Os interesses instalados
Ouvi hoje vários comentadores na televisão que não pestanejavam quando diziam ao mesmo tempo duas coisas contraditórias: em Portugal havia uma crise de legitimidade política e em Itália os mercados derrubaram Silvio Berlusconi, interrompendo a democracia.
Nenhum explicava que, no caso italiano, a queda do Governo foi consequência de Silvio Berlusconi ter perdido a maioria parlamentar, o que aconteceu dois ou três meses antes do que se esperava (essa circunstância teria sido em Janeiro, sem a crise financeira). No caso grego, havia divisões no próprio Governo, com quatro ministros a liderarem uma revolta e muitos deputados socialistas a ameaçarem derrubar Georges Papandreou se este não se demitisse.
Mas está a ser criada na opinião pública portuguesa uma narrativa falsa, segundo a qual as instituições italianas e gregas foram perturbadas pelo assalto dos mercados, que teriam feito um verdadeiro golpe de Estado, intimidando os políticos. Ora, os mercados reagiram à instabilidade política e os partidos, de forma sensata, mudaram os Governos e aceitaram eleições antecipadas.
As instituições funcionaram na perfeição, nomeando governos tecnocráticos de transição que vão aplicar medidas de austeridade e organizar eleições nos prazos constitucionais. Esta realidade tão simples é transformada numa tenebrosa conspiração liderada pela senhora Merkel, pela UE, FMI e Goldman Sachs.
As mesmas pessoas que criticaram a demissão de Silvio Berlusconi descreviam os protestos de hoje em Lisboa como pré-revolução. Começavam por dizer que as manifestações tinham sido pacíficas e depois falavam em classe média à beira da revolta, antecipavam cenários de incêndio social para os próximos meses, sublinhando a falta de legitimidade deste Governo, apesar de haver uma maioria estável no parlamento que resulta de eleições com apenas cinco meses. Em alguns comentários, parecia que estávamos à beira de um golpe militar (ninguém se questionou sobre a idade elevada dos manifestantes da manifestação militar).
Já escrevi aqui e volto a escrever: este Governo está a mexer em interesses demasiado poderosos; meteu-se com os grupos instalados, com a banca e com os negócios de Estado que tanto contribuíram para a factura nacional; meteu-se com os senadores da classe política e com os militares de Abril, que são os autênticos donos da democracia; meteu-se com as corporações que dominam a sociedade portuguesa e que falam sempre em nome da classe média e em nome do povo, com amplo acesso aos meios de comunicação (e nos "debates", não ouvi um único defensor do Executivo).
Há sempre uma pergunta que fica por fazer: como é que o País paga as dívidas? Batendo com o punho na mesa, a cantar o hino? Numa dessas reportagens, Mário Soares criticava os políticos actuais por cederem e cumprirem o acordo da troika, provavelmente porque quando chefiou um governo intervencionado pelo FMI se fartou de resistir.
Infelizmente, nos últimos cem anos, Portugal teve muito poucos governos reformistas e demasiados de cariz revolucionário. Todos os regimes caíram após evitarem durante demasiados anos fazer as reformas que se impunham e que eram muito menos traumáticas do que uma revolução. Ainda é cedo para o afirmar, mas julgo que o Governo de Passos Coelho será um dos raros Executivos reformistas da nossa história recente, com a pequena vantagem de haver uma conjuntura exterior que nos retira qualquer espaço para ceder à irresponsabilidade dos grupos de pressão.
Se este governo falhar nas reformas, não vejo que outro as consiga realizar. O país perde os seus aliados e continuará a afundar-se, sem solução à vista, pelo menos até à revolução seguinte.
