Segunda-feira, 28 de Novembro de 2011
por Luís Naves

Num colóquio organizado pela Embaixada da Polónia, na semana passada em Lisboa, Mário Soares fez uma afirmação extraordinária, dado o contexto, dizendo que os erros catastróficos da senhora Merkel se deviam ao facto dela vir “do leste”. Não foi a primeira vez que ouvi isto na boca de alguém da elite nacional, mas a circunstância foi notável, dado o facto dos anfitriões polacos estarem na presidência rotativa da UE e porque Soares se dirigia ao orador anterior, Adam Michnik, um lutador da liberdade que fizera uma intervenção muito simpática para Soares e para os portugueses que assistiam ao colóquio. Provavelmente, o ex-presidente não se lembrou de que os polacos também vinham do “leste”.
Soares fazia na altura um feroz ataque aos políticos europeus, nomeadamente a Sarkozy e Merkel (reparem que os críticos nunca dizem a “chanceler Merkel”, mas a “senhora Merkel”, suponho que para sublinharem o sexo, logo, a sua falta de competência). Segundo esta tese, ela vem do “leste” e “não compreende a Europa”, a sua actuação é uma catástrofe e deve fazer imediatamente emissão de eurobonds e compra de dívida pelo BCE. A mutualização da dívida europeia é a única forma de resolver a crise do euro. Ontem, ouvi Marcelo Rebelo de Sousa a fazer críticas semelhantes: a solução é óbvia e fácil, a senhora não entende, a dupla Sarkozy-Merkel toma decisões a dois que ignoram todos os outros. E são ambos tão incompetentes, que estão a perder ou vão perder todas as eleições.
Ora, como é fácil de compreender, a chanceler Merkel não é uma voz isolada na Alemanha nem uma ditadora que decida sem ouvir os políticos locais. Não existe nenhum primeiro-ministro de um país democrático que possa decidir contra o seu parlamento, a sua coligação, o seu partido, a sua opinião pública, os seus conselheiros ou até contra os seus funcionários e especialistas. Merkel não quer assumir as dívidas alheias porque os políticos da Alemanha são contra isso, a CDU é contra, o FDP é contra, o Bundesbank é contra e muitos conselheiros da República Federal são contra. O comentário de Soares revela um preconceito em relação ao leste da Europa, preconceito esse que foi alimentado pelos burocratas de Bruxelas, numa altura em que estes resistiam a acomodar ideias menos federalistas.

A crítica de Marcelo Rebelo de Sousa também me parece estranha, pois se as reuniões a dois se repetem, isso deve-se à circunstância de não haver acordo entre França e Alemanha, pois se eles se entendessem, não seria preciso fazer tantas reuniões. Julgo que o problema está na questão da mutualização da dívida, a França a favor e a Alemanha contra, mas que as posições dos dois países resultam da defesa dos interesses nacionais (e ainda são estes a dirigir a política europeia, não é a comissão de Barroso). A crise da zona euro é mais grave não por existir directório, mas pela sua ausência: A França discorda da Alemanha, esta do Reino Unido e o Reino Unido não se entende com a França.

Na questão das eleições, Marcelo está a ser prematuro e julgo que não tem razão. Se a Alemanha votasse agora, a CDU de Angela Merkel vencia, embora o seu parceiro de coligação corresse o risco de desaparecer. Mas seriam os conservadores a formar governo, com os verdes ou com os social-democratas (um governo do segundo com o terceiro é que me parece mais difícil na Alemanha). Nas últimas oito eleições estaduais, a CDU venceu em três, incluindo nas duas mais importantes, Reno-Vestfália e Baden-Vurtenberg. Perdeu no Reno-Palatinato, Mecklenburgo (leste), Hamburgo, Bremen e Berlim, mas em 2006 já tinha perdido em todas estas.

 
Quem compreende inglês deve ler este editorial do Financial Times de 9 de Outubro. Muito em resumo, o autor dizia que a raiz da crise estava nos países endividados, que teriam de fazer reformas profundas; também mencionava os três passos da resolução do problema e pode constatar-se, um mês e meio depois do texto ser escrito, que sucedeu o cenário mais temido pelo editorialista, o contágio atingiu a Itália (sendo que a culpa disso não pode ser atribuída à chanceler Merkel ou ao presidente Sarkozy, mas à política disfuncional da República italiana). O apoio dos eleitores também se está a dissipar, pelo que os líderes começam a admitir o próprio colapso do euro, certamente para criarem logo outro mais pequeno e com as instituições adequadas, incluindo eurobonds, mas só para os países que tenham rating triplo A.

Aqui, entramos num ponto crucial: os alemães consideram, a meu ver bem, que sem alterações dos tratados qualquer solução temporária será ineficaz, porque será vista pelos mercados como provisória. O fundo de estabilização acaba em 2013, as intervenções do BCE são reacções à conjuntura. O sistema financeiro e os seus especuladores usam tácticas de guerrilha para testar a cada momento qual é a profundidade da bolsa dos países credores; até que ponto a Alemanha está disposta a abrir os cordões à bolsa para salvar o euro. Julgo que a disposição não é elevada e que os alemães preferem uma solução alternativa, a de poderem avançar numa moeda única só para alguns, os países triplo A. Este é o velho plano da Europa a várias velocidades, que não fará mais do que retratar a realidade. Então, sim, a Alemanha poderá liderar a Europa, com condições para o fazer.
A zona euro já está fragmentada em três partes (o céu para os triplo A, o purgatório para oito países sob pressão dos mercados e na iminência de resgate, o inferno para os três resgatados); a UE também tem três partes, incluindo a zona euro, com 17 países, os dois que têm cláusulas de excepção (Reino Unido e Dinamarca, a que se junta a Suécia, que entra quando assim desejar) e ainda sete do leste, que vivem no limbo e têm de aderir ao euro; o próprio mercado único tem três velocidades, a dos 27, a do grupo de países que não sendo da união estão no mercado único (Suíça, Noruega, Islândia) e ainda os muitos que querem entrar na UE e se adaptam. Este número três começa a soar com força.
A Europa mudou, deixou de ser um bloco de 27 e caminha para a federalização rápida do núcleo restrito, naquilo que poderá ser uma cooperação reforçada aprovada depressa nas próximas semanas. Haverá ainda dois outros níveis e Portugal corre sério risco de ficar no segundo e fora da zona euro ou daquilo que a substituir. Mas há políticos portugueses que insistem na tecla ultrapassada de que estão “a estragar a nossa Europa”. Talvez seja assim, mas é difícil encontrar soluções para aquilo que já não existe.

Subestimar Merkel ou imaginar que ela tem um poder desmedido torna menos nítida a nossa visão. A chanceler não tem nenhum defeito por ser mulher ou por ser da antiga RDA ou por ser protestante ou doutorada em física. A Alemanha está muito relutante em mandar na Europa e não aceita pagar as despesas dos seus aliados. A tese do erro estratégico pode até estar correcta, mas então o erro tem de ser atribuído à elite alemã e, de qualquer forma, a tese precisa de mais factos. 

 


tiro de Luís Naves
tiro único | gosto pois!

De João André a 28 de Novembro de 2011 às 14:03
«reparem que os críticos nunca dizem a “chanceler Merkel”, mas a “senhora Merkel”, suponho que para sublinharem o sexo, logo, a sua falta de competência».

Este comentário acime (em aparte) é completamente disparatado e um acenar de espantalhos. Margaret Thatcher foi chamada de "Senhora Thatcher" desde sempre que me lembro, fosse pelos seus defensores, detractores (quando não lhe chamavam outras coisas que prescindiam de educação) ou pessoas indiferentes. É um resultado da tradição jornalística inglesa de se referir aos políticos como "Sr." e "Sra." X ou Y.

No caso de Merkel, já vi comentários favoráveis a ela com "Sra. Merkel" e desfavoráveis com "Chanceler Merkel". Aliás, usar o termo "Chanceler" juntamente com o nome não faz qualquer sentido. Não me recordo de ler ou ouvir habitualmente "Chanceler Schröder" ou "Chanceler Kohl", tal como não é habitual ouvir falar do "Primeiro-Ministro Cameron" ou "Ministro-Presidente Rutte".

Creio que a origem do hábito de usar "Senhora" em Portugal para mulheres políticas terá como objectivo distinguir que se trata de uma mulher. Nunca (que me lembre) li o nome "Senhora/Chanceler Angela Merkel". Quando o nome próprio é usado, raramente se usa qualquer outro extra (excepto ao identificar a pessoa, como em "Angela Merkel, Chanceler alemã"). Será talvez um acto de gentileza, clareza ou paternalismo/machismo. Talvez uma mescla de todos estes. Aquilo que não é, certamente, é uma forma de menosprezar Merkel por ser mulher.


De Luís Naves a 28 de Novembro de 2011 às 15:17
Nunca vi a referência senhor Schroeder ou senhor Kohl ou senhor Brandt. Esses eram sempre chanceleres ou referidos pelo nome. No caso de Thatcher tem razão, era a senhora Thatcher, mas isso só sublinha o meu ponto. Nunca vi senhor Cameron. E quando Thatcher se tornou mais poderosa perdeu o senhora.


De João André a 29 de Novembro de 2011 às 08:07
Nunca cheguei a ver uma situação onde Thatcher perdesse o "senhora". Numas ocasiões era usado, noutrasnão. Tal como agora. Numas ocasiões os jornalistas (ou comentadores) lembram-se do "baronesa" (salvo erro é esse o título), noutras não. Continuo a achar que usar o termo "senhora" em Portugal não é nem bom nem mau sinal. Será apenas um hábito, um vício. Seja de defensores, seja de detractores.

Nesse aspecto sempre achei muito mais relevante que as pessoas se referissem a Hillary Clinton como "Hillary", como se não tivesse direito a apelido. Faria algum sentido dizer "Senhora Clinton" para a distinguir do marido, mas como continua activa na política, quando alguém se refere a Clinton, hoje em dia, a minha tendência é pensar em Hillary Clinton, não em Bill Clinton.

Um termo notoriamente negativo (e que usei e continuo a usar bastas vezes, assumo-o) é "Bush Júnior" para George W. Bush. Neste caso vê-se muito mais facilmente como um nome pode ser usado para denegrir uma pessoa.


Comentar:
De
  (moderado)
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Este Blog tem comentários moderados

(moderado)
Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres




Regimento
outras cavalarias
tiros recentes
tiros mais comentados
cofre
tags
Arregimentados
Subscrever feeds