Terça-feira, 6 de Dezembro de 2011
por Ricardo Vicente

"É necessária uma mudança de mentalidades": esta frase tem, para mim, a semente do terror político e intelectual. Não deve existir projecto mais totalitário do que esse: mudar mentalidades. Nem mais paternalista. O que sentiria George Orwell perante a admissão de tal objectivo por parte dos poderosos? E o que pensaria ele no caso de esse objectivo, apresentado como remédio para todos os males, ser prescrito não apenas por políticos mas por qualquer pessoa? O que diria se testemunhasse essa ideia ser defendida por gente de esquerda e de direita e de todo o lado, tal como realmente sucede?

Apavora-me sobretudo quando a "mudança de mentalidades" é defendida à direita e, ainda pior, por dirliberais (isto é, liberais de direita). A última coisa em que o Estado deveria mexer é a nossa mente: não é isto mais do que incontestável e definitivo para quem se reclama, "pelo menos", de direita e do lado liberal? Para quem reivindica menos Estado, menos intervenção do Estado, menos peso do Estado e, até, menos funções do Estado - como é possível defender que venha o Estado interferir nas nossas mentes, na nossa cultura, nos modos de pensar mais ou menos generalizados?

Tantas vezes que isto me acontece: vou lendo um texto, vou concordando com o que lá está escrito e, de repente, este espanto: "É necessária uma mudança de mentalidades". O quê? Será que desejam mesmo isso? Será que quem escreve essa frase compreende as suas implicações? Ou sou eu que não interpreto bem aquela sentença? Será que o que tal coisa quer dizer na verdade é "eu não desejo que ninguém intervenha nas mentalidades, muito menos na minha, mas enquanto a mentalidade for esta, nada a fazer"? Talvez que o "mudar as mentalidades" seja um mero desabafo desalentado "olhem eu não quero que façam nada mas com esta mentalidade não vamos longe...".

Por outro lado, isso das mentalidades tem muito que se lhe diga. Os problemas são causados por mentalidades ou será por outra coisa? E que tal... instituições? Um exemplo: e se em vez de ficarmos à espera que os políticos mudem a respectiva mentalidade (o que sempre é menos mau do que desejar que o povo inteiro mude a sua), porque não mudarmos nós as instituições nas quais os líderes políticos actuam? O que é que interessa verdadeiramente: as "mentalidades" ou os incentivos que as pessoas defrontam?

 

É ainda preciso notar que uma democracia pode alterar instituições, mecanismos e incentivos mas só uma ditadura deseja e consegue modificar uma mentalidade. O que é então preferível e mais eficaz?


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