Domingo, 11 de Setembro de 2011
por Pedro Correia

 

Nos primeiros dois dias de congresso, virados para o partido, o PS tinha o palco dominado pelo vermelho vivo. Hoje, dia em que António José Seguro promete "falar para o País", o vermelho deu lugar ao verde. É uma simbologia muito reveladora: os socialistas, quando saem dos círculos concêntricos do debate interno, são forçados a pôr de lado a retórica "antiliberalismo" e "antimercados", adoptando as receitas de governação da direita liberal neste tempo em que o nosso destino está intimamente ligado ao do conjunto da Europa. Repare-se no que tem sucedido além-fronteiras: todos os maiores países europeus são hoje governados por partidos do centro ou da direita. A excepção, até agora, tem sido a Espanha. Mas é uma excepção já com fim anunciado: 20 de Novembro, data em que o Partido Popular, de Mariano Rajoy, sairá como vencedor mais que provável das legislativas.

Manuel Alegre fez neste congresso de Braga a mais estimulante intervenção de todas quantas pude escutar, questionando por que motivo, em tempos de grave crise económica, os eleitores europeus preferem dar o poder à direita. Para obter uma resposta a esta pergunta basta analisar o que foi dito pelos congressistas em Braga contra o Governo PSD/CDS: na esmagadora maioria dos casos essas críticas poderiam ter sido dirigidas com razão acrescida ao anterior Executivo, liderado por José Sócrates, que conduziu o País a uma situação de emergência financeira. Acontece que no anterior congresso socialista, realizado apenas há cinco meses, quase ninguém proferiu o menor reparo, como se vivêssemos no melhor dos mundos - o que retira autoridade moral às actuais vozes críticas.

Comparemos com Espanha: quase tudo quando os socialistas criticam agora em Portugal tem vindo a ser aplicado no país vizinho, começando pela eventual imposição de limites ao défice na Constituição: esta medida, que o PS contesta, foi já adoptada entre os espanhóis por iniciativa de Zapatero. E já nem falo do caso grego, onde o Executivo socialista aplica hoje as mais draconianas medidas de contenção orçamental de que há memória - aliás sem evidentes resultados práticos.

Isto, de algum modo, responde à perplexidade de Alegre: entre o original e a cópia, os eleitores europeus preferem o original. Os socialistas precisarão de novas receitas governativas para liderarem futuros ciclos de poder. O problema é que nenhum deles as inventou ainda.

 

Imagem: cartaz do Partido Socialista Italiano (1890)


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4 comentários:
De André Couto a 11 de Setembro de 2011 às 16:32
E muito sinceramente não antevejo nada de diferente.
Na minha opinião não tardarão comparações entre o populismo e demagogia de António José Seguro e o de Pedro Santana Lopes.
Fazer política para as câmaras de televisão, por si, não leva a lado nenhum. Do que já vi do congresso do PS ficou-me uma imagem na retina:
Seguro a acenar à multidão, qual Ronald Reagan acenando a uma multidão inexistente por detrás de uma câmara de tv.
O tempo o dirá.
Cumprimentos.


De Pedro Correia a 11 de Setembro de 2011 às 17:14
Seguro foi recebido com relativa indiferença neste congresso e a sua intervenção final, por manifesto azar, acabou preterida pelas três televisões portuguesas em função das cerimónias evocativas do décimo aniversário do 11 de Setembro, directamente de Nova Iorque. Alguém devia ter dito ao líder socialista que esta era uma data péssima para encerrar o seu primeiro congresso: há dez anos que todos sabíamos que esta seria marcada por estas evocações. Faltou algum profissionalismo em termos de comunicação política.


De Nuno Oliveira a 11 de Setembro de 2011 às 17:37
A questão está bem colocada.
Mas antevê-se difícil solução. Por um lado o PS tem o "rabo preso" pela sua acção governativa e imagino que o facto de Seguro não fazer parte desse passado, por si, não é garante de sucesso. Por outro lado, o PS é também subscritor de um documento que, na prática, é o programa de governo a seguir. Sem mais.
Que estratégia seguir?
Talvez serem iguais a si mesmos e deixar que ou o tempo cure as feridas, ou este Governo se esbarre por si (levando o país atrás)?
Como nota final devo dizer que, de facto, concordo com o meu vizinho trofense. António José Seguro, lembro-me bem dele antes da Era Sócrates, sempre me pareceu demagogo, lobista e populista. Boa analogia essa com Santana.
Cumprimentos.


De Pedro Correia a 11 de Setembro de 2011 às 20:38
AJS não assinou o acordo de assistência financeira com as instituições internacionais. Mas está, de facto, politicamente amarrado a ele. Diga-se, em abono da verdade, que em nenhuma circunstância o novo líder do PS procurou furtar-se a esta responsabilidade.


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