light through a prism is a common feature in nature, as in a rainbow. I would like to claim it, but unfortunately it's not mine!"

Quando há genialidade, a simplicidade basta para se fazer uma obra de arte e um transcendente momento de comunicação. 

 

Atom Heart Mother (1970)


Wish You Were Here (1975)


Animals (1975)


Texto publicado originalmente no PiaR.

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Sexta-feira, 19 de Abril de 2013
por Alexandre Guerra

 

Obama conforta a mãe de uma vítima do tiroteiro de Newtown após a conferência de imprensa na Casa Branca de Quart-feira/Foto: Doug Mills/The New York Times

 

O Congresso norte-americano tanto é capaz de defender os mais elevados valores que se pretendem para uma sociedade democrática avançada, inspirando povos em todo o mundo, como pode cometer os maiores atentados ao progresso da "polis", gerando as maiores desconfianças e traindo o eleitorado que representa.

Quarta-feira, 90 por cento dos americanos (a julgar pelas sondagens), incluindo o Presidente Barack Obama, sentiram-se frustrados e, até mesmo, revoltados com o bloqueio no Senado de uma proposta de "bill" com várias medidas que iria na direcção de controlar o louco e frenético mercado interno de armas.

Refira-se que as medidas eram muito "suave", impondo algumas restrições pouco significativas, mas nem assim conseguiu ultrapassar o poderoso lobyy das armas, personificado naquela câmara do Congresso por mais de 50 senadores (a lei precisava de pelo menos 60 votos em 100 senadores para passar), que se opuseram à sua aprovação.

Obama, com razão, disse que aquela votação envergonhava "Washington". Mas mais do que isto, aqueles senadores traíram os americanos e fizeram vir ao de cima o pior da política dos corredores do poder: a cedência a uma minoria de americanos radicais na sua abordagem à II Emenda, com a National Rifle Association (NRA) à cabeça.

A imprensa americana foi implacável com os senadores que votaram contra a "bill", sobretudo porque esta foi forjada pelo democrata Joe Manchin e pelo republicano Pat Toomey, ambos entusiastas de armas.

Apenas quatro meses depois depois da América e os seus políticos terem "chorado" a morte de 20 crianças e seis adultos numa escola em Newtown, Connecticut, o Congresso não correspondeu às expectativas da sociedade, que após as promessas feitas pelos governantes em Dezembro esperavam medidas concretas.

Não só o Senado inviabilizou uma proposta de "bill" que fosse nesse sentido, como pretende tirar o tema da agenda. Harry Reid, líder daquela câmara, disse que os legisladores iam agora dedicar-se a outros assuntos e fazer uma "pausa" na matéria do controlo de armas.

Entretanto, é certo que mais tragédias vão acontecer nos Estados Unidos com armas de fogo e nesses momentos lá virão, novamente, todos os políticos em uníssono "chorar" os mortos e prometer medidas para combater o controlo de armas. Mas no final, já se sabe, fica tudo na mesma, imperando a hipocrisia e os interesses de minorias poderosas. E assim se vê a política americana no seu pior.


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Quarta-feira, 3 de Abril de 2013
por Alexandre Guerra

Ontem, era aqui referido um artigo da Foreign Policy sobre um vírus misterioso que se estaria a espalhar numa província da China e que já teria morto duas pessoas. Hoje, as autoridades chinesas confirmaram a morte de uma terceira pessoa, supostamente por uma nova estirpe (H7N9) do vírus da gripe das aves.


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Terça-feira, 2 de Abril de 2013
por Alexandre Guerra

Nas últimas seis semanas surgiram notícias de misteriosas mortes de patos e de porcos na China. Ao mesmo tempo, o Governo chinês informou que um vírus desconhecido infectou três pessoas, tendo duas delas morrido. Laurie Garrett, a maior especialista de assuntos de saúde do Council on Foreign Relations, escreve Is This a Pandemic Being Born? (pago). Um artigo (free) da Forein Policy que deve ser lido com muita atenção.


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Domingo, 31 de Março de 2013
por Alexandre Guerra

 

Foi com alguma surpresa que a comunidade internacional viu o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovar por unanimidade, há uns dias, a primeira força militar com perfil "ofensivo". O contingente terá 2500 capacetes azuis e será destacado para a República Democrática do Congo (RDC) com o objectivo de "neutralizar" e "desarmar" os vários grupos armados que dilaceram aquele país. 

É a primeira vez que o Conselho de Segurança aprova, de forma peremptória, um mandato ofensivo, alargando as "rules of engagement" de quem está no terreno, podendo assim assumir uma postura mais agressiva perante situações que, muitas das vezes, resvalam para autênticas tragédias. 

Ainda em Novembro último, este arrigementado abordou precisamente esse tema, sublinhando os casos do Ruanda (UNAMIR, Outubro de 1993 a Março de 1996) e dos Balcãs (UNPROFOR, Fevereiro de 1992 a Março de 1995), nomeadamente na Bósnia Herzegovina (sendo Srebrenica o melhor exemplo), como exemplos de missões sem capacidade de resposta perante as adversidades no teatro de operações e que conduziram aos massacres que se conhecem.

O Sri Lanka foi um deles, estimando-se que só nos últimos cinco meses de conflito, que terminou em Maio de 2009, tenham morrido mais de 40 mil civis de etnia tamil. Um número impressionante provocado em parte pela retirada dos “capacetes azuis” do Sri Lanka, deixando os civis indefesos entre os forças governamentais e os guerrilheiros tamil.

Conclusões lidas num relatório interno da ONU pedido pelo secretário-geral Ban Ki-moon, no qual foram apontadas falhas graves na forma como aquela organização geriu a crise do Sri Lanka. Ban Ki-moon admitiu que aquele relatório iria ter “profundas implicações”, sendo que uma das recomendações contidas no documento era a de que as Nações Unidas revissem os mandatos para as missões humanitárias e de protecção a civis.

Ora, o primeiro passo foi dado logo em Dezembro, quando o Conselho de Segurança aprovou uma resolução para a criação de uma força internacional para combater a ramificação da al Qaeda no Norte do Mali. Como na altura o autor destas linhas escreveu, aquela resolução "assumia contornos históricos. Não tanto pela sua missão, mas pelo seu mandato".

resolução que tinha sido aprovada, para a criação da AFISMA com 3300 homens, viabilizava no mandato daquela força o uso de "todos os meios necessários" para a prossecução da sua missão. Esta introdução foi de extrema relevância e talvez tenha marcado uma nova abordagem das Nações Unidas às missões militares internacionais, já que passa a estar implícita a validade da intervenção militar sempre que os soldados considerem necessária sem terem que recorrer à cadeia de comando.

A resolução agora aprovada esta semana vem apenas concretizar as "profundas implicações" de que Ban Ki-moon tinha falado, tendo o processo inciado-se já há uns meses. Não se pode, por isso, dizer que esta última resolução de carácter claramente "ofensivo" seja propriamente uma surpresa. É sim a confirmação de que o "apagado" Ban Ki-moon está disposto a deixar uma marca muito importante no seu mandato à frente da ONU.

 


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Terça-feira, 12 de Março de 2013
por Alexandre Guerra

 

 

Uma das consequências do espinhoso processo de formação de Governo em Israel actualmente em curso é o afastamento das formações partidárias ultra-ortodoxas do espectro político executivo que, de uma maneira ou de outra, têm marcado presença ou influência nos governos de direita desde a fundação do Estado hebraico em 1948.

Benjamin Netanyahu, vencedor das últimas eleições, deverá optar por alianças com partidos mais moderados, libertando-se, assim, dos constrangimentos impostos pelos ultra-ortodoxos. Porque, o problema que se tem colocado ao longo dos anos na coabitação com aquelas formações não é apenas político. É sobretudo um choque permanente entre diferentes modelos de sociedade. Nem "falcões" como Netanyahu se identificam com o paradigma apregoado pelos ultra-ortodoxos. 

Além disso, a classe política e a opinião pública em geral começam a demonstrar uma insatisfação crescente perante aquilo que consideram ser a imposição moral e religiosa de um grupo privilegiado de pessoas que vivem à margem da sociedade e que, sob o pretexto do ensino dos valores basilares da Torah, vão obtendo regalias. Financiamentos governamentais ou a excusa de serviço militar obrigatório são apenas alguns exemplos dos benefícios da comunidade ultra-ortodoxa.

Actualmente, cerca de 10 por cento dos israelitas são ultra-ortodoxos, um número que deverá aumentar para 15 por cento em 2025. É uma questão sensível, já que a lógica de ensino ultra-ortodoxo assenta quase exclusivamente no estudo da Torah, excluindo áreas de saber como Matemática, Inglês ou ciências. A par desta realidade, os mais velhos continuam a estudar a tempo inteiro graças aos apoios estatais. 

Com a comunidade ultra-ortodoxa "fechada" ao resto da sociedade e virada para si mesma, a consequência natural é um maior desemprego e uma taxa de pobreza mais elevada comparativamente ao resto da sociedade.

Mas, talvez o principal desafio para os governantes nos próximos tempos seja gerir a fricção crescente entre a comunidade ultra-ortodoxa e o resto da sociedade israelita (já para não falar dos palestinianos).

Recentemente, os activistas ultra-ortodoxos defenderam algumas medidas consideradas radicais e que estão a gerar desconforto entre os israelitas, nomeadamente a tentativa de incutir alguns costumes restritivos na indumentária das mulheres judaicas.

Ainda mais preocupante e polémica é a medida que prevê práticas consideradas segregacionistas, tal como a utilização de autocarros e passeios exclusivamente para ultra-ortodoxos, estando os palestinianos proibidos de coabitarem naqueles espaços.

Netanyahu, talvez já com pouca paciência para os ensinamentos dos ultra-ortodoxos e antecipando futuros problemas, está a tentar libertar o seu novo Governo das amarras dos radicais da Torah, o que também poderá ser visto com alguma esperança pela sociedade israelita mais "mainstream". 


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Segunda-feira, 11 de Março de 2013
por Alexandre Guerra

Com é hábito na imprensa portuguesa e nalguns comentadores desta praça, vai-se muito por “modas”. Há uns dias ficou a saber-se que o Presidente americano nomeou o professor Ernest Moniz para o importante cargo de secretário de Energia.

Naquele hábito um pouco bacoco e provinciano lá vieram os jornais e os “marcelos” desta vida sublinhar entusiasticamente que a Casa Branca tinha nas suas fileiras mais um lusodescendente, e desta vez num cargo executivo.  

Para muitos, esse factor será certamente um motivo de enorme satisfação (para este arregimentado não é mais do que uma curiosidade), com os jornais nacionais a darem eco desse “feito”, traçando de imediato a árvore genealógica de Moniz até São Miguel, Açores, de onde eram os seus pais.

O que é sintomático nesta história é que poucos notaram que a ligação de Moniz a Portugal é mais relevante por outros motivos do que pelo facto de ser lusodescendente.

Na verdade, de alguns anos a esta parte que Moniz tem tido uma ligação estreita a Portugal no âmbito Programa MIT Portugal, a maior parceria entre universidades portuguesas e estrangeiras.

E durante esses anos, Moniz chegou a estar em Portugal mais do que uma vez, mas passou bastante despercebido à imprensa e comentadores, tendo dado apenas uma ou outra entrevista. E note-se que Moniz já tinha sido subsecretário de Energia no tempo de Bill Clinton e era até há dias conselheiro de Obama para aquela área.

Moniz, que o autor destas linhas conheceu precisamente em Lisboa há três ou quatro anos, foi ainda um dos principais responsáveis pelo Green Islands, um projecto pioneiro na área da sustentabilidade energética levado a cabo nos Açores.  


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Terça-feira, 5 de Março de 2013
por Alexandre Guerra

 

Kabul Bank em Cabul/Foto:Shah Marai/AFP/Getty

 

Por incrível que pareça, o Afeganistão deu esta Terça-feira uma lição de justiça a Portugal, ao condenar dois antigos responsáveis do Kabul Bank a cinco anos de cadeia, depois de terem sido acusados de uma fraude gigantesca naquela instituição, descoberta em finais de 2010. Os dois arguidos foram ainda condenados a multas pecuniárias. Um a quatro anos de prisão é o destino de outros 21 funcionários do banco.  

À semelhança do que aconteceu com outras instituições financeiras em vários países, nomeadamente em Portugal, com o escandaloso BPN, também o Kabul Bank foi alvo de uma massiva fraude, assente em empréstimos sem qualquer tipo de cobertura (bad loans), no valor de 900 milhões de dólares, canalizados sobretudo para a elite política e algumas empresas “amigas”. Um tema já abordado por este autor em Abril de 2011.

Mas ao contrário do que tem acontecido em Portugal, com o vergonhoso processo judicial BPN (e já agora o BPP), a justiça no Afeganistão foi célere, tendo criado um tribunal especial para este caso em Junho de 2012. Menos de um ano depois foram conhecidas as sentenças, com várias pessoas envolvidas a serem condenadas para a cadeia (uma pena que, a julgar pelos vários casos de “colarinho branco” que se vão observando em Portugal, não parece estar contemplada no Código de Processo Penal).

A ironia desta história é o facto de muitos observadores considerarem estas penas muito leves, quando comparadas, por exemplo, com o processo de Bernie Madoff, condenado a 150 anos e a uma multa de 65 mil milhões de dólares.

Seja como for, os casos não são comparáveis e, em abono da verdade, já teria sido muito saudável para Portugal se os responsaveis pelo fraude do BPN tivessem sido condenados a penas "leves" semelhantes àquelas que foram aplicadas no Afeganistão.  


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Domingo, 17 de Fevereiro de 2013
por Alexandre Guerra

Talvez por ser uma pessoa minimamente exigente com aquilo que lê e ouve, o autor destas linhas conta pelos dedos de uma mão aqueles que, entre os que ocupam o espaço mediático em Portugal, têm um pensamento verdadeiramente consistente e sofisticado. Ou seja, homens que “pensam bem” e que, sempre que escrevem ou falam, merecem a atenção redobrada deste vosso escriba.

Adriano Moreira é uma dessas pessoas. Aos 90 anos é um dos poucos pensadores dignos desse nome em Portugal e, sem qualquer dúvida, uma das mentes mais esclarecidas entre todos aqueles que, por esse mundo fora da "intelligentsia", vão debitando as suas opiniões sobre o modelo de governança das sociedades actuais.

Nos últimos anos, Adriano Moreira tem abordado vários assuntos sobre os quais tem problematizado, nomeadamente, as funções do Estado e a responsabilidade dos governos.

E a este propósito, ainda há uns tempos, o mesmo Adriano Moreira desconstruía de forma magistral o argumento da “incerteza” provocada pela conjuntura internacional que o Governo português (e outros) recorrentemente utiliza para justificar eventuais desvios de previsões ou falhanço de políticas.

Ora, para Adriano Moreira, a capacidade de lidar com a “imprevisibilidade” é precisamente um dos requisitos da função de um Governo, seja em que país for. A Política assume a “imprevisibilidade” e a “incerteza” como factores naturais inerentes à arte de governar e não como “desculpas” ou “refúgios” de previsões erradas ou más políticas levadas a cabo por um Governo.

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Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2013
por Alexandre Guerra

Há uns dias, e graças a um soldado da GNR, um então anónimo porco teve direito aos seus 15 minutos de fama. Um porco que, em jeito de desafio às autoridades, pretendia ocupar um espaço (leia-se A1) que não era o seu.  

De certa maneira, este porco sentiu-se impelido para resistir às “ordens” da autoridade instituída, embora não se descortinasse se por detrás de tal comportamento terá estado alguma motivação nobre ou apenas o interesse egoísta do suíno em causa. Um pouco à semelhança dos porcos revoltosos que em Animal Farm de George Orwell substituíram, com boas intenções, um regime corrupto de humanos por uma sociedade utópica liderada por animais, mas que rapidamente viria a degenerar em totalitarismo.

Na sátira de Orwell os animais, nomeadamente os porcos, acabam por representar as perversidades dos humanos quando se fala da conquista e da manutenção do poder em regime totalitários.

Perante isto, pode supor-se que o homem da GNR estaria a fazer uso da “violência legítima” numa lógica “preventiva” para evitar qualquer tentação do porco insurgir-se contra a ordem instituída que, apesar de tudo, ainda é democrática em Portugal.

Imagine-se o que seria agora haver uma revolta de porcos por essas estradas fora. Daí até às escadas do Parlamento seria um pulinho e já se estava a ver o Governo a pedir imagens à RTP para identificar os porcos agitadores.

E note-se que existe um registo histórico de episódios suínos que, provavelmente, levaram aquele soldado da GNR a adoptar uma medida "preventiva" para refrear os ânimos do porco revoltoso. Talvez conhecesse o célebre episódio do porco voador nos arredores de Londres.

Um porco (na verdade um balão de nove metros cheio de hélio) que ficou imortalizado para lá dos meros 15 minutos devido à sua “teimosia” em não ficar preso à Central Eléctrica de Battersea (já desactivada), localizada junto ao Rio Tamisa.

Isto passou-se em finais de 1976 quando os Pink Floyd decidiram atar um porco insuflável àquele complexo industrial, que resultaria na célebre capa do álbum Animals, este também inspirado na obra de Orwell.

Mas o Mr. Pig (como se lê num dos cartazes da banda) tinha outras ideias e acabou por soltar-se logo no primeiro dia da sessão fotográfica, indo parar a Kent, sendo recuperado por um agricultor local que se mostrou irritado porque o suíno terá assustado as suas vacas.

Esta parte da história será verdade, já que são vários os registos nesse sentido. No entanto, conta o mito urbano que durante a sua “fuga” o porco terá sido avistado por um piloto de um avião comercial e que este terá reportado à torre de controlo que estaria a ver um “porco a voar”.

 

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Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2013
por Alexandre Guerra

 

O início da intervenção militar francesa no Mali, na passada Sexta-feira, supostamente a pedido do Governo de Bamako, para suster o avanço dos rebeldes islâmicos no Norte do País, deve ter apanhado algumas chancelarias de surpresa.

Sobretudo porque há sensivelmente três semanas o Conselho de Segurança das Nações Unidas tinha aprovado uma resolução para a criação de uma força internacional de 3300 capacetes azuis com o objectivo de combater a ramificação da al Qaeda no Norte do Mali, mas que só seria mobilizada no próximo Outono.

Ora, na altura da aprovação desta resolução, Paris não se pronunciou sobre a iminência de qualquer operação militar no Mali. O que é no mínimo estranho, atendendo ao facto da ONU ter formalizado uma intervenção militar. Como se lia na BBC News, “os planos [de intervenção] que tinham sido tão cuidadosamente preparados e validados pela ONU no passado mês de Dezembro têm, no mínimo, de ser reprogramados”.

O Presidente francês, François Hollande, acabou por justificar a intervenção militar do País com a insustentabilidade do avanço islâmico no Mali e com a ameaça inaceitável à integridade de alguns cidadãos franceses (vivem cerca de 5000 naquele país).

Embora se compreenda esta argumentação, até porque alguns analistas referem que se a França não estivesse no terreno a capital do Mali poderia cair em breve nas mãos dos rebeldes, há quem considere que por detrás desta acção militar francesa se escondem outros interesses.

Interesses, esses, que estão alegadamente relacionados com a Areva, uma empresa de extracção de urânio. Citada pelo DW, a cientista política Katrin Sold, do Conselho Alemão de Política Externa, um think tank alemão, refere que a decisão do Eliseu não tem só a ver com o facto do Mali se tornar uma ameaça permanente terrorista. “A longo prazo, a França tem interesse em explorar os recursos minerais da região do Sahel, principalmente petróleo e urânio, mineral que a empresa nuclear francesa Areva já explora há décadas no vizinho Níger”, sublinha Sold.

De acordo com a informação disponível, haverá uma mina (ou minas) com reservas de 5000 toneladas de urânio na comuna rural de Faléa, localizada numa região isolada a 350 quilómetros de Bamako. Aliás, uma notícia que alguém fez chegar ao autor destas linhas, cita uma suposta declaração do embaixador francês no Mali a dizer que a “Areva será a futura exploradora da mina de urânio em Faléa”. 


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Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2012
por Alexandre Guerra

Num exercício prospectivo, ficam aqui algumas incertezas e (quase) certezas no mundo em 2013. Fica também o convite aos leitores deste blogue para acrescentarem na caixa de comentários as suas incertezas ou (quase) certezas para o novo ano que se aproxima.


As incertezas 

 

- O papel do Japão na região Ásia-Pacífico com a nova liderança de Shinzo Abe, sobretudo ao nível das relações diplomáticas com a China e com os Estados Unidos.

- Que impacto terá a eleição da primeira mulher para a presidência da Coreia do Sul nas relações político-diplomáticas entre os dois países da Península Coreana?

- É possível que Pyongyang volte a fazer lançamentos de propulsores balísticos (foguetões) em 2013. Mas haverá algum teste nuclear?

- O cenário político em Itália é neste momento uma incerteza, com as eleições legislativas no horizonte.

- Uma das grandes questões em aberto é saber se a Espanha vai resistir a um resgate massivo.

- Embora já tenha delegado poderes no seu vice, é ainda uma incógnita se Hugo Chávez abandona de vez o poder na Venezuela.

- Será que 2013 marcará o divórcio entre o Reino Unido e a União Europeia?

- Qual o impacto das ondas de choque da “Primavera Árabe” na Casa de Saud da Arábia Saudita e no Reino Hachemita da Jordânia?

- Quantos mais casos de corrupção vão afectar a presidência de Dilma Roussef?

- Os próximos tempos trarão luz sobre o futuro da Direita francesa.

- A Bélgica é um país instável, com duas comunidades linguísticas a reclamarem duas visões diferentes de sociedade. Será que em 2013 as divisões voltarão a vir ao de cima?

- Numa altura em que as divisões entre o Hamas e a Fatah voltam a acentuar-se e com Israel a rejeitar, por completo, o novo estatuto da Autoridade Palestiniana, enquanto Estado observador não membro das Nações Unidas, conseguirá Mahmoud Abbas manter-se à frente dos desígnios palestinianos?

- Depois de Osama bin Laden, será que as forças americanas conseguirão capturar Ayman al-Zawahiri em 2013?

- Poucas dúvidas há quanto à possibilidade de ocorrerem atentados terroristas no próximo ano, a grande questão é saber onde e quando.

- É ainda pouco claro qual o registo que Vladimir Putin pretende impor à política externa da Rússia nos próximos tempos. 

- Em 2013 haverá uma reaproximação entre Washington e Islamabad?

- Os Estados Unidos vão cair no precipício?

A África do Sul continuará a ser um país com uma sociedade muito tensa e dividida. O presidente Zuma não tem dado grandes provas de ser um homem de bom senso e de apaziguamento. Será incerta a reacção da sociedade sul-africano perante um eventual desaparecimento de Nelson Mandela em 2013.

 

As (quase) certezas


A vitória de Benjamin Netanyahu nas próximas eleições legislativas é quase uma certeza. Mesmo que perca alguns deputados no Knesset, Bibi deverá aproveitar a vitória para reforçar a sua política de expansão dos colonatos e de isolamento da Autoridade Palestiniana.

- Vão continuar a surgir inúmeras notícias a dar conta da proximidade do Irão à "bomba nuclear", mas dificilmente haverá novidades concretas neste capítulo.

- Os ataques cibernéticos camuflados promovidos pelos Estados Unidos contra o Irão deverão continuar, no seguimento do que já aconteceu com os vírus Stuxnet e Flame. 

É das poucas certezas absolutas: a Somália continuará a ser uma manta de retalhos e o melhor exemplo de um "Estado falhado".

- A Al Qaeda irá continuar a perder força e a ficar sem estrutura de cúpula, mas as suas afiliadas instaladas em zonas como o Norte e Corno de África vão manter-se activas e com capacidade mobilizadora.

- Os movimentos fanáticos religiosos na Nigéria, na República Centro Africano, no Uganda e na República Democrático do Congo manter-se-ão activos. Muitos senhores da guerra, como Joseph Kony, líder do LRA, continuarão a deslocar-se livremente pelas selvas africanas, cruzando fronteiras altamente permeáveis.

- Em 2013 vai perceber-se se Hillary Clinton está empenhada em ser a próxima candidata pelo Partido Democrata às presidenciais americanas. Por outro lado, o Partido Republicano vai continuar dividido entre diferentes correntes ideológicas.

- A Irmandade Muçulmana deverá cimentar o seu poder no Egipto, levando a que muitos egípcios recordem os "bons velhos" tempos de Mubarak com saudade. A desconfiança entre o Cairo e Telavive vai aumentar. Washington vai certamente estar muito atenta à evolução da situação interna egípcia, país para o qual é canalizado um grande apoio financeiro americano.

- O Iraque e o Afeganistão manterão o trilho do calvário.

- É muito provável que a guerra civil da Síria vá sendo "alimentada" por potências externas, como a Rússia, o Irão, os curdos e, até mesmo, os Estados Unidos de forma camuflada.

- O Brasil, a Índia ou a China vão continuar a brilhar na economia internacional, embora esta última possa revelar de forma mais evidente algumas fragilidades.

- Pequim irá manter a escalada de investimento em equipamento militar.

- Alguns estados do Golfo continuarão a implementar reformas e a captar investimento estrangeiro.

- A Birmânia irá acentuar a sua política reformista e de abertura ao exterior.

- Nem a UE nem o Euro vão acabar, assim como as intermináveis reuniões do Conselho Europeu.

- Países enormes como o Canadá ou a Austrália continuarão a ser irrelevantes no sistema internacional.

- O nome de José Manuel Durão Barroso começará a ser falado para cargos internacionais como a ONU ou a NATO.

- A Croácia tornar-se-á o 28º membro da União Europeia e a Alemanha continuará a ser a grande potência da Europa.


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Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2012
por Alexandre Guerra

Nos Estados Unidos voltou-se a chorar pelas crianças mortas numa escola. E desta vez até o Presidente verteu umas lágrimas. Mas a verdade é que o drama vai-se repetindo de tempos a tempos e nada é feito para travar, ou pelo menos atenuar, este tipo de acontecimentos dramáticos (e não é só em escolas).

Como é natural nestes momentos de dor colectiva e de histeria opinativa, lá acordam os políticos para virem dizer “basta, porque agora é que chegou o momento de se pôr cobro a este tipo de massacres”.  

Ao ouvir isto, o autor destas linhas questiona-se: mas onde é que esta gente tem andado? Uma coisa é certa, parece que já tinham esquecido Columbine. Na altura, para quem se recorda, também a América ficou em choque e tinha chegado o momento de viragem. Desde então, tudo na mesma.

Obviamente que qualquer acção legislativa no sentido de um maior controlo na venda e posse de armas suscitará um debate intenso e polémico na sociedade americana.

E porquê? Basicamente, porque uma grande parte dos americanos acha-se no direito constitucional de ter uma(s) arma(s). E, efectivamente, a II Emenda (1791) sustenta essa realidade quando defende o “Right to Bear Arms”.

Mas a II Emenda também é clara no propósito final subjacente a esse direito: “A well regulated Militia, being necessary to the security of a free State, the right of the people to keep and bear Arms, shall not be infringed.”

Ou seja, os “legisladores” providenciaram o direito constitucional aos cidadãos de terem armas e de poderem andar com as mesmas como meio para garantir a virtude do Estado e do seu Governo e não como instrumento de defesa pessoal ou de serviço a outros interesses particulares.

Esta Emenda foi criada com base na desconfiança filosófica e ideológica que os legisladores tinham em relação ao Governo, por acreditarem que este poderia, nalgum momento, desvirtuar-se. Só com o povo dotado de armas poderia depor esse Governo e repor um novo “príncipe” virtuoso. De certa maneira, estaria aqui subjacente o princípio bíblico de armar o mais fraco (o justo) para derrotar o mais forte (o ímpio), e que permitiu a David, com a sua funda, derrotar Golias.

Ora, os americanos esqueceram-se dos propósitos virtuosos e das boas intenções dos “legisladores”, agarrando-se apenas ao “Right to Bear Arms” para se armarem até aos dentes.


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Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2012
por Alexandre Guerra

 

Numa das passagens do livro "Os Anos Blair", Alastair Campbell relembra o seguinte episódio ocorrido no dia 5 de Abril de 2002:

 

"Era o dia da procissão do corpo da rainha-mãe para a câmara ardente. Estava um belo dia soalheiro, com uma cobertura total da família real, multidões razoáveis, uma atmosfera agradável. Fui [Campbell] encontrar-me com Tony Blair no apartamento. Outro momento Austin Powers. Cuecas amarelas/verdes e nada mais. Disse-lhe que parecia ridículo. Ele respondeu que era só inveja -- quantos primeiros-ministros tinham um corpo daqueles?"


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Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2012
por Alexandre Guerra

Dos Estados Unidos chegam notícias interessantes. Soube-se esta Sexta-feira que em Novembro a economia americana criou 146 mil novos postos de trabalho, muito acima daquilo que os economistas (cada vez mais falíveis) tinham previsto. O desemprego está agora nos 7,7 por cento, o mais baixo valor em quatro anos.

 


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Terça-feira, 27 de Novembro de 2012
por Alexandre Guerra

Em Israel o impacto das palavras esbate-se com a dureza da realidade, e aquilo que poderia ser visto como um autêntico disparate em qualquer outra parte do mundo, é interpretado em terras judaicas como mais uma opinião (válida) no meio de tantas outras no que diz respeito ao relacionamento do Estado hebraico com os seus vizinhos inimigos.

É por isso que quando Robert Eisenman, conhecido escritor, investigador de assuntos bíblicos e professor de religião, defende no Jerusalem Post a reocupação do Sinai (Egipto) por parte de Israel, não se ouvem vozes de protesto ou de espanto.

Eisenman, que não é propriamente um desconhecido, defende na prática a invasão de um Estado soberano, mas nem por isso motiva qualquer reacção inflamada, seja de quem for.

As palavras daquele judeu americano são vistas como “normais” no contexto anormal do Médio Oriente. São apenas mais uma perspectiva. Aliás, há algumas bem mais radicais. Há judeus ortodoxos que defendem a expansão dos colonatos e a ocupação de todo o território da Cisjordânia.

Mas também do lado palestiniano há quem deseje convictamente que os judeus sejam todos “empurrados” para o Mar Mediterrâneo.

E o mais extraordinário é que todas estas opiniões são expressas de forma mais ou menos livre por aqueles lados do globo, seja em jornais, rádios, televisões ou na rua, sem que haja qualquer estranheza ou repulsa, mesmo por parte dos mais moderados ou de entidades com responsabilidades na sociedade.


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Domingo, 25 de Novembro de 2012
por Alexandre Guerra

 

Para muitos era a oportunidade de recordar em palco uma das bandas mais importantes na cena musical rock (e não só) dos últimos quarenta anos. Para outros, abria-se a possibilidade de ver pela primeira vez um mítico grupo que quase tudo o que criou foi de excelência e inovador (poucas bandas ou músicos alcançaram esse patamar desde o final da década de 60, destacando-se nomes como Jimi Hendrix, Pink Floyd, mas poucos mais. Nem mesmo os Rolling Stones lá chegaram).

Não é por isso de estranhar que o concerto de reunião dos Led Zeppelin de 10 de Dezembro de 2007, na O2 Arena, tenha batidos recordes na velocidade (e preços) a que foram vendidos os bilhetes. Era um momento histórico e um autêntico "Celebration Day" numa altura em que a indústria musical padece de falta de criatividade, estética e técnica. 

De tal forma que as editoras não se têm poupado a "reviver" gigantes da música de outros tempos. E assim, (felizmente) foi lançado há dias no mercado (incluindo Portugal) os CD's e os DVD's daquele concerto, que este arregimentado já tem (uma muito oferta generosa) e ouviu (foi também lançado um filme em Outubro em várias salas de cinema por todo o mundo, mas Portugal não foi incluído).

Uma das ironias quando se ouve "Celebration Day" é podermos ser confrontados com a rebeldia, a criatividade e a qualidade genuínas que não encontram paralelo nos tempos actuais, marcados pela superficialidade criativa e, sobretudo, pela ausência de estatura musical dos seus "artistas".  

É, por isso, uma autêntica "celebração" ouvir o registo de um concerto dos Led Zeppelin, realizado quase 20 anos depois de terem acabado, mas mesmo assim, com a sua virtuosidade, aliada à espontaneidade, ainda conseguem romper com o "status quo" e agitar as águas, obnubilando tudo o resto à sua volta. 

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Sexta-feira, 23 de Novembro de 2012
por Alexandre Guerra

Quem se habituou a acompanhar, desde há alguns anos, os processos negociais no âmbito do Conselho Europeu, sabe que esta cimeira europeia só podia acabar assim, inconclusiva.

Na verdade, sempre que estão em cima da mesa assuntos basilares para a União, tais como tratados, orçamentos comunitários ou alargamentos, o dramatismo impera e a solução final surge sempre à última hora do prazo limite.

É sempre assim e também o vai ser com as Perspectivas Financeiras 2014-2020. 

  


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