Terça-feira, 2 de Julho de 2013
por Luís Naves

Portugal está hoje mais perto do segundo resgate do que estava ontem. Esta é a primeira consequência da saída do ministro Vítor Gaspar. Não há novo alento, apenas perigos e estreitar de margens.
Reconheço a validade de muitas críticas feitas a Vítor Gaspar, nomeadamente ter subestimado os efeitos perversos da austeridade, mas o ministro conseguiu credibilidade externa, o que colocou Portugal no caminho da Irlanda, evitando que o País percorresse o da Grécia.
A saída de Gaspar representa o triunfo dos grupos de interesses e dos lóbis, o avanço das corporações profissionais instaladas, dos negócios subsidiados, o sucesso da república dos juízes e da república dos comentadores políticos, a vitória das tácticas partidárias destrutivas e de movimentos sociais não eleitos.

 

Nenhum destes grupos será responsabilizado pelo segundo resgate. Haverá maneira de culpar aqueles que o tentaram evitar. Vamos assistir ao mesmo filme: quem nos levou à bancarrota reaparece imaculado e está à beira de regressar ao poder, quem aplicou swaps ruinosos transfere a culpa para os que se atrasaram a dar por eles. A questão não está na comunicação política mais ou menos ingénua: após dois anos a ouvir sistematicamente mitos, a sociedade portuguesa já não aceita a realidade. Esta irá impor-se nos próximos meses, mas os donos da narrativa podem sempre sacudir a água do capote.

 

Que significa um segundo resgate? É o caminho da Grécia e da menoridade política, o caminho que nos afasta da Europa e nos empobrece a prazo de pelo menos uma década. Significa que, incapaz de regressar em Outubro totalmente aos mercados, o País terá de depender da ajuda dos seus parceiros da zona euro, necessitando de dinheiro que virá acompanhado de novas exigências, cada vez mais duras. Governos progressivamente mais fracos e pressionados pela rua acabarão a pedir a reestruturação da dívida e, após quatro ou cinco anos de sacrifícios inúteis, a saída da zona euro.
Ontem, correu notícia de rodapé segundo a qual o Governo (em bloco) teria recusado propostas da troika de flexibilizar ainda mais as leis laborais e reduzir o subsídio de desemprego. Admitindo a veracidade da informação, não custa imaginar a intensificação de pressões como esta, na altura em que o País se aproximar da situação de cofres vazios e mercados relutantes em emprestar dinheiro. 
Vítor Gaspar não tinha uma varinha de condão, mas tentou evitar o segundo resgate, enfrentando poderosas forças conservadoras que recusam as reformas de que o País precisa. Cedências como as que foram feitas pelo ministro da Educação, Nuno Crato, comprometeram a reforma do Estado e será mais difícil cumprir os compromissos internacionais.
Preferia estar enganado, mas o País não muda, sendo a resistência à mudança o principal lastro que nos arrasta para o fundo. 


tiro de Luís Naves
tiro único | gosto pois!

De k. a 2 de Julho de 2013 às 12:09
Não seja ingénuo, Portugal nunca esteve no caminho da Irlanda, apenas esteve num caminho mais lento da Grécia.

Sempre esteve, a partir do momento em que a "Troika" cá entrou com o objectivo de safar os nossos credores - se assim não fosse, teriam imposto à cabeça um haircut (que aliás, é o modus operandi do FMI).

Portugal vai necessitar de mais dinheiro - e sem coragem politica para um "não pagamos", seja mais ou menos formal, mais ou menos elegante, esse dinheiro simplesmente irá manter-nos num estado de "indentured servitude" - mesmo quando eventualmente a economia deixar de cair (eventualmente), teremos uma dívida tão grande que efectivamente o Estado Português será um estado Vassalo da comissão+BCE, ou de quem manda neles, os Alemães.

Talvez tenhamos sorte, e apareça um Alemão benigno (há desses, e muitos), mas é completamente, sorte.


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