Quarta-feira, 9 de Novembro de 2011
por Luís Naves

Um responsável chinês, Jin Liqun, deu esta espantosa entrevista à Al Jazeera e julgo que está aqui um vislumbre do nosso mundo. Jin não é uma pessoa qualquer, mas chefia a companhia que gere os investimentos internacionais da China. Não representa o governo, mas será um dos membros mais poderosos da hierarquia comunista do país. 

Leia-se este interessante editorial sobre o mesmo tema.

Para os leitores que não tenham a paciência para ver todo o vídeo de 25 minutos, recomendo que ouçam a passagem a partir de 12.55 minutos, onde Jin se refere à rede social europeia como incentivadora da "preguiça", criticando as leis laborais na UE. Mas há outras frases interessantes. Questionado sobre que parte do Estado Providência tentará a China evitar, este responsável fala de "tudo o que possa desincentivar o trabalho". No final da entrevista, Jin reconhece que a "inovação ainda está nos países desenvolvidos" e admite que a China precisa de "maior aproximação" entre ricos e pobres, mas a certo ponto o entrevistador surpreende-se e diz ao entrevistado que ele parece um "capitalista extremo dos Estados Unidos". O responsável chinês fica um pouco embaraçado com o comentário.

 

O pretexto da entrevista é o plano europeu de resgate, que inclui a possibilidade de países emergentes com disponibilidades de capital investirem no Fundo Europeu de Estabilização Financeira. A resposta chinesa é prudente e parece apontar para a positiva. Jin Liqun diz que a China está interessada num euro forte, numa moeda de reserva internacional em paralelo com o dólar, mas também afirma que o facto de haver 17 parlamentos na zona euro não pode ser "desculpa para a inacção", fazendo em simultâneo a crítica ao modelo social europeu, que considera "injusto". Na sua opinião, os europeus trabalham pouco e muitos reformam-se aos 55 anos, passando o tempo na praia. E há contradições: por um lado, a referência ao facto da sua agência de investimento não querer saber de política, mas mais à frente a sugestão de que os europeus têm de mudar de vida.

 

De súbito, a Europa parece encontrar-se no lado errado da globalização, com os próprios comunistas chineses a defenderem o desmantelamento da rede social construída nos últimos 50 anos e que foi o orgulho de mais do que uma geração. Os chineses, naturalmente, não têm apoio na velhice e, aliás, vem aí a bomba-relógio do envelhecimento muito súbito da população, que vai ocorrer em apenas 20 anos, fruto de terem andado a fazer experiências demográficas radicais, com consequências que exigiriam muito mais tempo de adaptação.

A China é ainda um país onde há 600 milhões de camponeses pobres e 100 milhões de analfabetos. Trabalham muito, mas sem sindicatos nem direitos sociais, com horários de escravidão e condições de trabalho penosas. A economia cresce depressa, devido a investimento público maciço e à abertura dos mercados externos a produtos chineses em grande parte fabricados por empresas europeias. E é interessante verificar que abundam as histórias de roubo de patentes ou contrafacção de produtos. Os comunistas chineses, que não permitem qualquer tipo de abertura política, usam a seu favor o comércio internacional, beneficiando da competitividade inevitável da sua produção, a qual resulta das condições laborais degradantes a que o povo chinês é submetido.

A Europa, por seu lado, abdicou da indústria de trabalho intensivo e apostou em serviços ou naquelas indústrias que podem ser robotizadas. Em consequência disto, tem elevadas taxas de desemprego e, como aumentam os custos da manutenção da extensa rede social, a única forma de se manter competitiva é através da inovação, o próximo alvo dos chineses.

 

É isto o triunfo do comunismo ou do extremo liberalismo capitalista? Não me parece. Prefiro a explicação de Jin Liqun, quando fala da tendência de transferência de poder do Ocidente para o Oriente.

A China pensa em termos históricos e no seu próprio interesse nacional. Não esqueceu as humilhações europeias, mas precisa de uma Europa próspera, ou não haverá compradores para os seus produtos. Só exige uma pequena enormidade em troca: esqueçam o vosso estilo de vida, sejam mais chineses.  

 


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4 comentários:
De k. a 9 de Novembro de 2011 às 11:52
Explicação alternativa: O sr. Jin fala como um industrial Europeu no meio do século XIX.

O facto é que se há sistema social Europeu, é porque houve muita luta e confronto social dentro da Europa, e porque em parte, o conseguimos sustentar.

O que vai acontecer quando os cidadãos chineses começarem a querer gozar a vida, ter direitos e essas coisas? E a China está interessada num Euro forte simplesmente porque tem bilioes em reservas denominadas em Euros. Pensemos nós nos nossos interesses, e começemos a exigir à china que valorize a sua moeda.


De PALAVROSSAVRVS REX a 9 de Novembro de 2011 às 11:57
Luís, eles têm O Dinheiro. C'est tout.


De l.rodrigues a 9 de Novembro de 2011 às 12:05
Não percebo se é o Luis Naves que pensa ou se pensa que a china pensa, que haverá mais compradores para os produtos chineses se ficarmos mais parecidos com os chineses... Então porque não os compram os próprios chineses?
O caminho apontado, no fundo, parece ser: um país que produz para as classes ricas, a Alemanha, e outro que produz para as outras, a China.


De Luís Naves a 9 de Novembro de 2011 às 13:18
O que penso sobre isto? Dava para muitos posts, mas a ideia deste é estimular uma reflexão dos leitores


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