Domingo, 6 de Novembro de 2011
por Pedro M Froufe

A estratégica que tem norteado o  Governo parece clara: meter travões a fundo quanto ao desvario das finanças públicas, tentando, a todo o custo, ultrapassar, mesmo pela direita, o memorando da “troika”, para que, dentro de algum tempo, seja possível renegociar as condições do resgate financeiro. Uma renegociação apoiada num crédito: se as coisas correrem bem, seremos, novamente, “bons alunos” (sobretudo, alunos empenhadíssimos) e, afinal, de “PIGS” teremos pouco. No fundo, corre-se contra a Grécia, para que não subsistam confusões sobre as nossas diferenças (para melhor).

Ora, esta estratégica, como se evidenciou esta semana, tem um risco maior: ainda que se faça tudo estoicamente bem, ainda que nos associem mais à Irlanda do que à Grécia, arriscamo-nos a ver o nosso esforço a ir por água abaixo por causa de um desenlace infeliz do caso grego. Poderemos ser, afinal e apesar de tudo, meros figurantes sem papel autónomo, nessa tragédia clássica. Porém, outros riscos existem ainda: fazer sucumbir o país (os portugueses) a uma cura de resultados incertos. Além disso, sem tempo, nem realisticamente condições para se empreenderem, em simultâneo, reformas estruturais, poderemos, igualmente, dificultar (ainda mais) o futuro. Veja-se a tendência de centralização que, a pretexto da redução urgente de custos, tem vindo a ser manifesta em algumas medidas de emergência, adoptadas ou anunciadas. O drama é que, creio eu, literalmente sem dinheiro para que as funções básicas e quotidianas do Estado funcionem, possivelmente, não haverá mesmo alternativa. E esse drama vive-se com a União. Quando os líderes dos Estados (e, sobretudo, o directório oficioso Merkel – Sarkozy) assumirem medidas típicas de um bloco federal, com o intuito primeiro da defesa do Euro (nos domínios fiscal e orçamental e, por decorrência, na inevitável acção de governo económico europeu, pelo menos), isso, por si só, poderá não bastar para se resgatar a tranquilidade e o desenvolvimento. É certo que urge aprofundar a lógica federal entre Estados-membros, exigindo-lhes um outro papel e uma outra partilha de competências (em rigor, será caricato, hoje em dia, falar-se das míticas “soberanias nacionais” de outrora). Porém, é premente que isso seja feito simultaneamente com uma transformação do que, para nós, europeus, têm sido esses mesmos Estados (e, politicamente falando, do respectivo papel).

 

A questão é esta: Como estaria a Europa sem o problema grego? Estruturalmente na mesma: à espera de uma redefinição … de si, enquanto projecto, dos Estados, da política e das nossas vidas.

* Semanário Grande Porto, 04.11.11

 

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1 comentário:
De Ricardo Vicente a 6 de Novembro de 2011 às 11:08
Há uma tentativa da parte do Governo de implementar reformas que aumentarão o nosso potencial de crescimento. É claro que teria sido melhor realizar essas alterações há muito mais tempo (a partir de 1995) mas este Governo não tem culpa disso.

Parece-me também que o objectivo do Governo é, reconhecendo que não há (nem nunca houve) dinheiro para tudo, melhorar o desempenho do Estado naquilo que são as suas funções essenciais.

Finalmente, uma união política a 27 é mais do que impossível e, apesar da sua riqueza, a França e a Alemanha não conseguirão criar tão união. Sobre essa impossibilidade tenciono escrever para a semana.


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