Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011
por Luís Naves

A recente berrata dos banqueiros, unidos aos sindicatos e até aos très ancien de Verdun do regime convenceu-me nos últimos dias que este Governo esteve por enquanto a fazer a parte fácil do programa de ajustamento e está a entrar na parte difícil e mais importante, as chamadas reformas estruturais. Basta ler a blogosfera (de direita e esquerda) para perceber o fenómeno da revolta dos grupos de interesses. Decretar cortes nos salários de funcionários públicos e decidir aumentar impostos é impopular, mas relativamente fácil, se compararmos com os chamados direitos adquiridos que protegem alguns grupos e saem caros à generalidade dos cidadãos.

É o caso das empresas públicas repletas de boys partidários que ninguém sabe o que fazem, dos transportes ruinosos, da lei das rendas que protege os inquilinos e as suas famílias, das autarquias gastadoras, da política de energia, dos monopólios e cartéis, das dezenas de milhares de micro-empresas dispensadas de pagar impostos, das coutadas profissionais inimputáveis (jornalistas, juízes, taxistas, advogados, professores, médicos), da indústria farmacêutica, dos cineastas incompreendidos, da Igreja, dos reformados antecipados com reformas muito baixas, dos estudantes que não precisam de estudar, dos utentes disto e daquilo (também dispensados de pagar a conta).

 

Ao entrar na parte que verdadeiramente dói e que mexe com grupos instalados, o Governo vai agora acordar o vespeiro. As primeiras reacções na área dos transportes foram significativas e ali era fácil argumentar do ponto de vista governamental, dada a dimensão da dívida acumulada pelas empresas. A reacção dos banqueiros foi espantosa, a meu ver, e mostrou quem de facto manda no país, os lobbies. Os bancos vão receber dinheiro que os contribuintes ficam a dever, mas queriam um programa sem exigências do credor, semelhante ao americano (o mesmo que deu origem aos movimentos Tea Party e Occupy Wall Street, já que a opinião pública ficou indignada com a compra de jactos e a atribuição de dividendos hiperbólicos). E não ouvi um único político de esquerda a defender a prudência do Executivo.

Até agora, houve um recuo importante, na dívida das autarquias, mas julgo que este Governo tem mostrado intenção de reformar Portugal nos próximos dois anos. Veremos. Não será fácil enfrentar os lobbies, mas a alternativa é ficar como a Grécia ou a Itália, dois países no purgatório, por não terem líderes capazes de mudar um milímetro das suas sociedades, habituadas a uma estranha forma de vida, imutável e cara.


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2 comentários:
De monge silésio a 12 de Novembro de 2011 às 14:27
1. Manuela Ferreira Leite vem hoje no “Expresso” dizer o seguinte:

“o argumento da redução de salários na administração pública é um mal menor quando comparado com a possibilidade de despedimento ou a de que os vencimentos da função pública são em média superiores aos do sector privado, o que não é verdade, ou sugerindo que se podiam dispensar dezenas de milhares de funcionários públicos ou baixar-lhes os vencimentos sem consequências para as populações é arrasador para a imagem e para a percepção do valor do contributo dos funcionários públicos” (…) “Receio que o dano causado na opinião pública pelos argumentos apresentados seja superior ao causado pela própria medida”

2. MFL fala ainda de opinião pública e imagem. Falemos de realidade.

3. O argumento apresentado pelos bitaiteiros do regime é um argumento cirúrgico num país de analfabetos e de gente invejosa. Criando assim uma divisão que só o “espírito de élite” de muitos não recebe desmotivação.

4. Há funções do Estado que podem ser cumpridas por privados. Seja a educação, seja a saúde, seja a protecção civil, seja o emprego. O Estado Social, nascido há 50 anos, tem por origem uma guerra silenciosa perante a oferta dada pelos estados do socialismo real. Assim, teve que oferecer para não causar revoluções ou guerra (é bom lembrar que os países do socialismo real atingiram níveis paradisíacos de progresso na década de 70). As ideologias mudam as suas razões como as mercadorias. Assim, formaram-se puros contratos eleitorais decorrentes de desejos da maioria, sempre mais desfavorecida e desejosa, acalmando a guerra possível (linguagem “light”: “turbulência social”). BNa essência há que escolher entre liberdade e igualdade imposta.

5. Há funções do Estado que não podem ser cumpridas por privados, sob pena de queda na selva ou a regulação de acordo com a lei do mais forte. Só existimos porque o outro sabe que matar é proibido e desencadeia uma limitação da sua liberdade, e daí que não nos mata (furta, rouba, ofende fisicamente etc) porque perde-se: não é livre.

6. Há que recuar ao ser das coisas; no ter como se sabe pode vigorar a lei do melhor ou do mais forte, no ser (essência, vida, existir, corpo) nunca…sob pena de guerra (aqui no sentido literal), de selva.

7. Já o disse, e repito, a economia europeia já é uma economia de guerra. Só os que gostam da fantasia (eu-quero-um-mundo-melhor) e das clientelas ocas (não sabem em QUE votam, só votando no seu interesse) não perceberam.

8. Mas isso tem um fim: a realidade nua e crua, aquela que está acima da linguagem.

9. O sector financeiro percebe muito bem; porque tem regras simples, e claras, correspondentes a desejos claros e formados no conceito de valor.

10. Caso as funções primaciais do Estado (protecção do território e da guerra civil) sejam tratadas de forma igual às “inventadas” nos últimos cinquentas anos, as pessoas que nelas se inserem (seja defesa, seja polícia) não irão cumprir as funções essenciais para as quais foram originalmente chamadas. Dar uma “pica” não é o mesmo que andar de patrulha à noite. Escolham.


De Ricardo Vicente a 15 de Novembro de 2011 às 19:08
Muitíssimo bem!


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