Quinta-feira, 6 de Junho de 2013
por Luís Naves

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Já nos habituámos a debates que passam ao lado do essencial. Em Portugal, as discussões são redondas, repetindo falsos argumentos como se fossem cerejas.
Um observador externo que nos fizesse o favor de uma análise honesta da situação colocaria o resgate no topo da lista dos factores relevantes para descrever a realidade. No entanto, entre nós, a palavra é pouco utilizada. Decorre até uma tentativa de reescrever a história: em 2011, Portugal não estava à beira da falência e a ajuda externa nunca foi necessária.

Na verdade, foi por causa de ilusões destas que o País perdeu parte da soberania. No futuro, quando a exigência aumentar, Portugal deverá abdicar de algumas das suas liberdades, mas isso raramente é referido pelos intelectuais. A “inacção europeia”, por exemplo, é uma falácia, como são exageradas as expressões “política de crescimento” ou “reforma do Estado”.


 

A Europa não parou, pelo contrário, introduziu alterações profundas na zona euro: o fundo de estabilidade para resgatar países em dificuldades; o tratado orçamental para condicionar os défices e conter as dívidas; a união bancária (já decidida, mas ainda a ser negociada) que servirá para separar a banca das dívidas nacionais; o reforço dos poderes da Alemanha. E o que dizem a isto os nossos comentadores? Que não há novidades ou que a Alemanha é poderosa porque escolhe a música e ninguém lhe recusa a dança. Como se fosse possível recusar a dança, sabendo cada parceiro que se a música pára, não há lugar para alguns dos mais cansados.
A ascensão da Alemanha é mais complexa: Berlim representa um poder relutante, que tem o bebé nas mãos sem querer a responsabilidade. A estratégia dos alemães tem sido prudente e está provavelmente correcta. Essa estratégia dificilmente será alterada.
Assim, qualquer Governo português que seja constituído nos próximos anos terá de cumprir, por exemplo, o tratado orçamental que limita o défice estrutural dos Estados-membros da zona euro a 0,5% do PIB. Terá também de pagar a dívida a ritmo definido. A alternativa será sofrer sanções.

 

Os erros do FMI na Grécia não alteram coisa alguma, pois a troika já não existe. O FMI participou para se ganhar tempo. A intervenção, conduzida pelos europeus é punitiva, como diz Jacques Delors (sempre lúcido), mas continuará a ser imposta, por muita nuance que tenha a dose. Não fazemos o ajustamento em quatro anos, mas em seis? Talvez, mas isso não altera o facto de, em dois anos, termos cumprido mais de metade.

 

Se agora quisermos deitar tudo para o lixo e escolhermos a via da Grécia (instabilidade política e segundo resgate), acabamos certamente por sair da zona euro e da União Europeia, o que representará uma catástrofe para as nossas ambições. A prioridade do País deve ser a de evitar este cenário, mas isso implica um grau de responsabilidade muito mais elevado dos agentes políticos, dos comentadores e da comunicação social, dos sindicatos e movimentos sociais. Como muito bem escreve o Maurício Barra, no post seguinte, os portugueses reconhecem que isto não vai lá com quimeras, mas continuaremos a ouvir todos os dias o mesmo rosário de desgraças e as mesmas histórias incompletas, sem a menção daquilo a que estamos obrigados por via da nossa imprudência anterior.
Em todos os bailes há uns velhinhos rabugentos, que não dançam nem querem ver os outros a dançar. Para eles, a música está sempre errada e o mundo já nasceu perdido. Isto acaba  mal, dizem.


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1 comentário:
De l.rodrigues a 6 de Junho de 2013 às 14:46
Está tudo errado: a política europeia, a política nacional, e as teorias económicas que as informam.
Perceber isso num entanto, é ser um velho resmungão que não quer dançar. Ok.

Um dia os povos sujeitos a estas medidas vão querer de volta o que lhes tiraram para pagar o aventureirismo financeiro dos bancos alemães e franceses.


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